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sexta-feira, 24 de julho de 2026

"Estou velho" - Poema de Antero Coelho Neto



Paul Signac (French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Sunday' ('Dimanche'), 1889, Private Collection.


Estou velho 


Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na ideia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...


Antero Coelho Neto
[Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931–2016]



 
Paul Signac, 'Breakfast' or 'Dining room' ('La salle à manger'), 1886–87,
Kröller-Müller Museum.



"Quando já não me indignar, terei começado a envelhecer." 

André Gide (1869–1951)
[Escritor francês galardoado com o Prémio Nobel de Literatura de 1947]
 
 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

"Essa tragédia tão vulgar" - Poema de Mário Dionísio



Carl Johann Spielter (Danish painter, 1851
1922),
'An Afternoon Game of Patience', 1913.


Essa tragédia tão vulgar 

Oh mulher das mãos gretadas

Como era brando o ar que te fechava os olhos e soprava
o teu cabelo e o teu vestido
Como o teu coração batia espavorido aos passos dele
ao fim da rua
E como os dedos dele eram ingénuos e tremiam
também
nesse ontem esfiapado na distância

E a casa e a casa e casar e a casa
como uma asa
levíssima roçando
a doce pele dos quinze anos

Mas agora
ele adormece à mesa tão cansado
todas as noites tão cansado e infeliz
e tu estás sempre séria com os ombros caídos
e tens as mãos gretadas


Mário Dionísio

in
'Solicitações e Emboscadas'

 
Carl Johann Spielter, 'The Letter', 1913



O maior poema


Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros 


Mário Dionísio

in
"Solicitações e Emboscadas"
 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

"De que valem a experiência e o conhecimento na velhice?" - Texto de Jean-Jacques Rousseau

 
 
Jan Steen (Dutch Golden Age painter, 1625/1626–1679),
'The way you hear it, is the way you sing it', c. 1665, Mauritshuis.
 

De que valem a experiência e o conhecimento na velhice? 


«Envelheço aprendendo sempre» - Sólon (c. 630 – c. 560 a.C.), na sua velhice, repetia muitas vezes este verso. O sentido que esse verso possui permitir-me-ia dizê-lo também na minha; mas é bem triste o conhecimento que, desde há vinte anos, a experiência me fez adquirir: a ignorância ainda é preferível. A adversidade é, sem dúvida, um grande mestre, mas faz pagar caro as suas lições e muitas vezes o proveito que delas se tira não vale o preço que custaram. Aliás, a oportunidade de nos servirmos desse saber tardio passa antes de o termos adquirido. 
A juventude é o tempo próprio para se aprender a sabedoria; a velhice é o tempo próprio para a praticar. A experiência instrui sempre, confesso, mas não é útil senão durante o espaço de tempo que temos à nossa frente. É no momento em que se vai morrer que se deve aprender como se deveria ter vivido?
De que me servem os conhecimentos que tão tarde e tão dolorosamente adquiri sobre o meu destino e sobre as paixões alheias de que ele é o fruto? Não aprendi a conhecer os homens senão para melhor sentir a desgraça em que me mergulharam e esse conhecimento, embora me revelasse todas as suas armadilhas, não me permitiu evitar nenhuma delas. Porque não permaneci nesse estado de confiança, insensata mas ditosa que durante tantos anos fez de mim a presa e o joguete dos meus ruidosos amigos, sem que tivesse a mínima suspeita de todas as tramas em que estava envolvido? Troçavam de mim e eu era vítima deles, é verdade, mas acreditava que me amavam, e o meu coração deliciava-se com a amizade que eles me tinham inspirado e pensava que sentiam por mim uma amizade igual. Essas doces ilusões estão destruídas. A triste verdade, que o tempo e a razão me revelaram, ao fazer-me sentir a minha infelicidade, permitiu-me ver que não havia remédio e que não me restava senão resignar-me. Por isso, para mim, na minha situação atual, todas as experiências da minha idade não têm utilidade presente nem proveito futuro. 
Ao nascermos, iniciamos uma luta que só termina com a morte. De que serve aprender a conduzir melhor o seu carro quando se está no fim da estrada? Então, já não resta senão pensar em como sair dele. O estudo de um velho, se é que ainda tem algo a estudar, consiste unicamente em aprender a morrer, e é precisamente o que menos se faz na minha idade, em que se pensa em tudo menos nisso. Os velhos estão mais agarrados à vida do que as crianças e saem dela com mais má vontade do que os jovens. É que, como todos os seus trabalhos se destinaram a essa mesma vida, ao chegarem ao fim, veem que os seus esforços foram inúteis. Todos os seus cuidados, todos os seus bens, todos os frutos das suas laboriosas vigílias, tudo abandonam quando partem. Em vida, não pensaram em adquirir algo que pudessem levar consigo quando morressem.

