terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Inscrição para um portão de cemitério" - Poema de Mário Quintana



Emil Nolde (German painter and printmaker, 1867–1956),
 'Irises and poppies' 


Inscrição para um portão de cemitério


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!" 
 

Mário Quintana (1906–1994),
in 'A Cor do Invisível'



Emil Nolde, 'Blumengarten', 1908


Dos mundos


Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.


Mário Quintana,
 in 'Espelho Mágico'
 

 
Emil Nolde, 'Large poppies', 1942


Os degraus


Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...


Mário Quintana,  
in 'Baú de Espantos'
 


Emil Nolde, 'Flower garden' (Marigolds), 1919


Da discrição


Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...


Mário Quintana,  
in 'Espelho Mágico'
 


Emil Nolde, 'Sunflowers' 


Das utopias


Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


Mário Quintana,  
in 'Espelho Mágico'



Emil Nolde, 'Sunflowers', 1917

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