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sexta-feira, 22 de março de 2019

"Pequenos Poemas Mentais" - Poemas de Irene Lisboa


František Kupka, Self-portrait with wife, 1908



Pequenos poemas mentais

Mental: nada, ou quase nada sentimental.

I

Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indómitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.

II

Como sempre, há de chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunirá, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
É provável, mas desconfiados e inválidos,
Rosnando estúpidos, com cães.

Ó inúteis, aquietai-vos!
Voltai como os cães das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.

III

Esse gesto...
Esse desânimo e essa vaidade...
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!

A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela, e curiosa!
E então assim acabrunhada...
Com franqueza, enternece-me.

Subtil
A minha mão que, julgo, ridicularizas,
de que desconheces a suavidade,
cerra-te pacificamente os olhos
e aquieta benignamente o ar.
Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,
na prática de um velho rito,
feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.

IV

Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.

Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Todas as ausências, todas as negações.

V

Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais...
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas...
perturbados e capciosos.

VI

Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos, estampadas...
Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...

E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!


Irene Lisboa
Um dia e outro dia…
1936 




Frantisek Kupka, The Book Lover, 1897



"Dia a dia ia-se agravando a minha secreta aversão por tudo aquilo de que se tira proveito. Ler e sonhar, estes narcóticos, eram os meus antídotos, mas as regiões onde são possíveis os atos pareciam-me definitivamente fora de alcance."
 
Ernst Jünger, Jogos Africanos
 
 
 
Ernst Jünger

 
Escritor e biólogo alemão, Ernst Jünger nasceu a 29 de março de 1895, em Heidelberg. Filho de um farmacêutico, começou os estudos em Hanôver, no ano de 1901, mas fugiu de casa aos dezoito anos de idade, para se alistar na Legião Estrangeira, cumprindo a sua comissão no Norte de África.

Combateu também na Primeira Grande Guerra, onde foi ferido por diversas vezes, o que lhe valeu algumas condecorações por bravura. Finda a guerra, serviu como oficial no exército da República de Weimar, entre 1919 e 1923.

Publicou o seu primeiro livro em 1920, com o título In Stahlgewittern, obra em que analisava o estado de coisas e o destino da nação alemã. Também nessa época começou a contribuir para a imprensa de direita. 
 
Teve possibilidade de prosseguir os seus estudos, frequentando as universidades de Leipzig e de Nápoles, formando-se em Biologia, e tornando-se um reputado entomologista, chegando a catalogar e nomear algumas espécies de insetos.

Chegou a Berlim no ano de 1927, onde presenciou com agrado a ascensão do Nacional-Socialismo, dando o seu aval ao pensamento nietzscheano e professando doutrinas antissemíticas em publicações nacionalistas. Publicou, por essa altura uma coletânea de ensaios, Das Abenteurliche Herz (1929), Die Totale Mobilmachung (1931) e Der Arbeiter, Herraschaft und Gestalt (1932), obras tidas como de grande qualidade pela crítica, e que refletiam mais uma vez as suas preocupações e esperanças quanto ao seu país.

O destino reservou-lhe porém uma ironia, pois apaixonou-se por uma mulher judia, o que fez com fosse lentamente mitigando o seu antissemitismo. E, em consequência de um incidente com Else Lasker-Schüler que, galardoada com um prémio literário, em 1932, foi arrasada pela imprensa nacional-socialista e espancada até perder os sentidos pelas S. A. [SturmAbteilung], Jünger optou por abandonar Berlim no ano seguinte.

Em 1934 publicou Geheimnisse der Sprache e Bläter und Steine e, após Africanische Spiele (1936), deu ao prelo Auf den Marmorklippen (1939). Esta obra foi considerada como a mais profética alguma vez escrita sobre a Alemanha nacional-socialista, e conta a história de dois irmãos que, regressando de uma guerra, procuram a paz interior, ameaçada porém pelo regime. Circulando largamente, foram no entanto suspensas as suas reedições pelas autoridades, já que o romance aludia muito claramente à situação da Alemanha, e predizia de certa forma a sua desgraça.

