sexta-feira, 29 de março de 2013

"Na véspera de não partir nunca" - Poema de Álvaro de Campos



Art by Valentin Rekunenko (Soviet and Ukrainian artist, born 1955)


Na véspera de não partir nunca


Na véspera de não partir nunca 
Ao menos não há que arrumar malas 
Nem que fazer planos em papel, 
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, 
Para o partir ainda livre do dia seguinte. 

Não há que fazer nada 
Na véspera de não partir nunca. 

Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! 
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros 
Por isto tudo, ter pensado o tudo 
É o ter chegado deliberadamente a nada. 

Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, 
Como uma oportunidade virada do avesso. 

Há quantas vezes vivo 
A vida vegetativa do pensamento! 
Todos os dias sine linea 
Sossego, sim, sossego... 
Grande tranquilidade... 

Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! 
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! 
Dormita, alma, dormita! 
Aproveita, dormita! 
Dormita! 

É pouco o tempo que tens! Dormita! 
É a véspera de não partir nunca! 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


Galeria de Valentin Rekunenko

Valentin Rekunenko


"O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso." 
 
Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko


"Diante de um obstáculo que é impossível de superar, obstinação é estupidez."

Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko


"Se não foste feliz quando jovem, certamente que tens agora tempo para o ser."

Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko 



"É o desejo que cria o desejável e o projeto que lhe põe fim."


Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko 



"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente."

Simone de Beauvoir



Valentin Rekunenko


"A velhice é a paródia da vida."

Simone de Beauvoir 
 



Simone de Beauvoir, escritora francesa, nascida em 1908 e falecida em 1986, foi a companheira de Jean-Paul Sartre e uma feminista convicta. 
Em 1947 publica o seu primeiro romance, L'Invitée (A Convidada), seguindo-se os ensaios Pyrrhus et Cinéas (1945), Pour une morale de l'ambiguité (1947) e le Deuxiéme Sexe (1948). 
Ao romance Les Mandarins (Os Mandarins, 1954) seria atribuído o Prémio Goncourt. Escreveu ainda obras de carácter memorialista (Les Mémoires d'une jeune fille rangée - Memórias de Uma Menina Bem Comportada, 1958; La force de l'Âge - A Força da Idade, 1960; La force des choses - A Força das Coisas, 1963). (daqui)
 

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