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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

"Da minha janela" - Poema de Sebastião da Gama



Henri Matisse (French visual artist, 1869–1954), The Open Window
(Fenêtre ouverte, Collioure),
1905 (Fauvism). National Gallery of Art.
 


Da minha janela


Da minha janela
vê-se a Poesia.
Não te digo, não,
se é bonita ou feia,
se é azul ou branca,
nem que formas tem.
Queres conhecê-la?
Deixa o teu bordado,
vem para o meu lado,
que já podes vê-la
com teus próprios olhos.

Da minha janela
vê-se a Poesia...
Outro que te diga
se é bonita ou feia.


Sebastião da Gama, "Cabo da Boa Esperança"
Lisboa: Portugália Editora, 1947.
 
 

segunda-feira, 29 de julho de 2024

"O convite à viagem" - Poema de Charles Baudelaire


 ("Luxury, Calm and Pleasure"), 1904. Oil on canvas, 98.5 cm × 118.5 cm,
   Musée d'Orsay, Paris, France.
 
[The painting's title comes from the poem L'Invitation au voyage, from Charles Baudelaire's volume Les Fleurs du mal (The Flowers of Evil).]
 

O convite à viagem

 
Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
De teu olho infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
- Os sanguíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.


Charles Baudelaire
, in "As flores do mal".
 Edição bilingue. Tradução de Ivan Junqueira
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
 
 
 
 Charles Baudelaire, "As flores do mal".
 Edição bilingue. Tradução de Ivan Junqueira
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
 
 
 L’invitation au voyage

 
Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté. 


Charles Baudelaire
, "Les Fleurs du mal"
(1857 - 1861 - 1868) 
 

Charles Baudelaire, "As flores do mal".
Editora: Penguin-Companhia
 

Resumo 
 
 
Edição bilíngue de um dos mais influentes livros de poemas da modernidade. Obra poética completa de Baudelaire em nova tradução. 
Grafado pelo autor originalmente com letra maiúscula, o “Mal” de Baudelaire é um conceito, uma perceção que perpassa a sua obra e expõe o caráter humano. Livro inovador, que nas palavras de Marcel Raymond e Paul Valéry funda uma espécie de “movimento poético contemporâneo”, As flores do mal foi responsável por uma escandalosa transformação da literatura mundial ao misturar estilos elevados e populares, influenciando escritores como André Gide, Marcel Proust, James Joyce, Thomas Mann, entre outros. 
A primeira edição, publicada em 1857, quando Baudelaire tinha 36 anos, logo se torna objeto de um processo judicial que culmina na proibição de seis poemas. A segunda edição, de 1861, suprime os poemas censurados e inclui outros 35. O poeta também tradutor de Edgar Allan Poe e crítico de arte  foi alvo de discórdia também nos círculos literários. Conhecido por encarar a vida com uma paixão enfastiada, Baudelaire transformou o universo a sua volta em uma poesia forte, visceral e por vezes perniciosa. 
Este volume bilíngue reúne toda a poesia de Baudelaire: As flores do mal tal como publicado em 1861 e os poemas acrescidos à edição póstuma de 1868, em uma edição especial que demonstra toda a potência de um autor ainda hoje “maldito”. (daqui)
 
 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

"Quietude" - Poema de Miguel Torga


Kees van Dongen (1877-1968, Dutch-French painter), Quiétude, c. 1918 (Fauvism)
 
 

Quietude
 

Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira. 
 
S. Martinho de Anta, 27 de Setembro de 1980.


Miguel Torga
(1907-1995), Diário XIII 




André Derain
 (1880-1954, French artist, painter, sculptor and co-founder of Fauvism 
with Henri Matisse), Music, 1904 (Fauvism)
 

Fauvismo

 
O Fauvismo é considerado como o movimento fundador da arte moderna em França. Apesar de não estar constituído como grupo organizado, o Fauvismo reunia artistas que partilhavam aspirações paralelas no campo da pintura. Os pintores Matisse, Derain, Braque, Vlaminck e Dufy pretendiam transformar a pintura sem, no entanto, proceder à rutura total com o formulário artístico do final do século. Todos adotaram uma paleta impressionista na qual associavam a cor à luz.

Fundado em 1904, este grupo experimental foi apresentado pela primeira vez ao público no Salão de outono de 1905, em Paris. A agressividade na aplicação da cor comum a todas as obras expostas por este grupo valeu aos seus autores a denominação pejorativa de fauves (feras) pelo crítico Louis Vauxcelles.

