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domingo, 17 de novembro de 2024

"Estão batendo na porta" - Poema de Ricardo Azevedo



André Letria (Ilustrador português, n. 1973) (daqui)
 

Estão batendo na porta


Homem sério chega cedo,
olha seco pras pessoas,
cumprimenta com a cabeça,
fica longe e vai sentando.

Homem culto chega aéreo,
vive no mundo da lua,
abre um livro des’tamanho,
distraído vai sentando.

Homem belo vem bonito,
elegante e perfumoso,
puxa o espelho, passa o pente,
vem pro centro e vai sentando.

Homem pobre, quando chega,
chega sem nada na mão,
olha quieto, fala baixo,
e depois senta no chão.

Homem sábio chega calmo,
um por um vai abraçando,
fala pouco, olha nos olhos,
fica junto e vai sentando.

Homem doido chega e planta
bananeira na janela,
mostra a língua, tira a roupa,
pinta o sete e vai sentando.

Homem chato chega bobo,
vem torrando a paciência,
fala mole não se enxerga,
enche o saco e vai sentando.

Homem triste vem sozinho,
puxa o lenço e chora um pouco,
muita gente chega perto,
ele gosta e vai sentando.

Homem fraco chega branco,
capengando agasalhado,
tosse, espirra, ronca funga,
cospe, engasga e vai sentando.

Homem alegre chega leve,
vem contando as novidades,
dá três beijos, quatro abraços,
solta o riso e vai sentando.

Homem errado entra torto,
quebra o vaso tropeçando,
cai na sala, rasga a calça,
ri aflito e vai sentando.

Homem forte chega imenso,
abre a porta trovejando,
fala grosso, mostra o muque,
abre espaço e vai sentando.

Homem rico chega tarde,
vem falando de dinheiro,
faz mil contas, multiplica,
preocupado vai sentando.

Homem tímido não chega,
manda dizer que não vem,
fica em casa, deita cedo,
pra não sentir que tem medo.

Resta só uma pessoa,
pra reunião começar,
imagine agora um pouco,
quem é que falta chegar.


Ricardo Azevedo,
do livro "Dezenove poemas desengonçados",
Ática, 1997.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

"Aula de leitura" - Poema de Ricardo Azevedo



Madeleine Lemaire (Peintre, illustratrice et salonnière française, 18451928),
 Portrait of a girl with dog, s.d.



Aula de leitura



A leitura é muito mais
do que decifrar palavras.
Quem quiser parar pra ver
pode até se surpreender:

vai ler nas folhas do chão,
se é outono ou se é verão;

nas ondas soltas do mar,
se é hora de navegar;

e no jeito da pessoa,
se trabalha ou se é à-toa;

na cara do lutador,
quando está sentindo dor;

vai ler na casa de alguém
o gosto que o dono tem;

e no pelo do cachorro,
se é melhor gritar socorro;

e na cinza da fumaça,
o tamanho da desgraça;

e no tom que sopra o vento,
se corre o barco ou vai lento;

também na cor da fruta,
e no cheiro da comida,

e no ronco do motor,
e nos dentes do cavalo,

e na pele da pessoa,
e no brilho do sorriso,

vai ler nas nuvens do céu,
vai ler na palma da mão,

vai ler até nas estrelas
e no som do coração.

Uma arte que dá medo
é a de ler um olhar,
pois os olhos têm segredos
difíceis de decifrar.


Ricardo Azevedo,
do livro "Dezenove poemas desengonçados",
Ática, 1997.
 
 
Thalia Flora-Karavia (Greek artist, 1871–1960), Boy reading, 1906.
 
 
Livro

"O livro é um lugar de papel e dentro dele existe sempre uma paisagem. O leitor abre o livro, vai lendo, lendo e, quando vê, já está mergulhado na paisagem. Pensando bem, ler é como viajar para outro universo sem sair de casa. Caminhando dentro do livro, o leitor vai conhecer personagens e lugares, participar de aventuras, desvendar segredos, ficar encantado, entrar em contacto com opiniões diferentes das suas, sentir medo, acreditar em sonhos, chorar, dar gargalhadas, querer fugir e, às vezes, até sentir vontade de dar um beijinho na princesa. Tudo é mentira. Ao mesmo tempo, tudo é verdade, tanto que após a viagem, que alguns chamam leitura, o leitor, se tiver sorte, pode ficar compreendendo um pouco melhor sua própria vida, as outras pessoas e as coisas do mundo." — Ricardo Azevedo

 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

"Lição de Biologia" - Poema de Ricardo Azevedo


 
Jenny Eugenia Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854-1946)
 
 
 
Lição de Biologia


Eu plantei um pé de amor
no fundo da minha vida
a semente foi brotando
primeiro criou raiz
da raiz nasceu o broto
do broto nasceu o caule
do caule nasceu o galho
do galho nasceu a folha
da folha nasceu a flor
e da flor nasceu o fruto
e o fruto que era verde
depressa ficou maduro
e com ele eu fiz um doce
que eu dei pra você provar
que eu dei pra você querer
que eu dei pra você gostar.


Ricardo Azevedo

do livro "
Dezenove poemas desengonçados",
Ática, 1997.
 
 
"Dezenove poemas desengonçados" de Ricardo Azevedo.
Prémio Jabuti – Melhor Livro Infantil, 1999.
 

"As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças."