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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

"E por vezes" - Poema de David Mourão-Ferreira

 
 
William J. Glackens (American realist painter, 1870-1938), 
Seated Actress with Mirror, c. 1903. Oil on canvas.


E por vezes

 
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
 
in Obra Poética (1948-1995).
Assírio & Alvim
 
 

domingo, 17 de novembro de 2019

"Maria Lisboa" - Poema de David Mourão-Ferreira



Luís Dourdil (Pintor, artista gráfico, desenhador e muralista autodidata 
português, 1914–1989), "Varinas"


Maria Lisboa


É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa. 


David Mourão-Ferreira,
in 'Obra Poética'



Mariza - Maria Lisboa


Composição / Music by: David Mourão-Ferreira / Alain Oulman 

sábado, 8 de dezembro de 2018

"Natal, e não Dezembro" - Poema de David Mourão-Ferreira



Sassetta / Stefano di Giovanni (Tuscan painter of the Late Gothic of the Sienese School style,
 c. 1392–1450), The Journey of the Magi (fragment), 1435. 


Natal, e não Dezembro

 
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira,
in 'Cancioneiro de Natal'
 
 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

"Voto de Natal" - Poema de David Mourão-Ferreira



George Bellows (American realist painter, 1882–1925), 'The studio', 1919 
 
 
Voto de Natal 

 
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos. 


 in 'Cancioneiro de Natal'


Dia de Natal 

Poema de António Gedeão, declamado por Luís Gaspar


“Na sociedade consumista de hoje, esta época (de Natal) é, infelizmente, sujeita a um tipo de poluição comercial que ameaça alterar seu verdadeiro espírito, caracterizado pela meditação, pela sobriedade e por uma alegria que não é externa, mas íntima.”
 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"A Guerra" - Poema de David Mourão-Ferreira



Pieter Brueghel, o Velho (1525-1569), "A Triumph of Death", c. 1562, Museo del Prado, Madrid.


A Guerra


E tropeçavam todos nalgum vulto, 
quantos iam, febris, para morrer: 
era o passado, o seu passado — um vulto 
de esfinge ou de mulher. 

Caíam como heróis os que não o eram, 
pesados de infortúnio e solidão. 
(Arma secreta em cada coração: 
a tortura de tudo o que perderam.) 

Inimigos não tinham a não ser 
aquela nostalgia que era deles. 
Mas lutavam!, sonâmbulos, imbeles, 
só na esperança de ver, de ver e ter 
de novo aquele vulto 
— imponderável e oculto — 
de esfinge, ou de mulher. 


David Mourão-Ferreira,
in "Tempestade de Verão" 
 


Felix Nussbaum, "Triumph des Todes" (Die Gerippe spielen zum Tanz), 1944. 


"A História é um pesadelo do qual tentamos acordar."


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

"Presídio" - Poema David Mourão-Ferreira


Samuel Luke Fildes (British painter and illustrator, 1843-1927), 
Mrs Mary Venetia James, 1895


Presídio


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo 
Que dizer do pescoço, às vezes mármore, 
às vezes linho, lago, tronco de árvore, 
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...? 

E o ventre, inconsistente como o lodo?... 
E o morno gradeamento dos teus braços? 
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: 
é também água, terra, vento, fogo... 

É sobretudo sombra à despedida; 
onda de pedra em cada reencontro; 
no parque da memória o fugidio 

vulto da Primavera em pleno Outono... 
Nem só de carne é feito este presídio, 
pois no teu corpo existe o mundo todo! 


David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética”