Jean-Jacques Rousseau (1712–1778), in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'
 


'Os Devaneios do Caminhante Solitário' de Jean-Jacques Rousseau.
Tradução de Miguel Serras Pereira. Lisboa: Antígona, 2024.

 
Derradeira obra de Jean-Jacques Rousseau, inacabada e publicada postumamente, Devaneios do Caminhante Solitário (1782) eram, segundo o autor, «um apêndice das Confissões» e encerram algumas das suas mais belas linhas. Este «registo fiel dos passeios solitários e dos devaneios que os preenchem», nas cercanias de Paris e no lago de Bienne, é, além de um duro balanço de vida, na sequência da proscrição de que Rousseau foi alvo, um eloquente conjunto de meditações que abarcam a velhice e a insatisfação com a mundanidade, o refrigério na natureza e a perseguição movida por uma sociedade hostil. Livro que antecipou a sensibilidade romântica, é uma reflexão maior sobre o exílio e as poderosas cadeias que sempre tolheram a liberdade individual. (daqui)
 


Jan Steen, 'The Card Players in an Interior', c. 1660,
Rose-Marie and Eijk van Otterloo Collection
 

"Só depois de me ter desprendido das paixões sociais e do seu triste cortejo, 
redescobri a natureza com todos os seus encantos."

Jean-Jacques Rousseau,
 in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

terça-feira, 28 de abril de 2026

"Os velhos poderosos" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso



Louis Moeller (American genre painter, 1855–1930), Conversation, undated,
oil on canvas, New Britain Museum of American Art.



Os velhos poderosos


E se a maneira como olhamos para os velhos for o contrário do que faz sentido?
E se a velhice for um jogo em que todos os anos se arranjam para os concorrentes, cada vez mais velhos, novos impedimentos e novas sobrecargas, exortando-os: "Desiste! Desanima!" Começa para aí aos 50 anos. Apetece logo desanimar. Começam a morrer pessoas de quem gostamos muito. Com surpresas. Más. Começam as doenças. Começam as dores. Começam os preconceitos. Começam os cansaços.
Cada vez que aparece o monstro – o monstro da vida, o monstro da idade com novos encolhimentos da nossa alegria de viver, ele grita-nos "Desanima! Desiste! Ao menos, entristece..." Mas os velhos picam-se. Gostam do jogo. Não é como se houvesse outro para jogar. Sentem-se desafiados: "Ai é? Ai é? Então já vais ver!"
"Então já vais ver, vida madrasta de um raio – ou julgavas que eu me deixava ir abaixo com tão pouco?"
Os velhos engolem os pais mortos, os amigos mortos, as coisas que já não podem fazer, mais a cara que os fita no espelho, com a língua de fora, e as cidades que se tornaram irreconhecíveis, e as paisagens que nunca mais voltarão, e as análises que estão cada vez piores. Engolem, enchem o peito, secam os olhos e apalpam a alma para ver se desanimou. Não desanimou. Ainda lá está. E é assim que ganham força: ainda estou de pé, ainda me rio, ainda me apetece brincar, ainda sou um gatinho.
Os velhos que não desanimaram são muito mais fortes do que os jovens que nunca foram desafiados a desanimar.
Aliás, desanimar com pouco é próprio da juventude: é um luxo deitarmo-nos abaixo com tão pouco. O monstro dos jovens não é o monstro dos velhos. Não é a morte. É pior do que a morte: o monstro dos jovens é a ignorância. E uma ignorância invencível, por muito que se leia e se viva. Leva a grandes desperdícios. Entrega-se de corpo e alma a grandes desânimos, todos redundantes.
Já os velhos sabem. Sabem e mesmo assim não desanimam. Não são só sobreviventes. São vencedores.

Crónica de Miguel Esteves Cardoso, in Jornal 'Público', 9 de Janeiro de 2026 (daqui)
 
 

Louis Moeller, The Dubious Tale, Private collection.



"Embora a memória e o raciocínio sejam duas faculdades essencialmente diferentes,
uma só se desenvolve completamente com a outra."

Jean-Jacques Rousseau (Escritor e filósofo suíço, 1712–1778),
em 'Emílio, ou da Educação', 1762.
 

sábado, 13 de dezembro de 2025

"Solidão" - Poema de Fernanda de Castro

 

 
José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
 Desalento, 1918, Casa-Museu Fernando de Castro.


Solidão


Solidão: 
Ouvir passos, sabendo de antemão
que ninguém vai passar,
bater à porta. 
Abrir, ansiosa, a caixa do correio,
duas vezes por dia,
sabendo muito bem
que está vazia.

Olhar o telefone horas a fio,
ano após ano,
tocar a campainha
e ouvir dizer: ”Desculpe, foi engano.” 
Ouvir ranger a porta do ascensor,
senti-lo estremecer,
arrancar com uma espécie de estertor,
e, enfim, parar,
mas sempre noutro andar. 
Pôr na mesa um talher
para alguém que vier,
sabendo muito bem
que ninguém vem.

Pôr um vestido novo,
um anel, um colar,
sabendo que ninguém vai reparar. 
Ver o cabelo embranquecer aos poucos,
a pele envelhecer, perder o viço,
e ninguém dar por isso. 

Morrer. E alguém ler num jornal:
Morreu Fulana. O funeral… 


Fernanda de Castro, in Urgente, 1989,
 Lisboa, Guimarães Editores (1.ª Edição). 
 

sábado, 6 de dezembro de 2025

"Envelhecer" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)

  


Alfred Agache (French painter, 1843–1915), Study of an old woman, 1880, 
 Palais des Beaux-Arts de Lille.


Envelhecer


É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!...

As árvores
balançam novos ramos!...

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...


Saúl Dias, in "Obra Poética", 1962
(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
 
 

domingo, 23 de novembro de 2025

"Teu corpo" - Poema de Ferreira Gullar

  

Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), The Old Fisherman
("Kalastava ukko"), 1896.



Teu corpo
 

O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.

É um ser estranho
que tem teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.

Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
– que a cada dia
mais difere de ti.

E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.

E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
Poderás detê-la
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?

Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.

Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo – morre –
quem diz a ele – envelhece –
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?


Ferreira Gullar
, Barulhos, 1997.


 
Albert Edelfelt, Old Woman with a Splint Basket, 1882.
Finnish National Gallery
 

"Nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio!"
 
 


Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), Self-Portrait, 1889. 
(Self-Portrait in Dress of the 17th Century), 
Finnish National Gallery. 
 

"Não quero ter razão, quero ser feliz. E, para ser feliz, há que ser justo."
 
 

sábado, 15 de novembro de 2025

"A senhora de Idade" - Poema de Fernanda de Castro

 


José Malhoa (Pintor, desenhador e professor português, 1855–1933),
A Mulher do Gato, s.d., Museu de José Malhoa.


A senhora de Idade

A Senhora de idade,
de tão bons sentimentos,
tão bonitas maneiras,
vive dos rendimentos. 
Vive, não, sobrevive.
A roupa está no fio,
tem, porém, o seu brio,
não se queixa a ninguém. 
Vive triste, sozinha,
e pouco sai de casa
porque o barulho a arrasa.
Depois, sair com quem? 
Não tem filhos, é viúva
e teme a solidão,
receia o vento, a chuva.

Apetece-lhe, às vezes,
ver os barcos no rio,
os pombos no Rossio,
mas não, custa-lhe a andar,
o calçado está caro
e cada mês que passa
o dinheiro é mais raro. 
Mas de que vive então?
De alguns copos de leite,
de chá e de tisanas,
de pão e duma sopa,
a mesma, quase a mesma,
semanas e semanas.

Vai à missa, ao domingo,
e às vezes, quando há sol
ou cheira a maresia,
compra um fruto, uma flor,
para ter companhia. 
Que lhe resta, coitada,
à Senhora de idade?
Resta-lhe pouco ou nada,
porém resta-lhe tudo: 
Uma grande saudade,
um sofrimento mudo
que é reserva e pudor,
às vezes uma flor,
e a sua dignidade. 


Fernanda de Castro, in Urgente, 1989,
Lisboa, Guimarães Editores, 1ª Edição. 
 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

"Declaração" - Poema de Nuno Júdice



Sir Herbert James Gunn (Scottish landscape and portrait painter, 1893–1964),
'Gracie Fields' (British actress, singer and comedian, 1898–1979), c. 1938.
 

Declaração


Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.


Nuno Júdice, in 'A Fonte da Vida', 1997


sábado, 10 de agosto de 2024

"Os Velhos" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Charles Spencelayh (English genre painter and portraitist in the Academic style, 1865–1958),
Grandfather's and grandmother's treasures, 1945.
 


Os Velhos
 

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final. 

Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enormidade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida? 

Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva. 

Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios. 

Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos. 
 
 
Carlos Drummond de Andrade
, in 'Boitempo II'
São Paulo: Record, 1986.
 
 
Charles Spencelayh, Visitors Expected, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, The Old Copyist, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, The Latest News, s.d.
 
 
Charles Spencelayh, His Birthday, 1925.
 
 
 
Charles Spencelayh, Solitaire, s.d.
 
 
"Não honrar a velhice é demolir, de manhã, a casa onde vamos dormir à noite." 
 
"Ne pas honorer la vieillesse, c'est démolir le matin la maison où l'on doit coucher le soir."
 
Jean-Baptiste Alphonse Karr, "Une poignée de vérités: Mélanges philosophiques"‎
- Página 534, - Didier, 1853 - 344 páginas. 
 

quarta-feira, 19 de junho de 2024

"Já velho e doente" - Poema de Vitorino Nemésio

 
Vincent van Gogh (Dutch Post-Impressionist painter, 1853–1890),
Portrait of Dr. Gachet, 1890 (1st version), Private collection.
 

Já velho e doente 
 
 
«Seja a terra da Terceira
A minha coberta de alma»,
Disse eu na idade fagueira,
Em que tudo é força e calma.

Mas hoje, já velho e doente,
Em que as almas não se cobrem,
Hoje sim, peço seriamente
Que os sinos por mim lá dobrem.

Até já me aconselharam
Um quarto lá no Hospital,
Tanto caipora me acharam,
Escaveirado, mal, mal...

Ali visitas teria
Por obra de misericórdia,
Embora comida fria,
Alguma vez, que mixórdia!

Mas sempre era doce ao peito
Ir acabar os meus dias
Na Praia, de qualquer jeito,
Perto da casa das tias.

Tive o exemplo resignado
Que me deu a prima Alzira
Num lençolinho lavado
Com rendas limpas na vira.

Ali matámos saudades,
Ela alegre e penteadinha,
Mal pensando eu que as idades
Não perdoam. Hoje é a minha.

Também cheguei a pensar
No Asilo, talvez com um biombo.
Sou biqueiro. Mas jantar?
Todos ali, lombo a lombo.

Como outrora o Tintaleis,
Três-Quinze, Manuel de Deus
Eram duas vezes seis,
Lava-Pés, e Pão-por-Deus.

Mas já sei que nem no hotel!
(A família não consente).
Tenho que amargar o fel
Mortal como toda a gente

Morrer num navio, à proa,
Numa aldeia ou num porão,
Provavelmente em Lisboa
Prò Alto de S. João.

Se acaso em Ponta Delgada
Me fosse dado ter fim:
Queria a última morada
Com Antero, em S. Joaquim.

O melhor é não pensar.
É seja onde Deus quiser.
Bem me podem sepultar
Ao pé de minha mulher. 


