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sábado, 12 de setembro de 2026

"Desaparecido" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro

 


Ryan Mutter
 (Scottish artist, b. 1978), 'Crail', 2021.
Oil on Canvas, 50 × 40 cm, Private Collection.


Desaparecido


Sempre que leio nos jornais:
"De casa de seus pais desapareceu..."
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto de arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
— Livre o instinto, em vez de coagido,
"De casa de seus pais desapareceu..."
Eu, o feliz desaparecido! 


Carlos Queirós Ribeiro (1907–1949), 
in 'Desaparecido', 1935



Desaparecido: poemas de Carlos Queiroz, 1935.
Contém dedicatória autógrafa a Fernando Pessoa 
datado de 31-10-1935 oferecendo propositadamente
o exemplar com o nº 13.
 (daqui)


Sobre Desaparecido, de Carlos Queiroz
por Fernando Pessoa


A beleza do livro começa pelo livro. A edição é lindíssima. A beleza do livro continua pelo livro fora: os poemas são admiráveis.
Não se pode dizer deste livro o que é vulgar dizer-se, elogiosamente, de um primeiro livro, sobretudo de um jovem: — que é uma bela promessa. O livro de Carlos Queiroz não é uma promessa, porque é uma realização. Cumpriu, sem ter prometido, sem ter tido que prometer. 
Assim se deveria fazer sempre, ou quase sempre. Pertence ao mais íntimo da probidade literária e artística o não se apresentar ao público sem ter plena consciência de que na obra apresentada está tudo quanto em nós haja de forte. Não escrevia Milton um soneto sem que o fizesse como se desse soneto dependesse toda a sua fama futura.
E que prazer o de se poder escrever isto sem que a amizade que tenho pelo poeta, que é muita, uma só palavra me dite; sem o que o gosto de incitar quem é jovem, e tenho esse gosto, me faça sublinhar uma só frase; de poder escrever isto sem mais entendimentos que com a justiça, sem mais combinações que com a verdade.

1935

Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980. 
1ª publ. in Revista de Portugal, nº 2. Coimbra: Jan. 1938
.

 


Ryan Mutter (Scottish artist, b. 1978), 'Dockland Life'.
Oil on Canvas, 
 60 × 60 cm, Private Collection.
 

"O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação."
 [Escritor, poeta e dramaturgo irlandês, 1854–1900]
 
 

domingo, 16 de agosto de 2026

"A lavadeira no tanque" - Poema de Fernando Pessoa

 

 
Frederick Arthur Bridgman
(American painter, 1847–1928),
'Mother’s little helper', 1874.



A lavadeira no tanque


A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?

15-9-1933 

Fernando Pessoa, 'Novas Poesias Inéditas',
Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
 
 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Abat-jour" - Poema de Fernando Pessoa


 
Manuel Amado (Arquiteto e pintor português, 1938–2019),
'O quarto de Fernando Pessoa I', 1993. Óleo sobre tela, 116x89cm,
Coleção Câmara Municipal de Lisboa.
 
 
 
Manuel Amado, 'O quarto de Fernando Pessoa II', 1993.
Óleo sobre tela, 116x89cm, Coleção Câmara Municipal de Lisboa. 



Manuel Amado, "O Quarto de Fernando Pessoa III", 1993.
Óleo sobre tela, 116x89cm, Coleção Câmara Municipal de Lisboa. 


Abat-jour


A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu

No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!

E no quarto silente
Com a Luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...

28-2-1929

Fernando Pessoa, in 'Poesias',
Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995)

sábado, 18 de julho de 2026

"Havia um Menino" - Poema de Fernando Pessoa



Pál Balkay
(Hungarian painter and teacher, 1785–1846),
 'The Sister and Brother', n.d.


Havia um Menino


Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.


