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terça-feira, 31 de março de 2026

"O Tango" - Poema de Jorge Luis Borges



Marthe Donas (Belgian abstract and cubist painter, 1885–1967),
"Le Tango", 1920.
 

O Tango


Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, pra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges, in Poemas Escolhidos
Edição bilingue. Seleção e Trad. de Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

"A quarta porta" - Poema de Manuel António Pina


 
Jimmy Ernst (American painter born in Germany, 1920–1984), Oracle, 1971.

 

A quarta porta


É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há de vir?
O que está atrás de ti

é a tua imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.


Manuel António Pina,
in 'Aquele que quer morrer', 1978.


sexta-feira, 5 de julho de 2024

"Canção à Ausente" - Poema de Pedro Homem de Mello



František Kupka, also known as Frank Kupka or François Kupka
(Czech painter and graphic artist, 1871–1957), Amorpha,
Fugue en deux couleurs (Fugue in Two Colors), 1912
,
oil on canvas, 210 × 200 cm, Národní Galerie.



Canção à Ausente


Para te amar ensaiei os meus lábios...
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!


Pedro Homem de Mello, in "Segredo",
Editora: Lello, 1953.
 

terça-feira, 2 de julho de 2024

"Labirinto" - Poema de Jorge Luis Borges



Jimmy Ernst
(American painter born in Germany, 1920–1984), Lookscape, 1952.

 

Labirinto 


Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.


Jorge Luis Borges,
em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”.
São Paulo: Terracota, 2013.
Traduções de Augusto de Campos.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

"A Música das Cores" - Poema de Eugénio Lisboa


Ângelo de Sousa (Escultor, pintor, professor e desenhador
 português, 1938 - 2011), S/título, s.d.


A Música das Cores

                                                          Ao Ângelo

A pintura; às vezes, sabe ser
uma forma de música: sugere,
no fluxo imparável do acontecer,
que a vida pode não acabar. Fere
o centro de nós mesmos. Amacia
e dissolve tensões que a vida impura,
em tantos momentos, cega, nos cria.
Como a música, é boa a pintura.


Eugénio Lisboa
, Matéria Intensa
Lisboa, Instituto Camões, 1999.
 
 
Ângelo de Sousa, S/título, 2009.
 


Ângelo de Sousa, Um ocre, 2006.
 
 
Ângelo de Sousa, S/título, s.d. (Estilo: Hard-edge painting).
 
 
Hard-edge painting
 
Hard-edge painting é um estilo de pintura em que há transições abruptas de cor entre as áreas coloridas, as quais geralmente são de uma única cor. É um estilo relacionado a Op art.

O Hard Edge Painting (pintura com contorno marcado) surgiu em Nova York, adotando o rigor do controle da técnica em função da liberdade sugerida pelo Expressionismo Abstrato. A pintura Hard Edge usa formas simples e contornos rígidos. Os quadros são precisos e frios, como se feitos à máquina. Foi neste estilo de arte que os artistas passaram a usar telas em que seus formatos de triângulos, círculos e outras formas irregulares passaram a tornar-se parte da composição.

O Hard-edge é a pintura em que as transições bruscas são encontradas entre as áreas de cor. Áreas de cor são muitas vezes de uma invariável cor. Transições de cor, muitas vezes ocorrem ao longo de linhas retas, porém as bordas curvilíneas de áreas de cores também são comuns.

O termo foi inventado pelo escritor Jules Langsner em 1959 para descrever o trabalho dos pintores da Califórnia, que, em sua reação às formas ou pintura gestual do expressionismo abstrato, aprovou uma aplicação de pintura impessoal e conscientemente áreas delimitadas de cor com particular nitidez e clareza. Esta abordagem à pintura abstrata se generalizou na década de 1960, embora a Califórnia fosse o centro criativo. (daqui)
 

domingo, 26 de novembro de 2023

"Viajar? Para viajar basta existir" - Texto de Bernardo Soares / Fernando Pessoa


Paul Klee (Swiss-born German artist, 1879 –1940), Insula dulcamara, 1938,
Zentrum Paul Klee, Berne
 


Viajar? Para viajar basta existir

 
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Bernardo Soares (Heterónimo de Fernando Pessoa),
in Livro do Desassossego, fragmento 451, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 11ª ed.
 