sexta-feira, 22 de maio de 2015

"Rua de Roma" - Poema de David Mourão-Ferreira



Centro histórico de Roma, Itália, Património Mundial pela UNESCO 
 

Rua de Roma


Quero uma rua de Roma
com seus rubros com seus ocres
com essa igreja barroca
essa fonte esse quiosque
aquele pátio na sombra
ao longe a luz de um zimbório
mais o cimo dessa torre
que não tem raiz no solo.
Em troca darei Moscovo
Oslo Tóquio Banguecoque.
Fugaz e secreta à força
de se mostrar rumorosa
só essa rua de Roma
em cada nervo me toca.
Por isso a quero assim toda
opulenta de tão pobre
com o voo desta pomba
o ribombar desta moto
com este bar de mau gosto
em cuja esplanada tomo
este espresso após o almoço
à tarde um campari soda.
Em troca darei Lisboa
Londres Rio Nova Iorque
toda a prata todo o ouro
que não tenho em nenhum cofre
só no cotão do meu bolso
e no que a pátria me explora.
Quero essa rua de Roma.
Aqui onde estou sufoco.
Aqui as manhãs irrompem
de noites que nunca morrem.
Quero esse musgo essa fonte
essas folhas que se movem
sob o sopro do siroco
ora tépido ora tórrido
frente à igreja barroca
tão apagada por fora
mas que do altar ao coro
por dentro aparece enorme.
Quero essa rua de Roma
casta rugosa remota.
Em troca darei as lobas
que não aleitaram Rómulo
mas me deixaram na boca
o travo do transitório.
Quero essa rua de Roma
sem conhecer quem lá mora
além da madonna loura
misto de corça e de cobra
que ao longo de tantas noites
tanta insónia me provoca.
Quanto às restantes pessoas
inventarei como sofrem.
Quero essa rua de Roma.
Terá de ser sem demora.
Sabemos lá quando rondam
abutres à nossa roda.
Mas não me lembro do nome
da rua que assim evoco
soberba se bem que tosca
direita se bem que torta
com um Sol que tanto a doura
como a seguir a devora.
Em troca darei o troco
do que por nada se troca
o florescer de uma bomba
o deflagrar de uma rosa.
Quero essa rua de Roma.
Amanhã. Ontem. Agora.
Que importa saber-lhe o nome
se a trago dentro dos olhos.
Há uma igual em Verona.
Outra ainda mais a norte.
Outra talvez nem tão longe
num burgo que o mundo ignora.
Outra que apenas se encontra
onde a paixão a descobre.
Mas rua sempre de Roma.
Romana em todo o seu porte
mistura de alma e de corpo
aquém além do ilusório.
Romana mesmo que em Roma
não haja quem a recorde.
Onde quer que o sexo a sonhe
e o coração a coloque
é lá que todo sou todo.
Aqui não.
Aqui não posso.


David Mourão-Ferreira,
in 'Os Ramos e os Remos', 1985



 Ettore Roesler Franz

'Retrato de Ettore Roesler Franz' (1845-1907) por Giacomo Balla (1871-1958),
pintado em Villa d'Este, c. 1902, exposto na Bienal de Veneza de 1903. 


Ettore Roesler Franz (Roma, 11 de maio de 1845 - Roma, 26 de março de 1907) foi um pintor e fotógrafo italiano de origem alemã. Era especialista na técnica de aguarela. Seu trabalho mais famoso é uma série de 120 aguarelas chamada "Roma sparita", onde ele retratou com grande realismo partes da cidade que ele supunha que seriam destruídas no esforço de modernização. Muitas dessas aguarelas estão hoje no Museu de Roma em Trastevere.
Em 1902, ele foi retratado por Giacomo Balla numa famosa pintura exibida na Bienal de Veneza.


"Roma sparita" 
Aguarelas de Ettore Roesler Franz


Ettore Roesler Franz, 'Ponte Rotto em Roma', c. 1880 



Ettore Roesler Franz, Piazza Barberini, c. 1880 



Ettore Roesler Franz, 'La Via Rua in fondo il Portico d'Ottavia', 1888
 


Ettore Roesler Franz, 'Roma medievale, il volto perduto della città', c. 1888
 


Ettore Roesler Franz, 'Chiesa dei SS. Quattro Coronati in Rome' 
(rione Celio),
c. 1880
 


Ettore Roesler Franz, 'Il Porto di Ripetta verso Ponente', 1880



Ettore Roesler Franz, 'Santo Stefano Rotondo al Monte Celio'
(Basílica de Santo Estêvão Redondo no Monte Célio), 1880



Ettore Roesler Franz, 'Case Medioevali a Santa Cecilia in Rome' 
(rione Trastevere), c. 1880
 


Ettore Roesler Franz, 'Via Chiesa Santa Bonosa', 1888



Ettore Roesler Franz, 'Ai Prati di Testaccio', 1890
 


Ettore Roesler Franz, 'Il Ponte Senatorio' detto 'ponte Rotto' 
e in fondo il 'Ponte Sisto', 1884,


"A humanidade que deveria ter seis mil anos de experiência, recai na infância a cada geração." 

Tristan Bernard
[Dramaturgo, novelista, jornalista e advogado francês, 1866–1947]
 

sábado, 12 de julho de 2014

"Noite Apressada" - Poema de David Mourão-Ferreira


Noite Apressada 


Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!


in "À Guitarra e à Viola"


David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira, escritor português, nasceu em Lisboa, em 1927 e morreu, também nesta cidade, em 1996. Licenciou-se em Filologia Românica em Lisboa, onde chegou a ser professor catedrático, organizando e regendo, entre outras, a cadeira de Teoria da Literatura. Foi secretário de Estado da Cultura, entre 1976 e 1979; diretor do diário A Capital; diretor do Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1984 e 1996; diretor da revista Colóquio/Letras; presidente da Associação Portuguesa de Escritores (1984-86) e vice-Presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires. A sua obra reparte-se pela poesia; pela crítica literária, como Os Ócios do Ofício, Vinte Poetas Contemporâneos, Hospital das Letras ou Lâmpadas no Escuro (de Herculano a Torga); pelo ensaio; pela tradução; pelo teatro; pelo romance; e também pelo jornalismo. Embora os seus primeiros poemas datem de meados dos anos 40, a sua atividade poética começou a ganhar relevo quando foi codiretor, a par com António Manuel Couto Viana e Luís de Macedo, da revista Távola Redonda (1950-1954), que, sem apresentar programa ou manifesto, se orientava para uma alternativa poética à poesia social, baseada na "revalorização do lirismo", exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas ou preconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural da F. C. G., VI série, n.º 11, outubro de 1988), atributos a que acresciam como exigências a reação contra a "imediatez da inspiração e contra o impuro aproveitamento da poesia para fins sociais", através do equilíbrio "entre os motivos e a técnica, entre os temas e as formas" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - "Notícia sobre a Távola Redonda" in Estrada Larga 3, p. 392). Foi no primeiro volume da Coleção de Poesia das Edições "Távola Redonda" que publicou a sua primeira obra poética, A Secreta Viagem, onde se encontram reunidos alguns dos traços que distinguiriam a sua poética posterior, nomeadamente a preferência pela temática amorosa, o rigor formal, a continuidade e renovação da lírica tradicional como, por exemplo, a de inspiração camoniana, ou a abertura a experiências poéticas estrangeiras. No poema "Dos Anos Quarenta", relembra leituras nessa etapa de iniciação poética: Proust, Thomas Mann, Rilke, Apollinaire, a "constelação pessoana", Álvaro de Campos, "E Régio Miguéis Nemésio", bem como as circunstâncias que rodearam essa descoberta, como o "despertar do deus Eros", a guerra, a queda dos fascismos e a perseverança da ditadura salazarista.
Da sua obra poética, cuja poesia se distingue pelo lirismo culto, depurado e subtil, destacam-se os seguintes livros: A Secreta Viagem, Do Tempo ao Coração, Cancioneiro do Natal, Matura Idade e Ode à Música.
A obra de David Mourão-Ferreira foi várias vezes reconhecida com prémios literários, como, por exemplo: Prémio de Poesia Delfim Guimarães, 1954, para Tempestade de verão; Prémio Ricardo Malheiros, 1960, para Gaivotas em Terra; Prémio Nacional de Poesia, 1971, para Cancioneiro de Natal; Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários para As Quatro Estações; e, para Um Amor Feliz, os prémios de Narrativa do Pen Clube Português, D. Dinis, de Ficção do Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Ao autor foi ainda atribuído, em 1996, o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.

David Mourão-Ferreira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-12].

 
Vida e Obra de Camille Pissarro
Camille Pissarro, Self-portrait, 1873


Jacob Abraham Camille Pissarro (Charlotte Amalie, na ilha de São Tomás nas Índias Ocidentais Dinamarquesas, hoje Ilhas Virgens Americanas, 10 de Julho de 1830 — Paris, 13 de Novembro de 1903) foi um pintor francês, co-fundador do impressionismo, e o único que participou nas oito exposições do grupo (1874-1886).


 Camille Pissarro, Self-portrait, 1898
 

Seu pai, Abraham Frederic Gabriel Pissarro, era português criptojudeu de Bragança, que, no final do século XVIII, quando ainda pequeno, emigrara com a sua família para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. A mãe dele era crioula e tinha o nome Rachel Manzano-Pomie.