Fernando Pessoa (1888–1935),
in 'O Meu Tio Fernando Pessoa', de Manuela Nogueira.
Famalicão: Centro Atlântico, 2015. p. 87

[Poema dedicado ao sobrinho Luís Miguel – o Bebé –
que não queria pôr o chapéu “por causa do sol”.]


 
(daqui)



"Pedi tão pouco à vida e mesmo esse pouco a vida me negou." 


Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego' - Vol.II.
Org. e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha. Lisboa: Presença, 1990.
 
 

domingo, 14 de junho de 2026

"A palavra o açoite" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

A palavra o açoite


Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filha
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
e distante e distante
uma légua de mágoa

E toda a santa mágoa este dia esta noite
o discurso o nevoeiro a palavra o açoite
a glória pátria
filho
um rugir absoluto um rugir obsoleto
um secreto
martelar de silêncio

E toda a santa guerra esta manhã de mágoa
de silêncio de névoa este loiro este espesso
instante de ternura filho camuflada
de rodas sulcos rasas
rosas de fogo e afago

Toda a santa manhã esta espera este amargo
absoluto obsoleto medo filho por vir
o loiro infante o instante
todo alcácer-quibir


Emanuel Félix Borges da Silva,
in 'A palavra, o açoite: poemas', 1977.

[Emanuel Félix Borges da Silva (Angra do Heroísmo, 24 de Outubro de 1936 — Angra do Heroísmo, 14 de Fevereiro de 2004), mais conhecido por Emanuel Félix, foi um poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico, que se afirmou como um dos mais notáveis poetas e escritores da segunda metade do século XX. Foi o primeiro introdutor em Portugal do concretismo poético, inspirado pelos brasileiros Augusto e Haroldo de Campos, porém cedo passou a uma experiência surrealista.] (daqui)

 
Angra do Heroísmo: uma das principais cidades açorianas e sede da Diocese de Angra, 
na ilha Terceira; ao fundo, o Monte Brasil.
 (daqui)


Angra do Heroísmo, resistência insular

Angra tem Heroísmo no nome e na história. Defendeu-se de piratas, resistiu a aceitar o domínio dos Filipes, foi palco das lutas liberais, reergueu-se após um violento terramoto. Cidade da ilha Terceira, nos Açores, é Património da Humanidade desde 1983. 

Protegida dos ventos dominantes e com localização atlântica privilegiada, Angra foi escolhida pelos navegadores portugueses para ser porto de abrigo nas grandes viagens dos Descobrimentos. As naus de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, por exemplo, fizeram escala nas suas baías naturais.

Ouro, prata, especiarias, todas as riquezas das Índias Orientais e Ocidentais eram cobiça de piratas. Duas grandes fortalezas, São Sebastião e São Filipe, foram construídas para defender a cidade que, desde a Idade Média, vinha crescendo à volta do Castelo. Durante três séculos, Angra está no centro das rotas comerciais e faz a ligação entre quatro continentes: Europa, Ásia, África e América. Ali foi estabelecida a Provedoria das Armadas e Naus da Índia.

No século XV, Angra prospera, a malha urbana cresce, adaptando-se às colinas e às condições climatéricas. No século XVI, em 1534, é elevada a cidade por D. João III e, no mesmo ano, fica sede do Arcebispado dos Açores. São desta fase algumas das suas mais importantes construções: a Catedral do Santíssimo Salvador, num gótico tardio com traços do maneirismo; o Convento e a Igreja de S. Francisco, com as suas fachadas sóbrias e os interiores enriquecidos em azulejaria, talha dourada e pintura; as Igrejas da Misericórdia e do Santo Espírito, o Palácio dos Capitães-Generais. A lista é grande e monumental.

O terramoto de 1980 destruiu oitenta por cento deste património, mas o trabalho de reconstrução foi exemplar e, apenas três anos depois, o comité da UNESCO reconheceu a importância do centro de Angra do Heroísmo para a Humanidade. (daqui)

 

"Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"

Fernando Pessoa (1888–1935),
Trecho do poema "Mar Português", que integra a sua obra "Mensagem", 1934.




