
Édouard Manet, Boating, 1874, óleo sobre tela, 97 x 130 cm.
Metropolitan Museum of Art, New York
A Secreta Viagem
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

David Mourão-Ferreira, Estátua no Parque dos Poetas
"Os homens, enquanto não forem completos e livres, hão de sonhar sempre de noite."
"A viagem é uma sucessão de irreparáveis desaparições."
Paul Nizan
[Romancista, ensaísta, jornalista, tradutor e filósofo francês, 1905-1940]

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