A modernidade do grupo dos fauves parece residir no poder da expressão que por eles é reivindicada. A pintura afasta-se da mera representação mimética para se afirmar como veículo de expressão das emoções do artista.

O Fauvismo é um movimento heterogéneo. Apesar de revelarem certas coincidências formais, os artistas desta corrente desenvolveram uma interpretação pessoal das qualidades expressivas da pintura. Em comum, encontramos a mesma vontade de representação livre da natureza através da utilização de cores puras, da acentuação linear do desenho e da diluição do efeito de perspetiva. Para Matisse, a perspetiva seria a "perspetiva do sentimento", nas quais os planos se aproximavam.

O Fauvismo terminou em 1908, dando origem a novas vias artísticas como o Expressionismo e o Cubismo. (Daqui)
 
 
 
 Henri Matisse (1869-1954, French visual artist), Portrait of Madame Matisse (The green line), 
 
 
Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905–06, oil on canvas, 176.5 cm × 240.7 cm,  
Barnes Foundation, Philadelphia, Pennsylvania (Fauvism)
 
 

Raoul Dufy
(1877-1953, French Fauvist painter), Bathers, 1908 (Fauvism)
 

Maurice de Vlaminck (1876-1958, French painter), The gardener, 1904 (Fauvism)


Georges Braque (1882-1963, French painter, collagist, draughtsman, printmaker
and sculptor), The Port of La Ciotat, 1907 (Fauvism)
 
 
Presença
 
Hora sem ninguém.
No manso ondear do balanço
de lona está alguém.
 
(Haicai / Haikai / Haiku)
 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

"Poeta" - Poema de Joaquim Namorado



 Poeta


A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia…

Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.


Joaquim Namorado


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"Os problemas de um livro" - Poema de Laura Riding


Charles Courtney Curran, An Afternoon Respite, 1894, Private collection


Os problemas de um livro

 
O problema de um livro é, primeiro, não ser 
Pensamentos para ninguém 
E ficará tão inescrito 
Quanto permanecerá não lido 
E construir um autor palavra por palavra 
E ocupar sua cabeça 
Até que a cabeça feche pra balanço 
Para publicar a todos 
Seu esvaziamento. 

O segundo problema de um livro 
É ficar desperto e pronto 
À escuta como um dono de pousada 
Querendo, não querendo hóspedes, 
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma 
E a esperança de folga. 
Vacilantes, as páginas cochilam 
E piscam para os dedos que passam 
Com sorriso proprietário, e fecham-se. 

O terceiro problema de um livro é 
Dar seu sermão e virar as costas 
Suscitando comoção nas margens 
Onde a língua cruza o olho, 
Sem declarar nenhuma experiência de pânico, 
Nenhuma cumplicidade neste tumulto. 
A provação de um livro é não dar pistas 
De ser provação, é ser neutro e leigo 
No sentido reto do impresso. 

O problema de um livro, principalmente, 
É ser só livro na superfície; 
Vestir capa como capa, 
Se enterrar em morte-livro 
Mas se sentir tudo menos livro, 
Respirar palavras vivas, mas com o hálito 
Das letras; endereçar vivacidade 
Nos olhos que lêem, ser respondido 
Com letras e livrescidade.


Laura Riding, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

Charles Courtney Curran, Fair Critics, 1887, The Metropolitan Museum of Art


"Um pintor não tem outros inimigos sérios senão os seus piores quadros."



domingo, 28 de janeiro de 2018

"Uma gentileza" - Poema de Laura Riding





Uma gentileza 


Estar viva é estar curiosa. 
Quando perder interesse pelas coisas 
E não estiver mais atenta, álacre 
Por factos, acabo este minguado inquérito. 
A morte é a condição do supremo tédio. 

Vou deixar que me desintegre 
E aí, por saber da paz que a morte traz, 
Seria bom seguir convencendo o destino 
A ser mais generoso, estender, também, 
O privilégio do tédio a todos vocês. 

 
Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

"Toda palavra" - Poema de Viviane Mosé


Alexander Calder (American, 1898-1976), Red Nose, 1969, lithograph, edition 75



Toda palavra 


Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida. 
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.


Viviane Mosé, em "Toda palavra"


Alexander Calder, Papoose, 1969, lithograph, edition 75


"Desenhar é como fazer um gesto expressivo mas com a vantagem da permanência."

Alexander Calder, Copeaux de couleurs, 1969, lithograph