sábado, 5 de novembro de 2011

"Primeira Casa" - Poema de Inês Lourenço


Pintura de Gleb Goloubetski
 


Primeira Casa


Muitas vezes, por outras casas 
e noutros países sonhava 
com o soalho antigo e a varanda 
onde um entardecer de plátanos 
enchia o peito de uma secreta 
ansiedade, sem motivo. O quarto 
da Mãe, esse lugar de mistérios 
fixara-se na sua memória, como 
um quadro de autor irremediavelmente 
perdido. Sempre que regressava 
minguava-lhe a coragem adiada 
para pedir aos ocasionais locatários, 
a permissão provavelmente estranha de 
uma visita. Um dia a velha casa 
debruçada sobre os telhados, 
apareceu-lhe quase demolida e agora 
avultava como um dente postiço, com 
uma loja de lingerie barata no 
rés-do-chão e um par de janelas 
com alumínio e sem mistério 
onde os plátanos, há muito ceifados 
pelo asfalto, recusariam entardecer. 
 

Inês Lourenço,
in 'Um Quarto com Cidades ao Fundo' 
 
 

Quinta do Bill - 'Vai e sê feliz'


"Mil dias não bastam para aprender o bem; mas para aprender o mal, uma hora é demais."

(Confúcio)

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