Camille Pissarro, Self-portrait, 1903, Tate Gallery, London


Camille Pissarro, Two Women Chatting by the Sea, St. Thomas, 1856


Com 11 anos Camille Pissarro foi enviado a Paris para estudar num colégio interno. Voltou para a ilha São Tomás, a fim de tomar conta do negócio da família. Algum tempo depois, a sua paixão pela pintura fê-lo mudar de vida: fez em 1852 amizade com o pintor dinamarquês, Fritz Melbye e a oportunidade de concretizar seu sonho surgiu com um convite para acompanhar uma expedição do Fritz Melbye, enviado pelo governo das Antilhas Dinamarquesas, para estudar a fauna e a flora da Venezuela, onde passou dois anos.


Camille Pissarro et sa femme Julie Vellay, en 1877, à Pontoise


Pissarro conquistou sua liberdade aos 23 anos. Em 1855, ele já estava em Paris com ajuda de Melbye, tentando iniciar sua carreira. O jovem antilhano fascinou-se com as telas de Camille Corot e travou amizade com Paul Cézanne, Claude Monet, Charles-François Daubigny, entre outros pintores impressionistas. Com Monet passou a sair para pintar ao ar livre, em Pontoise e Louvenciennes. Em 1861 casou com Julie Vellay, com quem teve oito filhos.


Camille Pissarro, Le verger (The Orchard), 1872


No decorrer da guerra franco-prussiana (1870-1871), na qual praticamente todos os seus quadros foram destruídos, residiu em Inglaterra. Quando voltou, começou a pintar na companhia de Cézanne. 


 Camille Pissarro, The garden of Pontoise, 1875


Com o objetivo de descobrir novas formas de expressão, Pissarro foi um dos primeiros impressionistas a recorrer à técnica da divisão das cores através da utilização de manchas de cor isoladas – o seu quadro "The Garden of Les Mathurins at Pontoise" (1876) é um exemplo.


Camille Pissarro, "The Garden of Les Mathurins at Pontoise", 1876


Camille Pissarro, "Les toits rouges, coin du village, effet d'hiver", 1877


Em 1877 pintou "Les toits rouges, coin du village, effet d'hiver". Durante os anos 1880 juntou-se a uma nova geração de impressionistas, os "neo-impressionistas", como Georges Seurat e Paul Signac, pintando em 1881 "Jeune fille à la baguette, paysanne assise" e experimentou com o pontilhismo. 


Camille Pissarro, "Jeune fille à la baguette, paysanne assise", 1881


A partir de 1885, militou nas correntes anarquistas, criticando severamente a sociedade burguesa francesa, deixando-nos "Turpitudes Sociales" (1889), um álbum de desenhos. 


Camille Pissarro, "Capital," from Turpitudes sociales, 1889–1890. 


Nos anos 1890 abandonou gradualmente o "neo-impressionismo", preferindo um estilo mais flexível que melhor lhe permitisse captar as sensações da natureza, ao mesmo tempo que explorou a alteração dos efeitos da luz, tentando também exprimir o dinamismo da cidade moderna, de que são exemplos os vários quadros que pintou com vistas de Paris ("Le Boulevard Montmartre, temps de pluie, après-midi", 1897), Dieppe, Le Havre e Ruão.


Camille Pissarro, Le Boulevard Montmartre, Temps de Pluie, Apres-Midi, 1897.
Oil on canvas.52.5 x 66 cm. Private Collection.

A obra de Pissarro  caracterizou-se por uma paleta de cores cálidas e pela firmeza com que consegue captar a atmosfera, por meio de um trabalho preciso da luz. Seu material predileto foi o óleo, mas também fez experiências com aguarelas e pastel. A estrutura dos quadros de Pissarro encontra total correspondência na obra de Cézanne, já que foi mútua a influência entre ambos. Como professor teve como alunos Paul Gauguin e seu filho Lucien Pissarro. Ao jovem Gauguin aconselhou a utilização das cores - esses conselhos surtiram efeito e Gauguin começa a utilizar a cor no seu estado puro.


