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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

"Ninguém sabe o que é um poema" - Poema de Ricardo Azevedo



Regina Ohlweiler
(Artista brasileira, n. 1954), O primeiro voo do pássaro azul,
óleo sobre tela, 1990.

Ninguém sabe o que é um poema


Ninguém sabe o que é um poema
Se é solução ou problema
Se pretende ser um lema
Se imita o canto da ema

Ninguém sabe o que é um poema
Se vira e mexe é esquema
Se finge ou tem um dilema
Se às vezes vai ao cinema

Ninguém sabe o que é um poema
Se morde, xinga e blasfema
Se é perfume de alfazema
Se gosta de teorema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é a seca em Borborema
Se é a praia em Ipanema
Se é a fome em Diadema

Ninguém sabe o que é um poema
Se mata como enfisema
Se prende feito uma algema
Ou se é medida extrema

Ninguém sabe o que é um poema
Se é só palavra sem tema
Se é uma arte suprema
Ou se é mero estratagema.


Ricardo Azevedo,
do livro "Ninguém sabe o que é um poema",
Ática, 2005.



"Ninguém sabe o que é um poema", escrito e ilustrado
por Ricardo Azevedo. 
Ática, 2005.
 
 
SINOPSE

O livro "Ninguém sabe o que é um poema" é uma antologia de poemas. Poemas são textos inventados por poetas. Poetas são sujeitinhos inconvenientes, cheios de vontades, que adoram fazer bagunça e mudar tudo de lugar. Mal eles chegam, já vão logo enfiando o dinheiro no aquário, o peixe na carteira, pianos na planície e capim na lapela.

A fim de bagunçar de verdade, aproveitam-se da inocência das palavras: vão bolinando as mais sonsas e as obrigam a dizer coisas estranhas e imprevistas. Para tanto, valem-se não apenas do significado imediato de cada termo, mas também de seu som, seu peso, sua cor e do ritmo que muitas vezes se insinua entre duas sílabas, duas respirações. Contrariando dessa forma os hábitos e convenções, parece que eles acordam a linguagem de uma espécie de sono, enriquecendo-a com novas possibilidades de sentido.

Ricardo Azevedo
, autor deste livro, pertence a essa classe de bagunceiros que não vieram para explicar coisa alguma, mas antes para partilhar suas inquietações. Inquietações sobre a natureza e a vida na cidade, sobre o amor e a violência, o amadurecimento pessoal, o mistério que são os outros e a própria poesia.

Seus temas podem variar, assim como as formas por ele escolhidas (versos em redondilha, decassílabos, alexandrinos, versos livres, quadrinhas populares, estrofes com rima, sem rima etc.), mas em toda a parte você pode testemunhar a disposição para tratar concretamente de coisas abstratas e vagas, como ideias, sentimentos e sensações. É isso que o leva, por exemplo, a se perguntar sobre “a largura do tédio, o peso da tristeza, o limite do sonho” (“Problemas de cálculo”, p. 58), a falar da violência em termos botânicos (“Pézim de violência”, p. 43) ou a mobilizar noções da física para transfigurar uma declaração de amor (“Confissão com fissura”, p. 19).

Em suma, são mais de trinta poemas repletos de humor, lirismo e reflexão o que se oferece nas próximas páginas para deleite e espanto do leitor. E se no final “ninguém sabe o que é um poema” é porque esse é um conhecimento pessoal e intransferível, uma aventura que ninguém pode viver em nosso nome. (daqui)
 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

"Vem de tudo" - Poema de Ricardo Azevedo



Florence Kate Upton
(American-born British cartoonist and author,
1873–1922), Little girl with a carrot man and tomato man, 1890s;
The Vege-men's revenge, children's book illustration.

[The Vege-Men's Revenge is a children's book, written by Bertha Upton (British writer, 1849–1912)
and illustrated by his daughter, Florence Kate Upton.]


Vem de tudo


Vem de uma voz lá de dentro
Brota feito luz no chão
É casa solta no vento
É verdade? Sim e não

Vem da infância tristonha
Vem da infância contente
Vem do jovem, vem do velho
Vem de toda e qualquer gente

Pode nascer da paisagem
Lá no campo ou na cidade
Das ruas, da natureza
Das flores, da sociedade

Ou brotar dentro de um quarto
Fechado com a luz acesa
Ou talvez sair da fruta
Morta num prato na mesa

Pode fazer feito o mar:
Molhar os olhos da gente
(Quero dizer que é capaz
De emocionar, de repente)

Vem de um dia de alegria
Vem do sangue, vem do corte
Vem de uma noite vazia
Vem do amor e vem da morte

Pode ser pura mentira
Pode ser mera verdade
Pode ser só fantasia
Pode ser realidade

Vem da raiva e da revolta
Do desejo de mudança
Vem de ver tanta injustiça
Vem da luta e da esperança

Vem de uma casa engraçada
De uma pedra no caminho
Vem do galo que não tece
Manhã nenhuma sozinho

Vem de um riso de criança
Vem do espanto sobretudo
Vem do sonho que não cansa
Vem de nada e vem de tudo

Vem porque a gente sente
Vem porque a gente tenta
Vem porque a gente sonha
Vem porque a gente inventa

É flor que não existia
Joia esculpida no nada
Estrela nova no céu
Fruta boa inesperada

Cresce no fundo da gente
Sai da vida noite e dia
Vem à toa ou do trabalho
De tudo nasce a poesia


Ricardo Azevedo,  
do livro "Aula de carnaval e outros poemas",
 Ática, 2006.


domingo, 17 de novembro de 2024

"Estão batendo na porta" - Poema de Ricardo Azevedo



André Letria (Ilustrador português, n. 1973) (daqui)
 

Estão batendo na porta


Homem sério chega cedo,
olha seco pras pessoas,
cumprimenta com a cabeça,
fica longe e vai sentando.

