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sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Fogo" - Poema de Francisco Joaquim Bingre





Fogo 


Faísca luminar da etérea chama 
Que acendes nossa máquina vivente, 
Que fazes nossa vista refulgente 
Com eléctrico gás, com subtil flama: 

A nossa construção por ti se inflama; 
Por ti, o nosso sangue gira quente; 
Por ti, as fibras tem vigor potente, 
Teu vivo ardor por elas se derrama. 

Tu, Fogo animador, nos vigorizas, 
E à maneira de um voltejante rio, 
Por todo o nosso corpo te deslizas. 

O homem, só por ti tem força e brio 
Mas, se tu o teu giro finalizas, 
Quando a chama se apaga, ele cai frio. 




domingo, 5 de julho de 2015

"Ausência" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Paula Rego, Snow White Swallows the Poisoned Apple, 1995


Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem luar
Num país sem nome
Ou numa terra nua 

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.






"Estar em meu estúdio é um pouco como estar dentro de um cérebro - você está totalmente livre para fazer o que quiser. Eu escondo-me e desenho o dia todo." - Paula Rego


Paula Rego


«Não gosto de pintar ao vivo. Gosto de canalizar imagens naturalistas, abstratas, ornamentais, feiticistas, infantis.» - Paula Rego (Num depoimento incluso no catálogo para a exposição "Pintura Portuguesa de Hoje", 1973)
 

Paula Rego


"Há uma parte de mim muito, muito forte em Portugal, mas faço uso disso muito melhor aqui, na Inglaterra, do que lá". - Paula Rego


Paula Rego


"Eu tinha medo do escuro, do demónio, de tudo. Passava a maior parte do meu tempo desenhando e brincando. Desenhar era uma linguagem." - Paula Rego


Paula Rego


"Grandes Mestres da Pintura" destaca Paula Rego, a única artista viva a ter seu trabalho em exposição permanente na prestigiada Sainsbury Wing da Galeria Nacional de Londres. Segundo o renomado crítico de arte inglês John McEwen, Paula Rego é "a mais conceituada artista residente na Inglaterra".

Pintura de Paula Rego


"Rego pinta garotas troncudas, ossudas, cabeludas, libidinosas - e não aqueles tipos graciosos mediterrâneos. Mas elas são, indubitavelmente, feministas". - Germaine Greer (Autora do livro-referência sobre mulheres pintoras "The Obstacle Race" - "A Corrida de Obstáculos")


Paula Rego, The Policeman's Daughter, 1987


"Seus quadros têm uma subversão profunda. Não há nada previsível, são todos espontâneos. Ela não pertence a uma determinada escola. Ela pensa com imagens - algumas delas as mais extraordinárias e distorcidas que já vi". - Germaine Greer


Paula Rego, Snow White Playing with her Father's Trophies, 1995


Paula Rego, Snow White and her Stepmother, 1995


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

"A Importância da Arte" - Texto de Agustina Bessa Luís


In Bed, by Ron Mueck, 2005


A Importância da Arte


A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objetiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo.


Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'



'Mask II' by Ron Mueck (2001-2), believed to be a self-portrait


Ron Mueck (Melbourne, 1958) é um escultor australiano hiper-realista que trabalha na Grã-Bretanha.

Este escultor utiliza efeitos especiais cinematográficos para criar obras de arte. São incrivelmente realistas e se não fosse o tamanho de suas esculturas certamente seriam fáceis de serem confundidas com pessoas.

No início de carreira, foi fabricante de marionetas e modelos para a televisão e filmes infantis, nomeadamente no filme Labyrinth.

Mueck criou a sua própria companhia em Londres (Inglaterra), trabalhando para a indústria de publicidade. Embora altamente detalhados, estes adereços eram geralmente projetados para serem fotografados de um ângulo específico. Mueck cada vez mais queria produzir esculturas realistas.

