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quarta-feira, 26 de junho de 2024

"Casa grande" - Poema de Yvette Centeno



Edward Hopper
(American realist painter and printmaker, 1882-1967),
 

 Casa grande 


Estamos a sair da casa grande.
Malas feitas, eu já me despedi
de toda a gente,
falta só ir à cozinha
dar um último abraço.

A casa grande.
Por que vamos embora?
Igual à vida,
um sítio de passagem?
Na vida não se fica,
é só viagem…

Enquanto digo adeus
trazem como oferenda
uma taça de vidro
com morangos
polvilhados de açúcar.
Escolho alguns e chega
entretanto um dos meus filhos
a quem também são dados
em partilha.

Comemos só
um ou outro morango
a taça ainda fica cheia.

Os morangos:
fruto do coração?
Fruto vermelho
como o sangue da vida?
A vida partilhada
na hora da despedida?


Yvette Centeno
, Inédito

 
Edward Hopper, Apartment Houses, 1923, óleo sobre tela, 61 x 73,5 cm,
Pensylvania Academy of the Fine Arts, Philadelphia, PA, USA



"Com dinheiro se pode construir uma esplêndida casa, mas não uma boa família."
 
Manuel Tamayo y Baus - Fonte: Revista Caras, Edição 687, 5 de Janeiro de 2007. 
 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

"A Casa" - Poema de Yvette Centeno


Dominguez Alvarez, Casario e quatro figuras (c. 1931-1934) 
 

A Casa


Distraídos não víamos
a casa a envelhecer connosco
e no entanto a casa envelhecia:
tinha dores
achaques
tropeções
incómodos pequenos
lâmpada que falhava
e uma ou outra coisa,
vertigem passageira.

Assim corria o tempo
em pequenos derrames
que a todos por dentro
corroíam: a casa e com ela
as portas que rangiam
e umas résteas de luz
já quase a apagar-se.

A casa não andava
a casa já não via,
e nós ainda achávamos
que era coisa ligeira.

Não tem mal, dizíamos,
quando chegasse a hora
umas velas acesas,
candeeiros de avó
sem perigo de incêndio:
a casa envelhecida
sempre estaria ali,
sempre resistiria.

Sem dar por isso
o nosso envelhecer
ali juntos, fechados,
embora já morrendo
seria a última prova
de um grande amor
vivido
o dessa casa antiga
às vezes ainda rindo,
outras vezes zangada,
mas dividindo connosco
o tempo que faltava

Lisboa, 2018


Yvette K. Centeno


 
Dominguez Alvarez, Casario e figuras de um sonho, 1931-34, 
 óleo sobre cartão, 24,5 x31cm
 

A vida é um saque
Que se faz no espaço
Entre o tic e o tac.
 
Millôr Fernandes
(Haicai / Haikai)  
 

sábado, 1 de dezembro de 2018

"Nas ruas de Lisboa" - Poema de Yvette Centeno


Guilherme Parente, A viagem na minha terra I 



Nas ruas de Lisboa


Veio avisar
Veio com rosto
de sombra:
morrerá um poeta
nas ruas de Lisboa.

Chove muito,
a chuva lavará
o seu cadáver.

Alguém dirá
o seu nome
alguém lhe fechará
os olhos
que ele desejava
abertos
sobre o mar


Y. K. Centeno

Canções do Rio Profundo
Porto, Edições ASA, 2002




Guilherme Parente, A viagem na minha terra II



"Eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei de morrer
desesperado por não ter vivido."

Jorge de Sena
(1919-1978)
 
 

domingo, 25 de novembro de 2018

"Anunciação a Maria" - Poema de Rainer Maria Rilke


Abbott Handerson Thayer, Angel, 1887, oil on canvas.
Smithsonian American Art Museum



Anunciação a Maria


Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os refletem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubéssemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura -).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.


Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria
Trad. Yvette K. Centeno


Abbott Handerson Thayer, An Angel, 1893
Milwaukee Art Museum (United States)


Anunciação


Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras, quando
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura que um Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os Anjos é laborioso. (Oh, se fosse possível saber
como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz, o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.


Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria, ed. Portugália
Trad. Maria Teresa Dias Furtado


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"Restaurante" - Poema de Yvette Centeno


Jack Tworkov (American abstract expressionist painter, 1900-1982),
Seated Figure (Z. Sharkey)


Restaurante 


Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória

Só à porta da rua
o tempo reaparece. 


Yvette Centeno, in A Oriente,
1ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 
colecção Forma – 38, 1998, p.12


Yvette Kace Centeno nasceu em Lisboa, em 1940, numa família de origem germano-polaca.
Poeta, ficcionista, autora dramática, tradutora (traduziu Bertolt Brecht), doutorada em Filologia Germânica e docente na Universidade Nova de Lisboa, onde dirigiu o gabinete de Estudos de Simbologia. Colaboradora em várias publicações periódicas, tem-se destacado no domínio do ensaio com uma série de investigações sobre as relações entre a literatura e o hermetismo, interesse que condiciona uma produção literária atenta ao poder alquímico do símbolo ("A matéria das obras, alquímica ou literária, é a matéria da vida. Tudo é um (...) a partir da obra literária se pode chegar à descoberta do superior e do inferior nela, do impulso que a anima e da estrutura que a ordena num todo coerente. A obra é reflexo do homem, e o homem, centro do universo, é reflexo de Deus.", in Literatura e Alquimia, Lisboa, 1987, p. 8). Na ficção, sob o influxo de Pessoa, assume o romance "como género meditativo sem chegar ao romance-ensaio, elegíaco sem cair no domínio da prosa poética, de narração fragmentada e governada pela temporalidade interior sem por isso se integrar nos domínios do experimentalismo ou dos fluxos caóticos da consciência". (SEIXO, Maria Alzira - Portugal, A Terra e o Homem, 2.a série, Lisboa, 1983, p. 411). Na dramaturgia, estreou-se em 1974 com um volume de teatro de tendência experimental, Teatro Aberto, onde reuniu doze exercícios dramáticos.

Yvette Kace Centeno. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-11-08].


Jack Tworkov, Untitled Seated Figure (Z. Sharkey), circa 1948


Jack Tworkov, Figures, 1949


Jack Tworkov, Brake III, 1960


Jack Tworkov, Untitled Collage, circa 1960-1962


Jack Tworkov, Untitled, 1982


"O escritor foi sempre um funâmbulo cego e o leitor 
é apenas um espectador de passagem."



Katie Melua - I Will Be There (Full Concert Version) - Official Video