Vitorino Nemésio,
in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"

 
"Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga"
 
 
SINOPSE

Um livro inédito de Vitorino Nemésio (1901-1978), com edição de Luiz Fagundes Duarte, que também assina o prefácio à obra. E ali explica o percurso deste livro, que reúne cerca de 130 poemas do autor de "Mau Tempo no Canal". Nemésio escreveu estes poemas entre Março de 1973 e Maio de 1997, dedicados a D. Margarida Vitória, a última das suas paixões. Antes de morrer, o poeta copiou 53 deles para um caderno, onde escreveu, na folha de rosto: "Caderno de Caligraphia Pertencente à menina Margarida Vitória q. lhe ofereçe o Victorino Nemésio". Num segundo, a que chamou "Caderno de Caligraphia Offerecido à menina Margarida Vitória pelo seu menor criado e bem querido Victorino Nemésio", estão quatro poemas. A estes, Luiz Fagundes Duarte juntou outros 70, que Nemésio não tivera oportunidade de copiar para este segundo caderno por causa da doença, de que viria a falecer. Por dificuldades várias, que o organizador explica no prefácio (questões familiares, sobretudo), só passados 25 anos sobre a morte de Nemésio, o livro vê a luz do dia. E, para além da qualidade literária (Nemésio é um dos maiores escritores da língua portuguesa no séc. XX), o livro vem confirmar o grande sedutor que também era. Como diz Rodrigues da Silva (JL, 19/2/03), referindo-se à sedução que eram as suas aulas, "o que os seus alunos, porém, talvez estivessem longe de imaginar é que ele, já depois de catedrático jubilado, dobrados os 75 anos de idade, escrevesse ainda poemas de amor e paixão como estes que ora se revelam". (daqui)
 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

"Páscoa" - Poema de Adélia Prado


 
George Bellows (American realist painter, 1882–1925), 'A Grandmother', 1914,
 Museo Thyssen-Bornemisza


Páscoa


Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos.
A segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui louca e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
“põe o agasalho”
“tens coragem?”
“por que não vais de óculos?”
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.
Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 41
 
 

Adélia Prado fala sobre sua obra, feminismo e o momento político do Brasil
(aqui)

Adélia Prado é uma das escritoras mais aclamadas da literatura brasileira desde sua estreia, em 1976, com o livro de poemas Bagagem. Esse título carrega, em especial, o sentido de sua herança cultural, sua bagagem de vida. Afinal, à época, Adélia já tinha quarenta anos, idade pouco usual para estrear em literatura, era professora, graduada em Filosofia, casada e mãe de cinco filhos em Divinópolis, interior de Minas Gerais, onde nasceu no dia 13 de dezembro de 1935, filha do ferroviário João e da dona de casa Ana.

Adélia Prado publicou oito livros de poesia: Bagagem (1976), O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981), O pelicano (1987), A faca no peito (1988), Oráculos de maio (1999), A duração do dia (2010) e Miserere (2013), além de nove livros em prosa: os romances Solte os cachorros (1979) – primeiramente catalogado como livro de contos –, Cacos para um vitral (1980), Os componentes da banda (1984), O homem da mão seca (1994) e Manuscritos de Felipa (1999); as crónicas reunidas em Filandras (2001), publicadas anteriormente no jornal O Tempo; a novela Quero minha mãe (2005); e as histórias infantis Quando eu era pequena (2006) e Carmela vai à escola (2011).

Carlos Drummond de Andrade foi quem impulsionou o lançamento de Adélia Prado, no Rio de Janeiro, pela editora Imago. O poeta recebeu o manuscrito da autora, confiado ao crítico mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, e publicou um texto muito elogioso em sua coluna no Jornal do Brasil, eis um trecho: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus” (Drummond, 2015).

Dois meses após o lançamento do livro, a escritora Olga Savary publicou uma resenha atestando o seguinte: “acho que Bagagem [...] vai dar o que falar. Há muito não aparece poesia tão vigorosa, telúrica, intensa, com tanta garra e força primitiva, tão seiva, sangue, suor e sexualidade” (2000). Com efeito, longe da agitação das capitais, a poesia de Adélia, imbuída de um tom narrativo, encena o quotidiano de pessoas comuns em constante tensão com o passado – “Você conversa com uma tia, num quarto./ Ela frisa a saia com a unha do polegar e exclama:/ ‘Assim também, Deus me livre’./ De repente acontece o tempo se mostrando,/ espesso como antes se podia fendê-lo aos oito anos” (Prado, 2015).

