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quarta-feira, 17 de julho de 2024

"Carta" - Poema de Luís Veiga Leitão


Susan Macdowell Eakins (American painter and photographer, 1851–1938),
Portrait of Thomas Eakins
, posthumous, c. 1920-25, oil on canvas, 127 x 101.6 cm.
Philadelphia Museum of Art


Carta

 
Lanço as palavras ao papel
como pescador calmo
lança os barcos ao rio.
Só no fundo, no fundo inviolado,
contraio e espalmo
as minhas mãos, mãos de afogado
morrendo à sede.

– Meu amor estou bem –

Quanto te escrevo,
ponho os olhos no teu retrato
pendurado nos ferros da minha cama

para que as palavras tenham o sabor exato
de quem me ouve,
de quem me fala,
de quem me chama.

– Meu amor estou bem –

Ontem vi a Primavera
numa flor cortada dos jardins.
Hoje, tenho nos ombros uma pedra
e um punhal nos rins.

– Meu amor estou bem –

Se a morte vier, querida amiga,
à minha beira, sem ninguém,
hei de pedir-lhe que te diga:

– Meu amor estou bem –


Luís Veiga Leitão
, in 'Antologia Poética' 
 
 
Luís Veiga Leitão

Escritor português nascido a 27 de maio de 1915, em Moimenta da Beira, e falecido a 9 de outubro de 1987, no Brasil. Depois de ter concluído os estudos liceais, Luís Maria Leitão, que adotou mais tarde o pseudónimo Luís Veiga Leitão, desenvolveu diversas atividades profissionais: foi empregado do comércio, escriturário e delegado na propaganda de informação farmacêutica. Em 1952, sofreu a experiência da prisão política sob o regime salazarista, redigindo mentalmente na cela os poemas que viria a publicar em 1955 num livro com o título Noite de Pedra, apreendido pela censura. Percorreu o país e alguns países da Europa, inaugurando, em 1957, no Collège International de Cannes, um curso de tradução de Português. Partiu para o Brasil em 1967 e aí desempenhou várias funções, entre as quais as de redator, bibliotecário, desenhador, leitor, investigador, autor e locutor de um programa de televisão sobre a moderna poesia portuguesa, tendo sido também colaborador de publicações periódicas e conferencista.
Regressando a Portugal apenas em 1977, fixou residência no Porto. Colaborou nas publicações Seara Nova, Vértice, entre outras, e co-dirigiu, com Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro, Notícias do Bloqueio, uma série de fascículos, publicados no Porto, entre 1957 e 1961, que reuniam a criação poética de diversos autores, subordinada, de acordo com o título da publicação, a um intuito comum de denúncia e combate. 
Conhecido sobretudo pela sua vertente de poeta militante, a obra de Veiga Leitão configura um "lirismo do vivido" (cf. MARTINHO, F. J. B., ibid., 1996) pela tendência a coincidir nela sujeito de experiência e sujeito lírico, identificação de que Noite de Pedra constitui um caso modelar. Por outro lado, a aproximação entre poesia e realidade não se esgota na postura neorrealista, mas abarcará também, ao longo da sua carreira, o gosto pela inclusão de elementos descritivos e micronarrativos na versificação de impressões de viagem. (daqui)

terça-feira, 11 de junho de 2024

"Carta a um amor" - Poema de Lindolf Bell


Thomas Eakins (American realist painter, photographer, sculptor, and fine arts educator,
1844 – 1916), Portrait of Maud Cook, 1895, Yale University Art Gallery, New Haven.



Carta a um amor 

 
Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Responde-me: é preciso justificar.
Olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada.

Ah! O mistério, o mistério foi suficiente
para conter-nos.
Mas entre as múltiplas tendências
te escolhi
e te ampliei.

Um cavalo desenfreado correu-me
quando tuas mãos floriram sobre mim.
Tentei amar o irreversível
mas o que se descobre
ou cresce
ou se lega
ou perde equilíbrio e força.
Pelas bordas das coisas
se perdem os excessos
e meu coração foi tanto
quanto um coração pode ser.

Não. Não quero extravasar
de ti os outros,
mas quero ser o eleito.

Jamais nos é possível entrever,
porque o que há em nós
suspeita apenas,
e o que vem para nós
não nos pertence com facilidade.

Poderias deixar de ter sido
o deslumbramento para mim?
Ainda que respondesses, sim,
não o poderia aceitar.
Olhei em teus olhos e falei:
eis a minha morada. 
 

