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segunda-feira, 9 de abril de 2012

"O Sino da minha Aldeia" - Poema de Fernando Pessoa


Mario Agostinelli (Peru 1915 – Brasil, 2000), Vista parcial de Ouro Preto, s/d



O Sino da minha Aldeia


Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão triste como esta vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado, 
Sinto a saudade mais perto.


Fernando Pessoa


Yanni - Rainmaker


«No Egipto, as bibliotecas eram chamadas ''Tesouro dos remédios da alma''. De facto é nelas que se cura a ignorância, a mais perigosa das enfermidades e a origem de todas as outras.» - Jacques Bossuet


Jacques-Bénigne Bossuet
 

Jacques-Bénigne Bossuet (27 de setembro de 1627 - Paris, 12 de abril de 1704) foi um bispo e teólogo francês.
Bossuet foi um dos primeiros a defender a teoria do absolutismo político; ele criou o argumento que o governo era divino e que os reis recebiam seu poder de Deus.  
Bossuet era muito solicitado para realizar orações fúnebres, em virtude de fama de orador e pregador. Lançou a obra Orações fúnebres que apresentava doutrina religiosa, filosófica e estudos históricos.  
Famoso pelas suas pregações ao rei Luís XVI, foi designado para ser tutor do filho mais velho do rei Delfim. Foi nomeado conselheiro do rei depois de aprender o funcionamento da política junto à corte real. Foi designado bispo de Meaux e deixou a corte, mas continuou mantendo laços com o rei. Foi autor de "A Política tirada da Sagrada Escritura", publicada postumamente em 1709. 
Bossuet defendia o direito divino, legitimador do governo da realeza, conferindo-lhes autoridade ilimitada e incontestável.. Nessa situação, qualquer revolta seria considerada um crime, embora deixasse claro que o rei deveria sempre evitar o abuso de poder.
Defendia o jansenismo, doutrina que pregava a salvação como privilégio de pessoas escolhidas por Deus. O caso mais exemplar de governante que se serviu das ideias de Bossuet foi Luís XIV de França, chamado "Rei Sol".

domingo, 20 de novembro de 2011

"Terra - 24" - Poema de Fernando Namora



Carl Friedrich Moritz Müller (German painter, 1807–1865),
'Andreas Hofer's farewell', 1836



Terra - 24


António, é preciso partir!
o moleiro não fia,
a terra é estéril,
a arca vazia,
o gado minga e se fina!
António, é preciso partir!
A enxada sem uso,
o arado enferruja,
o menino quer o pão; a tua casa é fria!
É preciso emigrar!
O vento anda como doido – levará o azeite;
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo;
e o lar vazio,
o gado definhando sem pasto,
a morte e o frio por todo o lado,
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António!
É preciso embarcar!
Badalão! Badalão! – o sino
já entoa a despedida.
Os juros crescem;
o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António?
Ninguém perdoa – que mais para vender?
Foi-se o cordão,
foram-se os brincos,
foi-se tudo!
A fome espia o teu lar.
Para quê lutar com a secura da terra,
com a indiferença do céu,
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra,
com tudo!
Árida, árida a vida!
António, é preciso partir!
António partiu.
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.


Fernando Namora, in 'Terra' 


Yanni - Nostalgia

"Procuro-te" - Poema de Eugénio de Andrade


(Imagem retirada da internet) 



Procuro-te


Procuro a ternura súbita, 
os olhos ou o sol por nascer 
do tamanho do mundo, 
o sangue que nenhuma espada viu, 
o ar onde a respiração é doce, 
um pássaro no bosque 
com a forma de um grito de alegria. 

Oh, a carícia da terra, 
a juventude suspensa, 
a fugidia voz da água entre o azul 
do prado e de um corpo estendido. 

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. 
Chamo por ti, e o teu nome ilumina 
as coisas mais simples: 
o pão e a água, 
a cama e a mesa, 
os pequenos e dóceis animais, 
onde também quero que chegue 
o meu canto e a manhã de maio. 

Um pássaro e um navio são a mesma coisa 
quando te procuro de rosto cravado na luz. 
Eu sei que há diferenças, 
mas não quando se ama, 
não quando apertamos contra o peito 
uma flor ávida de orvalho. 

Ter só dedos e dentes é muito triste: 
dedos para amortalhar crianças, 
dentes para roer a solidão, 
enquanto o verão pinta de azul o céu 
e o mar é devassado pelas estrelas. 

Porém eu procuro-te. 
Antes que a morte se aproxime, procuro-te. 
Nas ruas, nos barcos, na cama, 
com amor, com ódio, ao sol, à chuva, 
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 


Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"


Yanni - Voyage