sexta-feira, 11 de setembro de 2026

"Brincávamos a cair nos braços um do outro" - Poema de Valter Hugo Mãe



Félix Vallotton (Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),

"The Lie" ("Le Mensonge"), 1898. Baltimore Museum of Art 
(Cloisonnism)

brincávamos a cair nos braços um do outro


brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as atrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade


Valter Hugo Mãe, in 'contabilidade', 2010



Félix Vallotton
(Swiss and French painter and printmaker, 1865–1925),
"Intimacy" or "Interior with Couple and Screen", 1898 (Cloisonnism),
Private collection



Cloisonnisme

O Cloisonnisme é um estilo da pintura pós-impressionista caracterizado por cores lisas delimitadas por contornos escuros. O termo foi utilizado pelo crítico Édouard Dujardin por ocasião do Salão dos Independentes em Março de 1888. Os artistas Émile Bernard, Louis Anquetin, Paul Gauguin, Paul Sérusier, e outros, começaram a pintar com este estilo no final do século XIX. O nome remete para a técnica de cloisonné, onde arames (cloisons ou "compartimentos") são soldados ao corpo da peça, enchidos com pó de vidro e, em seguida, colocados no meio de chamas a altas temperaturas, numa técnica semelhante ao do vitral. Muitos daqueles pintores descrevem os seus trabalhos como sintetismo, um movimento com algumas semelhanças.

No O Cristo Amarelo (1889), muito citado como o melhor exemplo de cloisonnisme, Gauguin reduz a imagem a áreas de uma única cor separadas por linhas escuras muito carregadas. Nestes trabalhos, ele deixa de lado a perspetiva clássica, e elimina as transições de cores (as gradações cromáticas como o degradê ou as técnicas de sensação de volume como o sfumato) — duas das principais características da pintura pós-renascentista.

Uma forte influência na técnica de representação usada (não nos temas representados mas na forma de pintar) foram as estampas japonesas Ukiyo-e que cativaram a sociedade francesa daquela altura pela sua novidade, no chamado japonismo. Escreveu Paul Gauguin:

"Olhe para os excelentes artistas japoneses, e verá a vida retratada no ar livre e ao sol sem sombras, a cor a ser usada apenas como combinação de tons, diversas harmonias, dando a impressão de calor etc."

A separação das cores no cloisonnisme, reflete um desejo de descontinuidade que é uma característica do modernismo. (daqui)
 

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