Em 1996, Mueck, colaborou com a sua sogra, Paula Rego (Famosa Pintora Portuguesa), para a produção de pequenas figuras como parte de um quadro que ela estava mostrando na Hayward Gallery. Rego apresentou-o a Charles Saatchi, que foi imediatamente impressionado.

As suas esculturas reproduzem fielmente os detalhes do corpo humano, mas joga com escala para produzir desconcertantemente imagens visuais. Com cinco metros de altura, a escultura Boy 1999 foi exposta na Bienal de Veneza. 

 
Boy 1999, by Ron Mueck


sábado, 3 de maio de 2014

"Palavras para a minha mãe" - Poema de José Luís Peixoto


Paula Rego, O Amor, 1995, Pastel sobre papel montado em alumínio, 120 x 160 cm



Palavras para a minha mãe 


mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"


Paula Rego, Noiva, 1994



Escritor português, José Luís Peixoto nascido em setembro de 1974, em Galveias, Portalegre, notabilizou-se a partir de 2001, ano em que ganhou o Prémio Literário José Saramago graças ao romance Nenhum Olhar.
José Luís Peixoto licenciou-se, na Universidade Nova de Lisboa, em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Inglês e Alemão. Mais tarde, veio a ser professor de Inglês.
Aos 23 anos, o escritor ganhou o Prémio Jovens Criadores 97 da área de literatura, atribuído pelo Instituto Português da Juventude, com a obra de ficção Morreste-me, dedicada ao seu pai. Esta obra, de pequeno formato, viria a ser publicada no ano 2000 em edição de autor. Ainda neste ano, José Luís Peixoto lançou o romance Nenhum Olhar, com o qual ganhou o prestigiado Prémio Literário Saramago 2001, da Fundação Círculo de Leitores, destinado a jovens autores. Entretanto voltou a conquistar o Prémio Jovens Criadores em 1998 e 2000.
O escritor tanto se dedica à prosa como à poesia e nesta ultima área teve a sua primeira obra publicada em 2001, com o título A Criança em Ruínas. No ano seguinte, conjugou a nível criativo as duas áreas e lançou, em simultâneo, o romance Uma Casa na Escuridão e o livro de poesia A Casa, a Escuridão.
No ano seguinte, explorou uma nova área ao colaborar num projeto com o grupo português de heavy-metal Moonspell. Enquanto a banda lançava o álbum Antidote, o escritor apresentava o livro de contos Antídoto, inspirado nas músicas do disco.
Em 2006, regressou ao romance, com a edição de Cemitério de Pianos.
A obra literária de José Luís Peixoto já foi publicada em países como Bielorrússia, Brasil, Bulgária, Croácia, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, República Checa e Turquia.
José Luís Peixoto escreve regularmente para diversos órgãos de comunicação social estrangeiros e portugueses, nomeadamente para o Jornal de Letras, Artes e Ideias.
Paralelamente à criação literária também experimentou outras áreas, tendo escrito em 2005 as peças de teatro Anathema, que estreou em França no Theatre de la Bastille, de Paris, e À Manhã, estreada no Teatro São Luís. Dois anos mais tarde, de novo no São Luís, estreou a peça Quando o Inverno Chegar.

José Luís Peixoto. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-05-03]. 


Paula Rego, A Prova, 1989


Dia das Mães

Mãe é o ser do sexo feminino que gera uma vida em seu útero como consequência de fertilização ou que adota uma criança ou filhote, que por alguma razão não pode ficar com seus pais. É também o equivalente feminino do pai. A fertilização de óvulos humanos femininos ocorrida in vitro, em laboratórios ou hospitais, na modernidade, estendeu as considerações milenares sobre a maternidade.

Mãe também é, para todos os efeitos, aquela pessoa do sexo feminino que adota, cria, e cuida de uma criança gerada por outrem. Encontra-se com frequência casos em que uma mãe desempenha o papel de mãe e de pai em simultâneo, e outros casos (mais raros) em que o pai cumpre o papel de pai e de mãe. Já outras famílias são compostas por duas mães ou por dois pais. Em certos casos a comunidade, o Estado, ou até mesmo outras crianças procuram fazer o papel de mãe na vida de certas crianças ou adolescentes.

