Na véspera de não partir nunca
Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Galeria de Valentin Rekunenko
Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir
Valentin Rekunenko
"É o desejo que cria o desejável e o projeto que lhe põe fim."
Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir, escritora francesa, nascida em 1908 e falecida em 1986, foi a companheira de Jean-Paul Sartre e uma feminista convicta.
Em 1947 publica o seu primeiro romance, L'Invitée (A Convidada), seguindo-se os ensaios Pyrrhus et Cinéas (1945), Pour une morale de l'ambiguité (1947) e le Deuxiéme Sexe (1948).
Ao romance Les Mandarins (Os Mandarins, 1954) seria atribuído o Prémio Goncourt. Escreveu ainda obras de carácter memorialista (Les Mémoires d'une jeune fille rangée - Memórias de Uma Menina Bem Comportada, 1958; La force de l'Âge - A Força da Idade, 1960; La force des choses - A Força das Coisas, 1963). (daqui)






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