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quarta-feira, 19 de junho de 2019

"Louvor do Esquecimento" - Poema de Bertolt Brecht


Henri Jules Jean Geoffroy, In Class, Instructions for the young Children, 1889
 (also known as En classe, le travail des petits) 



Louvor do Esquecimento 


Bom é o esquecimento.
Senão como é que
o filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
o retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
o discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
a casa seria pequena de mais.

O fogão aquece. O oleiro que o fez
já ninguém o conhece. O lavrador
não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
se ergueria do chão à sétima
pra lavrar o pedregal, pra voar
ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
fortaleza aos homens. 
 in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela


sábado, 12 de novembro de 2016

"Canção da Inocência Perdida" - Poema de Bertolt Brecht


Salvador DalíA Separação do Átomo, 1947



Canção da Inocência Perdida

1

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale para a roupa
Também não vale para mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.


Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
Como sem ninguém lhe tocar.

3

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».

4

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade para além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!

5

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.

6

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.

7

Bem sei: Muito pode vir
Até que nada por fim fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.


Bertolt Brecht,
in 'Canções e Baladas'


domingo, 3 de julho de 2016

"Louvor do Aprender" - Poema de Bertolt Brecht


William Kay Blacklock (1872-1924), Sunlight and Shadow, c. 1900



Louvor do Aprender


Aprende o mais simples! Para aqueles 
Cujo tempo chegou 
Nunca é tarde de mais! 
Aprende o abc, não chega, mas 
Aprende-o! E não te enfades! 
Começa! Tens de saber tudo! 
Tens de tomar a chefia! 

Aprende, homem do asilo! 
Aprende, homem na prisão! 
Aprende, mulher na cozinha! 
Aprende, sexagenária! 
Tens de tomar a chefia! 

Frequenta a escola, homem sem casa! 
Arranja saber, homem com frio! 
Faminto, pega no livro: é uma arma. 
Tens de tomar a chefia. 

Não te acanhes de perguntar, companheiro! 
Não deixes que te metam patranhas na cabeça: 
Vê com os teus próprios olhos! 
O que tu mesmo não sabes 
Não o sabes. 
Verifica a conta: 
És tu que a pagas. 
Põe o dedo em cada parcela, 
Pergunta: Como aparece isto aqui? 
Tens de tomar a chefia. 


Bertolt Brecht,
in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 
Tradução de Paulo Quintela



William Kay Blacklock, Summertime, 1914


"O homem implora a misericórdia de Deus mas não tem piedade dos animais, para os quais ele é um deus. Os animais que sacrificais já vos deram o doce tributo de seu leite, a maciez de sua lã e depositaram confiança nas mãos criminosas que os degolam. Ninguém purifica seu espírito com sangue. Na inocente cabeça do animal não é possível colocar o peso de um fio de cabelo das maldades e erros pelos quais cada um terá de responder."

Sidartha Gautama (Buda)


Siddhartha Gautama (Buda), o iluminado, foi um filósofo, professor e líder espiritual, fundador do Budismo. Terá nascido na Índia há cerca de dois mil e quinhentos anos (entre 520 e 480 a. C.), embora alguns eruditos situem esse acontecimento em tempos mais recuados. Pertencia a uma família real da tribo dos Shakya. A sua vinda foi anunciada à sua mãe, a rainha Maya, através de sonhos auspiciosos e, após o seu nascimento, o asceta Devala veio saudá-lo e nele reconheceu os sinais do futuro Buda. Para o prender à vida mundana, o pai de Siddharta Gautama proporcionava-lhe uma vida de luxo e de alegria, protegendo-o da visão da infelicidade humana. O encontro inesperado com a dor, sob a forma da doença, da velhice e da morte, iria contudo conduzi-lo a uma intensa demanda espiritual, abandonando família, mulher e filho. Esta procura assumiu a forma de um rigoroso ascetismo, que implicava jejuns e sofrimentos físicos. Todavia, ao constatar que toda essa mortificação não lhe trazia nenhuma resposta e que, pelo contrário, a debilidade física em que se encontrava o impediria de prosseguir, compreendeu que o verdadeiro caminho se encontrava algures no meio termo entre uma vida de ascetismo extremo e uma busca contínua de prazeres.

Siddharta teria finalmente atingido a Iluminação sentado em meditação debaixo de uma figueira, após o que permaneceu em silêncio durante quarenta e nove dias. Pronunciou o ensinamento que "pôs em movimento a roda do Dharma" (a Lei) diante dos primeiros cinco discípulos, no parque das Corças, em Sarnath. Nesse discurso, proferiu o princípio das Quatro Nobres Verdades: a verdade do sofrimento, a verdade da origem do sofrimento, a verdade do cessar do sofrimento e a verdade do caminho que conduz a esse cessar. Esse ensinamento está na base de todo o pensamento e prática budistas. De acordo com esta conceção, a infelicidade não surge como um fenómeno isolado, fruto do acaso ou do azar, integra-se sim num sistema de causa-efeito. E ao apreender a natureza interdependente de todos os fenómenos, o ser humano é induzido a uma prática não violenta e não nociva. Para quebrar a cadeia infinda de atos negativos que geram infelicidade e originam ainda mais atos negativos, é necessário dissipar os véus da ignorância, que obscurecem a visão da natureza última da realidade.