Lindolf Bell, in "Convocação",
São Paulo: Brasil, 1965. 
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

"Recordação" - Poema de Rainer Maria Rilke


 


Recordação 


E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou. 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de
Maria João Costa Pereira
 
 
Helmuth Westhoff (German, 1891–1977), Portrait of Rilke, 1901


Rainer Maria Rilke, escritor modernista alemão, nasceu em 1875, em Praga, e faleceu em 1926, no sanatório de Valmont, vítima de leucemia. Tendo frequentado a Academia Militar e as universidades de Munique e Berlim, produziu, durante a infância e a adolescência, as primeiras coletâneas líricas - entre elas, Leben und Lieder (1896) e Advent (1898). A sua obra, influenciada pelos anos que passou em Praga e pelas diversas viagens que fez pela Europa ao longo da vida, é muito vasta. Merecem destaque especial, no romance, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), e na poesia Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923) e Duineser Elegien (Elegias de Duino, 1923). (daqui)
 
 
 Tradução e nota introdutória de Maria João Costa Pereira
Ano: 2005
 
 
"O Livro das Imagens é uma obra que Rilke escreveu na juventude, atravessada pela escrita de algumas das suas criações mais importantes (...) é uma compilação das diferentes fases criativas do poeta, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante. (...) Trata-se de uma obra composta por quase todo o tipo de poemas escritos por Rilke e nele estão já presentes muitos dos seus temas de culto: a natureza, a noite, a religiosidade, a solidão, a morte, a angústia, o amor. Sendo uma obra de juventude, O Livro das Imagens inclui alguns dos seus poemas mais conhecidos e mais amados, invariavelmente incluídos nas antologias, como Intróito, Outono, Oração e Anoitecer e traz em si a marca de muito do que viria a ser a criação da maturidade do poeta." 
 (in Nota introdutória de Maria João Costa Pereira)
 
Enquanto Rilke escreveu muito rapidamente algumas das suas grandes obras, O Livro das Imagens demoraria sete anos a chegar à sua forma final. A primeira edição remonta a Julho de 1902 e recolhia quarenta e cinco poemas escritos entre 1898 e 1901, a maior parte dos quais retirados do diário do autor. Rilke tinha então 26 anos. Em Dezembro de 1906, seria publicada uma segunda edição que modificava e aumentava significativamente a anterior. Eram-lhe acrescentados trinta e sete novos poemas, a ordem inicial pela qual eram apresentados os poemas anteriores fora modificada, um poema foi eliminado, assim como o verso final de um outro, foram dados títulos a poemas que antes os não tinham, outros que se apresentavam separados seriam unificados num só e a obra foi finalmente dividida em dois livros, cada um dos quais com duas partes.
As circunstâncias do poeta desempenhariam igualmente um papel determinante nesta obra, cuja conceção foi pontuada por acontecimentos significativos na sua vida: a atribulada relação amorosa com Lou Andreas-Salomé, as duas viagens de ambos à Rússia, a estada em Worspwede durante a qual conheceria a escultora Clara Westhoff, sua futura mulher, e Paula Becker, com quem manteve uma relação ambivalente, o período que passou em Paris, o nascimento da filha Ruth e o seu progressivo distanciamento da família.
Podem seguir-se em O Livro das Imagens os indícios destes acontecimentos e respetivas influências, pois ele constitui como que uma compilação das diferentes fases criativas do autor, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante. (daqui)
 
 

Thomas Eakins (American realist painter, 1844–1916), Self-portrait, 1902,  


Thomas Cowperthwait Eakins (25 de julho de 1844 - 25 de junho de 1916) foi um pintor realista americano, fotógrafo, professor e educador de artes plásticas. Ele é amplamente reconhecido como um dos artistas mais importantes da história da arte americana.

Ao longo de toda sua carreira Eakins trabalhou num estilo realista, tendo o ser humano como centro temático. Pintou centenas de retratos, que em conjunto dão um panorama da vida intelectual da Filadélfia em seu tempo, e isolados são penetrantes visões sobre os indivíduos. Como professor foi um nome altamente respeitado e muito influente no circuito das artes norte-americanas, apesar de escândalos pessoais terem prejudicado um sucesso mais amplo. Na fotografia foi um inovador, usando abordagens ousadas para sua época. Hoje é considerado o mais importante realista dos Estados Unidos na virada do século XIX para o século XX.