Homem culto chega aéreo,
vive no mundo da lua,
abre um livro des’tamanho,
distraído vai sentando.

Homem belo vem bonito,
elegante e perfumoso,
puxa o espelho, passa o pente,
vem pro centro e vai sentando.

Homem pobre, quando chega,
chega sem nada na mão,
olha quieto, fala baixo,
e depois senta no chão.

Homem sábio chega calmo,
um por um vai abraçando,
fala pouco, olha nos olhos,
fica junto e vai sentando.

Homem doido chega e planta
bananeira na janela,
mostra a língua, tira a roupa,
pinta o sete e vai sentando.

Homem chato chega bobo,
vem torrando a paciência,
fala mole não se enxerga,
enche o saco e vai sentando.

Homem triste vem sozinho,
puxa o lenço e chora um pouco,
muita gente chega perto,
ele gosta e vai sentando.

Homem fraco chega branco,
capengando agasalhado,
tosse, espirra, ronca funga,
cospe, engasga e vai sentando.

Homem alegre chega leve,
vem contando as novidades,
dá três beijos, quatro abraços,
solta o riso e vai sentando.

Homem errado entra torto,
quebra o vaso tropeçando,
cai na sala, rasga a calça,
ri aflito e vai sentando.

Homem forte chega imenso,
abre a porta trovejando,
fala grosso, mostra o muque,
abre espaço e vai sentando.

Homem rico chega tarde,
vem falando de dinheiro,
faz mil contas, multiplica,
preocupado vai sentando.

Homem tímido não chega,
manda dizer que não vem,
fica em casa, deita cedo,
pra não sentir que tem medo.

Resta só uma pessoa,
pra reunião começar,
imagine agora um pouco,
quem é que falta chegar.


Ricardo Azevedo,
do livro "Dezenove poemas desengonçados",
Ática, 1997.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

"Aula de leitura" - Poema de Ricardo Azevedo



Madeleine Lemaire (Peintre, illustratrice et salonnière française, 1845–1928),
 Portrait of a girl with dog, s.d.


Aula de leitura



A leitura é muito mais
do que decifrar palavras.
Quem quiser parar pra ver
pode até se surpreender:

vai ler nas folhas do chão,
se é outono ou se é verão;

nas ondas soltas do mar,
se é hora de navegar;

e no jeito da pessoa,
se trabalha ou se é à-toa;

na cara do lutador,
quando está sentindo dor;

vai ler na casa de alguém
o gosto que o dono tem;

e no pelo do cachorro,
se é melhor gritar socorro;

e na cinza da fumaça,
o tamanho da desgraça;

e no tom que sopra o vento,
se corre o barco ou vai lento;

também na cor da fruta,
e no cheiro da comida,

e no ronco do motor,
e nos dentes do cavalo,

e na pele da pessoa,
e no brilho do sorriso,

vai ler nas nuvens do céu,
vai ler na palma da mão,

vai ler até nas estrelas
e no som do coração.

Uma arte que dá medo
é a de ler um olhar,
pois os olhos têm segredos
difíceis de decifrar.


Ricardo Azevedo,
do livro "Dezenove poemas desengonçados",
Ática, 1997.
 
 
Thalia Flora-Karavia (Greek artist, 1871–1960), Boy reading, 1906.
 
 
Livro

"O livro é um lugar de papel e dentro dele existe sempre uma paisagem. O leitor abre o livro, vai lendo, lendo e, quando vê, já está mergulhado na paisagem. Pensando bem, ler é como viajar para outro universo sem sair de casa. Caminhando dentro do livro, o leitor vai conhecer personagens e lugares, participar de aventuras, desvendar segredos, ficar encantado, entrar em contacto com opiniões diferentes das suas, sentir medo, acreditar em sonhos, chorar, dar gargalhadas, querer fugir e, às vezes, até sentir vontade de dar um beijinho na princesa. Tudo é mentira. Ao mesmo tempo, tudo é verdade, tanto que após a viagem, que alguns chamam leitura, o leitor, se tiver sorte, pode ficar compreendendo um pouco melhor sua própria vida, as outras pessoas e as coisas do mundo." — Ricardo Azevedo

 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

"Lição de Biologia" - Poema de Ricardo Azevedo


 
Jenny Eugenia Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
"Iduna", 1916. Watercolour, gouache and heightening white, 50 x 35 cm,
Private collection 


Lição de Biologia


Eu plantei um pé de amor
no fundo da minha vida
a semente foi brotando
primeiro criou raiz
da raiz nasceu o broto
do broto nasceu o caule
do caule nasceu o galho
do galho nasceu a folha
da folha nasceu a flor
e da flor nasceu o fruto
e o fruto que era verde
depressa ficou maduro
e com ele eu fiz um doce
que eu dei pra você provar
que eu dei pra você querer
que eu dei pra você gostar.


Ricardo Azevedo
, 
do livro "
Dezenove poemas desengonçados",
Ática, 1997.
 
 
"Dezenove poemas desengonçados" de Ricardo Azevedo.
Prémio Jabuti – Melhor Livro Infantil, 1999.



"As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças."

Manoel de Barros