Deflagrou a Segunda Guerra Mundial e Jünger serviu na Wehrmacht no posto de capitão, mantendo um diário dos seus dias em França, onde chegou a conhecer personalidades como Pablo Picasso. Nele escreveu a sua certeza na perdição da Alemanha, facto marcado pela morte do seu filho nas fileiras de Itália. Quando a conspiração contra Adolf Hitler foi descoberta e aniquilada, foi apurado que Jünger tinha tido conhecimento dela, sem no entanto ter participado ativamente. Foi por isso demitido das suas funções.

Com a queda de Berlim, Jünger recusou-se a comparecer numa Entnazifizierung kommission [tribunal de "desnazificação"], pelo que as suas obras foram interditas durante cerca de três anos. Ao fim desse período publicou Der Friede (1947), obra em que anunciava o seu afastamento definitivo da política, embora se viesse a tornar grande apoiante da ideia de uma união europeia.

Em 1970 publicou uma obra interessante sobre as suas experiências com estupefacientes, Annäherungen: Drogen und Rausch. Jünger havia consumido cocaína, haxixe, e mesmo éter na década de 20, passando, nos anos 50, aos alucinogéneos, como o LSD e a mescalina.
 
Tido como um dos precursores do chamado 'realismo mágico', Ernst Jünger foi honrado com títulos académicos e galardoado com vários prémios, incluindo o Prémio Goethe, antes de falecer em 1998. (Daqui)
 
 
 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

"Relâmpago" - Poema de Fernando Pinto do Amaral


Franz von Lenbach, Self  portrait with his wife and daughters, 1903



Relâmpago


Rompe-se a escuridão quando ao olhar 
para uma face o mundo se ilumina 
com uma claridade repentina 
capaz de, só por si, fazer brilhar 

a substância tão irregular 
de tudo o que se acende na retina 
e através da luz se dissemina 
por entre imagens vãs, até formar 

um fluido movimento, uma paisagem 
a que estes olhos quase não reagem 
salvo se nesse instante o rosto for 

transfigurado pela fantasia. 
E às vezes é só isso que anuncia 
aquilo a que chamamos o amor. 


in 'Às Cegas' 


domingo, 4 de junho de 2017

"Matura Idade" - Poema de Lara de Lemos


Adélaïde Labille-Guiard (1749-1803), Self-Portrait with Two Pupils, 1785 



Matura Idade


Já não receio 
meu avesso de medos. 

Distingo as coisas 
em sua proposta exata 
e sei — cada ser 
possui justa medida. 

Já não almejo 
o que me foi negado. 

Prossigo a caminhada 
colhendo o que 
me coube, consoante 
o chão lavrado. 


in 'Adaga Lavrada'


sábado, 3 de junho de 2017

"Depois" - Poema de Telmo Padilha


Autorretrato de Marie-Gabrielle Capet, 1783



Depois


O que perdeste 
voltará com as aves. 

Não será tão deserto 
teu deserto. 

Mas acostuma-te ao silêncio 
que virá depois. 

Folhas falarão pelas folhas. 

Aves falarão pelas aves. 



(1930-1997)
in 'Poesia Encontrada'



sábado, 28 de fevereiro de 2015

"A decadência do coração nos tempos modernos" - de Camilo Castelo Branco


Jan Steen, Fantasy Interior with Jan Steen and the Family of Gerrit Schouten, 1663 



A decadência do coração nos tempos modernos


Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do coração é curta, o amor vem temporão, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da indústria. A sociedade, aparelhada em oficina, não dá por ele, se o não vê a labutar e mourejar no veio da riqueza. Títulos, glória, homenagens, regalos, as feições todas da festejada máscara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, só pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O coração é víscera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as válvulas e exercitar o cérebro, onde demora a bossa do cálculo, da empresa, da sordícia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao estômago, o qual é, sem debate, a víscera por excelência, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.


Camilo Castelo Branco, in 'Doze Casamentos Felizes (1861)'



Jan Steen, The Merry Family (1668), huile sur toile de 110,5 × 141 cm, Rijksmuseum, Amsterdam. 