"Mensagem" de Fernando Pessoa.
Editor: 11 X 17; Edição: 05-2010.


"Mensagem", a profecia de Fernando Pessoa

A visão pessoana de um Quinto Império nasce nos versos desta obra, épica, metafórica e profética. A "Mensagem" é como se fosse um sonho de Portugal por realizar. «Sou um nacionalista místico, um sebastianista racional», escreveu o poeta sobre o único livro de poemas em português que conseguiu publicar em vida. A 1 de dezembro de 1934, um ano antes de morrer.

Nos 44 poemas da "Mensagem" contam-se séculos de história, das glórias e não glórias que Portugal viveu. Fernando Pessoa contempla o passado dos heróis e dos mitos, de Ulisses, de Viriato, do Infante D. Henrique, de Nuno Álvares Pereira e do desejado D. Sebastião. 

O poeta encontra no «pequeno povo» das Descobertas, «a grande Raça que partirá em busca de uma Índia nova», não para conquistar apenas um Império terreno mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, o Quinto Império.

Tal como Camões fizera quatrocentos anos antes, o poeta olha para a grandeza das viagens marítimas como um incitamento para o sonho: "É a Hora!", escreve no último verso. 

Coletânea de poesias escritas em épocas diferentes, a "Mensagem" de Pessoa divide-se em três partes: "Brasão", "Mar português" e "O encoberto".

A primeira parte, "Brasão", divide-se em "Os campos", "Os castelos", "As quinas", "A coroa" e "O timbre". Cada uma dessas partes está ligada ao brasão do país.
"Brasão" aborda o período histórico inicial português, desde os processos de formação da nação portuguesa até o momento da expansão marítima, representado sua dificuldade e esperança. 

"Mar português" fala sobre a época de ouro portuguesa, a da expansão marítima, reveladora da coragem e do heroísmo português.

"O encoberto" concentra-se no mito do Sebastianismo e do Quinto Império, que retirariam Portugal da decadência experimentada a partir do século XVIIII até o momento da enunciação, o século XX.
(daqui)

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

"Dorme, criança, dorme" - Poema de Fernando Pessoa



Josep de Togores i Llach (Pintor espanhol, 1893–1970), 'Niños durmiendo', 1927.



Dorme, criança, dorme


Dorme, criança, dorme,
Dorme que eu velarei;
A vida é vaga e informe,
O que não há é rei.
Dorme, criança, dorme,
Que também dormirei.

Bem sei que há grandes sombras
Sobre áleas de esquecer,
Que há passos sobre alfombras
De quem não quer viver;
Mas deixa tudo às sombras,
Vive de não querer.

16-3-1934

Fernando Pessoa,  
Poesias Inéditas (1930-1935),
Nota prévia de Jorge Nemésio.
Lisboa: Ática, 1955.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

"A obra de arte" - Texto de Fernando Pessoa


 
Carl Johann Spielter (Danish painter, 1851
–1922), 'A Discerning Collector', 1911.


A obra de arte


A obra de arte, fundamentalmente, consiste numa interpretação objetivada duma impressão subjetiva. 
Difere, assim, da ciência, que é uma interpretação subjetivada de uma impressão objetiva, e da filosofia, que é, ou procura ser, uma interpretação objetivada de uma impressão objetiva.

A ciência procura as leis particulares das coisas — isto é, aquelas leis que regem os assuntos ou objetos que pertencem àquele tipo de coisas que se estão observando. A ciência é uma subjetivação, porque é uma conclusão que se tira de determinado número de fenómenos. A ciência é uma coisa real e, dentro dos seus limites, certa, porque é uma subjetivação de uma impressão objetiva, e é, assim, um equilíbrio.

A filosofia trabalhará sempre em vão porque procura objetivar...

