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quinta-feira, 24 de março de 2022

"Poema Agreste" - Glória de Sant'Anna


 
Rafael Senet Pérez (Spanish painter and watercolorist, 1856–1926), Rio San Trovaso, Venice
 

 
Poema Agreste


Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite. 
 

Glória de Sant'Anna,
in 'Poemas do Tempo Agreste'


Rafael Senet Pérez, Vista de la plaza de San Marco con Santa Maria della Salute al fondo.


"O silêncio, o que é o silêncio? perguntei ao mestre. 
- Uma floresta cheia de ruído."
 

Casimiro de Brito
, Arte da Respiração (1988)
 
 

terça-feira, 4 de agosto de 2020

"Maternidade" - Poema de Glória de Sant'Anna



Pablo Picasso, Françoise, Claude e Paloma, 1951



Maternidade


Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adianta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana.

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
E tão perto da morte...

que este sorriso de hoje,
na tarde que se esvai,
é o testemunho exato
do erro das fronteiras raciais.

Dos nossos ventres altos,
os filhos que brotarem
nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas
– tu, negra e eu, branca –
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.


Glória de Sant'Anna,
in Um Denso Azul Silêncio, 1965


Pablo Picasso, Paloma a l`orange, 1951


Prever o Futuro 

"Das coisas mais difíceis que há na vida é prever o futuro. Quando se tem quarenta anos, e já se pode olhar isto com certa perspetiva, é que se vê como se errou em todas as profecias. Conseguem-se vislumbrar, quando muito, as linhas gerais, os aspetos mais grosseiros das veredas do porvir. Isto, por exemplo: que a humanidade é móvel, oscilante, indo para o mau caminho quando vai no bom, e para o bom quando vai no mau."

Miguel Torga, in Diário, 1948

domingo, 3 de abril de 2016

"Recado" - Poema de Glória de Sant'Anna


  Sir Frank Dicksee (English Victorian painter and illustrator, 1853-1928), The Crisis, 1891



Recado


Se eu morrer longe
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.

Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras

e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.

Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.

Estarei assim idêntica
a todos os motivos.


Glória de Sant'Anna,
in 'Música Ausente'