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domingo, 9 de agosto de 2026

"Dia dos Pais" - Poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni



Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), "A Father's Return", n.d.

Dia dos Pais


Meu pai está tão velhinho, 
tem a mão branca e comprida, 
parecendo a sua vida, 
longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço 
de uma atlética altivez. 
Ah! Tinha força por três! 
Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer 
que você era um gigante. 
Eu ficava radiante 
e também me agigantava.

Porque toda madrugada, 
eu quentinho do agasalho, 
ao sair para o trabalho 
o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro 
parecia leve, leve 
naquela carícia breve 
que da memória não sai. 

Depois... um beijo em mamãe 
e o meu gigante partia. 
E a casa toda tremia 
com os passos de papai. 

Mas agora o seu retrato 
muito moço, muito antigo, 
se parece mais comigo 
do que mesmo com você.

Você já lembra vovô 
e, à medida que envelhece, 
papai, você se parece 
com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai? 
Quando mamãe, de repente, 
caiu de cama, doente, 
era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado 
a varrer... Quando eu o via 
de avental, papai, eu ria; 
eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio 
para ganhar ordenado, 
ajudar meu pai cansado, 
mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras: 
Sou um operário obscuro, 
mas você terá futuro, 
será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho 
a quem devo o pão e o estudo? 
Que é pobre porque deu tudo 
à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma, 
com toda a universidade, 
quisera eu ser a metade 
daquilo que você é.

E quero que você saiba 
que, entre amigos, conversando, 
meu assunto vai girando 
e no seu nome recai.

Da sua força, coragem, 
bondade eu conto uma história. 
Todos veem que a minha glória 
é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho 
no rio que estava cheio. 
Quando a correnteza veio, 
vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água 
nadando mais do que um peixe, 
salvou-me e disse:  Não deixe! 
Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte 
que respeitava a fraqueza. 
Nunca humilhou a pobreza, 
nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens 
e com Deus estava bem. 
Nunca fez mal a ninguém 
e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo 
Daquilo que não se esquece. 
E a minha voz estremece 
e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante 
e você é pequenino. 
Hoje sou eu que me inclino. 
Papai... a bênção, papai.

[Jornalista e poeta brasileiro, 19192008]
 
 ♥♥♥


Carl Larsson (Swedish painter, 1853–1919),
"Self-portrait with Brita", 1895 (watercolor)
 
O Dia do Pai (em Portugal e na Europa em geral) ou Dia dos Pais (no Brasil) é uma data comemorativa que homenageia anualmente os pais. A data varia de acordo com os países. Em Portugal e na Espanha é celebrada no dia 19 de março, enquanto no Brasil é celebrado no segundo domingo de agosto. Nos Estados Unidos e na Inglaterra é celebrado no terceiro domingo de junho.

terça-feira, 21 de julho de 2026

"Harmonia" - Poema de Miguel Torga

  

Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist and comic strip author, painter
and illustrator, 1914–2001), 'Family', 1942, Private Collection.

 
Harmonia 


Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


Miguel Torga,
in 'Orfeu Rebelde', 1958

***


Tove Jansson, 'Self-portrait with Wicker Chair', 1937.
 Private Collection
 

Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.

 
Tove Jansson, 'The Moomins'


A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna.  (daqui)

 
Tove Jansson
, 'A Famílias dos Mumins'
Tradução: Mafalda Eliseu
Relógio D'Água, 2015
 

Descrição 
 
 [A Família Mumin (edição brasileira) ou A Família dos Mumins (edição portuguesa)]
 
A primavera chegou ao vale dos Mumins, assim como uma cartola mágica que o Mumintroll e os seus amigos Farisco e Sniff descobrem, e que pode transformar qualquer coisa ou alguém em seja o que for. 

«Um tesouro perdido, agora redescoberto… Uma obra–prima.»
 Neil Gaiman

«Jansson era um génio de um modo subtil. Estas histórias simples estão repletas de emoções únicas, profundas e complexas, como jamais se viram em literatura para crianças ou adultos.»
 Philip Pullman 

«Tove Jansson é, sem dúvida, uma das maiores escritoras de livros para crianças.» 
 Sir Terry Pratchett (daqui)
 

'The Moomins', comic book cover by Tove Jansson. From left to right:
Sniff, Snufkin, Moominpappa, Moominmamma, Moomintroll (Moomin), 
the Mymble's daughter, Groke, Snork Maiden and Hattifatteners.



Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'



"Arte e vida se misturam.
 Fantasia e realidade se acrescentam."