Na arte temos a distinguir três partes. A arte envolve uma impressão, ou ideia, sobre a qual se trabalha; envolve uma interpretação dessa ideia ou impressão de modo a torná-la artística; e envolve, finalmente, uma coisa de que se tem essa impressão ou ideia.

A arte obedece, portanto, a três critérios exteriores. Tem que obedecer às leis que regem toda a impressão ou ideia. Tem que obedecer às leis que regem toda a interpretação. E tem que obedecer às leis que regem toda a objetivação. Quais são, em cada caso, essas leis?

Primeiro, quais as leis que regem a impressão ou ideia? Estas leis são três. Abrangem, como se vê, o elemento subjetivo da arte. 1.°: Uma impressão ou ideia é perfeita e típica na proporção em que é característica do indivíduo que a tem, isto é, na proporção em que nessa ideia se revela a) o temperamento do indivíduo, b) todo o temperamento do indivíduo (o mais possível do temperamento do indivíduo), c) o temperamento do indivíduo o mais harmonicamente disposto dentro de si que seja possível (analyse this last element). De modo que o elemento subjetividade da arte envolve a originalidade como critério objetivo (note if this expression is good) .

Segundo, quais as leis que regem a objetivação? Vejamos o que quer dizer objetivação. A palavra implica a redução da ideia, ou seja o que for (que há de ser ideia, e não objeto, para poder dizer-se que se objetiva) à categoria de objeto; isto quer dizer, à categoria de coisa análoga a qualquer coisa que ocupa o mundo exterior. São três as leis que regem a determinação do objetivo como tal. 1.º Um objeto tem de ser limitado, distinto dos outros objetos. 2.º Um objeto é composto de partes formando um todo; essas partes existem nesse todo em virtude de serem partes de tal todo, nem se consideram partes senão em relação a tal todo; e o todo, podendo ser considerado como uma coisa independentemente das partes, só o pode ser em virtude da harmonização das partes na formação desse todo. 3.º (deve ser 1.º). Cada objeto é real na proporção em que pode ser observado em diferenças grandes por o maior número possível de pessoas. Temos, pois, como leis da objetivação: 1.º (3rd above) A lei da verosimilhança. 2.º (1st above) A lei da não-repetição. 3.º (2nd above) A lei da relação de interdependência entre o todo e as partes de que é composto. (A lei da unidade harmónica. Porque, quando observamos um todo, observamo-lo através das partes que o compõem, mas, vendo-as de golpe, somamo-las de chofre na ideia desse todo).

Terceiro. Quais são as leis que regem a interpretação. Entende-se que por interpretação se entende apenas um alto grau — o mais alto — do fenómeno envolvido na sensação de qualquer coisa. Essas leis são também três: 1.° Uma interpretação é tanto mais completa quanto mais conserva todas as relações do objeto interpretado, a sua harmonia especial e típica tanto quanto possível. 2.° Uma interpretação é tanto mais perfeita quanto mais consegue fazer esquecer o objeto interpretado na própria interpretação. (É assim que uma tradução é perfeita quando parece não ser uma tradução) (...).


Fernando Pessoa, in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação".
(Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1966. - 177.
 


 
Carl Johann Spielter, 'The Art Lover', 1922.


"A obra de arte convida a subjetividade a se construir como olhar, livre abertura para o objetivo, e o conteúdo particular a se pôr a serviço da compreensão em lugar de ofuscá-lo fazendo prevalecer as suas inclinações. À medida que o sujeito exerce a aptidão de se abrir, desenvolve a aptidão de compreender, de penetrar no mundo aberto pela obra. Gosto é, finalmente, comunicação com a obra para além de todo saber e de toda técnica. O poder de fazer justiça ao objeto estético é a via da universidade do julgamento do gosto."
 

