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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

"Sonho" - Poema de Marquesa de Alorna



George Cochran Lambdin (American Victorian artist, 1830–1896),
"Climbing Roses", 1882



Sonho


Perdoa, Amor, se não quero
Aceitar novo grilhão;
Quando quebraste o primeiro,
Quebraste-me o coração.

Olha, Amor, tem dó de mim!
Repara nos teus estragos,
E desvia por piedade
Teus sedutores afagos!

Tu de dia não me assustas;
Os meus sentidos atentos
Opõem aos teus artifícios
Mil pesares, mil tormentos.

Mas, cruel, porque me assaltas,
De mil sonhos rodeado?
Porque acometes no sono
Meu coração descuidado?...

Eu, quando acaso adormeço,
Adormeço de cansada,
E o crepúsculo do dia
Me acorda sobressaltada.

Arguo então a minha alma,
Repreendo a natureza
De ter cedido ao descanso
Tempo que devo à tristeza.

Que te importa um ser tão triste?...
Cobre de jasmins e rosas
Outras amantes felizes!
Deixa gemer as saudosas! 


Marquesa de Alorna (1750–1839),
in 'Antologia Poética' 
 

terça-feira, 22 de julho de 2014

"De ti só quero o cheiro dos lilases" - Poema de Rosa Lobato de Faria



George Cochran Lambdin (American Victorian artist, 1830–1896),
'Roses and Azaleas', 1880. 



De ti só quero o cheiro dos lilases


De ti só quero o cheiro dos lilases
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.


Rosa Lobato de Faria, 
in 'A Noite Inteira já não chega'



George Cochran Lambdin, 'Still Life with Straw Hat' 



"Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinteressada delas. Eu sou ao contrário: o tempo passa e a afeição vai crescendo, morrendo apenas quando a ingratidão e a maldade a fizerem morrer." 

Florbela Espanca, in Correspondência, 1916 

sábado, 9 de junho de 2012

"Se eu fosse Deus seria a vida um sonho" - Soneto de Martins Fontes


George Cochran Lambdin, June Morning, 1878
(Chromolithograph based on Lambdin's painting)
 


Soneto


Se eu fosse Deus seria a vida um sonho,
Nossa existência um júbilo perene!
Nenhum pesar que o espírito envenene
Empanaria a luz do céu risonho!

Não haveria mais: o adeus solene,
A vingança, a maldade, o ódio medonho,
E o maior mal, que a todos anteponho,
A sede, a fome da cobiça infrene!

Eu exterminaria a enfermidade,
Todas as dores da senilidade,
E os pecados mortais seriam dez...

A criação inteira alteraria,
Porém, se eu fosse Deus, te deixaria
Exatamente a mesma que tu és!


Martins Fontes


José Martins Fontes


José Martins Fontes (Santos, 23 de junho de 1884 — Santos, 25 de junho de 1937) foi um médico, poeta e tradutor brasileiro. É considerado o melhor poeta de sua geração na lusofonia, e um dos dez melhores na língua portuguesa; os outros nove são Camões, Bocage, António Nobre, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Castro Alves, Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira (o brasileiro). (Daqui)




"O amor que sente no seu coração, na sua essência, é suficientemente real. Esse amor é o seu verdadeiro Eu e não se trata de uma fantasia nem de um ideal. Essa convicção profunda servirá de base para a relação afetuosa que deseja quando chegar a altura. Não precisa de transformar esta relação em algo grandioso. Respeite os desejos do seu coração e deixe que o amor floresça a seu tempo."
Deepak Chopra


Deepak Chopra
 

Deepak Chopra, (Nova Deli, 22 de Outubro de 1946) um médico indiano radicado nos Estados Unidos. É formado em medicina pela Universidade de Nova Deli. É também um escritor e professor de Ayurveda, espiritualidade e medicina corpo–mente.
Chopra é especialista em endocrinologia, exerce a profissão desde 1971, e chefiou a equipe do New England Memorial Hospital. Em 1985, fundou a Associação Americana de Medicina Védica. Em 1993 mudou-se para San Diego e abriu o "The Chopra Center For Well Being", onde desenvolve os seus próprios programas e cursos para o desenvolvimento pessoal. 
Deepak Chopra é autor de mais de 25 livros de auto-ajuda, traduzidos em 35 línguas, tais como "A Cura Quântica", "As Sete Leis Espirituais do Sucesso", "Criando Saúde", incluíndo cinco programas para a televisão pública dos EUA e proponente de outras ideias místicas. Sua proposta de auto-ajuda é centrada na afirmação "se compreendermos a nossa verdadeira natureza e soubermos viver em harmonia com as leis naturais, a sensação de bem-estar, de entusiasmo pela vida e a abundância material surgirão facilmente". 
Em 1999, a revista Time incluía-o na sua lista das 100 personalidades do século, chamando-lhe "poeta e profeta das medicinas alternativas."


sábado, 3 de dezembro de 2011

"As duas flores" - Poema de Castro Alves


George Cochran Lambdin (American Victorian artist, 1830-1896), 
"Two Blossoming Pink Roses and Vines"



As duas flores 


São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar. 