Jan Steen, Autorretrato, c. 1670, óleo sobre tela, 73 x 62 cm


Jan Havickszoon Steen (Leiden, c. 1626 — 3 de fevereiro de 1679) foi um pintor neerlandês do século XVII. Percepção psicológica, senso de humor e abundância de cores foram marcas dos seus trabalhos.

Steen nasceu numa família católica rica, que, por várias gerações, administrava uma taverna em Leiden.
Assim como seu contemporâneo mais famoso, Rembrandt van Rijn (1606 - 1669), Jan Steen formou-se na escola de latim da cidade natal. Recebeu lições de pintura do mestre alemão Nikolaus Knüpfer (1603-1660), pintor de cenas históricas e figurativas de Utrecht. A influência de Knupfer pode ser vista no uso que o artista fez da composição e das cores. Outra fonte de influência do pintor foi Adriaen van Ostade (1610 - 1685), especializado em retratar cenas bucólicas, que vivera em Haarlem.

Em 1648, juntou-se aos pintores da Guilda de São Lucas, uma guilda de pintores de Leiden, mas após ter se tornado um ajudante do pintor Jan van Goyen (1596-1656), conhecido por suas paisagens, mudou-se para viver em Haia.

Em 1649, casou-se com Margriet, filha do mestre van Goyen, com quem teve oito filhos. Trabalhou com o sogro até 1654, quando mudou-se para Delft, onde abriu uma cervejaria chamada De Roscam ("O pente"), sem obter muito sucesso. Viveu depois em Warmond de 1656 a 1660 e em Haarlen deste ano até 1670, período que lhe foi especialmente produtivo. Em 1670, após a morte de sua esposa no ano anterior e de seu pai neste ano, retornou para Leiden, onde ficou até o fim de sua vida. Casou-se novamente em 1573 com Maria van Egmont, com quem teve mais um filho. Em 1674, foi escolhido presidente da Guilda de São Lucas.



Jan Steen, Comme les vieux chantent, les enfants piaillent, 1662, Musée Fabre


Jan Steen, The dancing couple, c. 1663


Jan Steen, The Drawing Lesson, 1665, J. Paul Getty Museum, Los Angeles


Jan Steen, Beware of Luxury (c. 1665)


A vida quotidiana foi um dos principais temas de Steen. Muitas das cenas que retratou eram tão animadas que pareciam caóticas. Em alguns casos, parece sugerir ao espectador que adote uma vida lúdica, embora também moralizante. Muitas de suas obras retratam provérbios e histórias neerlandesas. Usou membros de sua família como modelos e a si próprio em vários autorretratos, onde não demonstra possuir qualquer vaidade. O mais relevante é o Autorretrato com alaúde pertencente hoje ao Museu Thyssen-Bornemisza de Madrid.


Jan Steen, Autorretrato como músico (1660-63)Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid.

Jan Steen também pintou  cenas históricas, mitológicas e religiosas, naturezas mortas e paisagens. O seu trabalho foi fonte de inspiração para muitos outros artistas que o sucederam. (Wikipédia)


Jan Steen, Wedding of Sarah and Tobias. c. 1660Oil on canvas, 81 x 123 cm. Museum Bredius.

sábado, 22 de junho de 2013

A Arte inspirada nas Histórias da Bíblia - Obras de Rembrandt Harmenszoon van Rijn



Rembrandt Harmenszoon van Rijn, Autorretrato aos 22 anos


Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Leida, 15 de julho de 1606 — Amsterdão, 4 de outubro de 1669) foi um pintor e gravador neerlandês. É geralmente considerado um dos maiores nomes da história da arte europeia e o mais importante da história neerlandesa. É considerado, por alguns, como o maior pintor de todos os tempos. Suas contribuições à arte surgiram num período denominado pelos historiadores de "Século de Ouro dos Países Baixos", na qual a influência política, a ciência, o comércio e a cultura neerlandesa — particularmente a pintura — atingiram seu ápice.