Em sua homenagem, todos os anos, no segundo domingo do mês de maio (no Brasil) ou no primeiro domingo de Maio (em Portugal), é celebrada uma homenagem às mães, conhecida por Dia das mães.

O Dia das Mães também designado de Dia da Mãe é uma data comemorativa em que se homenageia a mãe e a maternidade. Em alguns países é comemorado no segundo domingo do mês de maio (como no Brasil). Em Portugal é comemorado no primeiro domingo do mês de maio.


Proclamação do Dia das Mães 
(Thomas Woodrow Wilson, 09.05.1914)


Nos Estados Unidos, as primeiras sugestões em prol da criação de uma data para a celebração das mães foi dada pela ativista Ann Maria Reeves Jarvis que organizou em 1865 os Mother's Friendship Days (dias de amizade para as mães) para melhorar as condições dos feridos na Guerra de Secessão que assolou os Estados Unidos no período. Mais cedo, em 1858, Jarvis fundou os Mothers Days Works Clubs com o objetivo de diminuir a mortalidade de crianças em famílias de trabalhadores. Em 1870 a escritora Julia Ward Howe (autora de O Hino de Batalha da República) publicou o manifesto Mother's Day Proclamation pedindo paz e desarmamento depois da Guerra de Secessão.

Mas reconhecida como idealizadora do Dia das Mães na sua forma atual é a metodista Anna Jarvis, filha de Ann Maria Reeves Jarvis, que em 12 de maio de 1907, dois anos após a morte de sua mãe, criou um memorial à sua mãe e iniciou um campanha para que o Dia das Mães fosse um feriado reconhecido. Ela obteve sucesso ao torná-lo reconhecido nos Estados Unidos em 8 de maio de 1914 quando a resolução Joint Resolution Designating the Second Sunday in May as Mother's Day foi aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos instalando o segundo domingo do mês de maio como Dia das Mães. No âmbito desta resolução o Presidente dos Estados Unidos Thomas Woodrow Wilson proclamou no dia seguinte que no Dia das Mães os edifícios públicos devem ser decorados com bandeiras. Assim, o Dia das Mães foi celebrado pela primeira vez em 9 de maio de 1914.

Com a crescente difusão e comercialização do Dia das Mães, Anna Jarvis afastou-se do movimento, lamentou a criação e lutou para a abolição do feriado.

No Brasil, em 1932, o então presidente Getúlio Vargas oficializou a data no segundo domingo de maio. Em 1947, Dom Jaime de Barros Câmara, Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, determinou que essa data fizesse parte também no calendário oficial da Igreja Católica.

Em Portugal, o Dia da Mãe é celebrado no primeiro domingo de Maio, embora durante muitos anos tivesse sido comemorado no dia 8 de Dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição.


Paula RegoA Família, 1988

sábado, 22 de fevereiro de 2014

"Divina Comédia" - Poema de Antero de Quental


Paula Rego, Anjo (Angel), 1998
 


Divina Comédia


Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — «Homens! Por que é que nos criastes?!»


Antero de Quental,
"In Sonetos", 1861

Paula Rego, Poleiro (Perch), 1997


"Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz."

 (O período que viveu em Vila do Conde foi considerado pelo poeta o melhor período da sua vida.)


