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domingo, 29 de janeiro de 2012

"Navio de sal" - Poema de Vitorino Nemésio



Joseph Wopfner (Austrian landscape painter, 1843–1927), 'Bodenseefischer', c. 1927


Navio de sal


Quando eu era pequeno, vinha o navio de sal,
Era um acontecimento!
E meu tio António Machado ia sempre ao areal
Com o seu óculo de alcance desencanudado a barlavento.
Era um iate cheio de cordas e de velas,
Chamado Santo Amaro, o Veloz ou o Diligente,
E, como trazia o sal, que é o sabor das panelas,
Era esperado tal qual como se fosse um ausente.
Na barra do horizonte era um ponto sozinho,
Mas crescia no vento a sua vela crua,
E o sol, ao morrer, tingia-lhe de vinho
A proa que vestia a pau a vaga nua.
Ali vinha, do Alto, sem sextante nem erro,
Enchendo devagar as previstas derrotas,
E plantava no fundo a sua raiz de ferro
Fazendo abrir no céu como flores as gaivotas.
As raparigas sãs da ribeira do mar,
Que traziam na pele um aroma silvestre,
Punham os olhos muito compridos, a cismar,
Nas cordas que secavam as roupas íntimas do Mestre.
Os pescadores mediam com a linha das pestanas
O tamanho do Audaz, a sua popa alceira:
Nunca tinha arribado àquelas praias insulanas
Tanto pano de verga, tanto oleado, tanta madeira!
Por isso a Vila, abrindo nas rochas duras
A branca humanidade das suas nocturnas casas,
Se encostava ao bater daquelas velas escuras
Como o corpo de um pássaro se deixa levar pelas asas.
(...) 
Ah, se ele fosse salgar os caldos já tragados,
Tornar incorruptível a mocidade já verde,
Interessar o óculo do velho tio e os vidros suados
Da janela que ao longe este horizonte perde!
Se fosse encher de branco as paragens insossas,
Manter o gosto a vida aos dias moribundos,
Conservar as faces às moças
E o movimento aos mares profundos,
Então sim! levaria a porto e salvamento
A sua carga.
Na dúvida, Capitão, espera o vento,
Iça as velas e larga!


Vitorino Nemésio, 
in "O Bicho Harmonioso", 1938
 

Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio nasceu em Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, a 19 de Dezembro de 1901. A infância e a adolescência foram vividas na cidade de Angra do Heroísmo. 
Após os estudos liceais, matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, mas acabou por se licenciar em Filologia Românica. 
A partir de 1940 foi professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Colaborou com a revista «Presença» e, após ter lecionado nas Universidades de Montpellier e de Bruxelas, fundou, em 1937, a importante «Revista de Portugal». 
Escreveu inúmeras crónicas para os jornais e participou em programas emitidos pela rádio e pela televisão. Destacam-se as conversas que manteve com os telespectadores, nos anos setenta, intituladas «Se bem me lembro». Paralelamente a esta atividade, foi erguendo uma vasta obra que, no domínio da poesia, é considerada uma das mais importantes da literatura portuguesa. 
Na ficção, o romance «Mau Tempo No Canal» é a sua obra-prima e «encarna a alma popular das Ilhas» (Óscar Lopes).
Morreu em Lisboa, em 1978.



Joseph Wopfner, 'Chiemseefischer im dunstigen Licht am frühen Morgen' 



"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver."

Dalai Lama


U2 - Love Is Blindness

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

"Oceano Nox" - Poema de Antero de Quental



Albert Flamm (German landscape painter, 1823–1906),
View of the Gulf of Naples with the Palace of Queen Joanna, n.d.


Oceano Nox


Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Antero de Quental, 
Poesia Completa, 1842–1891
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001



Albert Flamm, Roman Campagna landscape with ruins and farmers, n.d.


[...]
Todos sabem... E não sabem
que a Luz é tísica,
e a Sombra é gorda
E não sabem que o Mistério sintetiza...
que ele é a corcova
musical e triste que denuncia à distância
o passo meridiano dos limites aos Limites.

Eu nasci num dia
em que Deus ficou enfermo,
grave.


César Vallejo, 
in Los Heraldos Negros, 1918

[César Abraham Vallejo Mendoza (Santiago de Chuco, 1892  Paris, 1938) foi um poeta de tendência vanguardista, unanimemente considerado pela crítica especializada como um dos maiores poetas hispano-americanos do século XX e o maior poeta peruano, tendo sido também contista, romancista, dramaturgo e ensaísta. Conforme o escritor uruguaio Mario Benedetti, é o mais influente poeta das letras hispano-americanas na atualidade, juntamente com Pablo Neruda, poeta que costumava se referir ao peruano como melhor poeta do que ele próprio.]


U2 - With Or Without You



"Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado." 

Albert Einstein