Durante o período de sua carreira profissional, desde o início da década de 1870 até que sua saúde começou a falhar, por volta de 40 anos depois, Eakins trabalhou rigorosamente, escolhendo como objeto para sua arte as pessoas de sua cidade natal, Filadélfia, na Pensilvânia. Ele pintou centenas de retratos, geralmente de amigos, membros da família ou pessoas proeminentes na arte, ciência, medicina e do clero. Vistos em conjunto, os retratos oferecem uma visão geral da vida intelectual de Filadélfia no final do século XIX, e início do século XX; individualmente, são representações incisivas de pessoas pensantes.

Além disso, Eakins produziu uma série de grandes pinturas, que o levaram de retratos em sua sala a pinturas em escritórios, nas ruas, em parques, rios, arenas e anfiteatros de sua cidade. Esses locais ao ar livre lhe permitiram pintar o tema que mais o inspirou: pessoas nuas ou levemente vestidas em movimento. No processo, ele poderia modelar as formas do corpo na plena luz solar, e criar imagens de espaço profundo, utilizando seus estudos em perspetiva. Eakins também se interessou pelas novas tecnologias da fotografia de movimento, um campo em que ele agora é visto como um inovador.

Não menos importante na vida de Eakins, foi seu trabalho como professor. Como instrutor, ele era uma presença com alta influência na arte americana. As dificuldades que o atormentaram como artista que procurava pintar o retrato e a figura de forma realista, foram paralelizadas e até mesmo amplificadas em sua carreira de educador, onde os escândalos comportamentais e sexuais atrapalharam seu sucesso e danificaram sua reputação. Eakins era uma figura controversa, cujo trabalho recebeu pouco reconhecimento oficial durante sua vida. Desde a sua morte, ele foi celebrado pelos historiadores da arte americanos como "o mais forte e mais profundamente realista da arte americana do século XIX e início do século XX". (daqui)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"Mãe" - Poema de Miguel Torga


Thomas Eakins (1844–1916), Mother (Anne Williams Gandy), 1903



Mãe


Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim.


Miguel Torga, in 'Diário IV'


Thomas Eakins, Mrs. Edith Mahon, 1904
(To My Friend Edith Mahon / Thomas Eakins)


"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação."




"A mulher pensa como ama, o homem ama como pensa."

"La donna pensa come ama, l' uomo ama come pensa."
 - Archivio per l'antropologia e l'etnologia, 1871

(Paolo Mantegazza)

Paolo Mantegazza (Monza, 31 de outubro de 1831 — San Terenzo, 28 de agosto de 1910) foi um neurologista, fisiologista e antropólogo italiano, notável por ter isolado a cocaína da coca, que utilizou em experimentos, investigando seus efeitos anestésicos em humanos. Também é conhecido como escritor de ficção ("O ano 3000: sonho", ed. Port.: Lisboa, Santos e Vieira, 1914). (daqui)


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Aço" - Poema de Adolfo Casais Monteiro


Thomas Eakins (1844–1916), The Chess Players, 1876


Aço

 
Quebre-se de encontro à dureza das arestas
cada desregrada ilusão da minha vida.
Que os bichos vão roendo o vão caruncho
da inútil poeira de astros que imagino.
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo,
forte e imarcescível sob os golpes
resiste a minha força verdadeira.
E o poema sempre novo no meu sangue
conhece também sua glória de aço
que vê sem dor as pobres farsas
e os caminhos cruéis em que me perco.
Veio da luz inutilizando os laços
armados no caminho à minha espera,
mão de ferro erguendo-se dos limbos
e mandando-me fitar o sol em face!


Adolfo Casais Monteiro


quarta-feira, 27 de março de 2019

"A bailarina" - Poema de Cecília Meireles


Edgar Degas, The Dancing Class, 1872



A bailarina 


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


Cecília Meireles

(Ou Isto ou Aquilo, Ed. Nova Fronteira)


Thomas Eakins (1844–1916), The Dancing Lesson, 1878,
 Metropolitan Museum of Art, New York


“Quando perdemos o direito de ser diferentes perdemos o privilégio de ser livres.”