Mikel Dufrenne (1910–1995), in "Phénoménologie de I'expérience esthétique", 1953.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

"Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar" - Poema de Fernando Pessoa

 


Frederick Judd Waugh (American painter, primarily known as a marine artist,
1861-1940), 'Under the Trade Winds, Barbados', c. 1921.


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

Deem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Deem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu. 

10-8-1929

Fernando Pessoa, 'Poesias'
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 118. 


 
Frederick Judd Waugh, 'The Next Wave', c. 1924, Indianapolis Museum of Art.

«O mar está levemente encrespado e pequenas ondas quebram na praia arenosa. O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda e a observa. Não está contemplando, porque para a contemplação, nenhuma daquelas três condições todavia, se verifica para ele. Em suma, não são “as ondas” que ele pretende observar, mas uma simples onda e pronto: no intuito de evitar as sensações vagas, ele predetermina para cada um de seus atos um objetivo limitado e preciso.» 

Italo Calvino (1923–1985), in "Palomar", 1983. 

  

 
'Palomar' de Italo Calvino
 Dom Quixote, 2020 – reedição

SINOPSE 

Um dos mais carismáticos livros de Calvino e o último que publicou em vida.

Será possível encontrarmos um sentido nas coisas, no mundo à nossa volta? E dentro de nós próprios? O senhor Palomar está muito longe de ter alguma certeza quanto a tudo isso. Todavia, continua à procura.

Homem excêntrico em busca de conhecimento, visionário num mundo sublime e ridículo, Palomar é um observador nato. «Só depois de ter conhecido a superfície das coisas», acredita ele, «nos podemos aventurar a procurar o que está por baixo.» Seja contemplando um seio nu, uma loja de queijos em Paris, a barriga de uma osga ou os céus de Roma invadidos por estorninhos, o senhor Palomar oferece-nos uma visão do mundo familiar, mas fragmentada pela perceção individual.

Último livro publicado em vida por Italo Calvino, "Palomar" é uma narrativa fascinante sobre a vertigem do homem diante dos inexoráveis mistérios do universo. Um autêntico testamento literário de um dos maiores escritores do século XX, que conduz o leitor através de um inquérito de resultados surpreendentes: o senhor Palomar é sem dúvida o autor, mas não só. Somos todos nós, os leitores deste livro empolgante, um dos mais profundos da literatura de todos os tempos. (daqui)


Italo Calvino

Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.

Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.

Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas. A colaboração de Calvino com a imprensa havia começado em meados de 1945, no jornal comunista L'Unittá, prosseguindo em títulos como Il Garibaldino, voce della Democracia e La Republica.

Após a publicação de Il visconte dimezzato (1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga. Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa, pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que como romancista.

Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.

Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral. (daqui)

sábado, 4 de abril de 2026

"Horizonte" - Poema de Fernando Pessoa

 


Jaume Morera i Galícia (Pintor paisatgista català, 1854–1927), Esperando la marea,
Playa de Arrigunaga,
1904. Museu d'Art Jaume Morera.

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

s.d.

Fernando Pessoa, Mensagem. 
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 
(Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58.


 
Jaume Morera i Galícia, Playa con sol poniente, s.d.
Óleo sobre lienzo, 86 x 102 cm. Colección particular.



"Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota."

Adélia Prado
, Trecho do poema "Desenredo", 
do livro "O Coração Disparado."
 

quinta-feira, 26 de março de 2026

"O mar e o canavial" - Poema de João Cabral de Melo Neto



Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member of the Heidelberg School,
1867-1943), Ariadne, 1895, National Gallery of Australia.


O mar e o canavial


O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.

O que o canavial sim aprende do mar;
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
o desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.


João Cabral de Melo Neto, 
in "A educação pela pedra", 1966.


Sir Arthur Streeton, Oblivion, 1892, Private collection.
 
 
"Eu não sei o que o amanhã trará." 

"I know not what tomorrow will bring."