Paul Klee, Nach der Überschwemmung, 1936, Beyeler Foundation



Abstracionismo
 
 
O entendimento da arte como ato criativo situado para além da mera perceção visual do mundo sensível constitui o ponto de partida principal do abstracionismo. Nascida na segunda década do século XX, a arte abstrata tem origem nas diversas reações ao Impressionismo e desenvolve-se entre 1913 e 1933.
A primeira obra totalmente abstrata foi pintada por Kandinsky, uma das figuras históricas do abstracionismo, em 1913. Paralelamente à atividade pictórica, Kandinsky converteu-se no teorizador dos fundamentos do abstracionismo lírico, cujas linhas fundamentais são a liberdade da cor e do traço, enquadradas num entendimento filosófico e orgânico da pintura. Nas telas e aguarelas deste pintor alemão, as massas cromáticas, às quais o artista atribui um significado simbólico, enunciam uma plasticidade sem forma e uma nova sensibilidade. Cada obra é fruto de uma pesquisa controlada e metódica, de uma experiência espontânea vivida pelo autor, à qual não é estranha a exploração incessante das suas emoções e sensações perante o real.
Em França, o fauvismo e os primórdios do cubismo influenciam outros autores que enveredam pelo caminho da não figuração, como Delaunay, Kupka e Picabia.
Noutros países são experimentadas outras vias da abstração, de cariz mais geométrico: o Raionismo, o Suprematismo e o construtivismo na Rússia, e o Neoplasticismo da Holanda. Os fundamentos deste último movimento, igualmente conhecido por De Stijl, são definidos essencialmente por Piet Mondrian, cuja obra se define através de uma gramática geométrica clara e objetiva, na qual a harmonia é obtida através de um equilíbrio entre a forma e a cor. (daqui)
 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"Meu Pai, o que é a Liberdade?" - Poema de Moacyr Félix


Wassily Kandinsky, Improvisation 27 (Garden of Love II), 1912,  



Meu Pai, o que é a Liberdade?


- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milénios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

É um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar. 


Moacyr Félix,
in 'Canto para As Transformações do Homem', 1964


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

"Gargalhada" - Poema de Cecília Meireles

 

Giacomo Balla (Italian painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Pessimism and Optimism', 1923


Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármore baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas. Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trémulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje esta música heroica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.


Cecília Meireles, in 'Viagem', 1939 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

"Elegia" - Poema de Alberto Pimenta



Giacomo Balla (Italian Futurist painter, art teacher and poet, 1871–1958),
'Abstract Speed + Sound
' ('Velocità Astratta + Rumore'), 1913–1914.

Peggy Guggenheim Collection, Venice
 
 
elegia


já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja


Alberto Pimenta,
in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca' 
 

Alberto Pimenta 


Alberto Pimenta, poeta e ensaísta, formado em Germânicas pela Universidade de Coimbra, desenvolveu a atividade de docente na Universidade de Heidelberg, entre 1960 e 1976, e na Universidade Nova de Lisboa. 
 
Herdeiro da revolução surrealista e da poesia experimental, a poesia, para Alberto Pimenta, é um ato poético, "atual/atuante", que deve ser experimentado e que tem como essência o seu carácter fundamentalmente libertário, emancipado de qualquer retórica ou géneros preestabelecidos ou de qualquer literatura oficializada pela crítica. 
 
Inconformista e iconoclasta, a sua atividade (contra) cultural recobre diversos domínios, como as obras visuais, a poesia, atos poéticos e intervenções teatrais, a teoria, a prosa, a organização de antologias e a edição de obras raras. 
 
Revelada nos anos revolucionários de 70, a obra de Alberto Pimenta opera uma sistemática e satírica provocação aos agentes de uma cultura literária institucionalizada e, de modo lato, ao convencionalismo, ao kitsch, ao moralismo burguês capitalista, provocação, aliás, corroborada por alguns atos simbólicos de que apresenta testemunho em Obra Quase Incompleta (em 31 de julho de 1977, Alberto Pimenta encerrou-se numa jaula no Jardim Zoológico de Lisboa; em 25 de maio de1991, expôs-se para venda à porta da Igreja dos Mártires; no dia 10 de junho do mesmo ano queimou publicamente o seu ensaio O Silêncio dos Poetas, entre muitos outros). 
 