Charles Evans Hughes,
(1862-1948)


segunda-feira, 25 de março de 2019

"Da Violência" - Poema de Casimiro de Brito



Da Violência


 A violência que trazemos no sangue
ninguém a sabe e todos (casas
desmoronadas) a exaltam e todos
a descombinamos
gota a gota
em nossos movimentos de cinza
transitória  –  esta violência
residual
tem do corpo a secura a configuração
cavada no sono na fogueira sem cor
de cidades levantadas sobre a doença sobre
a simulação
de fogo suspenso
no arame dos ossos –


Casimiro de Brito,
in "Negação da Morte", 1974
 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

"Em memória de Angélica" - Poema de Jorge Luis Borges


Thomas Eakins, The Agnew Clinic (or The Clinic of Dr. Agnew), 1889



Em memória de Angélica


Quantas vidas possíveis já descansam
Nesta bem pobre e diminuta morte,
Quantas vidas possíveis que outra sorte
Daria ao esquecimento ou à lembrança!
Quando eu morrer, morrerá um passado;
Com esta flor, morreu só um futuro
Nas águas que o ignoram, o mais puro
Porvir hoje pios astros arrasado.
Eu, como ela, morro em infinitos
Destinos que já não me oferece o acaso;
Procura a minha sombra os gastos mitos
De uma pátria que sempre deu a face.
Um breve mármore diz a sua memória;
Sobre nós todos cresce, atroz, a história. 


Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”
 

Thomas Eakins, Portrait of  Samuel David Gross (The Gross Clinic), 1875 ,  
"A ciência poderá ter encontrado a cura para a maioria dos males, mas não achou ainda remédio para o pior de todos: a apatia dos seres humanos."
 
 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

"Sobre o caminho" - Poema de Eugénio de Andrade


 


Sobre o caminho


Nada.

Nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença.

Não coleciones dejetos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.


Eugénio de Andrade,
in "Véspera da Água", 1973


quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Fala do homem nascido" - Poema de António Gedeão





Fala do homem nascido 


Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no ato de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.


Teatro do Mundo, 1958


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

"A um amigo" - Poema de Almeida Garrett


Thomas Eakins (American realist painter, 1844–1916), The Swimming Hole, 1884–85,
 


A um amigo 


Fiel ao costume antigo, 
Trago ao meu jovem amigo 
Versos próprios deste dia. 
E que de os ver tão singelos, 
Tão simples como eu, não ria: 
Qualquer os fará mais belos, 
Ninguém tão d’alma os faria. 

Que sobre a flor de seus anos 
Soprem tarde os desenganos; 
Que em torno os bafeje amor, 
Amor da esposa querida, 
Prolongando a doce vida 
Fruto que suceda à flor. 

Recebe este voto, amigo, 
Que eu, fiel ao uso antigo, 
Quis trazer-te neste dia 
Em poucos versos singelos. 
Qualquer os fará mais belos, 
Ninguém tão d’alma os faria. 


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas' 


Thomas Pollock Anshutz, Steamboat on the Ohio, 1896, Carnegie Museum of Art


"Não são as revoluções nem os motins que abrem a estrada para dias novos e melhores, mas a alma de alguém inspirada e em chamas". 

(Boris Pasternak)


Boris Leonidovitch Pasternak, romancista e poeta russo (10/2/1890 - 30/5/1960), mundialmente famoso pelo romance Doutor Jivago, em 1958, é agraciado com o Prémio Nobel de Literatura, mas as autoridades de seu país o impedem de recebê-lo. 
Boris Leonidovitch Pasternak nasce em Moscovo, numa família judia. Frequenta cursos de filosofia na Universidade de Moscovo e na Universidade de Marburg, na Alemanha. 
Em 1913 lança o primeiro livro de poesia. Com Sestra Moya Zhizn (Minha Irmã, a Vida, de 1922), alcança o reconhecimento. 
Impedido de publicar durante o governo de Josef Stalin, traduz textos de Shakespeare e Goethe. Em 1956 tem o romance Doutor Jivago, que conta a desilusão de um homem com o regime soviético, recusado pelos editores de Moscovo. Uma editora italiana compra os direitos autorais, recusa-se a devolver os manuscritos e publica a obra em 1957. No ano seguinte, está traduzida para 18 línguas.
Banido da União dos Escritores Soviéticos, Pasternak é obrigado a recusar o Prémio Nobel de Literatura em 1958. O cineasta David Lean leva Doutor Jivago à tela (1965). É reintegrado postumamente à União dos Escritores Soviéticos em 1987, o que possibilita o lançamento de Doutor Jivago no país.