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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

"O meu olhar é nítido como um girassol" - Poema de Alberto Caeiro


Cecelia Webber, Digital Photographic Image
 


O meu olhar é nítido como um girassol


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

8-3-1914 
 
(Heterónimo de Fernando Pessoa),
 
 
 
Galeria de Cecelia Webber
Cecelia Webber, Digital Photographic Image


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Cecelia Webber, Digital Photographic Image


Cecelia Webber, Digital Photographic Image




sábado, 1 de agosto de 2015

"O Quê? Valho Mais Que Uma Flor" - Poema de Alberto Caeiro


Cecelia Webber, Digital Photographic Image


O quê? Valho mais que uma flor


O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...

Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).


Alberto Caeiro
“Poemas Inconjuntos”
Poemas Completos de Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


Cecelia Webber, Digital Photographic Image


"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." 

(Eugénio de Andrade)


Norah Jones - Don't Know Why

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Poeta castrado, não!" - Poema de Ary dos Santos


Pencil Art by Jennifer Maestre
 

Poeta castrado, não!


Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
 
Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.
 
Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:
 
Da fome já não se fala
— é tão vulgar que nos cansa —
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?
 
Do frio não reza a história
— a morte é branda e letal —
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?
 
E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
— Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
— Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!
 
Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não! 


José Carlos Ary dos Santos
,
in "Resumo", 1972
 

Pencil Art by Jennifer Maestre
Pencil Art by Jennifer Maestre






"O vírus do amor ao livro é incurável, e eu procuro inocular esse vírus no maior número possível de pessoas." 

José Ephim Mindlin (São Paulo, 8 de setembro de 1914 — São Paulo, 28 de fevereiro de 2010) foi um repórter, advogado, empresário, escritor e bibliófilo brasileiro.


Norah Jones - Summertime