Camille Pissarro, Les chataigniers a Osny (The Chestnut Trees at Osny), 1873


Durante seus últimos anos, realizou várias viagens pela Europa, em busca de novos temas. Hoje é considerado um dos paisagistas mais importantes do século XIX. Os seus trabalhos mais conhecidos são "Le Verger", "Les châtaigniers à Osny" e "Place du Théâtre Français".
Camille Pissarro morreu a 13 de Novembro de 1903 em Paris. Encontra-se sepultado no Cemitério do Père-Lachaise, Paris na França.


Camille Pissarro, "Place du Théâtre Français", 1898

domingo, 8 de dezembro de 2013

"A Secreta Viagem" - Poema de David Mourão-Ferreira



Édouard Manet, Boating, 1874, óleo sobre tela, 97 x 130 cm. 
Metropolitan Museum of Art, New York


A Secreta Viagem


No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos! 


David Mourão-Ferreira
, in "A Secreta Viagem"
 


David Mourão-Ferreira, Estátua no Parque dos Poetas


"Os homens, enquanto não forem completos e livres, hão de sonhar sempre de noite."

Paul Nizan



Paul Nizan


"A viagem é uma sucessão de irreparáveis desaparições."

Paul Nizan
[Romancista, ensaísta, jornalista, tradutor e filósofo francês, 1905-1940]
 
 

sábado, 12 de outubro de 2013

"Barco Negro" - Poema de David Mourão-Ferreira



Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 'The Chalk Cliffs at Møn', 1831. 



Barco Negro


De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo. 

No vento que lança areia nos vidros;
na água que canta, no fogo mortiço;
no calor do leito, nos bancos vazios;
dentro do meu peito estás sempre comigo.


David Mourão-Ferreira


Barco Negro - Mariza (Concerto em Lisboa)


terça-feira, 4 de junho de 2013

"Soneto do amor difícil" - Poema de David Mourão-Ferreira



David Ligare, Penelope, 1980 



Soneto do amor difícil


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça. 

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.


David Mourão-Ferreira
 

 David Ligare, Seascape with Wave
 

Vida e Obra de David Ligare


David Ligare (Oak Park, Illinois, 1945) é um pintor realista contemporâneo americano. O realismo contemporâneo é uma abordagem que utiliza representação simples, mas que é diferente do fotorrealismo na medida em que não exagera e não é irónico por natureza.
Desde 1978, Ligare concentrou-se na pintura de naturezas-mortas, paisagens e figuras infuenciadas pela antiguidade greco-romana. Entre as suas influências declaradas mais importantes estão as teorias estéticas e filosóficas do escultor grego Policleto e o matemático e filósofo grego Pitágoras, bem como obras do século XVIII do pintor clássico Nicolas Poussin. Residente em Salinas, Califórnia, as pinturas de David Ligare usam como fundo, frequentemente, paisagens da costa da Califórnia central. "Eu acho que sou muito californiano pelo caráter da luz que uso, mas tomei uma decisão logo no início do meu projeto, de me tornar invisível na minha obra. Expressão pessoal e ter um estilo pessoal são muito importantes para muitos artistas, mas eu estou muito mais interessado na forma como vemos - que eu chamo de análise perceptiva - e nos possíveis significados dos objetos que eu represento."
 Fez formação artística no Art Center College of Design de Los Angeles. As suas obras estão nas coleções do Museu de Arte Moderna de Nova York, Museu de Belas Artes de São Francisco, Museu de Arte de San Jose, Gabinetto Disegni e Stampe degli Uffizi, Florença e Museu de Arte Thyssen-Bornemisza, de Madrid.


 David Ligare, Big Sur Landscape, Grimes Point, 2012, Winfield Gallery, Carmel


 David Ligare, Above Partington


 David Ligare, Rock Garrapata


David Ligare, Still Life with Basket of Figs (Aparchai) 


David Ligare, Still Life with Grapes, Figs and Crow (Aparchai)


 David Ligare, Still Life with Grape Juice and Sandwiches, (Xenia), 1989


 David Ligare, Still Life with Cherries and Roses


  David Ligare, Summa, 2001


 David Ligare, "Symi" (Thrown Drapery), 1979, Oil on Canvas


  David Ligare, Still Life


  David Ligare, "Still Life with Apples and Wheat", 2006, Oil on Canvas


 David Ligare,  Still Life with Rooster and Fruit, (Aparchai), 2012


 David Ligare, Still Life with Figs and Rose (Egyptian Style), 2007