Affonso Romano de Sant'Anna

[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]


terça-feira, 26 de maio de 2026

"Gato" - Poema de Antonio Fernando de Franceschi


 
Tsuguharu Foujita
(Japanese-French painter, 1886–1968),
'Chat roux assis' (Sitting ginger cat), oil on canvas, 1930.
 

 Gato


rasante zoom à risca:
decifro um gato
sob as unhas do menino
prévio ao meu temor:
movo-me entre as raias
com cuidado
evito o negro
onde me perco:
não toco o tigrado dorso
nem o riso convexo
olho:
desdobro um tanto a memória
que rumina: mão infante
o pintou zebrino
em véspera de pulo:
angulo o quadro dos bigodes
que sobram sobre as tetas
pois é fêmea
e trívio
como qualquer gato
mas esse exato
moveu geleiras


Antonio Fernando de Franceschi

(Poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro, 1942–2021)



Tsugouharu Foujita, 'Autoportrait dans l'atelier', s.d.
 
Léonard Tsuguharu Foujita (Tóquio, 27 de novembro de 1886 — Zurique, 29 de janeiro de 1968) foi um pintor modernista japonês que se naturalizou francês e converteu-se ao catolicismo. Nascido em Tóquio, ficou conhecido por aplicar técnicas japonesas em pinturas de estilo ocidental. Ele foi considerado "o mais importante artista japonês atuando no Ocidente durante o século 20".
Seu 'Livro dos Gatos' ('A Book of Cats'), publicado em Nova York por Covici Friede, 1930, com 20 desenhos gravados em chapa de Foujita, é um dos 500 livros raros mais vendidos no mercado e é classificado por negociantes de livros raros como "o livro sobre gatos mais popular e desejável já publicado."
 (daqui)
 

Musée des Beaux-Arts de Lyon.

terça-feira, 24 de março de 2026

"O Gato" - Poema de Mário Quintana


 
Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), White Cat, c. 1938,
Smithsonian American Art Museum.


O Gato


O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.


Mário Quintana (19061994),
in "Preparativos de Viagem", 1987.
 
 

Gertrude Abercrombie, Self-Reflection, 1953.

Gertrude Abercrombie (Austin, 17 de fevereiro de 1909 - Chicago, 3 de julho de 1977) foi uma pintora norte-americana radicada em Chicago. Chamada de "a rainha dos artistas boêmios", Abercrombie estava envolvida na cena jazzística de Chicago e era amiga de músicos como Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Sarah Vaughan, cuja música inspirou seu próprio trabalho criativo. (daqui)
 


Gertrude Abercrombie, "Doors And Two Cats", 1956.
 

"Os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões". 

Robertson Davies
(Escritor e jornalista canadiano, 19131995) (daqui)
 
 

Gertrude Abercrombie, "Demolition Doors", 1964, Illinois State Museum.


"Os gatos conseguem sem fadiga aquilo que continua a ser negado ao homem: atravessar a vida silenciosamente."

Atribuída a Ernest Hemingway (Escritor norte-americano, 18991961)
 
 
 
Gertrude Abercrombie, Blue Screen, 1945.


«A filosofia, que se faz passar por cura, é sintoma da perturbação que finge solucionar. Os outros animais não precisam de se distrair da sua condição. Nos humanos a felicidade é um estado artificial, nos gatos é sua condição natural. Os gatos nunca se aborrecem, a não ser que estejam confinados em ambientes que não lhes sejam naturais. O tédio é o medo de ficarmos sozinhos connosco. Os gatos sentem‑se felizes a ser gatos, os humanos tentam ser felizes a fugir de si.»

John Gray, in Filosofia Felina – Os Gatos e o Sentido da Vida. (daqui)



"Filosofia Felina — Os Gatos e o Sentido da Vida" de John Gray
Tradução de Nuno Quintas. Revisão de Helder Guégués.
Edição da Editorial Presença, 2021



SINOPSE

«Os seres humanos não se podem transformar em gatos. Contudo, se puserem de lado uma qualquer ideia que tenham da sua superioridade enquanto seres humanos, talvez consigam entender como os gatos prosperam sem andarem com interrogações agitadas sobre como viver.»

Nada prova que nós, humanos, tenhamos domesticado os gatos. Na verdade, tudo aponta para que tenham sido os gatos a perceber, em dado momento, o valor que os seres humanos podiam ter para eles. No seu novo livro, John Gray, um dos nomes maiores da filosofia atual, convida-nos a embarcar numa viagem pela história - filosófica e moral - da nossa relação com estes magníficos animais. A partir dos mais variados exemplos ao longo dos séculos, de Montaigne a Schopenhauer, Filosofia Felina revela-nos o fascínio e a complexidade por detrás dos nossos comportamentos e reações perante este inesperado animal de companhia.

