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sábado, 17 de janeiro de 2026

"Janeiro" - Poema de W. S. Merwin



Auguste Herbin (French painter of modern art, 1882–1960),
The Roofs of Paris in the Snow, 1902.



Janeiro


E assim depois de semanas de chuva
à noite as estrelas de inverno
tão mais distantes no céu
que não tivemos olhos para ver
seguem forjando na longínqua luz
os elementos pesados
que quando as estrelas se vão
voam pelo ar como pó muitas vezes
mais fino que um fio de cabelo
e se reconhecem
na escuridão viajando
em grande velocidade e tornando-se
nossos corpos no nosso tempo
olhando juntos para cima após
a chuva na noite fria


W. S. Merwin

Trad. de Nelson Santander


***

January 
(original)

So after weeks of rain
at night the winter stars
that much farther in heaven
without our having seen them
in far light are still forming
the heavy elements
that when the stars are gone
fly up as dust finer
by many times than a hair
and recognize each other
in the dark traveling
at great speed and becoming
our bodies in our time
looking up after rain
in the cold night together


W. S. Merwin,
in "The Pupil: Poems", 2001.



Auguste Herbin, Snow at Haut Isle, 1906.


"Na natureza não existem prémios, nem sequer punições. Existem consequências!"


James McNeill Whistler (Pintor norte-americano, 1834–1903),
Citado em Collins Quotation Finder‎ - Página 472. Publicado por HarperCollins, 2001 - 829 páginas.
 

domingo, 14 de dezembro de 2025

"Demasiada Loucura é o mais divino Juízo" - Poema de Emily Dickinson


 
James McNeill Whistler (American painter and printmaker, 1834–1903),
Symphony in White, No. 2: The Little White Girl
 (Joanna Heffernan), 1864.


Demasiada Loucura é o mais divino Juízo 


Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objeta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -


Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice
Editora Cotovia 
 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

"Geração Paissandu" - Poema de Paulo Henriques Britto



James McNeill Whistler (American painter and printmaker, 1834–1903),
Arrangement in Grey and Black No. 2: Portrait of Thomas Carlyle, 1872-73,
Kelvingrove Art Gallery and Museum in Glasgow, Scotland. 
 

Geração Paissandu



Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

Paulo Henriques Britto,
in "Os cem melhores poemas brasileiros do século."
Rio de Janeiro: objetiva, 2001. Org. de Ítalo Moriconi. 

 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

"Os armários da noite" - Poemas de Alice Vieira


popularly known as  Whistler's Mother, a portrait of Anna by her son.


 
Esperar que voltes é tão inútil

 
esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ainda ficou uma palavra minha
esquecida na tua boca
e que vais voltar
para
a
devolver

Alice Vieira,
12º poema do livro "Os armários da noite"

 
"...Que limbo é este onde
Pelo meio da noite às vezes aparecias
Mas apenas para desfazer esquecidos silêncios
Porque bem sabes ao terceiro Whisky
O amor é sempre eterno..." 
 
 
"Os armários da noite"
 
 
Alice Vieira (daqui)

Alice Vieira nasceu em 1943, em Lisboa. É licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa.
Iniciou a sua carreira de jornalista aos 18 anos, no Diário de Lisboa. Trabalhou em vários jornais, entre os quais o Diário de Notícias, a cuja redação pertenceu até 1990, data em que deixou o jornalismo diário, para ficar como free-lancer, sendo durante muitos anos colaboradora do Jornal de Notícias e da revista Activa. Atualmente está reformada do jornalismo, mas trabalha no Jornal de Mafra e, desde há 13 anos, na revista juvenil Audácia, dos missionários combonianos.
Em 1979 publicou o seu primeiro romance juvenil — Rosa, Minha Irmã Rosa — que nesse ano ganhou o “Prémio de Literatura do Ano Internacional da Criança”.
Desde então tem publicado regularmente romances juvenis, poesia, teatro, recolhas de histórias tradicionais, livros infantis.
Recebeu o prémio Calouste Gulbenkian em 1983 pelo seu livro Este Rei Que Eu Escolhi; o Grande Prémio Gulbenkian pelo conjunto da obra (1984); o Prix Octogone pela edição francesa de Os Olhos de Ana Marta (2000); a “Estrela de Prata do Prémio Peter Pan” pela edição sueca de “Flor de Mel”, e foi várias vezes distinguida com o Prémio Corvo Branco, atribuído pela Biblioteca Internacional da Juventude de Munique.
Fez parte da equipa de escritores dos programas de televisão “Rua Sésamo”, “Jornalinho”, “Hora Viva”, “Arco-Íris”, etc.
Ultimamente tem-se também dedicado à literatura para adultos, com três volumes de crónicas (Bica Escaldada, Pezinhos de Coentrada e O Que Se Leva Desta Vida), o romance histórico Os Profetas, uma biografia da escritora inglesa Enid Blyton, o livro autobiográfico Histórias da Avó Alice, três livros de poemas -- Dois Corpos Tombando na Água (Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho), O Que Dói às Aves, e Os Armários da Noite — e o livro Tejo, juntamente com o fotógrafo brasileiro Neni Glock. Participou ainda, com mais seis autores, em romances coletivos como Novos Mistérios de Sintra, O Código de Avintes, Eça Agora, 13 Gotas ao Deitar e, mais recentemente, A Misteriosa Mulher da Ópera.
Orienta regularmente oficinas de escrita criativa.
Desloca-se quase diariamente a escolas e bibliotecas de todo o país – e também de países onde os seus livros estão traduzidos (Espanha, Alemanha, Holanda, Itália, Suécia, Sérvia, etc.).
É publicada regularmente em língua francesa pela editora La Joie de Lire— onde já saíram os romances juvenis Viagem à Roda do Meu Nome (Voyage Autour de Mon Nom), Flor de Mel (Fleur de Miel), Os Olhos de Ana Marta (Les Yeux d’Ana Marta), Caderno de Agosto (Cahier d’Août) e O Casamento da Minha Mãe (Le Mariage de Ma Mère) e, mais recentemente, o livro de poemas para crianças A Charada da Bicharada (La Charade des Animaux).
Participou com o maestro Eurico Carrapatoso no conto musical A Arca do Tesouro (interpretada pela Orquestra Metropolitana de Lisboa); e o compositor Sérgio Azevedo musicou a Charada da Bicharada, recentemente editada em CD.
É membro da direção da Sociedade Portuguesa de Autores.(Daqui)