O método de libertação apresentado pelo Buda é chamado Veículo do Buda (Buddhayana) e compreende fundamentalmente dois sistemas ou duas vias: o Veículo Individual ou Hinayana (ou Theravada) e o Veículo Universal ou Mahayana. A principal diferença entre estes dois Veículos está na forma de interpretar o princípio budista do "desinteresse por si próprio" e na aplicação desse princípio. Para os praticantes do Hinayana, a renúncia assume um papel fundamental. Muitos assumem votos e obedecem a regras monásticas. A sua finalidade é a libertação pessoal. O Mahayana fundamenta-se no cultivar de um atitude altruísta, de volição de libertação universal, ou bodhicitta. 
O Veículo Tântrico, ou Vajrayana, de tradição tibetana, inclui-se no contexto do Mahayana, acentuando a coordenação subtil entre a mente e o corpo humanos e acelerando esse processo de "desobscurecimento". Cada um destes sistemas é visto como um caminho, um método que conduz à libertação final do sofrimento e não como um fim em si mesmo.

O Buda viveu até à idade de oitenta anos. O seu ensinamento, que consiste num método de descoberta da realidade para além das aparências e de libertação da cadeia de renascimentos sucessivos, está na base do Budismo, e foi coligido em escrituras que compreendem três domínios: os sermões (sutra), a disciplina monástica (vinaya) e os ensinamentos mais profundos (abhidharma).
O budismo possui entre 300 a 400 milhões de adeptos em todo o mundo.

Sidartha Gautama (Buda). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora



William Kay Blacklock (1872-1924), A Dutch Idyll, 1914


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

"O Horror de ser Pobre"... Poema de Bertolt Brecht



Marià Fortuny i Marsal (1838-1874), Viejo desnudo al sol, 1871 (Museu do Prado)



O Horror de ser Pobre


Risco c'um traço
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes não me verão
Nunca mais
Olhar com azedume.

O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do público
Arruína o espinhaço.
O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há de ir.
O céu é o seu teto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.
in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela



Self portrait by Marià Fortuny‎ (1863-73)


Marià Fortuny i Marsal, nome completo Mariano José Maria Bernardo Fortuny y Marsal (Reus, Espanha, 11 de junho de 1838Roma, 21 de novembro de 1874), foi um pintor e gravador catalão, considerado com Eduardo Rosales, como um dos pintores espanhóis mais importantes do século XIX depois de Goya.
Seu incentivador foi o avô e seu mestre, o pintor Domènec Soberano.

domingo, 1 de junho de 2014

"A Luz do teu Amor" - Poema de Guilherme de Azevedo


Sir Walter  Westley Russell (1867‑1949), Cordelia, 1930



A Luz do teu Amor


 Oh! Sim que és linda! a inocência 
Em tua fronte serena 
Com tal doçura reluz!... 
Tanta e tanta... que a açucena 
Tão esplêndida a existência 
Não lha doura assim à luz! 
Oh! que és linda, e mais... e mais 
Quando um traço melancólico 
Te diviso no semblante 
Nos teus olhos virginais! 
Que doçura não existe 
Ai! ó virgem, nesse instante 
Na poética beleza 
Desse traço de tristeza 
Que te vem tornar mais bela 
Mal em teu rosto pousou! 
E eu te quero assim, ó estrela, 
Que se inspira em mim a crença 
Triste... triste, que és mais linda, 
Mas dessa beleza infinda 
Das ficções da renascença 
Que a poesia perfumou! 

Fita agora os olhos lânguidos 
Na estrela que te ilumina, 
Eu não sei que luz divina 
De amor nos fala em teu rosto! 
Eu não sei, nem tu... ninguém!... 
Que a vaga luz do sol posto, 
Que a palidez da cecém, 
Que a meiguice dos amores, 
E que o perfume das flores 
Não respiram a harmonia 
Desse toque leve... leve 
Do mais puro sentimento, 
Da mais suave ilusão! 
As flores leva-as o vento; 
Mas a divinal poesia 
Que em teu peito se alimenta 
Não a desfaz a tormenta, 
Nem a consome o vulcão! 

E assim! - Lembra-me ainda 
Aquele instante suave! 
Havia paixão infinda 
No terno gorjeio da ave 
Que ao longe... ao longe se ouvia 
Ressoar na laranjeira! 
Assim foi... assim tão pálida 
Que eu te vi a vez primeira 
Naquele instante sem par! 
Sim! Oh! se a alma do poeta 
É como a ardência do mar, 
Que se calma e se aquieta 
À luz que baixa dos céus; 
Eu por ti surgi, ó bela, 
O cantor daquela estrela 
Que fulge lá no horizonte, 
Que me voa a vida em êxtase 
Quando sobre a minha fronte 
Cai a luz dos olhos teus! 