Fernando Pessoa (Lisboa, 13/06/1888 — Lisboa, 30/11/1935)



A curiosa e inquietante última frase escrita por Fernando Pessoa (daqui)
 

Fernando Pessoa morre no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luís dos Franceses, em Lisboa, de uma crise hepática. Era o início de uma noite de sábado.

Dá entrada no hospital na véspera da partida. E são dessa data (29 de novembro) as suas últimas palavras escritas: 

«I know not what tomorrow will bring.» [não sei o que o amanhã trará.] 

Tinha 47 anos.

Quando morreu Fernando Pessoa deixou publicada uma décima parte da sua obra: 35 Sonnets (1918), Antinous (1918), English Poems (1921), O Interregno: defeza e justificação da dictadura militar em Portugal (1928), Mensagem (1934) e uma série de escritos dispersos por algumas revistas, como a Orpheu — da qual foi o fundador.

Só mais tarde se descobriu que Fernando Pessoa deixou uma herança inestimável para o país e, sobretudo, para a Língua Portuguesa: uma arca com mais de 27 000 manuscritos inéditos.

A vasta obra, deixada inédita, só começou a ser editada em 1942, por iniciativas de Luís de Montalvor e de João Gaspar Simões.

Apenas em 1968 começou o inventário da sua famosa arca. Portugal começava então a aperceber-se da dimensão e da magnitude da obra pessoana. O mundo descobriu isso depois. E pasmou-se.

Em 1985, por ocasião dos 50 anos da morte do poeta, a sua obra entra em domínio público. Nesse ano, e nos seguintes, o mercado do livreiro (nacional e internacional) mostrou um verdadeiro interesse pelo poeta. Porém, em 1997, ao abrigo da diretiva da União Europeia (que fixava em 70 anos após a morte, o período de vigência dos direitos de autor) a editora Assírio e Alvim comprou aos herdeiros os direitos de edição — medida que viria a causar celeuma entre os editores de todo o mundo.

Em 2005, cumpridos os 70 anos da morte do poeta, a sua obra entra definitivamente em domínio público. Fernando Pessoa passou a ser livre outra vez e consagrou-se como um dos nomes maiores da literatura universal.

Em setembro de 2009, pelo Decreto n.º 21/2009, de 14 de setembro, o espólio documental de Fernando Pessoa foi classificado como «bem de interesse nacional», passando a designar-se o espólio do escritor como «tesouro nacional».

Entre outros títulos a Imprensa Nacional dedica-lhe a coleção «Edição Crítica de Fernando Pessoa», sob a coordenação do Professor Ivo Castro, a coleção de ensaios «Pessoana» e o primeiro volume da coleção infantojuvenil «Grandes Vidas Portuguesas». (daqui)

quinta-feira, 12 de março de 2026

"A pálida luz da manhã de Inverno" - Poema de Fernando Pessoa



Artur Franco (Artista plástico português, n. 1950), Leiria, 2012.
 

A pálida luz da manhã de Inverno


A pálida luz da manhã de Inverno, 
O cais e a razão 
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer, 
Ao meu coração. 
O que tem que ser 
Será, quer eu queira que seja ou que não.

No rumor do cais, no bulício do rio 
Na rua a acordar 
Não há mais sossego, nem um vazio sequer, 
Para o meu esperar. 
O que tem que não ser 
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar. 

28-12-1928


Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1919-1930). 

(Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.)
Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 106.


Artur Franco, 'Ao romper da aurora', Rio Lis, Leiria, 2007.
 
 
Artur Franco, 'Reflexos', Rio Lis, s.d. 
 
