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sábado, 16 de agosto de 2025

"Quando eu for grande" - Poema de Anthero Monteiro



Charles Spencelayh (English painter, 1865-1958), "True to his colours", s.d.


Quando eu for grande


quando eu for grande
quero ser do tamanho de uma brisa
suave leve improvisa

quero ser um olhar de violeta
o verso livre de um poeta
um rouxinol e o seu estribilho

quero ser uma borboleta escondida
a espreitar a vida
da corola de um pampilho

quando for maior muito maior
nem preciso ser mais do que um aceno

enfim quando for grande
quero ser pequeno 


Anthero Monteiro
(Poeta e professor português, 1946 - 2022)

 

 
Charles Spencelayh, "Changing the clocks", s.d.
 

"Melhor três horas mais cedo do que um minuto atrasado." 

(William Shakespeare)

quarta-feira, 19 de março de 2025

"Sem um filho te apagarás no poente" - Poema de William Shakespeare

 


Fritz Zuber-Buhler
(Swiss painter, 1822–1896), New Beginnings.
 


Sem um filho te apagarás no poente 


A luz real ergueu-se a oriente
com a coroa de fogo na cabeça:
e o nosso olhar, vassalo obediente,
ajoelha ante a visão que recomeça.
Enquanto sobe, Sua Majestade,
a colina do céu a passos de oiro,
adoramos-lhe a adulta mocidade
que fulge com as chamas dum tesoiro.
Mas quando o carro fatigado alcança
o cume e se despenha pela tarde,
desviamos os olhos já sem esperança:
no crepúsculo estéril nada arde.
Assim tu, meio dia ainda ardente,
sem um filho te apagarás no poente.


William Shakespeare
, in "Sonetos"
Tradução de Carlos de Oliveira


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

"Macbeth" - Tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare

  
Théodore Chassériau (1819-1856), Macbeth and Banquo Meeting the Witches on the Heath, 1855.
An example of one of Chassériau's many works inspired by Shakespeare, Musée d'Orsay


Macbeth


Macbeth é o mais tenebroso dos dramas shakespearianos, segundo o crítico literário Harold Bloom. Retrata a ambição do poder, o seu fervor maligno que empurra para o crime, o pesadelo dos remorsos e a atração para o mal como fruto de um contínuo apertar da intriga.
A peça é uma ótima oportunidade para refletir sobre aspetos sombrios e atemporais do comportamento humano, como ganância, traição e culpa. 

A história desenrola-se na Escócia, no século XI. Os generais Macbeth e Banquo retornam vitoriosos de uma batalha. No caminho para casa, eles se deparam com três bruxas que fazem uma profecia:
Macbeth se tornará barão e depois, rei. E os filhos de Banquo serão os próximos soberanos.

Assim que o primeiro presságio se concretiza e Macbeth é nomeado barão, a vontade de se tornar monarca ganha espaço no coração do general. Mas é Lady Macbeth quem mais demonstra avidez com a possibilidade de virar rainha. Perversa e ardilosa, ela convence o marido de que o assassinato do rei Duncan da Escócia é um passo imprescindível para a realização da profecia.

Antes do crime, Macbeth pensa em recuar – afinal, ele é parente próximo do rei, um líder bom e justo. Porém, sua esposa consegue persuadi-lo e ele executa o monarca com um golpe de punhal.
O peso da coroa, no entanto, traz apenas tormento e insónia ao novo rei. Sofrendo de dores terríveis de consciência, ele é incapaz de usufruir o que almejou. Ao mesmo tempo, teme a perda do poder recém-conquistado.


Johann Heinrich Füssli, The sleepwalking Lady Macbeth, c.1781-1784


No decorrer da trama, Macbeth vai se tornando cada vez mais insensível, sujando cada vez mais suas mãos de sangue. Por outro lado, Lady Macbeth, tomada pela culpa, passa a ter alucinações perturbadoras e suicida-se.


William Rimmer (American, 1816–1879), Three Witches, c. 1850
(Rimmer's depiction of a scene from William Shakespeare's Macbeth)


Macbeth lembra-se da profecia das bruxas e passa a temer Banquo. Então, contrata assassinos para matá-lo junto com seu filho, Fleance. No ataque, Banquo é morto mas o filho consegue escapar.
Vendo que o herdeiro de Banquo continua vivo, Macbeth desespera-se ao perceber que a profecia das bruxas irá cumprir-se.