O seu projeto de rutura vanguardista ultrapassa, assim, a perspetiva de defesa de uma forma estética completa, que deve integrar a palavra dita, representada, visualizada ou lida, para conter em si a noção de que a palavra literária opera uma constante transgressão, não podendo ser controlada por qualquer forma de poder, inclusivamente o crítico. (daqui)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Aprendendo a Viver" - Crónica de Clarice Lispector


Gregory Deane, "Infinity Mix" Mixed Media on Canvas Painting, 58" x 58"


Aprendendo a Viver



Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.»
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.»
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. «Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique! 


Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'


Gregory Deane, Red Flora, 58 "x 58"


"My art, at its best, is a continuous process of self-discovery…sometimes headlong, sometime introspective…but always dynamic. I work to create paintings that are pleasing to the eye… Paintings that are filled with energy and generosity… Paintings that are instinctive and fluid…not contrived. I paint because I do what I enjoy doing!"

 
Gregory Deane, Notas Past, 60 "x 50"


"Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os factos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido."
 
 
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"Dói-me a vida aos poucos" - Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro


Gregory Deane, Glacier Ridge
 


Dói-me a vida aos poucos


 Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Movimento" - Poema de Octavio Paz


Wassily Kandinsky, Fuga, 1914, óleo sobre tela


Movimento


Se tu és a égua de âmbar 
eu sou o caminho de sangue 
Se tu és o primeiro nevão 
eu sou quem acende a fogueira da madrugada 
Se tu és a torre da noite 
eu sou o cravo ardendo em tua fronte 
Se tu és a maré matutina 
eu sou o grito do primeiro pássaro 
Se tu és a cesta de laranjas 
eu sou o punhal de sol 
Se tu és o altar de pedra 
eu sou a mão sacrílega 
Se tu és a terra deitada 
eu sou a cana verde 
Se tu és o salto do vento 
eu sou o fogo oculto 
Se tu és a boca da água 
eu sou a boca do musgo 
Se tu és o bosque das nuvens 
eu sou o machado que as corta 
Se tu és a cidade profunda 
eu sou a chuva da consagração 
Se tu és a montanha amarela 
eu sou os braços vermelhos do líquen 
Se tu és o sol que se levanta 
eu sou o caminho de sangue 


Octavio Paz, in "Salamandra" 
Tradução de Luis Pignatelli 


Octavio Paz

Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990.

Escritor prolífico cuja obra abarcou vários géneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos.

Passou a infância nos Estados Unidos, acompanhando a família. De volta ao seu país, estudou direito na Universidade Nacional Autónoma do México. Cursou também especialização em literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais. Viveu também em Paris, no Japão e na Índia.

Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Quando morava em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a escrita automática, tendo praticado posteriormente uma poesia ainda vanguardista, porém mais concisa e objetiva, voltada a um uso mais preciso da função poética da linguagem.

Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933.
Origem: Wikipédia


Composição VII - De acordo com Kandinsky, a peça mais complexa que ele já pintou (1913)


"A arte abstrata é a mais difícil de todas. Para entregar-se a ela é preciso ser bom desenhador, ter sensibilidade para a composição e para as cores e o que é mais importante, ser um poeta autêntico" - Kandinsky 
 

Wassily Kandinsky

Wassily Kandinsky (Moscou, 16 de dezembro de 1866 (4 de dezembro no calendário juliano então em vigor na Rússia) — Neuilly-sur-Seine, 14 de dezembro de 1944) foi um artista russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939.

Na década de 1910 Kandinsky desenvolve seus primeiros estudos não figurativos, fazendo com que seja considerado o primeiro pintor ocidental a produzir uma tela abstrata. Algumas das suas obras desta época, como "murnau - Jardim 1" (1910) e "Grüngasse em Murnau" (1909) mostram a influência dos Verões que Kandinsky passava em Murnau nessa época, notando-se um crescente abstracionismo nas suas paisagens. Outra influência nas suas pinturas foi a música do compositor Arnold Schönberg, com quem Kandinsky manteve correspondência entre 1911 e 1914.