Já o crítico Antonio Hohlfeldt situou a aparição da poeta como causadora de certo desconforto entre alguns críticos, sobretudo por Adélia representar a figura da mulher de uma maneira que “quebra, aparentemente, toda a dicção libertária, feminina e feminista, então vigente. [...] Não fazia experimentalismos formais, insistia numa poesia de ideias” (2000). Nos anos 1970, a poesia brasileira estava dividida: “[...] de um lado, os variados experimentalismos formais a partir do Concretismo e do Tropicalismo, desde os anos 1950 e, de outro, a busca a partir da década seguinte, [...] da retomada da poesia político-ideológica” (Hohlfeldt, 2000). No entanto, a poesia de Adélia não se apresenta filiada a nenhuma dessas vertentes, e nem por isso sua poesia se quer reacionária, pois segundo Augusto Massi, a poesia voltava a se debruçar sobre temas excluídos, como o sonho e o erotismo. Nesse sentido, “Adélia representava um último desdobramento do modernismo, cujas linhas de força convergem para a retomada do quotidiano, da oralidade, da cultura popular e para o desejo de encurtar o caminho até o leitor, trazendo a linguagem poética para o centro da vida” (Massi, 2015).

A propósito, já em seu livro de estreia, a escritora nos apresenta direta e indiretamente certas filiações: Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, São João da Cruz, Santa Tereza D’Ávila, Augusto dos Anjos, Alphonsus de Guimaraens, Jorge de Lima, além de Guimarães Rosa e de seu livro sagrado, reverenciados nestes versos de Bagagem: “Porque tudo que invento já foi dito/ nos dois livros que eu li:/ as escrituras de Deus,/ as escrituras de João./ Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão” (2015).

Paralelamente a sua poesia, Adélia sempre publicou narrativas. A primeira delas é Solte os cachorros, título que remete à expressão popular brasileira “soltar os cachorros”, que significa falar o que bem entender com seu interlocutor de maneira reativa. A voz dessa narrativa tecida em fragmentos soa como o desabafo de uma mulher madura: “Quem dá o grito primal paga caro o analista, quem dá o grito vai preso, quem escreve feito eu esgota o zumbido de seu ouvido, mata um a um os marimbondos, com agulha fina, nos olhos. Não posso ver trouxa frouxa, amarro até ficar dura.” (Prado, 2006).

Em prosa, Adélia Prado mantém os temas recorrentes de sua poesia: a vida provinciana, a família e a religiosidade. Sua maneira de abordar os pensamentos dos personagens é extremamente pessoal, embora nos remeta a Clarice Lispector, sobretudo pelo uso da metalinguagem, recurso em que a própria linguagem é utilizada como tema e conteúdo. Em Manuscritos de Felipa, Adélia homenageia essa escritora através das confabulações da protagonista: “Estou cheia de amor, por isso não excluo esta palavra excrescente, armário maior que o cómodo. Agora imitei a Lispector. Meu aperto é que urge ser eu mesma, não posso ficar imitando, ainda que enquanto humanos somos um só, senão como ia entender livro dela que parece tudo, menos livro?” (1999). De passagem, vale dizer que Clarice esteve presente no lançamento de Bagagem, cerca de um ano antes de seu falecimento.

Um ponto de grande destaque na trajetória de Adélia Prado foi o monólogo Dona Doida: um interlúdio, encenado, em 1987, por Fernanda Montenegro, a atriz mais consagrada do Brasil. O espetáculo foi organizado em blocos por Naum de Souza, “nos quais se apresenta perfeitamente o ser que está dentro da poesia de Adélia”. Esse espetáculo é emblemático pelo facto de lançar luz a um dos pontos mais significativos de sua literatura: seu caráter dramático, litúrgico e oral, como bem enfatizado por Fernanda Montenegro: “Há poetas que devem ser lidos em silêncio, ou melhor, todos os poetas devem ser lidos em silêncio. Mas alguns são muito vigorosos quando verbalizados, ditos em voz alta” (Montenegro, p. 13). Por isso, ao longo de sua vida literária, Adélia disseminou sua palavra ao ler seus poemas em centenas de eventos pelo país, mantendo sua tradição pela liturgia, pelo culto e canto. Gravou os registos O escritor por ele mesmo: Adélia Prado (1999), pelo Instituto Moreira Salles, em K7, e os CDs O tom de Adélia (2000) e O sempre amor (2003), pelo selo Karmin, de Belo Horizonte.