E se o passado foi triste 
Sepultei-o num abismo, 
E esqueci ao magnetismo 
Da tua doce expressão 
O gemer da tempestade, 
Mais o ralar da ansiedade 
Daqueles dias de então! 
Se já viste mesmo em sonhos 
Ressurgir graciosa e bela 
De entre os negrumes da noite 
A doce imagem da estrela 
Que sorri ao turvo mar; 
Faz ideia de minha alma 
Que em deserto triste e infindo 
Vivia sem uma palma, 
E que, um dia... um dia lindo, 
Surge à luz do teu olhar! 

E depois a melancolia, 
Aquela doce cadência 
Que tinhas então na fala, 
Tão suave como a essência 
Que somente a flor exala, 
Tudo... tudo me prendeu! 
E hoje elevo as mãos ao céu, 
E bendigo aquele instante 
em que vi a tua imagem 
de vaga luz radiante, 
Embora seja a miragem 
Que na aridez do deserto 
Um instante nos fulgura, 
E que, ora longe, ora perto, 
Bem pouco... bem pouco dura! 
Não negues um dia alento 
Aos débeis sopros de vida 
Que em mim pululam agora 
Com mais força e mais calor! 
Se vives da luz da aurora 
Que à vida te diz bonança, 
Eu só vivo da esperança 
E da luz do teu amor! 


Guilherme de Azevedo, in 'Antologia Poética'





Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (Santarém, 30 de Novembro de 1839 - Paris, 6 de Abril de 1882) foi um jornalista e poeta português
Ligado à "Geração de 70", foi um dos representantes da poesia revolucionária introduzida no país por Antero de Quental ("Odes Modernas", 1865), tendo ainda recebido influências dos franceses Vitor Hugo e Charles Baudelaire.
Filho de um escrivão das Finanças, desde a infância mostrou-se fisicamente débil, como resultado de uma queda que o fez coxo e lhe provocou uma lesão de que viria a morrer prematuramente aos quarenta e dois anos de idade. Viveu, por essa razão, obcecado por esconder os seus males físicos. 
Em 1871 fundou em Santarém o periódico "O Alfageme", primeiro momento da sua carreira jornalística e onde defendeu, com escândalo no país à época, as ideias revolucionárias da Comuna de Paris
Após o falecimento do pai, instalou-se em Lisboa, onde abraçou definitivamente o jornalismo, profissão na qual atingiu posição relevante. Trabalhou nos periódicos "Diário da Manhã", "O Pimpão" e em "A Lanterna Mágica". Colaborou no "Primeiro de Janeiro" com um folhetim semanal, bem como no jornal O Panorama (1837-1868) e nas revistas A Mulher (1879), Ribaltas e gambiarras (1881) e Jornal de Domingo (1881-1883), e ainda na imprensa brasileira. Como poeta, foi um autor representativo, abordando temas modernos numa escrita de índole épico-social. Publicou os primeiros versos no "Almanaque de Lembranças" de 1864, sob o pseudónimo de "G. Chaves", vindo a colaborar posteriormente em vários periódicos, como o "Comércio de Lisboa", a "Revolução de Setembro" e a "Gazeta do Dia", onde, em parceria com Guerra Junqueiro, manteve as crónicas humorísticas da rubrica "Ziguezagues". Fundou o O António Maria em 1879 com Rafael Bordalo Pinheiro, e, ainda ao lado deste, dirigiu e colaborou no "Álbum das Glórias". No mesmo ano, novamente com Guerra Junqueiro, redigiu a sátira teatral "Viagem à roda da Parvónia", que seria pateada e proibida, mas que Ramalho Ortigão considerou uma "fiel pintura dos costumes constitucionais" do país à época. 
Em 1880, em consequência da fama conquistada como cronista mundano e político, o periódico carioca "Gazeta de Notícias" nomeou-o seu correspondente em Paris, função que desempenhou nos dois últimos anos da sua vida. 
As suas poesias, reunidas nas três colectâneas "Aparições" (1867), "Radiações da Noite" (1871) e "Alma Nova" (1874), encarnam o novo realismo satírico de inspiração baudelairiana no país. 
Com o pseudónimo "João Rialto" deixou vários escritos com elevado humorismo.



Galeria de Walter Westley Russell
Walter Westley Russell, Camilla



"Do primeiro amor gosta-se mais, dos outros gosta-se melhor." 

Antoine de Saint-Exupéry 



Sir Walter Russell, Tying her shoe



"A medida do amor é amar sem medida."

Victor Hugo 


Sir Walter Russell, Portrait of a Lady



"Quando somos amados, não duvidamos de nada. Quando amamos, duvidamos de tudo." 

Sidonie Colette


Sir Walter Russell, The Morning Room


"Gosto desta ideia: que o amor é uma forma de conversação em que as palavras agem em vez de serem faladas."

David Lawrence, O Amante de Lady Cnatterly 


Sir Walter Russell, Alice, 1926


"Muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama." 

 Dante Alighieri 


Sir Walter Russell, Alderman Robert Styring, Lord Mayor of Sheffield, 1906



"Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito." 

Bertolt Brecht, A Ópera dos Três Vinténs 


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