Rembrandt, Autorretrato (1632)


Tendo alcançado sucesso na juventude como um pintor de retratos, seus últimos anos foram marcados por uma tragédia pessoal e dificuldades financeiras. No entanto, suas gravuras e pinturas foram populares em toda a sua vida e sua reputação como artista manteve-se elevada, e por vinte anos ele ensinou quase todos os importantes pintores neerlandeses. Os maiores triunfos criativos de Rembrandt são exemplificados especialmente nos retratos de seus contemporâneos, autorretratos e ilustrações de cenas da Bíblia. Seus autorretratos formam uma biografia singular e intimista em que o artista pesquisou a si mesmo sem vaidade e com a máxima sinceridade.



Rembrandt, Autorretrato com Corrente de Ouro (1635) 


Tanto na pintura como na gravura, ele expõe um conhecimento completo da iconografia clássica, que ele moldou para se adequar às exigências da sua própria experiência; assim, a representação de uma cena bíblica era baseada no conhecimento de Rembrandt sobre o texto específico, na sua assimilação da composição clássica, e em suas observações da população judaica de Amsterdão. Devido a sua empatia pela condição humana, ele foi chamado de "um dos grandes profetas da civilização."



Rembrandt, Autorretrato (1652) 


Em 1634, Rembrandt fez um bom casamento com a sobrinha de seu sócio, Saskia van Uylenburg, e em 1639 o casal pode comprar uma bela casa na cidade. Três filhos de Rembrandt morreram na infância, e embora um dos filhos, Titus, tenha nascido em 1641 e sobrevivido, Saskia, a esposa de Rembrandt, viria a morrer no ano seguinte. Mesmo assim, este foi o ano em que o artista pintou o mais celebrado de seus quadros, A Ronda Nocturna e alcançou o ápice de seu sucesso público.
A partir desse momento, a vida particular de Rembrandt tornou-se emaranhada, onde as evidências se revelam difíceis de interpretar. Em 1642, o pintor empregou uma viúva, Geertje Dircx, para cuidar de Titus, tornando-se na mesma época amante de Rembrandt. Em 1649 ela o processou, com sucesso, por quebra de compromisso, sendo recompensada, por Rembrandt, com uma pensão alimentícia. Ao descobrir que Geertje havia penhorado joias pertencentes a Saskia, Rembrandt conseguiu com que ela fosse internada por doze anos num asilo de indigentes em Gouda.
Uma das testemunhas durante a disputa legal foi uma jovem criada, Hendrickje Stoffels, que foi trabalhar para Rembrandt por volta de 1647. Ela pode ter sido a causa de seu rompimento com Geertje Dricx; de qualquer forma, permaneceu como governanta e amante do pintor até sua morte, em 1663. O rosto que aparece em Betsabá e muitos outros quadros famosos, carinhosamente pintados na década de 1650, deve ser dela; há motivos para supor que ela era companheira fiel e de confiança de Rembrandt. Em 1654, engravidou e foi levada perante a Igreja Reformista local e censurada; mais tarde o ssunto parece ter sido esquecido. Em outubro de 1654, Hendrickje deu a Rembrandt uma filha, Cornelia, que morreu na infância.
No início da década de 1650, Rembrandt pintava uma obra-prima após outra. Havia deixado de ser um sucesso da moda, mas nunca lhe faltaram clientes ricos. Foi provavelmente a má administração que o levou à falência em 1656, culminado com a venda de sua casa em 1660. Titus e Hendrickje formaram uma sociedade para empregar Rembrandt, de modo que os quadros deles não caíssem nas mãos dos credores, e, a família mudou-se para os arredores de Amsterdão.
Daí por diante, a vida de Rembrandt foi externamente sem dramas, mas com muitas dificuldades financeiras. Ele sobreviveu tanto a Hendrickje como a Titus, morrendo em outubro de 1669.



Rembrandt, Autorretrato (1660)


Segundo estudiosos, a pintura do grande mestre divide-se claramente em duas fases distintas.