Independentemente da forma empregada por Adélia, seus assuntos são sempre os mesmos. Em entrevista, ela foi categórica: “Nunca vou falar de outra coisa a não ser morte, amor e Deus. Só me ocupo disso. Considero que nesta trindade cabem o Afeganistão, as torres gémeas, a política, a velhice, a mística, a raiva, o medo, o humano, enfim” (Prado, 2001). No entanto, a cada título da autora esses temas são encenados por outras vozes que estabelecem novos diálogos com a tradição, a cultura popular e com sua própria obra. (daqui)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"Ode ao Tempo" - Poema de Pablo Neruda


 
Hans Thoma (German painter, 1839–1924), 'A Peaceful Sunday', 1876
(The artist's mother, and an uncle), Kunsthalle Hamburg



Ode ao Tempo


A tua idade dentro de ti
crescendo,
a minha idade dentro de mim
andando.
O tempo é resoluto,
não faz soar o sino,
cresce e caminha
por dentro de nós,
aparece

no olhar
e junto às castanhas
queimadas dos teus olhos
um filamento, a pegada
de um minúsculo rio,
uma estrelinha seca
subindo para a tua boca.
Nos teus cabelos
enreda o tempo
os seus fios,
mas no meu coração
como uma madressilva
está a tua fragrância,
incandescente como o fogo.
Envelhecer vivendo
é belo
como tudo o que vivemos.
Cada dia
para nós
foi uma pedra transparente,
cada noite uma rosa negra,
e este sulco no meu ou no teu rosto
é uma pedra ou uma flor,
recordação de um relâmpago.
Gastaram-se-me os olhos na tua formosura
mas tu és os meus olhos.
Sob os meus beijos talvez tenha fatigado
os teus seios,
mas todos viram na minha alegria
o teu resplendor secreto.
Amor, o que importa
é que o tempo,
o mesmo que ergueu como duas chamas
ou espigas paralelas
o meu corpo e a tua doçura,
amanhã os mantenha
ou os desgarre
e com os seus mesmos dedos invisíveis
apague a identidade que nos separa
dando-nos a vitória
de um único ser final sob a terra.

1956

Pablo Neruda
, in 'Odes Elementares'
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.
'Tradução de Luis Pignatelli
 
 
Hans Thoma, 'Summer' (Landscape near Karlsruhe), 1891
 

 Ode
 
Por ode entende-se toda a composição poética que se relacione com o género lírico e que, cronologicamente, se liga a uma origem na poesia clássica grega.
O seu significado poderá, simplesmente, ser traduzido por "canção", levando a concluir que a ode, de início, seria um poema destinado ao acompanhamento musical, como forma de canto, individual ou em grupo - coro, canto coral. 

Relativamente aos temas que normalmente eram tratados nas odes, poder-se-á dizer que eram os mais variados, embora seja de salientar que eram sempre desenvolvidos através de pensamentos sublimes, entusiasticamente apresentados no seu estilo e linguagem castiça. 

Do grupo de cultores deste género literário de origem grega destaca-se, sobretudo, os nomes de Safo, Alceu, Anacreonte e Píndaro, tendo este último desenvolvido uma estrutura própria nas suas odes que reconhecidamente se distingue por ser aquela que não só mantém vivo o antigo carácter musical do género, como apresenta uma forma que poderá ser considerada o padrão para as bases da literatura europeia. 

Através do poeta romano Horácio chega até nós esta ode de origem grega, embora adaptada e alterada em relação à musicalidade (que com Horácio se torna quase nula) e ao ritmo que com ele apresentava uma flexibilidade e uma fluência que melhor se adaptava ao génio da língua latina. Apreendendo na perfeição os metros deste género grego, Horácio tornou-se, assim, no principal veículo de transmissão do fundo e da forma da ode - tal como hoje se conhece - para as chamadas modernas literaturas nacionais. 

Analisando em profundidade a ode horaciana vê-se que o seu conteúdo se pode distribuir tematicamente pelas chamadas odes em cívicas - que fazem, sobretudo, a exaltação dos cidadãos -, odes pastoris - as que têm como motivo central os encantos da vida rústica -, odes amorosas, báquicas ou anacreônticas - as que cantam as alegrias da existência humana, física -, e as odes privadas - aquelas que versam assuntos de natureza privada, particular e que, normalmente, são dirigidas a amigos ou familiares, onde o poeta desenvolve considerações de ordem variada, nomeadamente filosóficas ou morais. 