 
 
Artur Franco, 'Amanhecer', Rio Lis, s.d


Rio Lis

Nascido nas Fontes, freguesia das Cortes, e com foz na Praia da Vieira, o rio Lis assume papel principal na identidade leiriense, sendo um dos poucos, a nível nacional, que vê a sua corrente seguir o sentido sul-norte e, nos quilómetros finais, o sentido este-oeste.
Elemento preponderante no concelho, este curso de água, com cerca de 40 quilómetros de extensão, inspirou poetas e prosadores e até tema de uma lenda, de um amor entre o Lis e o seu afluente Lena.
A beleza natural da sua nascente permite ver a água brotar de uma forma surpreendente em alguns meses do ano.
O rio atravessa o centro da cidade de Leiria, sendo acompanhado por zonas verdes e pelo percurso Polis, espaços de grande atração para momentos de lazer e para a prática de desportos.
Já depois da malha urbana, o Lis segue por planícies aluvionares, chamadas de Campos do Lis, uma extensa zona agrícola irrigada por este curso de água.
Chegando a Monte Real, é possível apreciar uma paisagem fantástica, ao mesmo tempo que se pratica pesca desportiva.
No percurso final, o rio Lis passa junto ao Pinhal de Leiria, desaguando na Praia da Vieira, concelho da Marinha Grande.
(daqui)
 

segunda-feira, 2 de março de 2026

"Quando as crianças brincam" - Poema de Fernando Pessoa



Pieter Bruegel the Elder (Flemish Renaissance artist, c. 1525/1530–1569), "Children's Games", 1560.
[There are five boys playing a game of buck buck in the lower right-hand corner of the painting.]
Kunsthistorisches Museum, Vienna.


Quando as crianças brincam


Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração. 

5-9-1933 

Fernando Pessoa,
in "Poesias", Ática, 1942 (15ª ed. 1995);
in "Poesia do Eu", edição de Richard Zenith. 
Assírio & Alvim, 2ª ed. 2008, 510 p.



Pieter Bruegel the Elder, "The Fight Between Carnival and Lent", 1559,
Kunsthistorisches Museum, Vienna.
 

"A arte tem que nos revelar ideias, essências espirituais amorfas. A suprema questão para uma obra de arte é a profundidade da vida de onde ela brota."
 

James Joyce, in "Ulysses", Shakespeare and Company, 1922.
Tradução de Caetano Galindo
 (daqui)



James Joyce  fotografado em Zurique, Suíça, em 6 de nov. de 1918.


James Joyce


James Augustine Aloysius Joyce nasceu em 1882, em Rathmines, e morreu em 1941, em Zurique.
Escritor irlandês nascido nos subúrbios de Dublin, numa época em que o nacionalismo irlandês se aproximava da sua fase mais intensa.
Filho mais velho de John Stanislaus Joyce (1849–1931), que o influenciou decisivamente, Joyce teve uma educação católica; frequentou uma escola de Jesuítas e continuou a sua formação na universidade de Dublin (1898-1902). Afastada a perspetiva do sacerdócio, renunciou à religião católica.

Em 1902 viajou para Paris para estudar medicina, onde permaneceu durante um ano a escrever poesia e a desenvolver a sua reflexão estética. Durante essa estadia em Paris conheceu John Millington Synge (1871–1909).
Regressou à Irlanda por ocasião da morte da mãe em abril de 1903; durante algum tempo deu aulas numa escola privada irlandesa, facto que evocou no segundo capítulo de Ulysses (1922). 
Em 1904 deixou a Irlanda com Nora Barnacle (1884–1951), sua companheira até ao fim da vida. O seu encontro em 16 de junho de 1904 ficou registado no seu longo romance Ulysses, cuja ação decorre precisamente naquele dia. Apesar do longo exílio de Joyce, Dublin permaneceu o cenário privilegiado das suas obras. Deu aulas de inglês em Trieste, onde viveu com grandes dificuldades económicas até 1915. 

