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quarta-feira, 15 de maio de 2024

"Numa casa muito estranha" - Poema de António Mota


Ilustração de Valentin Rekunenko (Fantasy artist, b. 1955)


Numa casa muito estranha


Numa casa muito estranha
toda feita de chocolate
vivia uma bruxa castanha
que adorava o disparate.

Punha os copos no fogão
as panelas na banheira
os sapatos nas gavetas
as meias na frigideira;
escrevia com fios de água
dormia sempre de pé
cozinhava numa cama
e comia no bidé.

Varria a casa com garfos
limpava o pó com farinha
deitava cem gatos na sala
e dormia na cozinha. 


António Mota, "Se tu visses o que eu vi", 2007.
Editora: Edições Asa.

 
Ilustração de Valentin Rekunenko
 

"Leitura é exercício da condição de pensar, é alimento para a imaginação, é refinamento do espírito.
 De nada servem normas de 'como' escrever, a quem não tem 'o que' dizer."

Luzia de Maria, in Leitura & Colheita - Livros, leitura e formação de leitores, Editora Vozes, 2002. 
 
 

sexta-feira, 29 de março de 2013

"Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!" - Poema de António Aleixo


Ilustração de Valentin Rekunenko
 

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!


Ser doido-alegre, que maior ventura! 
Morrer vivendo p'ra além da verdade. 
É tão feliz quem goza tal loucura 
Que nem na morte crê, que felicidade! 

Encara, rindo, a vida que o tortura, 
Sem ver na esmola, a falsa caridade, 
Que bem no fundo é só vaidade pura, 
Se acaso houver pureza na vaidade. 

Já que não tenho, tal como preciso, 
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 

Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo. 
in "Este Livro que Vos Deixo" 
 


António Aleixo (1899–1949)



Galeria de Valentin Rekunenko
Ilustração de Valentin Rekunenko


"A alegria é a saúde da alma."

(Provérbio)


Ilustração de Valentin  Rekunenko


"A alegria é a vida vista através de um raio de sol." 

(Provérbio)


Ilustração de Valentin Rekunenko


"Quem planta e cria tem alegria." 

(Provérbio)


Valentin Rekunenko


"As grandes alegrias merecem partilha."

(Provérbio) 


Valentin Rekunenko


"Homem pobre, com pouco se alegra." 

(Provérbio) 


Valentin Rekunenko


"A alegria que se esconde é candeia apagada." 

(Provérbio)


Valentin Rekunenko


"A alegria é, muitas vezes, mãe de inúmeras loucuras." 

(Provérbio)


Valentin Rekunenko


"O segredo da vida alegre e contente é estar em paz com Deus e com a Natureza."

(Provérbio)


"Quando eu for pequeno" - Poema de José Jorge Letria


Cats readers / Gatos lectores, Ilustraciones de Valentin Rekunenko


Quando eu for pequeno


Quando eu for pequeno, mãe, 
quero ouvir de novo a tua voz 
na campânula de som dos meus dias 
inquietos, apressados, fustigados pelo medo. 
Subirás comigo as ruas íngremes 
com a certeza dócil de que só o empedrado 
e o cansaço da subida 
me entregarão ao sossego do sono. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
os teus olhos voltarão a ver 
nem que seja o fio do destino 
desenhado por uma estrela cadente 
no cetim azul das tardes 
sobre a baía dos veleiros imaginados. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
nenhum de nós falará da morte, 
a não ser para confirmarmos 
que ela só vem quando a chamamos 
e que os animais fazem um círculo 
para sabermos de antemão que vai chegar. 

Quando eu for pequeno, mãe, 
trarei as papoilas e os búzios 
para a tua mesa de tricotar encontros, 
e então ficaremos debaixo de um alpendre 
a ouvir uma banda a tocar 
enquanto o pai ao longe nos acena, 
lenço branco na mão com as iniciais bordadas, 
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno 
e a orfandade até nos olhos deixa marcas. 


José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"


 
José Jorge Letria (n. 1951)

 
"Restava-me o amparo dos livros. Abrigava-me neles da tempestade de todas as dúvidas, e para ali ficava, esquecido das horas, esquecido de mim, observando a paz noturna dos cães dormindo à minha volta com a serenidade de quem nunca estará de mal com o mundo."
 