É aos gatos, diz-nos John Gray, que devemos estar agradecidos, pois são talvez - e mais do que qualquer outra - a espécie que melhor traduz a nossa própria natureza animal. (daqui)
 
 

segunda-feira, 16 de março de 2026

"Vaidade, tudo vaidade!" - Poema de António Nobre

 


Martin Ferdinand Quadal (Czech-Austrian painter and engraver, 1736–1809),
"Self-Portrait at the easel with his pet dog", 1788, Cincinnati Art Museum.

 
Vaidade, tudo vaidade!


Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! Eu volto-lhes o rosto…
E isto em mim não será uma vaidade?
 

António Nobre
(1867–1900), in "Só"



Martin Ferdinand Quadal, "Self-Portrait with his dog, sitting at his easle", 1787.


"Por que desejar outro universo se este tem cachorros?"
 
  Matt Haig, in "A Biblioteca da Meia-Noite",
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021.
(Tradução de Adriana Fidalgo)



sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"Lamento da mãe orfã" - Poema de Cecília Meireles

 

 
Otto Freundlich
(German painter and sculptor of Jewish origin, 1878–1943),
The Mother, 1921, Berlinische Galerie.



Lamento da mãe orfã


Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da humidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, – em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.


Cecília Meireles,
in "Mar absoluto", 1945
.


 
Otto Freundlich, "Kopf (Selbstbildnis)", Head (Self -Portrait), 1923.


Otto Freundlich (Słupsk, Pomerânia, 10 de julho de 1878—Majdanek, 9 de março de 1943) foi um pintor e escultor alemão. 
Estudou odontologia, antes de decidir converter-se em artista. Em 1909 viajou a Paris, onde conheceu  Picasso. Adscrito por um tempo ao cubismo, mudou para a arte abstrata em 1919, sendo membro dos grupos Cercle Carré e Abstraction-Création, assim como do agrupamento artístico de signo político Novembergruppe
De origem judaica, foi qualificado pelos nazistas como "artista degenerado", sendo eleita a sua obra O Homem Novo (Der Neue Mensch) para a capa do catálogo da exposição Arte degenerada - celebrada em Munique em 1937 -  antes de ser destruída. 
Morreu no campo de concentração de Majdanek, na Polónia. (daqui)
 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Eu queria ser Pai Natal" - Poema de Luísa Ducla Soares


Antonio García Mencía
(Spanish painter and illustrator, c. 1849/53
1915/20),
 "Memories of Christmas", Unknown date.
 

Eu queria ser Pai Natal


Eu queria ser Pai Natal
E ter carro com renas
Para pousar nos telhados
Mesmo ao pé das antenas.

Descia com o meu saco
Ao longo da chaminé,
Carregado de brinquedos
E roupas, pé ante pé.

Em cada casa trocava
Um sonho por um presente
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente!


Luísa Ducla Soares
in "Poemas da Mentira e da Verdade".

Livros Horizonte
 
 

"Poemas da Mentira e da Verdade" de Luísa Ducla Soares
Ilustração: Ana Cristina Inácio
Editor: Livros Horizonte



SINOPSE

"Os Poemas da Mentira e da Verdade" são dois olhares simultâneos sobre a realidade. O da imaginação, da fantasia, do “nonsense” e o da seriedade, da objetividade, do espírito crítico. Num e noutro perpassa um humor muito característico da autora. Dedicados a crianças avessas à leitura e particularmente à poesia, este livro cativá-las-á pela irreverência, pelo jogo de palavras, pela cumplicidade com o mundo das crianças. Revela-se, na opinião de muitos professores, como um excelente recurso para os miúdos que não lêem. (Livro recomendado pelo plano nacional de leitura para o 1.º ciclo do ensino básico.)



Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
 Self-portrait with her son, 1895, Gothenburg Museum of Art.
 
Jenny Nyström (Kalmar, 1854 - Estocolmo, 1946) foi uma pintora e ilustradora sueca de livros para crianças. 
Dedicou-se sobretudo à pintura de retrato e paisagem, sendo principalmente conhecida por ter sido a criadora da figura do pai natal sueco (jultomte), ligando a figura do pai natal tradicional ao Tomte tradicional do folclore escandinavo.
 
 
 Christmas cards by Jenny Nyström

Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
God Jul ("Happy Christmas!"). 



Jenny Nyström, Girl posting a letter.
 

Jenny Nyström, Children dancing around the Christmas Tree, ca. 18951897.


 
 

Jenny NyströmSanta Claus with child. 


"Natal não é natal sem um presente."

"Christmas won’t be Christmas without any presents." 