Théodore Chassériau (1819-1856), Macbeth apercevant le spectre de Banquo, 1855
(A scene from William Shakespeare's Macbeth)


Logo após o assassinato, a meio de um delírio, Macbeth vê o fantasma de Banquo sentado à mesa de seu castelo, durante um banquete que oferecia a seus nobres.
Mais tarde, frente às bruxas, Macbeth novamente tem uma visão de Banquo, desta vez acompanhado por sua longa descendência real.
No final da obra, Macbeth é assassinado e o legítimo herdeiro do rei Duncan, Malcolm, é coroado rei.



O ator Thomas W. Keene como Macbeth, em cartaz de espetáculo teatral, 1884


As principais fontes de Shakespeare para a Tragédia Macbeth são os relatos dos reis Duff e Duncan nas Crónicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, de 1587, uma história das Ilhas Britânicas familiar a Shakespeare e seus contemporâneos, e pelos escritos do filósofo escocês Hector Boece.

Ao longo dos séculos a peça atraiu alguns dos maiores atores de seu tempo para os papéis de Macbeth e Lady Macbeth. A obra já foi adaptada para o cinema, televisão, ópera, banda desenhada e muitas outras mídias. 



O Retrato de Chandos, óleo sobre tela, 
de autoria desconhecida.


O Retrato de Chandos é um dos mais famosos retratos que supostamente representam o dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616). O nome pelo qual é conhecido o quadro deriva de James Brydges, 3o Duque de Chandos, um dos seus primeiros donos.
Pintado por volta de 1610, o retrato é o único que pode ter sido realizado durante a vida de Shakespeare. Também pode ter sido a base da gravura que representa o poeta no First Folio de 1623, uma edição de suas obras. Não se conhece o autor da pintura.
O retrato encontra-se hoje na National Portrait Gallery de Londres, sendo o primeiro adquirido pela galeria em 1856, ano de sua fundação.
Fonte: Wikipédia

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

"Ser ou não ser, eis a questão" - Poema de William Shakespeare


Hugues Merle, Hamlet and Ophelia, 1873


Ser ou não ser
(tradução de Machado de Assis)

Hamlet, Ato 3 Cena 1

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida coisa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.


William Shakespeare,
em “Poesias Ocidentais”/Obra Completa,
de Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
(Publicado originalmente em Poesias Completas: 
Machado de Assis, Rio de Janeiro: Garnier, 1901)



John William Waterhouse, Ophelia, 1894


Ser ou não ser
(Tradução de  Bárbara Heliodora)

 Hamlet, ato III, cena 1

Ser ou não ser, essa é que é a questão:
Será mais nobre suportar na mente
As flechadas da trágica fortuna,
Ou tomar armas contra um mar de escolhos
E, enfrentando-os, vencer? Morrer, dormir,
Nada mais; e dizer que pelo sono
Findam-se as dores, como os mil abalos
Inerentes à carne – é a conclusão
Que devemos buscar. Morrer – dormir;
Dormir, talvez sonhar – eis o problema:
Pois os sonhos que vierem nesse sono
De morte, uma vez livres deste invólucro
Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo
Que prolonga a desdita desta vida.
Quem suportara os golpes do destino,
Os erros do opressor, o escárnio alheio,
A ingratidão no amor, a lei tardia,
O orgulho dos que mandam, o desprezo
Que a paciência atura dos indignos,
Quando podia procurar repouso
Na ponta de um punhal? Quem carregara
Suando o fardo da pesada vida
Se o medo do que vem depois da morte –
O país ignorado de onde nunca
Ninguém voltou – não nos turbasse a mente
E nos fizesse arcar co’o mal que temos
Em vez de voar para esse, que ignoramos?
Assim nossa consciência se acovarda,
E o instinto que inspira as decisões
Desmaia no indeciso pensamento,
E as empresas supremas e oportunas
Desviam-se do fio da corrente
E não são mais ação. Silêncio agora!
A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces
Recorda os meus pecados.

 
William Shakespeare
,
em “Por que ler Shakespeare,
 de Bárbara Heliodora, 1923-2015


Benjamin West (1738-1820), Hamlet: Act IV, Scene V (Ophelia Before the King and Queen), 1792,
Cincinnati Art Museum


To be or not to be

Spoken by Hamlet, Act 3 Scene 1


To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.–Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember’d.

