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sábado, 3 de março de 2012

"As Bolas de Sabão" - Poema de Alberto Caeiro



Adolf Lins (German painter, 1856–1927), 'Blowing Bubbles', 1885


As Bolas de Sabão


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,

Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

11-3-1914

Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


Vanessa Carlton - Pretty Baby


domingo, 13 de novembro de 2011

"Sugestão - Poema de Cecília Meireles



Adolf Lins (German painter, 1856
–1927), 'Ducks at the Stream', n.d.


Sugestão


Sede assim — qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.


Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto'


 
Adolf Lins (German painter, 1856–1927), 'Duck Pond' ('Entenweiher'), n.d.