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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"Roteiro" - Poema de João Rui de Sousa



Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)


Roteiro


Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais. 

Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.

Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,

E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o polo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.


João Rui de Sousa
[Poeta, tradutor e ensaísta português, n. 1928]




Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)


"Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos."

(Vergílio Ferreira)


domingo, 17 de abril de 2016

"Não deixeis um grande amor" - Poema de José Tolentino Mendonça



Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)


Não deixeis um grande amor 


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidencias negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo


José Tolentino Mendonça,
in 'Longe não Sabia'




Gleb Goloubetski, 'Deep Silence' 

"Faltam-nos hoje não apenas mestres da vida interior, mas simplesmente da vida, de uma vida total, de uma existência digna de ser vivida. Faltam cartógrafos e testemunhas do coração humano, dos seus infindos e árduos caminhos, mas também dos nossos quotidianos, onde tudo não é e é extraordinariamente simples. Falta-nos uma nova gramática que concilie no concreto os termos que a nossa cultura tem por inconciliáveis: razão e sensibilidade, eficácia e afetos, individualidade e compromisso social, gestão e compaixão, espiritualidade e sentidos, eternidade e instante. Será que do instante dos sentidos podemos fazer uma mística? Não tenhamos dúvidas: o que está dito permanece ainda por dizer."


terça-feira, 22 de maio de 2012

"Sempre" - Poema de Pablo Neruda



Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)



Sempre


Ao contrário de ti
não tenho ciúmes. 

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos teus cabelos,
vem com mil homens entre os seios e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo.

Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida.


Pablo Neruda,
in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
Tradução de Nuno Júdice 
 
 

Gleb Goloubetski


"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem."

(Pablo Neruda)



Gleb Goloubetski


"Nem acredites se pensas que te falo: palavras são meu jeito mais secreto de calar."

(Lya Luft)



Gleb Goloubetski


"A neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes."

(Khalil Gibran)

sábado, 5 de novembro de 2011

"Primeira Casa" - Poema de Inês Lourenço



Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)


Primeira Casa


Muitas vezes, por outras casas
e noutros países sonhava
com o soalho antigo e a varanda
onde um entardecer de plátanos
enchia o peito de uma secreta
ansiedade, sem motivo. O quarto
da Mãe, esse lugar de mistérios
fixara-se na sua memória, como
um quadro de autor irremediavelmente
perdido. Sempre que regressava
minguava-lhe a coragem adiada
para pedir aos ocasionais locatários,
a permissão provavelmente estranha de
uma visita. Um dia a velha casa
debruçada sobre os telhados,
apareceu-lhe quase demolida e agora
avultava como um dente postiço, com
uma loja de lingerie barata no
rés-do-chão e um par de janelas
com alumínio e sem mistério
onde os plátanos, há muito ceifados
pelo asfalto, recusariam entardecer.


Inês Lourenço,
in 'Um Quarto com Cidades ao Fundo' 


Quinta do Bill - 'Vai e sê feliz'



"Mil dias não bastam para aprender o bem; mas para aprender o mal, uma hora é demais."

Confúcio
[Pensador, professor e filósofo chinês, 551 a.C. – 479 a.C.]