Kandinsky também escreveu poemas brilhantes, abstratos, que fazem referência a cores e linhas, tais quais surgiam na percepção do artista. Sendo eminentemente vanguardistas, no entanto, seus poemas diferem de tudo quanto foi produzido por qualquer "ismo" em literatura ou poeta vanguardista conhecido, inclusive do trabalho poético de outros artistas predominantemente plásticos, tais como Picasso e Hans Arp, que tenderam a aderir, na escrita, a alguma vanguarda poética conhecida, como o Surrealismo.
Origem: Wikipédia

domingo, 25 de maio de 2014

"O Ideal da Amizade" - Texto de Sándor Márai


 
Robert Delaunay
, 'Portuguese Woman', 1916, oil on canvas, 135.9 × 161 cm,
Columbus Museum of Art
 
 
O Ideal da Amizade

 
“A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal? E se um amigo falha, porque não é um verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu caráter, a sua fraqueza? Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afeto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro? E quanto mais dá, menos espera em troca? E se entrega ao outro toda a confiança de uma juventude, toda a abnegação da idade viril e finalmente oferece a coisa mais preciosa que um ser humano pode proporcionar a outro ser humano, a sua confiança absoluta, cega e apaixonada, e depois se vê confrontado com o facto de o outro ser infiel e vil, tem direito de se ofender, de exigir vingança? E se se ofende e grita por vingança, era realmente amigo, o traído e abandonado?…”

Sándor Márai, in 'As Velas Ardem Até ao Fim'


Robert Delaunay, 'Autoportrait', 1905–06, oil on canvas

Robert Delaunay (12 de abril de 1885 - 25 de outubro de 1941) era um artista francês que usava o abstracionismo e o cubismo em seu trabalho.
Delaunay concentrado no Impressionismo, quando quis trabalhar mais tarde era mais abstrato, reminiscente de Paul Klee. Sua influência chave relacionou-se ao uso bold (realce) da cor, e a um amor desobstruído da experimentação da profundidade e do tom.
Quando era criança, os pais de Delaunay eram divorciados, sendo criado então por seu tio, no La Ronchère (perto de Burges). Começou a pintar numa idade precoce, e por 1903, produzia imagens maduras num estilo confiante e impressionista. Em 1908, após um semestre no trabalho militar como um bibliotecário regimental, encontrou-se com Sarah Stern que mais tarde seria Sonia Delaunay, e com quem se casaria mais tarde, apesar de na época ser casada com um negociante de arte alemão.
Em 1909, Delaunay começou a pintar uma série de estudos da cidade de Paris e da Torre Eiffel.


 Robert Delaunay, 'La Ville de Paris'1910–12, oil on canvas, 267 × 406 cm, 

Pelo convite de Wassily Kandinsky, Delaunay junta-se ao grupo "O Cavaleiro Azul" (Der Blaue Reiter), um grupo de artistas abstratos de Munique, em 1911, e sua arte se volta ao abstrato.


 
Robert Delaunay, 'Simultaneous Windows on the City', 1912,  

Na deflagração da I Guerra Mundial, Delaunay e sua esposa encontravam-se de férias na Espanha, e acabaram se estabelecendo com amigos em Portugal durante o conflito. Vieram viver, juntamente com o filho Charles, para Vila do Conde entre o Verão de 1915 e inícios de 1917, numa casa a que chamaram La Simultané. Aí aprofundaram a amizade com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros. Robert, tal como Sonia, fascinados pela luz portuguesa, desenvolveu aí as suas teorias sobre a cor simultânea. Neste período, o casal assumiu vários trabalhos desenhando trajes para a ópera de Madrid, e Sonia Delaunay começou um negócio de design de moda.


Robert Delaunay, 'Nu à la toilette' (Nu à la coiffeuse), 1915, oil on canvas, 

Até meados de 1916 tiveram, em Vila do Conde, a companhia do pintores Eduardo Viana e Samuel Halpert.
Após a guerra, em 1921, retornaram a Paris. Delaunay continuou a trabalhar num estilo na maior parte abstrato. Durante a Feira Mundial de Paris em 1937, Delaunay participa no projeto da estrada de ferro e dos pavilhões de viagem aérea.