William Shakespeare
1564-1616




"Hamlet" é uma tragédia de William Shakespeare, escrita por volta de 1601. A história do príncipe dinamarquês dramatizada na obra de Shakespeare tem raízes no registos lendários do norte da Europa. O poeta deverá ter-se inspirado na versão de François de Belleforest inserida na sua obra Histoires Tragiques (1559), que por sua vez teve a sua fonte no cronista dinamarquês do século XIII, Saxo Grammaticus.

Existia uma peça com o mesmo título quando Shakespeare escreveu o Hamlet, supostamente da autoria de Thomas Kyd, podendo o autor ter-se inspirado nela. A peça de Shakespeare tem alguns paralelos com uma outra obra de Kyd, Spanish Tragedy.

Hamlet dramatiza uma situação de vingança: Hamlet descobre que o seu tio, Claudius, casado com a sua mãe, Gertrude, logo após a morte do seu pai (King Hamlet), foi na realidade o autor dessa morte. A revelação do assassínio é feita a Hamlet pelo fantasma do pai numa altura em que Claudius já usurpou o trono do irmão. A culpa de Claudius é transmitida ao público indiretamente, através de Hamlet, que partilha a verdade com o seu companheiro Horatio.
Atormentado pelo conhecimento dos factos e desconfiado de todos à sua volta, Hamlet acaba por causar a morte da sua amada Ophelia e de seu pai, Polonius. A hostilidade de Hamlet desencadeia uma outra vingança: Laertes, irmão de Ophelia, associa-se a Claudius para vingar a morte do pai e da irmã.

Através de Hamlet, Shakespeare desenvolveu a questão das relações entre a ação e o pensamento. As modulações de linguagem transmitem as hesitações de Hamlet perante uma verdade que ao mesmo tempo o incita a agir e lhe impede a ação. É o carácter de Hamlet que o impossibilita de cumprir a vingança e lhe prolonga um complexo sofrimento.

O adiamento da morte de Claudius e as constantes hesitações de Hamlet refletem a complexidade do seu carácter e a subtileza da análise proporcionada por Shakespeare. Os críticos debruçaram-se mais sobre esta do que sobre qualquer outra personagem das suas peças. Sobretudo a partir do Romantismo multiplicaram-se os estudos em torno da figura de Hamlet. Procuraram-se as razões que levaram Hamlet a hesitar e gerou-se uma controversa irresolúvel.

Para além de conter uma das mais notáveis análises psicológicas de toda a obra de Shakespeare, Hamlet revela ainda o conhecimento que o autor tinha das condições específicas de produção dramática. Do ponto de vista da linguagem, trata-se de uma das mais sugestivas peças de William Shakespeare. (Daqui)




Ophelia é uma das personagens secundárias da peça Hamlet. Na referida peça, a personagem Ophelia morre afogada, num provável suicídio. A bela Ophelia, que amava Hamlet, vê-se privada do seu amor, passa a dar mostras de loucura após a morte do seu pai, Polonius, que fora assassinado por Hamlet. 
Enquanto Ophelia enlouquece, Hamlet apenas finge perder o juízo para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; e a sua melancolia forjada atinge tal grau que o leva a divagar sobre o suicídio. 

Ao longo dos tempos o interesse de diversos pintores recaiu sobre Ophelia, mais precisamente sobre a sua loucura e morte nas águas. A predileção pela personagem, em detrimento de outras, é considerável: não há outra personagem de Shakespeare que tenha sido mais retratada na pintura. 
Desde 1740, quando se teve notícia das primeiras ilustrações da peça, ela foi retomada pelas artes plásticas como o arquétipo da donzela indefesa. Derivada do tipo feminino da noiva ou amada morta em plena juventude – tipo caro aos poetas românticos – representava um modelo espiritualizado e espectral de mulher.



Sir John Everett Millais, Ophelia, 1851-1852, óleo sobre tela, 76,2 cm × 111,8 cm, Tate Gallery,
now renamed Tate Britain. His painting influenced the image in Kenneth Branagh's film Hamlet.

domingo, 26 de julho de 2020

"De almas sinceras a união sincera" - Soneto CXVI de William Shakespeare


Abraham Solomon (1824-1862), The Bride,1856


Soneto 

CXVI

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
Bárbara Heliodora (1923-2015)

Barbara Heliodora Carneiro de Mendonça, conhecida como Bárbara Heliodora, foi uma professora, ensaísta, tradutora e crítica de teatro brasileira, além de reconhecidamente uma autoridade na obra de William Shakespeare. Nasceu em 29 de agosto de 1923, faleceu em 10 de abril de 2015.
Por muitos anos foi professora emérita e titular aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante o curso de sua carreira, foi condecorada com várias honrarias, entre as quais a Ordre des Arts et des Lettres do Ministério da Cultura da França e, no Brasil, a medalha João Ribeiro pela da Academia Brasileira de Letras
 
 
Abraham Solomon, Sunday Morning, Unknown date 


"A paixão aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõe."