O conhecimento e o apreço da ode em Portugal é feito exatamente através da ode de Horácio, de tal forma apreciada que o Renascimento (século XVI) português desde logo manifestou extrema inclinação e gosto pelo cultivo deste género literário. Nomes como Sá de Miranda, António Ferreira e André Falcão de Resende tomaram a Ode horaciana como modelo artístico, imitando-lhe o ritmo, embora, obviamente, atualizando-lhe os temas tratados. 

Mais tarde, também o Neoclassicismo (Século XVIII) prova que aproveita o exemplo e a experiência da ode quinhentista do Renascimento para cantar os seus temas. Daqui se destacam os nomes de Reis Quinta (Lisboa, 1728-1770), Cruz e Silva (Lisboa, 1731 - Rio de janeiro, 1799) e Correia Garção, tendo este último aproveitado ao máximo o exemplo horaciano chegando mesmo a ultrapassá-lo, criando até uma nova categoria: a ode sacra, sempre dedicada a um santo patrono ou, simplesmente, versando motivos religiosos. 

O prestígio e a importância literária da ode é ainda visível entre os poetas modernos, destacando-se os nomes de António Botto e Miguel Torga que, mesmo conhecendo o esquema clássico das odes, dele aproveitam apenas uma parte, recriando-o quase na totalidade, adaptando e refundindo toda a sua estrutura rítmica. Também Antero de Quental, embora num tom, forma, ritmo e conteúdo radicalmente diferentes, em tempos se serviu da ode para dar nome a uma das suas obras poéticas mais conhecidas e estudadas: "Odes Modernas", publicadas em 1865. 

Sejam elas gregas, romanas (de Horácio), portuguesas renascentistas, neoclássicas ou modernas, as odes marcam, sem dúvida, uma forte linha de orientação no panorama literário desde a poesia clássica. (daqui)
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"A velhice" - Poema de Olavo Bilac


Ferdinand Georg Waldmüller (Austrian painter and writer, 1793–1865),
"Grandma's Birthday", 1856.



A velhice

O neto:

Vovó, por que não tem dentes?
Por que anda rezando só.
E treme, como os doentes
Quando têm febre, vovó?

Por que é branco o seu cabelo?
Por que se apoia a um bordão?
Vovó, porque, como o gelo,
É tão fria a sua mão?

Por que é tão triste o seu rosto?
Tão trémula a sua voz?
Vovó, qual é seu desgosto?
Por que não ri como nós?

A Avó:

Meu neto, que és meu encanto,
Tu acabas de nascer…
E eu, tenho vivido tanto
Que estou farta de viver!

Os anos, que vão passando,
Vão nos matando sem dó:
Só tu consegues, falando,
Dar-me alegria, tu só!

O teu sorriso, criança,
Cai sobre os martírios meus,
Como um clarão de esperança,
Como uma bênção de Deus!


Olavo Bilac
, in Poesias Infantis


 
Gaetano Bellei (Italian painter, 1857–1922), "The welcome one", 1882


"Uma velhice ditosa é o fruto de uma mocidade regrada."

(Provérbio)

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"O Velho" - Poema de Rui Knopfli



Bruno Liljefors (Swedish wildlife painter, 1860–1939), 1906, by Anders Zorn.



O Velho


Não envelheço. Torno-me antigo.
O velho sempre viveu em mim,
sempre o pressenti no olhar
magoado demorando-se nas coisas,
em certa lentidão não premeditada
dos gestos e nas lembranças confusas
de uma outra recuada idade.
Sempre aflorou na mão e na estima
triste que se estende aos amigos,
na aresta de desconsolo que espreita
as minhas horas de amor.
O velho sempre viveu em mim.
Eis que, enfim, o reboco
se lhe começa a assemelhar.


Rui Knopfli, in Memória Consentida: 
20 Anos de Poesia 1959-1979, 1982.
 

Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
 Self-portrait in red, 1915.


Sem nada de meu


Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou creem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.