Robert Delaunay, 'Circular Forms' (Formes circulaires), 1930

Com o início da II Guerra Mundial, os Delaunays mudam-se para Auvérnia (Auvergne) com o intuito de fugir às forças invasoras alemãs. 
Sofrendo de cancro, Delaunay não estava capaz de ser transferido de localidade em localidade, e sua saúde deteriorou-se. Morre em Montpellier, a 25 de outubro de 1941, aos 56 anos, vítima de cancro. O seu corpo foi transladado para Gambais em 1952.


Robert Delaunay, 'Rythme n°1'1938, Decoration for the Salon des Tuileries,

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"Hoje tomei a decisão de ser Eu" - Texto de Fernando Pessoa


Sonia Delaunay, Compositions, Couleurs, Idees


Hoje tomei a decisão de ser Eu


"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilização de mim, do Intersecionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caráter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. 
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou. 
Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste. 
O último rasto de influência dos outros no meu caráter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de «lançar o Intersecionismo» — a tranquila posse de mim. 
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci." 


Fernando Pessoa, 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'


Sonia Delaunay, Three Women dressed simultaneously


"A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na retaguarda para ver."

Bertrand Russell 
(Inglaterra, 1872 // 1970)
Filósofo, Matemático, Crítico social, Escritor 


Sonia Delaunay, Contrastes simultáneos


domingo, 18 de maio de 2014

"Esta é a Cidade" - Poema de António Gedeão


Sonia Delaunay, 'Mercado no Minho', 1915 
 

Esta é a Cidade


Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!


António Gedeão, 
in 'Teatro do Mundo', 1958


Sonia Delaunay, 'Portuguese Markety'


Vida e Obra de Sonia Delaunay

Sonia Delaunay


Sonia Delaunay (nascida Sarah Stern, Gradizhsk, perto de Odessa, Ucrânia, 14 de novembro de 1885 — Paris, 5 de dezembro de 1979) foi uma pintora e designer russa-francesa. Em 1910 Sonia Delaunay casou em segundas núpcias com o artista francês Robert Delaunay


Sonia Delaunay e Robert Delaunay


Admiradora dos pintores Vincent van Gogh e Paul Gauguin, assim como dos pintores “Fauvistas”, deles recebeu o gosto pela expressividade das cores luminosas.


Sonia Delaunay, 'Portrait of Philomene', 1907 (Fauvismo)


Sonia Delaunay realizou em 1911 a primeira obra abstrata. São dessa época os quadros "Tango", "Bal Bullier" e "Prismes Electriques".
Fugindo da Iª Guerra Mundial, o casal veio viver, juntamente com o filho Charles, para Vila do Conde entre o Verão de 1915 e inícios de 1917, numa casa a que chamaram La Simultané. Aí aprofundaram a amizade com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros. Esse breve ano e meio em Vila do Conde foi considerado por Sonia o seu período de vida mais feliz e no qual realizou importantes obras inspiradas na arte popular portuguesa. Até meados de 1916 o casal teve, em Vila do Conde, a companhia dos pintores Eduardo Viana e Samuel Halpert.


 Sonia Delaunay, 'Bailarina de flamenco'


O casal Delaunay também residiu em Madrid. Sonia foi um dos vultos maiores da Art Déco: desenhou moda, fez decoração de teatro, figurinos para bailados, nomeadamente para Diaghilev, criou tecidos e especialmente peças de mobiliário. Viveu em Paris de 1921 até falecer. Foi uma das mais representativas artistas da chamada arte abstrata e muito apreciada.


 
Sonia Delaunay, 'El follaje bordado'


 
Sonia Delaunay, 'Rythme', 1938


 Sonia Delaunay, 'Composition Red, Blue, Black, White', 1964


Sonia Delaunay, 'Composition for XXe Siecle', 1972


"Reduzimos a vida a esta insignificância... Construímos ao lado outra vida falsa, que acabou por nos dominar. Toda a gente fala do céu, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o céu na sua profunda, temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com ele."

Raul Brandão, Húmus