Na primeira fase, é evidente a influência de Pieter Lastman, que estudou com Caravaggio em Roma por mais de 10 anos. Esta técnica mostra um contraste muito grande com a iluminação da tela, o que confere grande dramaticidade às pinturas, que tinham temática bíblica ou mitológica. A movimentação dos personagens retratados também era muito carregada de expressões intensas, o que colaborava mais ainda na dramaticidade da cena. As pinturas eram menores, mas riquíssimas em detalhes, como vestimentas e joalheria.


Rembrandt, Autorretrato como Apóstolo Paulo (1661)


A segunda fase começa por volta de 1640, onde Rembrandt utiliza com maior profusão a monocromia em tons dourados, uma influência clara de Caravaggio, um dos primeiros grandes mestres do chiaroscuro, técnica com uma justaposição muito forte entre luzes e sombras, cujo resultado final é um efeito visual impressionante, criada por Leonardo Da Vinci. Porém o clima da pintura, ao invés de movimentos repentinos e fortes, torna-se mais leve, com personagens mais introspectivos e pensativos. A luz passa a ser não só um elemento que compõe o ambiente, mas começa a fazer parte do plano espiritual da pintura, como a luz da alma humana. Os efeitos de luz criam a forma e o espaço e a cor se subordina a estes, daí a ser chamado de mestre das luzes e sombras. A profundidade de seus quadros neste período é intensa, tocando ao extremo o observador Cada vez mais aproxima-se da técnica do grande mestre Ticiano, o que pode ser visto nas finalizações e na qualidade superficial de suas pinturas.



Rembrandt, Autorretrato (1661)


Rembrandt pintava em camadas de tintas, construindo a cena da região mais afastada até a sua frente, com o uso de vernizes entre estas camadas de tinta, que eram bem espessas, o que permitia uma ilusão de ótica graças à qualidade táctil da própria tinta. A manipulação tátil da tinta se aproximava de técnicas medievais, quando alguns efeitos de mimetismo transformavam a superfície da pintura. O resultado final varia muito no manuseio da tinta, sugerindo espaço de uma maneira altamente individual.



Rembrandt, Autorretrato (1669), ano de sua morte


Rembrandt pintou mais de cem autorretratos durante 40 anos. São leituras psicológicas de si mesmo, só comparáveis ao que Vincent van Gogh, outro holandês, realizou no século XIX.
Desde os primeiros anos felizes até a miséria do final da vida, o artista não condescendeu consigo próprio, não disfarçou nem alterou sua própria realidade, numa busca admirável pela verdade pessoal. Num dos seus últimos retratos, vê-se o olhar abatido de um Rembrandt idoso, resignado com a própria sorte, encarando com tristeza serena a própria pobreza e a solidão.



Cenas Bíblicas


Rembrandt, O Martírio de São Estevão, 1625 


Rembrandt, A Ressurreição de Lázaro (1630)


Rembrandt, Jeremias Lamentando a Destruição de Jerusalém, c. 1630 


Rembrandt, A Descida da Cruz, 1632-1633


Rembrandt, O Anjo impede o Sacrifício de Isaac (1635) 


Rembrandt, A Negação de Pedro, 1660


Rembrandt, O Retorno do Filho Pródigo, c. 1669

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Autorretrato" - Poema de Manuel Bandeira


Abel Manta, "O Violinista René Bohet, 1930"



Autorretrato


Provinciano que nunca soube 
Escolher bem uma gravata; 
Pernambucano a quem repugna 
A faca do pernambucano; 
Poeta ruim na arte da prosa 
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crónicas 
Ficou cronista de província; 
Arquiteto falhado, músico 
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado 
Ficou de fora); sem família, 
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito 
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão 
Um tísico profissional.





