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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"Roteiro" - Poema de João Rui de Sousa


Pintura de Gleb Goloubetski


Roteiro


Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.

Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.

Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,

E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.


Pintura de Gleb Goloubetski


"Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos."



domingo, 17 de abril de 2016

"Não deixeis um grande amor" - Poema de José Tolentino Mendonça





Não deixeis um grande amor


Aos poucos apercebi-me do modo 
desolado incerto quase eventual 
com que morava em minha casa 

assim ele habitou cidades 
desprovidas 
ou os portos levantinos a que 
se ligava apenas por saber 
que nada ali o esperava 

assim se reteve nos campos 
dos ciganos sem nunca conseguir 
ser um deles: 
nas suas rixas insanas 
nas danças de navalhas 
na arte de domar a dor 

chegou a ser o melhor 
mas era ainda a criança perdida 
que protesta inocência 
dentro do escuro 

não será por muito tempo 
assim eu pensava 
e pelas falésias já a solidão 
dele vinha 

não será por muito tempo 
assim eu pensava 
mas ele sorria e uma a uma 
as evidencias negava 

por isso vos digo 
não deixeis o vosso grande amor 
refém dos mal-entendidos 
do mundo 


in 'Longe não Sabia' 


Gleb Goloubetski, Deep Silence


"Faltam-nos hoje não apenas mestres da vida interior, mas simplesmente da vida, de uma vida total, de uma existência digna de ser vivida. Faltam cartógrafos e testemunhas do coração humano, dos seus infindos e árduos caminhos, mas também dos nossos quotidianos, onde tudo não é e é extraordinariamente simples. Falta-nos uma nova gramática que concilie no concreto os termos que a nossa cultura tem por inconciliáveis: razão e sensibilidade, eficácia e afetos, individualidade e compromisso social, gestão e compaixão, espiritualidade e sentidos, eternidade e instante. Será que do instante dos sentidos podemos fazer uma mística? Não tenhamos dúvidas: o que está dito permanece ainda por dizer."




terça-feira, 22 de maio de 2012

"Sempre" - Poema de Pablo Neruda


Pintura de Gleb Goloubetski
 
 

Sempre 


Ao contrário de ti 
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem 
às costas, 
vem com cem homens nos teus cabelos, 
vem com mil homens entre os seios e os pés, 
vem como um rio 
cheio de afogados 
que encontra o mar furioso, 
a espuma eterna, o tempo. 

Trá-los todos 
até onde te espero: 
estaremos sempre sozinhos, 
estaremos sempre tu e eu 
sozinhos na terra 
para começar a vida. 
 
 
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
Tradução de Nuno Júdice
 

Pintura de Gleb Goloubetski


"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem."

(Pablo Neruda)


Pintura de Gleb Goloubetski


"Nem acredites se pensas que te falo: palavras são meu jeito mais secreto de calar." 

(Lya Luft)


Pintura de Gleb Goloubetski


"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes."

(Khalil Gibran)

sábado, 5 de novembro de 2011

"Primeira Casa" - Poema de Inês Lourenço


Pintura de Gleb Goloubetski
 


Primeira Casa


Muitas vezes, por outras casas 
e noutros países sonhava 
com o soalho antigo e a varanda 
onde um entardecer de plátanos 
enchia o peito de uma secreta 
ansiedade, sem motivo. O quarto 
da Mãe, esse lugar de mistérios 
fixara-se na sua memória, como 
um quadro de autor irremediavelmente 
perdido. Sempre que regressava 
minguava-lhe a coragem adiada 
para pedir aos ocasionais locatários, 
a permissão provavelmente estranha de 
uma visita. Um dia a velha casa 
debruçada sobre os telhados, 
apareceu-lhe quase demolida e agora 
avultava como um dente postiço, com 
uma loja de lingerie barata no 
rés-do-chão e um par de janelas 
com alumínio e sem mistério 
onde os plátanos, há muito ceifados 
pelo asfalto, recusariam entardecer. 
 

Inês Lourenço,
in 'Um Quarto com Cidades ao Fundo' 
 
 

Quinta do Bill - 'Vai e sê feliz'


"Mil dias não bastam para aprender o bem; mas para aprender o mal, uma hora é demais."

(Confúcio)