Antero de Quental


Antero de Quental é entre nós o grande criador de uma poesia filosófica romântica, influenciada pelos modelos alemães. Nasce em Ponta Delgada, no seio de uma família nobre e com tradições literárias da ilha de S. Miguel. Em 1852, vai para Lisboa estudar no Colégio do Pórtico, fundado por António Feliciano de Castilho, com quem já aprendera francês e latim em Ponta Delgada, entre 1847 e 1850. Um ano depois regressa a S. Miguel, de onde partirá em 1855 para Coimbra, a fim de fazer os estudos preparatórios para o ingresso na Universidade. Aos dezasseis anos, inicia o curso de Direito. Durante a sua permanência em Coimbra, assume-se como uma figura influente no meio estudantil coimbrão, tomando parte em várias manifestações académicas. É por esta altura que contacta com os novos autores e correntes europeias - o socialismo utópico de Proudhon, o positivismo de Comte, o hegelianismo, o darwinismo, as doutrinas de Taine, Michelet, Renan, o romantismo social de Hugo - e, segundo confessará mais tarde, perde a fé. Em 1861, publica em edição limitada os Sonetos de Antero, obra dedicada ao poeta João de Deus, e, dois anos depois, os poemas Beatrice e Fiat Lux. Em 1865, publica as Odes Modernas, poesias de romantismo social, acompanhadas de uma "Nota sobre a Missão Revolucionária da Poesia". Em resposta à reação crítica de Castilho na carta-posfácio ao Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, publica os opúsculos Bom Senso e Bom Gosto e A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, que desencadearam a Questão Coimbrã. Ainda no contexto da Questão Coimbrã, bate-se em duelo com Ramalho Ortigão, de quem viria a tornar-se amigo. Decide aprender o ofício de tipógrafo, primeiro em Lisboa e depois em Paris, onde conhece Michelet e lhe oferece um exemplar das Odes Modernas. Regressado a Lisboa em 1868, e depois de uma curta viagem à América do Norte, reúne-se com os seus antigos condiscípulos de Coimbra no "Cenáculo", grupo onde se discutem as doutrinas recentes e se descobrem os novos poetas (Baudelaire, Gautier, Nerval, Leconte de Lisle e o redescoberto Heine); fruto destes encontros, criação coletivada Geração de 70, nasce o poeta satânico e dândi Carlos Fradique Mendes. Em 1871, organiza as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, proferindo as duas primeiras, O Espírito das Conferências e Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. No rescaldo da interrupção e da proibição das Conferências, consideradas subversivas pelo Governo, Antero vive a sua fase política mais intensa, fundando, com José Fontana, a I Internacional Operária em Portugal e também o jornal O Pensamento Social. Por esta altura, publica as primaveras Românticas e as Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa. A partir de 1873, manifestam-se-lhe os primeiros sintomas de uma grave doença nervosa, que as mortes próximas da mãe e do pai acentuam, que o leva a consultar em Paris o famoso neurologista Charcot e a submeter-se, entre 1877 e 1878, a tratamentos de hidroterapia. Em 1875, publica uma segunda edição das Odes Modernas, atenuando-lhes o cunho revolucionário. Em 1880, adota duas órfãs, filhas do amigo e antigo colega de Coimbra Germano Meireles. Nessa altura, devido à doença, isola-se em Vila do Conde, continuando a escrever sonetos e ensaios filosóficos. Em 1886, publica os Sonetos Completos e o ensaio A Filosofia da Natureza dos Naturalistas. Em 1887, redige a célebre carta autobiográfica a Wilhelm Storck, seu tradutor alemão. Em 1890, publica o estudo filosófico Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX. No mesmo ano, em virtude do Ultimato inglês, regressa temporariamente à atividade pública, aceitando a presidência da efémera "Liga Patriótica do Norte". Em 1891,suicida-se em Ponta Delgada.

Antero de Quental. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-22].


O Grupo dos Cinco: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro
Porto, Palácio de Cristal, 1884


terça-feira, 3 de julho de 2012

"O Quinto Império" - Poema de Fernando Pessoa


Pintura de Jacek Yerka
 


O Quinto Império


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu Dom Sebastião?