José Jorge Letria, in A Mão Esquerda de Cervantes, 1998
 


Ilustração de Valentin Rekunenko


"O processo de criação não é transparente. Em determinados momentos qualquer coisa em mim - um ritmo, um marulhar de sílabas, imagens - me leva a procurar o papel. De que parte de mim isto vem não sei, é uma necessidade do espírito que subitamente procura tomar expressão." 
 

Eugénio de Andrade, in Rosto Precário, 1979


 
Eugénio de Andrade (1923–2005)


"É possível que só as árvores tenham raízes, mas o poeta sempre se alimentou de utopias. Deixe-me pois pensar que o homem ainda tem possibilidades de se tornar humano."
 
 
Eugénio de Andrade, in Rosto Precário, 1979
 

"Na véspera de não partir nunca" - Poema de Álvaro de Campos



Art by Valentin Rekunenko (Soviet and Ukrainian artist, born 1955)


Na véspera de não partir nunca


Na véspera de não partir nunca 
Ao menos não há que arrumar malas 
Nem que fazer planos em papel, 
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, 
Para o partir ainda livre do dia seguinte. 

Não há que fazer nada 
Na véspera de não partir nunca. 

Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! 
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros 
Por isto tudo, ter pensado o tudo 
É o ter chegado deliberadamente a nada. 

Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, 
Como uma oportunidade virada do avesso. 

Há quantas vezes vivo 
A vida vegetativa do pensamento! 
Todos os dias sine linea 
Sossego, sim, sossego... 
Grande tranquilidade... 

Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! 
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! 
Dormita, alma, dormita! 
Aproveita, dormita! 
Dormita! 

É pouco o tempo que tens! Dormita! 
É a véspera de não partir nunca! 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


Galeria de Valentin Rekunenko

Valentin Rekunenko


"O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso." 
 
Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko


"Diante de um obstáculo que é impossível de superar, obstinação é estupidez."

Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko


"Se não foste feliz quando jovem, certamente que tens agora tempo para o ser."

Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko 



"É o desejo que cria o desejável e o projeto que lhe põe fim."


Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko 



"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente."

Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko


"A velhice é a paródia da vida."

Simone de Beauvoir 
 



Simone de Beauvoir, escritora francesa, nascida em 1908 e falecida em 1986, foi a companheira de Jean-Paul Sartre e uma feminista convicta. 
Em 1947 publica o seu primeiro romance, L'Invitée (A Convidada), seguindo-se os ensaios Pyrrhus et Cinéas (1945), Pour une morale de l'ambiguité (1947) e le Deuxiéme Sexe (1948). 
Ao romance Les Mandarins (Os Mandarins, 1954) seria atribuído o Prémio Goncourt. Escreveu ainda obras de carácter memorialista (Les Mémoires d'une jeune fille rangée - Memórias de Uma Menina Bem Comportada, 1958; La force de l'Âge - A Força da Idade, 1960; La force des choses - A Força das Coisas, 1963). (daqui)
 

terça-feira, 26 de março de 2013

"Os Votos" - Texto de Sérgio Jockyman




Os Votos


Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.
E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.
Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis.
E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança.
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interperle a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo para que você não se sinta demasiadamente seguro.
Desejo depois que você seja útil, não insubstituivelmente útil mas razoavelmente útil.
E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante, não com que os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente.
E que essa tolerância nem se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.
Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais,
e que sendo maduro não insista em rejuvenescer,
e que sendo velho não se dedique a desesperar.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.
Desejo por sinal que você seja triste, não o ano todo, nem um mês e muito menos uma semana,
mas um dia.
Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora mesmo, mas se for impossível amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes.
E que estão estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.
E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.
Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um João-de-barro erguer triunfante seu canto matinal.
Porque assim você se sentirá bom por nada.
Desejo também que você plante uma semente por mais ridículo que seja e acompanhe seu crescimento dia a dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isto é meu.
Só para que fique claro quem é o dono de quem.
Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.
Mas que essa frugalidade não impeça você de abusar quando o abuso se impuser.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você. Mas que se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.
Desejo por fim que,
sendo mulher, você tenha um bom homem
e que sendo homem tenha uma boa mulher.
E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente de agora até o próximo ano acabar.
E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor pra recomeçar.
E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar.

Sérgio Jockyman
Fonte: Folha da Tarde – Porto Alegre – 30 de Dezembro de 1978 


O mundo Surrealista de Valentin Rekunenko
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