A coletânea de contos Dubliners, terminada (à exceção de um conto) em 1905, só foi publicada em 1914. Naquela obra Joyce combinou um estilo realista objetivo com efeitos simbólicos e miméticos para traduzir num tom coloquial os dramas da vida quotidiana de Dublin. Os contos transmitem a convicção do autor de que o conhecimento profundo das vivências humanas se revela frequentemente nos seus aspetos mais triviais. Dubliners valeu a Joyce o elogio de Ezra Pound (1885–1972). Joyce começou entretanto a escrever Stephen Hero, um extenso romance autobiográfico interrompido e posteriormente abreviado. 
Composto entre 1904 e 1914, o romance só foi publicado em 1916 com o título A Portrait of the Artist as a Young Man.

A Primeira Guerra Mundial (1914–1918) levou o escritor a abandonar
 Trieste em 1915 e a fixar-se em Zurique, onde viveu com a mulher e os dois filhos. Durante esse período Joyce trabalhou no seu romance Ulysses, publicado em Paris em 2 de fevereiro de 1922. A obra desencadeou reações violentas; as 1000 cópias da primeira edição venderam-se rapidamente mas a condenação de Ulysses foi igualmente intensa. 
O romance só voltou a ter uma edição legal nos Estados Unidos em 1934 e só foi publicado novamente no Reino Unido em 1936.

A originalidade de Ulysses revela-se sobretudo ao nível das inovações linguísticas e no modo de representação da experiência humana. 
A obra relata um dia na vida de três habitantes de Dublin; as personagens correspondem a figuras centrais da Odisseia de Homero (928 a.C. – 898 a.C.) e os 18 capítulos do romance são análogos aos episódios da epopeia de Homero, embora a sequência narrativa não seja idêntica.
O protagonista do romance de Joyce é Leopold Bloom, um judeu de origem húngara, que vive em Dublin, e o dia é 16 de junho de 1904.

A elaboração formal de Ulysses visava a criação imaginativa de um indivíduo cujas experiências Joyce considerava irredutíveis aos modos convencionais de representação literária. O escritor tentou reproduzir diretamente a corrente de consciência formada pelos pensamentos das personagens, uma técnica inspirada no romancista francês Édouard Dujardin (1861–1949). O monólogo interior traduzia a complexa vivência do sujeito pela aproximação da linguagem ao pensamento e à experiência humana. A dimensão universal do protagonista é reforçada pela analogia com Ulisses, herói lendário da Odisseia de Homero.
 
O modo inovador de representar a experiência moderna na cidade moderna culminou com
 Finnegans Wake (1939), onde Joyce multiplicou as complexidades do seu romance anterior. Esta obra relata uma noite na vida de H. C. Earwicker, que dorme ao longo de todo o romance. A experiência do protagonista é transmitida ao leitor através da sua vivência onírica reproduzida ao nível da linguagem pelas associações livres da sua consciência, pela fusão de palavras e ainda pelo cruzamento do Inglês com outras línguas europeias. A musicalidade narrativa do romance tem sido atribuída pelos críticos à sensibilidade auditiva de Joyce, que compensava os seus problemas de visão causados por um glaucoma.
 
A sobreposição de níveis de sentido em 
Finnegans Wake reproduz a técnica de Lewis Carroll (1832–1898) no poema "Jabberwocky", inserido na obra Through the Looking-Glass (1871). 
Joyce escreveu uma peça, Exiles (1918) e publicou três volumes de poesia: Chamber Music (1907), Gas from a Burner (1912) e Pomes Penyeach (1927). Os seus Collected Poems foram publicados em 1936.
 
Em 1920 James Joyce mudou-se novamente para Paris, onde viveu até à invasão da França pelas tropas alemãs em 1940 (Segunda Guerra Mundial, 1939–1945). Deixou Paris e voltou a Zurique, quase cego, em 1940. No começo do ano seguinte, morre de úlcera duodenal perfurada e peritonite generalizada, durante uma operação para salvar sua vida. Está enterrado no Cemitério Fluntern, naquela cidade, junto com Nora Barnacle.
A obra de Joyce, e especialmente Ulysses, ocupa um lugar decisivo na evolução da literatura moderna. (daqui)