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Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), The Old Fisherman
("Kalastava ukko"), 1896.
Teu corpo
O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.
É um ser estranho
que tem teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.
Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
– que a cada dia
mais difere de ti.
E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.
E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
Poderás detê-la
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?
Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.
Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo – morre –
quem diz a ele – envelhece –
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?
Ferreira Gullar, Barulhos, 1997.
"Nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio!"

Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), Self-Portrait, 1889.
(Self-Portrait in Dress of the 17th Century), Finnish National Gallery.
"Não quero ter razão, quero ser feliz. E, para ser feliz, há que ser justo."
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