(William Shakespeare)


quinta-feira, 14 de maio de 2020

"A Tempestade" - Poemas de Alexandre Herculano e Gonçalves Dias


Ivan Aivazovsky, Stormy Sea at Night, 1849, Pavlovsk Palace, Saint Petersburg



 Tempestade


Sibila o vento: os torreões de nuvens
Pesam nos densos ares:
Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A imensa vaga ao longe vem correndo
Em seu terror envolta;
E, dentre as sombras, rápidas centelhas
A tempestade solta.
Do sol no ocaso um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa à nuvem, que, apressada e espessa,
Para apagá-lo corre.
Tal nos afaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciência
Dizer que ela mentia!

As ondas negro-azuis se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quais outras serras, que se arqueiam,
Bater, partir-se vão.
Ó tempestade! Eu te saúdo, ó nume
Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhais, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
E assolação derramas,
Quem porfiar contigo, então, ousara
De glória e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castelos,
E ver dos ferros meus, enfim, quebrados
Os rebatidos elos.
Eu rodeara, então o globo inteiro;
Eu sublevara as águas;
Eu dos vulcões com raios acendera
Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areais da Líbia
Converteria em montes;
Pelo fulgor da Lua, lá do norte
No polo me assentara,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoara.
Ali, eu solitário, eu rei da morte,
Erguera meu clamor,
E dissera: «Sou livre, e tenho império;
Aqui, sou eu senhor!»

Quem se pudera erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
Nos líquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
Rápido, em baixo dá.

Ó morte, amiga morte! é sobre as vagas,
Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ela possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludíbrio,
Solta, sem rumo vague!

Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
O sono do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
Nas trevas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração opresso,
Que ao ligeiro prazer, à dor cansada
Negas no seio acesso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorido leito!
Tu, que ao mísero ris com rir tão meigo,
Caluniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asilo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas às portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delírios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que velo na vida, e já não sonho
Nem glória nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até às fezes,
O cálix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto há vil no mundo,
Santas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
Fragor da tempestade,
Salmo de mortos, que retumba ao longe,
Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldições celestes,
No abismo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-se aqui para apurar-me
Nas lágrimas da terra;
Guardarei minha estância atribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu prémio,
O seu repouso, enfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bênção de pai querido.
Será o despertar, ver meu cadáver,
Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trevas da existência,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulcro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba à pátria do repouso,
Onde não há morrer.


Alexandre Herculano
,
 in "A Harpa do Crente"


Ivan Aivazovsky, Storm, 1871. Óleo sobre tela, 103 × 132,5 cm.



A Tempestade

Quem porfiar contigo... ousara
Da glória o poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?

A. Herculano
Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E trémulo
E puro
Se aviva,
S’esquiva
Rutila,
Seduz!

Vem a aurora
Pressurosa,
Cor de rosa,
Que se cora
De carmim;
A seus raios
As estrelas,
Que eram belas,
Tem desmaios,
Já por fim.

O sol desponta
Lá no horizonte,
Doirando a fonte,
E o prado e o monte
E o céu e o mar;
E um manto belo
De vivas cores
Adorna as flores,
Que entre verdores
Se vê brilhar.

Um ponto aparece,
Que o dia entristece,
O céu, onde cresce,
De negro a tingir;
Oh! vede a procela
Infrene, mas bela,
No ar s’encapela
Já pronta a rugir!
Não solta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto d’inspirado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quanto habita
Da terra n’amplidão.
A coma então luzente
Se agita do arvoredo,
E o vate um canto a medo
Desfere lentamente,
Sentindo opresso o peito
De tanta inspiração.

Fogem do vento que ruge
As nuvens aurinevadas,
Como ovelhas assustadas
Dum fero lobo cerval;
Estilham-se como as velas
Que no alto mar apanha,
Ardendo na usda sanha,
Subitâneo vendaval.