Fernando Pessoa, 
in Mensagem (O encoberto)


Pintura de Paula Rego


"Um artista pode sofrer muito, ser muito infeliz até à morte. Acredito mesmo que entre os artistas se enfileirem alguns dos grandes desgraçados da terra. 
No entanto, na desventura de um artista, por mais amarga que ela tenha sido, brilhou sempre um raio de sol. A sua desgraça não foi de certeza a de uma existência vazia e desoladora - que é a maior e mais real miséria deste mundo" 

Incesto, Mário Sá Carneiro


Pintura de Graça Morais


"A função da perfeição é fazer com que cada um de nós conheça a sua imperfeição." 

(Santo Agostinho)


Pintura de Júlio Pomar


"A felicidade vem do compromisso. Alguns pensam que não, que uma pessoa mais solta, sem ligações nem obrigações, é mais feliz! Será? Ela faz o que lhe apetece e não o que quer. Fica escrava das ondas, das emoções, vai para onde puxa o que 'está a dar' e não para onde quer e deve. Estar solto não é o mesmo que ser livre. E comprometer-se livra-nos da escravidão das fantasias e dos apetites."


Pe. Vasco Pinto de Magalhães, in 'Não Há Soluções, Há Caminhos' 


sábado, 17 de março de 2012

"Viagem" - Poema de Miguel Torga



Paula Rego, "A Sofreguidão dos Peixes", 1985


Viagem



É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...


Miguel Torga, in 'Diário XII'


Paula Rego, "A Casa de Celestina", 2001 


Paula Rego, "As Lições de Betrothal" (série Hogarth), 1999


Paula Rego, série "Aborto", 1997-1999


Paula Rego, "Mulher Cão", 1994


Pintora portuguesa radicada em Inglaterra, Paula Figueroa Rego nasceu a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa. Formou-se na Slade School of Art e, nos inícios dos anos 60 do século XX, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. A sua primeira aparição perante o público lisboeta deu-se em 1961, na II Exposição da Gulbenkian, tendo o seu trabalho sido bem acolhido pela crítica. O surrealismo e o expressionismo influenciaram estes primeiros desenhos e colagens. Passou pelo movimento da pop art inglesa, conservando, contudo, uma temática muito pessoal. A leitura dos romances de Henry Miller marcou igualmente o seu percurso, ao abordar temas do imaginário erótico feminino. Em 1965 produziu vários trabalhos relacionados com acontecimentos chocantes da vida política ibérica - Cães de Barcelona, Gorgon, Retrato de Grimau, Manifesto por uma causa perdida, temática já anunciada em 1961 com Salazar a vomitar a Pátria. Faz uma leitura pessoal de outras obras de arte e das suas memórias, integradas em processos narrativos em que o mundo da infância aparece como um lugar lúdico de perversidade e algum humorismo. Esta "narratividade" acentua-se nos anos 80. Nos anos 90, assume a orientação figurativa de raiz temática portuguesa ou atinge ainda uma dimensão universal abordando a condição feminina (Série de mulher-cão, Marborough Gallery, 1992). Paula Rego nunca se desligou da vida artística portuguesa, expondo regularmente entre nós, mas também noutros países, como aconteceu, por exemplo, nas cidades de Amesterdão, Paris, Lima e Bruxelas. Também já representou o Reino Unido em certames como a Bienal de S. Paulo. Em maio de 1997, no Centro Cultural de Belém, foi inaugurada uma importante exposição retrospetiva da sua obra, com 136 trabalhos, cobrindo trinta e seis anos de carreira, e, em outubro de 2004, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, acolheu uma seleção da obra de Paula Rego, produzida desde 1997. Nesta mostra, de cerca de 150 obras, a artista apresentou, pela primeira vez, os desenhos preparatórios de algumas da suas pinturas, destacando a importância do desenho no seu trabalho. 
Em 2001, foi publicado, numa edição limitada, numerada e assinada, o livro As Meninas, uma obra conjunta da artista e de Agustina Bessa-Luís.
Ao longo da sua carreira tem sido distinguida com vário prémios, como: Prémio Soquil (1971); TWSA Touring Exhibition, Newlyn Arts Centre, Penzance (1984); Prémio Benetton/Amadeo de Souza-Cardoso, Casa de Serralves, Porto (1987); Prémio Turner 89, Londres (1989); Prémio Bordalo da Casa da Imprensa 1997, Lisboa (1998); Prémio AICA'97, Lisboa (1998); Prémio de Consagração Celpa/Vieira da Silva (2001).