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!


 
 
Castro Alves
 
 
Poeta brasileiro, António Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847, na fazenda de Cabaceiras, em Muritiba (perto de Curralinho), hoje cidade Castro Alves, no Estado da Baía (Brasil).
Filho de um médico, mudou-se para Salvador com a família, em 1854, porque o pai passou a lecionar na Faculdade de Medicina de Salvador. Depois, foi estudar para o Rio de Janeiro, no Colégio Abílio César Borges, onde demonstrou talento para a poesia e, aos 17 anos, partiu para o Recife para estudar Direito.
Participou na vida literária e estudantil e começou a escrever poesias líricas e de carácter social. Conheceu a atriz portuguesa Eugénia Câmara (dez anos mais velha) para quem escreveu o drama Gonzaga ou a Revolução de Minas (publicado em 1875) que ela representou. Abandonado pela amante, Castro Alves levou uma vida boémia e intensa no Rio de Janeiro, onde conheceu José de Alencar e Machado de Assis que o introduziram no meio literário.
Durante uma caçada, feriu-se acidentalmente num pé, com um tiro de espingarda, sendo amputado, em 1869, no Rio de Janeiro. Em consequência, passou a andar com um pé de borracha e com uma bengala de apoio. Em 1870, sofrendo de tuberculose, regressou à Baía, procurando melhorar a sua saúde. Aí, publicou o seu primeiro livro Espumas Flutuantes, o único publicado em vida. Apaixonou-se pela cantora lírica italiana Agnese Trinci Murri, em 1871.
A 6 de julho de 1871, não resistindo à doença, morreu no Estado de Baía, aos 24 anos. Patrono da cadeira n.º 7 da Academia Brasileira de Letras, Castro Alves escreveu ainda outras obras, como A cachoeira de Paulo Afonso (1876), Os Escravos (1883) e Manuscritos de Stênio (1883) e Obras Completas (1921), em que parafraseia ou traduz Byron, Lamartine e Musset.
Poeta da 3.ª geração do Romantismo brasileiro, conhecida como Condoreira, Castro Alves apresenta duas vertentes distintas na sua poesia. Por um lado, uma vertente lírico-amorosa, onde o amor e a mulher passam a ser concretos e reais; o tema da morte deixa de ser uma fuga e torna-se num obstáculo à realização dos desejos do poeta; a exaltação da natureza é constante, sobretudo na referência a grandes aves, como a águia e o condor (símbolo da Condoreira). Por outro, uma vertente social, influenciada pelo francês Victor Hugo. Apologista do movimento abolicionista e da causa republicana, escreveu em defesa da abolição da escravatura, o que lhe rendeu o título de "Poeta dos escravos". (daqui)
 
 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Outra margem de mim" - Poema de Mafalda Veiga


George Cochran Lambdin (1830-1896), Sunset Musings, 1887
 

Outra margem de mim 


É muito tempo a desejar o tempo
De mudar ventos, levantar marés
É muita vida a desejar o alento
Que faz saber ao certo quem és

É funda a toca onde te escondes tanto
Tem a distância entre o silêncio e a voz
A vida rasga bocadinhos gastos do mundo
Vai descascando até chegar a nós

E tu que sabes tanto de mim
Tu que sentes quem eu sou
Dá-me o teu corpo como ponte que me salva
Do que o medo fechou

São muitos dias a perder em vão
Sem nunca entrar dentro do labirinto
É muita vida a não ser o que tu sentes
A planar sobre o que eu sinto

É quase noite, não te escondas mais
Vai desatando até entrar o ar
Dá-me um gesto que me diga o teu fundo
Uma palavra para te tocar

Tu que sabes tanto de mim
Tu que sentes quem eu sou
Dá-me o teu corpo como ponte que me salve
Do que o medo fechou

Tu que sabes tanto do sol
És uma espécie de outra margem de mim
Olha-me dentro como chão que me agarre

Pode ser esta noite quente
A estrada aberta mesmo à nossa frente
E tu e eu a descobrir o ar
Não é preciso correr
Não é urgente chegar
O que é preciso é viver






"Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém."