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terça-feira, 19 de novembro de 2024

"O fio da vida" - Poema de Rui Knopfli


Oscar Björck (Swedish painter and a professor at the Royal Swedish Academy of Arts,
 1860 – 1929), Launching the Boat. Skagen, 1884.
 
 

O fio da vida 


Há homens que rezam na penumbra
das catedrais dolentes e há outros
que do alto das pontes olham
a escuridão rumorejante das águas.
Há homens que esperam na orla
marítima e outros arrastando-se
no viscoso esterco dos subterrâneos.
Há homens debruçados em pleno azul
e outros que deslizam sobre densos verdes;
há os desatentos na atenção e os que
espreitam atentamente a ocasião.
Há homens por fora e por dentro
do cimento armado, suspensos
das mil ciladas do quotidiano voraz;
de encontro aos muros, às paredes,
ao sol do meio-dia, ao visco da noite,
às sediças solicitações de cada instante.
Há a impotência poderosa da oração
e a obsessão amarga dos suicidas
e, de permeio, os que, porque hesitam,
porque ignoram, porque não creem,
não oram, nem se suicidam
e se quedam ante a impossibilidade de destrinça
entre o fio da vida e a vida por um fio.


Rui Knopfli, Obra Poética, 2003



Oscar Björck, Signal of Distress, 1883


"O Homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las."

"A man must make his opportunity, as oft as find it."

Francis Bacon, Francisci Baconi Baronis de Verulamio...Opera Omnia Quatuor Voluminibus Comprehensa:
 In quo continetur Instaurationis magnae pars tertia, 1730 - Página 522.

domingo, 30 de junho de 2024

"Velha Natureza" - Soneto de Raul de Leoni


Frans Post (Pintor neerlandês, 1612–1680), Paisagem com plantação: o engenho, Brasil, c. 1660.
 
 

Velha Natureza
 

Tudo que a velha Natureza gera
Vai sempre rumo do melhor futuro;
Ela fecunda com o ânimo seguro
De quem muito medita e delibera…

O seu génio de artista mais se esmera
Na teoria subtil do claro-escuro,
Com que exalta a verdade mais austera,
Frisando em tudo o símbolo mais puro…

Só faz o Mau e o Hediondo para efeito
De projetar mais longe e sem nuance
A alma cheia de luz do que é perfeito,

Como cavou o Abismo nas entranhas,
Para dar mais relevo e mais alcance
À soberba estatura das montanhas… 


Raul de Leoni
(Poeta brasileiro, 1895
–1926)



Frans Post, Paisagem de Pernambuco, Brasil, c. 1637–44, Museu Nacional de Belas Artes.
 
 
"O homem, ministro e intérprete da natureza, faz e entende tanto quanto constata, pela observação dos factos ou pelo trabalho da mente, sobre a ordem da natureza; não sabe nem pode mais." 
 
Sir Francis Bacon (1561–1626), Novum Organum - Página 5, Jazzybee Verlag, 1620. 
 

sábado, 27 de abril de 2024

"Começar o escrever era descrever" - Poema de Armando Freitas Filho

 

Isidore Pils (French academic painter of religious and military subjects, 1815–1875),
French composer Georges Bousquet (1818–1854), c. 1841.


Começar o escrever era descrever


Começar o escrever era descrever.
Descrever era desmanchar o que está escrito.
O que estava à vista, parado
no pensamento, no jardim
e reescrever, de outra forma
em outra forma, o novo curso e rasgo.
Escrever é desespera e espera.


Armando Freitas Filho, in "Lar", 2009 


Isidore Pils, "Portrait de l'artiste" (Self-portrait), 1853, Musée Carnavalet.
 

"O principal trabalho do artista é aprofundar o mistério." 
 
 "The job of the artist is always to deepen the mystery."
 
Francis Bacon citado em Grand Illusions: Contemporary Interior Murals - Página 23, 
Caroline Cass - Phaidon Press, 1988,  160 páginas 
 

terça-feira, 11 de junho de 2013

"Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente" - Soneto de Luís Vaz de Camões



Columbano Bordalo Pinheiro, "Últimos momentos de Camões", 1876
Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado 

[Descrição: Pintura de história. Num modesto quarto vê-se o poeta sentado na cama com o cobertor até à cintura, segurando um bilhete na mão direita e pondo teatralmente a mão esquerda no peito, falando com um homem trajando à século XVI que está de costas, aos pés da cama. Alusão ao momento quando o poeta terá pronunciado a célebre frase a ele atribuída "Ao menos morro com a Pátria!" ao saber do fim inglório da dinastia de Avis e da tomada de poder de Filipe II de Espanha em 1580.]
 (daqui)


Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente 
Em minha perdição se conjuraram; 
Os erros e a Fortuna sobejaram, 
Que para mim bastava Amor somente. 

Tudo passei; mas tenho tão presente 
A grande dor das cousas que passaram, 
Que já as frequências suas me ensinaram 
A desejos deixar de ser contente. 

Errei todo o discurso de meus anos; 
Dei causa a que a Fortuna castigasse 
As minhas mal fundadas esperanças. 

De Amor não vi senão breves enganos. 
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse 
Este meu duro Génio de vinganças! 


Luís de Camões, in "Sonetos"
 

 Museu do Chiado, Lisboa.


"As desordens da mocidade são outras tantas conspirações contra a velhice;
pagam-se caras, à tarde, as loucuras da manhã."