Paula Rego. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-03-17].



A dantesca casa de bonecas de Paula Rego
 
Bonecos gigantes meio humanos, meio animalescos chegam a Nova Iorque pela mão de Paula Rego.
 A exposição "Human Cargo" traz a público os habitantes do estúdio Londrino.


"Paula Rego é a mais conceituada artista residente na Inglaterra."

(John McEwen, crítico de arte inglês) 


"Rosto" e "As Avestruzes Bailarinas" - Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen e de José Fanha


Paula Rego, Dança Avestruzes, 1995


Rosto

Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.

Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na dúvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.

Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem

Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.

Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.






Pinturas de Paula Rego 
(Série "Avestruzes Bailarinas") -1995







As Avestruzes Bailarinas
(Sobre uma pintura de Paula Rego)


Perderam no ovo 
a memória do voar.

As avestruzes.

Têm desejos aerodinâmicos.

Dormem numa febre de sentir 
encostando ao peito
o mecânico ruído de turbinas
hélices 
motores.

Têm sonhos que nunca confessarão
nem sequer à própria sombra.

Aspiram soluçando à forma das fuselagens.

Perderam no ovo a inclinação
à travessia das nuvens.

Vão dançar a noite inteira
procurando tristemente a memória 
de uma estrela de um cometa 
ou de uma asa.


(Do livro "Marinheiro de outras luas")


Paula RegoDança Avestruzes da Disney 'Fantasia' de 1995


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"O Baile" - Poema de Natércia Freire


Maria Helena Vieira da Silva, 'Biblioteca em Fogo', óleo sobre tela, 1974.



O Baile 


Névoa em surdina 
A sombra que acompanha 
As finas pernas a dançar na tarde. 
Jogo de jovens corpos. 
Música de montanha, 
Num tempo teu e meu 
De eternidade. 
E eu, as duas estranhas. 

Olha quem toca o ponto 
Que há no fim! 
Ao fim de mim, 
No ponto para que vim. 
Ao fim de mim 
No ponto donde vim. 
Vulto de agulha 
Em fumo de água e lenha. 

Eu, as duas estranhas. 

É sempre pelos outros que falamos. 
Eu, as duas estranhas, por mim falam. 
Em estradas como ramos 
oscilamos. E vamos 
Convergentes, dispersas, disparadas 
Pelos tiros de magos inocentes 
Do caos ao sol 
Em gradações de escadas. 

Ouve-se às vezes uma voz: — Presente! 
E já no corpo as almas vão trocadas. 

Foi em concretos dias de sol-posto, 
Em fábricas de fios de uma aranha, 
Que se teceram 
Em finíssimas teias de desgosto, 
(Eu) as duas estranhas. 
in 'Antologia Poética'



Pintores Portugueses

Vieira da Silva 
Pintora portuguesa. Nasceu em Lisboa em 1908. Faleceu em 1992.




Júlio Resende
Pintor português. Nasceu no Porto em 1917.



Júlio Pomar
Artista plástico português. Nasceu em Lisboa em 1929.



Manuel Cargaleiro 
Artista plástico português. Nasceu em Vila Velha de Ródão em 1927.



Paula Rego
Pintora portuguesa. Nasceu em Lisboa em 1935.



Graça Morais
Pintora portuguesa. Nasceu em Vieiro, Bragança em 1948


Nadir Afonso
Pintor e arquitecto português. Nasceu em Chaves em 1920.



Mário Botas
Pintor português. Nasceu em 1952 na Nazaré. Faleceu em 1983.



Cruzeiro Seixas
Poeta e pintor surrealista português. Nasceu na Amadora em 1920.