Louisa May Alcott, in "Little Women", 1868.
 

domingo, 23 de novembro de 2025

"Teu corpo" - Poema de Ferreira Gullar

  

Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), The Old Fisherman
("Kalastava ukko"), 1896.



Teu corpo
 

O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.

É um ser estranho
que tem teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.

Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
– que a cada dia
mais difere de ti.

E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.

E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
Poderás detê-la
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?

Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.

Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo – morre –
quem diz a ele – envelhece –
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?


Ferreira Gullar
, Barulhos, 1997.


 
Albert Edelfelt, Old Woman with a Splint Basket, 1882.
Finnish National Gallery
 

"Nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio!"
 
 


Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), Self-Portrait, 1889. 
(Self-Portrait in Dress of the 17th Century), 
Finnish National Gallery. 
 

"Não quero ter razão, quero ser feliz. E, para ser feliz, há que ser justo."
 
 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

"Retrato" - Poema de Almeida Garrett



Alexander Roslin (Swedish painter, 17181793),
Double portrait of Roslin and his wife, 1767.



Retrato
(Num Álbum)



Ah! despreza o meu retrato
Que lhe eu queria aqui pôr!
Tem medo que lhe desfeie
O seu livro de primor? 
Pois saiba que por despique
Eu sei também ser pintor:
Com esta pena por pincel,
E a tinta do meu tinteiro,
Vou fazer o seu retrato
Aqui já de corpo inteiro.

Vamos a isto. – Sentada
Na cadeira moyen-âge,
O cabelo en châtelaines,
As mangas soltas. – É o traje.

Em longas pregas negras
Caía o veludo e arraste;
De si com desdém régio
Com o pezinho o afaste...

Nessa atitude! Está bem:
Agora mais um jeitinho;
A airosa cabeça a um lado
E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,
Nem Daguerre lhos tira melhor.
Este é o ar, esta a pose, eu lho juro,
E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difícil:
Tirar feição por feição;
Entendê-las, que é o ponto,
E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são cor da noite,
Da noite em seu começar,
Quando inda é jovem, incerta,
E o dia vem de acabar;

Têm uma luz que vai longe,
Que faz gosto de queimar:
É uma espécie de lume
Que serve só de abrasar.

Na boca há um sorriso amável.
Amável é... mas queria
Saber se é todo bondade
Ou se meio é zombaria.

Ninguém mo diz? O retrato
Incompleto ficará,
Que nestas duas feições
Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho
É tudo o que nele fiz;
E o que lhe falta – que é muito,
Também o espelho o não diz.
 
 

Alexander Roslin (Swedish painter, 1718–1793), A portrait of Roslin's wife,
Marie-Suzanne Giroust-Roslin
, 1770.


"É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra. Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós."

Miguel Torga, Diário XV

domingo, 14 de setembro de 2025

"Mulher" - Poema de José Carlos Ary dos Santos


 Ezequiel Pereira (Pintor português, 1868 - 1943), "Lavando roupa no rio", 1894.


Mulher


A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama.

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração.

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha.

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são.

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade.

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher.


José Carlos Ary dos Santos
(Poeta e declamador português, 1936–1984)



Ezequiel Pereira, Cruz Quebrada, 1891.


"No homem, o desejo gera o amor; na mulher o amor gera o desejo."

"In men, desire begets love, and in women, love begets desire."
 
Jonathan Swift

Citando Fitzharding, em carta de 28 de outubro de 1712 in "The works of Jonathan Swift:
containing additional letters, tracts, and poems not hitherto published;
with notes, and a life of the author"‎ - Volume 3, Página 61.

 
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Ezequiel Pereira, pintor paisagista e professor, nasceu em Lisboa em 1868. Discípulo de Silva Porto, estudou em Paris e destacou-se no ensino artístico durante 40 anos. Foi premiado em várias exposições e condecorado pelo Governo. Viveu entre Lisboa, Ponta Delgada e Faro, deixando um legado de dedicação à arte e à educação. Faleceu em 1943, tendo a sua obra sido homenageada postumamente.


 
Duarte Faria e Maia (Pintor açoriano, 1867 - 1922), 
Autorretrato, c. 1897, Museu Carlos Machado.
 
Duarte Faria e Maia estudou em Paris, em 1887, onde foi discípulo de Blanc, Dupain e Olivier Merson, destacando-se como pintor de costumes populares, da vida rural e de paisagens. Participou nas exposições do Grémio Artístico, em 1882, na Sociedade Promotora de Belas-Artes, em 1887, e na 1ª Exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1901. 
A principal coleção das suas pinturas encontra-se no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, instituição que possui cerca de três dezenas de obras deste pintor. Está representado no Museu do Chiado, em Lisboa, com o Retrato do Pintor Ezequiel Pereira (1903).