Mostrar mensagens com a etiqueta Luis Egidio Meléndez. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luis Egidio Meléndez. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

"Glória" - Poema de Francisco Bugalho



Luis Egidio Meléndez (Spanish painter, 1716 - 1780),
Self-portrait Holding an Academic Study, 1747. 
 

Glória 
 
 
Vive dentro de mim um mundo raro
Tão vário, tão vibrante, tão profundo
Que o meu amor indómito e avaro
O oculto raivoso ao outro mundo

E nele vivo audaz, ardentemente,
Sentindo consumir-se a sua chama
Que oscila e desce e sobe inquietamente;
Ouvindo a minha voz que por mim chama

Em situações grotescas que me ferem,
Ou conquistando o que meus olhos querem:
Príncipe ou Rei sonhando com domínios.

Sinto bem que são vãs pra me prenderem
As mãos da Vida, muito embora imperem
Sobre a noção real dos meus declínios. 
in "Dispersos e Inéditos" 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

"A Figueira" e "Prato de Figos" - Poemas de Eugénio de Andrade

 
Armand Guillaumin (French painter, 1841-1927), Orchard at the Edge of the Woods in Saint-Cheron.



A Figueira

 
Este poema começa no verão,
os ramos da figueira a rasar
a terra convidavam a estender-me
à sua sombra. Nela
me refugiava como num rio.
A mãe ralhava: A sombra
da figueira é maligna, dizia.
Eu não acreditava, bem sabia
como cintilavam maduros e abertos
seus frutos aos dentes matinais.
Ali esperei por essas coisas
reservadas aos sonhos. Uma flauta
longínqua tocava numa écloga
apenas lida. A poesia roçava-
me o corpo desperto até ao osso,
procurava-me com tal evidência
que eu sofria por não poder dar-lhe
figura: pernas, braços, olhos, boca.
Mas naquele céu verde de Agosto
apenas me roçava, e partia.  
 
 


 
Luis Egidio Meléndez (Spanish painter, 1716 - 1780), Bodegón: pan, granadas, higos y objetos.



Prato de Figos

 
Também a poesia é filha
da necessidade —
esta que me chega um pouco já
fora do tempo
deixou de ser a sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a fresca
e nacarada pele adolescente,
mais parece um desses figos
secos ao sol de muitos dias
que num inverno sempre se encontram
postos num prato
para comeres junto ao fogo.
 
 
 
 
Giovanna Garzoni (Italian painter, 1600-1670), A plate of figs, tempera on parchment.
 

Giovanna Garzoni, Still Life with Bird, Cherries and Figs.
 
 

Clara Peeters (Flemish still-life painter from Antwerp, 1607–1621), Still life,
 Table with dried figs and other fruits in a bowl, 1611.