Mostrar mensagens com a etiqueta Hélder Macedo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hélder Macedo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Não há mistério" - Poema de Hélder Macedo

 
 
Guilherme Parente (Pintor português, 1940–2025), 'Vem por aqui', s.d.


Não há mistério


Não há mistério
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos

não há não há mistério

e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber

há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida

por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
mas não falo já de mim nem para ti

porque não és o corpo
que reflito
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
sossega meu amor

não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.


Hélder Macedo,
in 'O Lago Bloqueado', 1977
 

 
Hélder Macedo (daqui)

Poeta, romancista e ensaísta português, Hélder Malta Macedo nasceu a 30 de novembro de 1935, em Krugersdorp, na África do Sul. Passou a infância em Moçambique e regressou a Lisboa com 12 anos, tendo mais tarde frequentado a Faculdade de Direito de Lisboa. Ainda na fase da juventude, deu os primeiros passos no domínio da ficção literária, escrevendo um romance e alguns contos que o regime ditatorial instaurado em Portugal censurou, impedindo a sua publicação - o livro foi, após a revolução de 1974, revisto pelo autor, que decidiu não o publicar. Contudo, conseguiu editar o seu primeiro livro de poemas com 21 anos de idade.
Empenhado na sua vida académica, fez uma pausa na escrita que só retomou anos mais tarde. Jovem de convicções anti-fascistas, foi perseguido pela PIDE (Polícia de Intervenção e Defesa do Estado). Aquando da campanha de Humberto Delgado, que recebeu o seu empenhamento entusiasta, não conseguiu iludir a vigilância da ditadura e foi preso.
Exilou-se em Londres em 1960, vindo a formar-se em Literatura e História. Docente do King's College, aí realizou os seus estudos de doutoramento.
Em 1991 e 1998 editou os romances Partes de África e Pedro e Paula, respetivamente, que considera serem reflexo da sua identidade, declarando que neles "há, salvo o erro, uma dicção, uma voz própria, minha?". Intelectual humanista, afirma que a sua obra narrativa, apesar de idealista, "não é de ilusões". Concretamente, Pedro e Paula, romance político e cívico, retrata o que é fundamental numa época, a época de 60, vivenciada pelo autor e caracterizada pela total ausência de liberdade e por uma guerra colonial que afetava milhares de famílias portuguesas. Por isso, afirma Hélder Macedo que esta obra "prende-se com a sua própria memória portuguesa dos anos de ditadura e guerra colonial". Reavaliando a história portuguesa de um passado muito recente, este romance constituiu um sucesso no meio editorial.
Coorganizador de Folhas de Poesia, Hélder Macedo colaborou em várias publicações, como Graal, Hidra I ou Colóquio/Letras. No domínio do ensaio, Hélder Macedo distinguiu-se com estudos de crítica literária que apresentavam perspetivas inovadoras sobre a conexão do texto literário com o horizonte mental e cultural em que foi produzido. Dessa bibliografia ensaística merecem especial destaque os conhecidos estudos Do Significado Oculto da "Menina e Moça" (prémio da Academia de Ciências de Lisboa) e Camões e a Viagem Iniciática, onde o privilégio de uma interpretação esotérica permitiu a explanação de um sentido novo para textos clássicos da literatura portuguesa.
No domínio da poesia, Hélder Macedo, tendendo a estabelecer nexos de intertextualidade a nível de temas e formas com alguns dos seus autores de eleição, nomeadamente com Camões e Cesário Verde, ocupa pelo equilíbrio que mantém entre discursividade e formas rítmicas, entre metaforização e expressão pessoal, um lugar singular na atual poesia portuguesa.
Publicou Vícios e Virtudes (2000) e o livro Viagem de Inverno e Outros Poemas, uma coletânea da sua poesia, editada pela Editora Record, do Brasil.
Tendo vivido em Portugal entre 1975 e 1980, onde exerceu, durante um curto período, funções públicas e políticas, Hélder Macedo tornou-se professor de Literatura Portuguesa no King's College de Londres, onde se encontra a viver há anos, embora nunca abdicando da sua condição de português livre. (daqui)

sábado, 28 de outubro de 2017

"Eu sabia por ela as estações" - Poema de Hélder Macedo



Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
'Chestnut trees at the Jas de Bouffan', c. 1885–1887. 
Minneapolis Institute of Art



Eu sabia por ela as estações


Eu sabia por ela as estações
os esquilos os corvos as gaivotas.
Chegada a primavera abria os nós
em flores precipitadas e carnudas
de longas redondezas tateantes
que batiam no vidro da janela.
Não dava fruto a minha castanheira
e na verdade não era sequer minha
ou só seria porque nos olhámos
cada manhã por mais de trinta anos.
Mas dava flores e esquilos e gaivotas
verão outono corvos primavera
sem contabilidades biológicas
doutras fertilidades transmissíveis.
Dava flores como se desse versos
sem precisar por isso de escrevê-los
como os amantes se amam num só corpo
sem ver onde um começa e o outro acaba
aberta toda em lábios vaginais
com uterinos longos falos brancos.
Também este ano floriu no tempo certo.
Mas o inverno chegou em plenas maias.
Disseram que a raiz rachou ao meio
que o centro do seu tronco estava oco
não percebiam como tinha flores.
Cortaram membro a membro a minha árvore
ficou só a raiz e o seu vazio
e sobre o campo em volta a neve quente
das suas flores perplexas
impossíveis. 


Hélder Macedo, in "A Viagem de Inverno"

Lisboa: Presença, 1994