Abel Manta, "Barcos da Nazaré, 1936"


Abel Manta, "Natureza Morta com Safio"


Abel Manta, "Roque Gameiro, 1935"


Abel Manta, "Aquilino Ribeiro, 1936"


Abel Manta, "As Maçãs ou Retrato da Deolinda e do Júlio"


Abel Manta, "Vista de Viseu, 1949"


Abel Manta, "Silvinha, 1953"


Abel Manta, "Grupo do Consultório ou A Leitura, 1955"


Abel Manta, "Praça Luís de Camões, 1964"


Abel Manta, "Último Autorretrato, 1975"


Foto de Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura, Lisboa, 1973


"A pessoa mais necessária é aquela que o momento presente nos faz encontrar; e a coisa mais importante é fazer-lhe bem. Foi por isso que fomos lançados na vida."

(Liev Tolstoi)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Liberdade" - Poema de Bocage


Abel Manta, Vitral: "Ad Divitias Per Scientiam Numerorum", 1933




Liberdade 


Liberdade querida e suspirada, 
Que o Despotismo acérrimo condena! 
Liberdade, a meus olhos mais serena 
Que o sereno clarão da madrugada! 

Atende à minha voz, que geme e brada 
Por ver-te, por gozar-te a face amena! 
Liberdade gentil, desterra a pena 
Em que esta alma infeliz jaz sepultada! 

Vem, oh deusa imortal, vem maravilha, 
Vem oh consolação da humanidade, 
Cujo semblante mais que os astros brilha! 

Vem, solta-me o grilhão da adversidade! 
Dos céus descende, pois dos céus és filha, 
Mãe dos prazeres, doce Liberdade! 





Abel Manta, "Primeiro Autorretrato"



Abel Manta

Pintor e caricaturista português, João Abel Manta nasceu a 12 de outubro de 1888, em Gouveia, e morreu a 9 de agosto de 1982, em Lisboa. 
Ingressou na Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1908, onde se formou em Pintura, tendo como mestre o pintor Carlos Reis. Após uma estada em Paris entre 1919 e 1926, onde expôs algumas das suas obras nos salons, Abel Manta regressou a Portugal. Paralelamente ao exercício da docência da disciplina de Desenho, consagrou-se como pintor naturalista, particularmente no campo do retrato, da natureza-morta e da paisagem (As Maçãs, Folgosinho e Vistas de Gouveia, de 1925, são alguns dos quadros desta época). Em 1926, realizou uma exposição individual, às quais se seguiram exposições coletivas como o Salão de outono da Academia Nacional de Belas-Artes do mesmo ano e várias exposições no Salão de Arte Moderna do Secretariado da Propaganda Nacional.
Ao longo da sua carreira, foi agraciado com alguns prémios importantes, tendo conquistado, por exemplo, o prémio atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, na categoria de pintura, na I Exposição de Artes Plásticas, em 1957. Em 1979, foi condecorado pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda da Ordem de Sant'Iago de Espada.
Abel Manta destaca-se na sua geração pelo conjunto de excelentes retratos de personalidades da época que realizou. A ele se devem igualmente representações de paisagens urbanas, nomeadamente das cidades de Lisboa e do Funchal.
O quadro mais marcante da sua pouco divulgada obra é o Jogo de Damas, de 1927 (Coleção Museu do Chiado). A influência de Cézanne (pintor francês pós-impressionista) manifesta-se no tratamento das superfícies facetadas dos volumes e na acentuação do claro-escuro. A caracterização psicológica das figuras masculina e feminina presentes no quadro é acentuada pela representação dinâmica e quase abstrata do fundo.

Abel Manta. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-25].



Abel Manta, "Autorretrato com Paleta, 1939"


Abel Manta, "Folgosinho, 1925"


Abel Manta, "Vista Gouveia,1925"


Abel Manta, "Vista Gouveia,1925"


Abel Manta, "Jogo de Damas, 1927"


Abel Manta, "Fumador de Cachimbo, 1928"


Abel Manta, "Rua de São Bernardo, 1928"


Abel Manta, "Praça Luís de Camões, 1932"


Abel Manta, "Nu,1932"


Abel Manta, "Apolo e as Musas, 1934"


Abel Manta, Vitral: "Nossa Senhora de Belém, 1936"




Ruy Barbosa


"Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu."




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