Bem como serpentes que o frio
Em nós emaranha, — salgadas
As ondas s’estanham, pesadas
Batendo no frouxo areal.
Disseras que viras vagando
Nas furnas do céu entreabertas
Que mudas fuzilam, — incertas
Fantasmas do génio do mal!

E no túrgido ocaso se avista
Entre a cinza que o céu apolvilha,
Um clarão momentâneo que brilha,
Sem das nuvens o seio rasgar;
Logo um raio cintila e mais outro,
Ainda outro veloz, fascinante,
Qual centelha que em rápido instante
Se converte d’incêndios em mar.

Um som longínquo cavernoso e ouco
Rouqueja, e n’amplidão do espaço morre;
Eis outro inda mais perto, inda mais rouco,
Que alpestres cimos mais veloz percorre,
Troveja, estoura, atroa; e dentro em pouco
Do Norte ao Sul, — dum ponto a outro corre:
Devorador incêndio alastra os ares,
Enquanto a noite pesa sobre os mares.

Nos últimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteiam, rebramam, doudejam nos ares,
Até que lascados baqueiam no chão.

Remexe-se a copa dos troncos altivos,
Transtorna-se, tolda, baqueia também;
E o vento, que as rochas abala no cerro,
Os troncos enlaça nas asas de ferro,
E atira-os raivoso dos montes além.

Da nuvem densa, que no espaço ondeia,
Rasga-se o negro bojo carregado,
E enquanto a luz do raio o sol roxeia,
Onde parece à terra estar colado,
Da chuva, que os sentidos nos enleia,
O forte peso em turbilhão mudado,
Das ruínas completa o grande estrago,
Parecendo mudar a terra em lago.

Inda ronca o trovão retumbante,
Inda o raio fuzila no espaço,
E o corisco num rápido instante
Brilha, fulge, rutila, e fugiu.
Mas se à terra desceu, mirra o tronco,
Cega o triste que iroso ameaça,
E o penedo, que as nuvens devassa,
Como tronco sem viço partiu.

Deixando a palhoça singela,
Humilde labor da pobreza,
Da nossa vaidosa grandeza,
Nivela os fastígios sem dó;
E os templos e as grimpas soberbas,
Palácio ou mesquita preclara,
Que a foice do tempo poupara,
Em breves momentos é pó.

Cresce a chuva, os rios crescem,
Pobres regatos s’empolam,
E nas turvam ondas rolam
Grossos troncos a boiar!
O córrego, qu’inda há pouco
No torrado leito ardia,
É já torrente bravia,
Que da praia arreda o mar.

Mas ai do desditoso,
Que viu crescer a enchente
E desce descuidoso
Ao vale, quando sente
Crescer dum lado e d’outro
O mar da aluvião!
Os troncos arrancados
Sem rumo vão boiantes;
E os tetos arrasados,
Inteiros, flutuantes,
Dão antes crua morte,
Que asilo e proteção!

Porém no ocidente
S’ergue de repente
O arco luzente,
De Deus o farol;
Sucedem-se as cores,
Qu’imitam as flores
Que sembram primores
Dum novo arrebol.

Nas águas pousa;
E a base viva
De luz esquiva,
E a curva altiva
Sublima ao céu;
Inda outro arqueia,
Mais desbotado,
Quase apagado,
Como embotado
De ténue véu.

Tal a chuva
Transparece,
Quando desce
E ainda vê-se
O sol luzir;
Como a virgem,
Que numa hora
Ri-se e cora,
Depois chora
E torna a rir.

A folha
Luzente
Do orvalho
Nitente
A gota
Retrai:
Vacila,
Palpita;
Mais grossa
Hesita,
E treme
E cai.


Gonçalves Dias
,
in "Últimos cantos"




Ivan Aivazovsky, The Rainbow, 1873


“O Inferno está vazio e todos os demónios estão aqui.”
 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

"Definição do Amor" - Soneto de Lope de Vega


Federico Andreotti (1847 – 1930), An Afternoon Tea


Definição do Amor 


Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e valoroso;

não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno qual licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

acreditar que o céu no inferno cabe,
doar sua vida e alma a um desengano,
isto é amor; quem o provou bem sabe.


(1562-1635)


Federico AndreottiYoung Couple 
(also known as Young Couple in a Magnificent Rococo Interior) 
 
 
"O amor é cego, por isso os namorados nunca veem as tolices que praticam." 
 
(William Shakespeare)

quinta-feira, 30 de março de 2017

"De ti me separei na Primavera" - Poema de William Shakespeare



Abbott Fuller Graves (American painter and illustrator, 1859–1936),
 Rowing to Picnic Rock, c. 1900.


 De ti me separei na Primavera


De ti me separei na Primavera:
quando o radioso Abril, ao sol voando, 
em cor e luz, a plenas mãos, cantando, 
nova alegria entorna pela esfera... 

No viridente bosque até dissera 
o pesado Saturno ver folgando... 
Porém nem cor vistosa ou cheiro brando 
lograram incender minha quimera. 

A brancura dos lírios, não a vi... 
O vermelhão das rosas, desmaiava... 
Eram fantasmas só: ao pé de ti 

— o seu modelo - quanto lhes faltava! 
Parecia inverno; e eu, a viva alfombra, 
só pude imaginá-la a tua sombra. 


Trad. Luiz  Cardim


sábado, 13 de fevereiro de 2016

"À Morte peço a Paz farto de tudo" - Poema de William Shakespeare





À Morte peço a Paz farto de tudo


À morte peço a paz farto de tudo,
de ver talento a mendigar o pão,
e o oco abonitado e farfalhudo,
e a pura fé rasgada na traição,
e galas de ouro em despejados bustos,
e a virgindade à bruta rebentada,
e em justa perfeição tratos injustos,
e o valor da inépcia valer nada,
e autoridade na arte pôr mordaça,
e pedantes a engenho dando lei,
e a verdade por lorpa como passa,
e no cativo bem o mal ser rei.
Farto disto, não deixo o meu caminho,
pois se eu morrer, é o meu amor sozinho. 


in "Sonetos (66)"



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

"As Amoras" - Poema de Eugénio de Andrade


Elizabeth Forbes, Blackberry Gathering, c. 1912, Walker Art Gallery (daqui)



As Amoras


O meu país sabe às amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade, in "O Outro Nome da Terra"


Raphaelle Peale, Blackberries, c. 1813 (daqui)


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos."

(William Shakespeare) 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

"Soneto 73" - William Shakespeare


Charles Spencelayh (English painter, 1865-1958), His Old Wedding Hat



Soneto (73)


Esta estação do ano podes vê-la
em mim: folhas caindo ou já caídas;
ramos que o frémito do frio gela;
árvore em ruína, aves despedidas.
E podes ver em mim, crepuscular,
o dia que se extingue sobre o poente,
com a noite sem astros a anunciar
o repouso da morte, gradualmente.
Ou podes ver o lume extraordinário,
morrendo do que vive: a claridade,
deitado sobre o leito mortuário
que é a cinza da sua mocidade.
      Eis o que torna o amor mais forte:
      amar quem está tão próximo da morte.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921-1981)

domingo, 3 de maio de 2015

"Comparar-te a um dia de verão?" - Soneto 18 de William Shakespeare


Ferdinand Hodler (Swiss painter, 1853–1918), Femme Joyeuse, 1911.
 


Comparar-te a um dia de verão?
(Versão de Carlos de Oliveira )


Comparar-te a um dia de verão? 
Há mais ternura em ti, ainda assim: 
um maio em flor às mãos do furacão, 
o foral do verão que chega ao fim. 
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu; 
outras, desfaz-se a compleição doirada, 
perde beleza a beleza; e o que perdeu 
vai no acaso, na natureza, em nada. 
Mas juro-te que o teu humano verão 
será eterno; sempre crescerás 
indiferente ao tempo na canção; 
e, na canção sem morte, viverás: 
      Porque o mundo, que vê e que respira, 
      te verá respirar na minha lira. 


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921-1981)






Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
      enquanto alguém respire ou possa ver
      e viva isto e a ti faça viver.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Vasco Graça Moura (1942-2014)


                       Fac-símile da impressão original do Soneto 18.


Os Sonetos de Shakespeare perfazem um conjunto de 154 poemas publicados em 1609, embora as datas de composição sejam imprecisas. Eles tratam de assuntos como amor, beleza, política e mortalidade. 

Outras traduções: Soneto 18 (aqui)


Soneto

Soneto (do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som) é um poema de forma fixa, composto por catorze versos, de origem atribuída a poetas da Sicília ou da Provença.
Pode ser apresentado em três formas de distribuição dos versos:
  • Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos);
  • Soneto inglês ou Shakespeariano: três quartetos e um dístico;
  • Soneto monostrófico: Apresenta uma única estrofe de 14 versos. (daqui)