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domingo, 25 de janeiro de 2026

"Jogo" e "Pouco é um Homem" - Poemas de Armindo José Rodrigues



William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881–1941),
The Young Polo Player, 1920, Blackburn Museum and Art Gallery.


Jogo

 
Estão as cartas dadas.
O jogo está feito.
Não é por respeito
que me dão pedradas.

Peço à igualdade
que haverá um dia,
mesmo que tardia,
que me sempre agrade.

Riquezas não espero.
De glórias motejo.
Nem outro desejo
menor considero.

Se invejas provoco
por dons naturais
não preciso mais.
Chega-me o meu pouco.

Não sendo agressão,
pois me nem abala,
a mim que me rala
outra opinião?

Todo o meu anseio
se cifra em querer
a sorte vencer,
sem sentir receio.

Se o posso ou o nego
não posso sabê-lo,
senão a sofrê-lo
com desassossego. 
in, "Ocasional a Vida"
 

 
William Bruce Ellis Ranken, Pipe Practice, 1918.
Dundee Art Galleries and Museums


Pouco é um Homem 

 
Pouco é um homem e, no entanto, nele
cabe tudo o que existe e fica ainda
espaço bastante para poder negá-lo. 
in 'Beleza Prometida (XC)'
 
 

quinta-feira, 10 de julho de 2025

"Companheiros" - Poema de Mia Couto

 
 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881–1941),
Young Man Sketching, 1920s.


Companheiros


quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me às vezes viver

hei de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço


Mia Couto
,
in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



 
"Raiz de Orvalho e Outros Poemas" de Mia Couto
Editorial Caminho, 2014
 
 
SINOPSE 


Mia Couto habituou o leitor à sua escrita aglutinada, justaposta, criadora e inovadora, musical, intensa, profundamente meiga e crua, poética.
Dialoga com o leitor com a maior das intimidades, numa quase perfeita sintonia. Raiz de Orvalho e Outros Poemas é uma recolha de poemas com datas diversas, com um conjunto de novos poemas (todos da década de 80) e seleção de outros que faziam parte da edição moçambicana, publicada em Maputo, em 1983, com o título Raiz de Orvalho. Segundo o próprio autor, alguns não resistiram ao tempo, noutros ele próprio não se reconhece já. Mas todos estes versos fazem parte do seu percurso. E daqui ele partiu a desvendar outros terrenos. Terrenos que afortunadamente hoje podemos conhecer. (daqui)
 

terça-feira, 20 de maio de 2025

"Metáfora" - Poema de José Saramago

 

 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881–1941),
The Promenade, 1904.


Metáfora 


Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
E das mãos, ou do búzio murmurante,
Alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos te despiram.

 
 José Saramago,
in "Os poemas possíveis". 3ª ed.,

Lisboa: Editorial Caminho, 1981.
 
 

sábado, 12 de abril de 2025

"Pequeno cosmos" e "Química" - Poemas de José Saramago


 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881-1941),
 The Garden Door, 1926.
 

Pequeno cosmos
 

Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos.
Horta e jardim sobejam nestes versos
De consonâncias velhas e bordões.

Navegante dum espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito),
É por fome de frutos e de rosas
Que a frouxidão da pele ao osso chega.

Assim árido, e leve, me transformo:
Matéria combustível na caldeira
Que as estrelas ateiam onde passo.

Talvez, enfim, o aço apure e faça

Do espelho em que me veja e redefina.
 
in "Os Poemas Possíveis". 3ª ed., 
Lisboa: Editorial Caminho, 1981.
 
 
William Bruce Ellis Ranken, Covent Garden, 1930.
 
 
Química 

 
Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende. 


José Saramago
,
in "Os Poemas Possíveis"
 

domingo, 26 de janeiro de 2025

"O que mais amo" - Poema de Luís Filipe Parrado

 


William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881–1941),
'The Open Window', These Are My Jewels, 1937.


O que mais amo

 
Não sou capaz de estranhas paixões
e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
De todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo. 


Luís Filipe Parrado
, "Entre a carne e o osso".

 
Luís Filipe Parrado, "Entre a carne e o osso", 
Editora Língua Morta, 2012. 


"A poesia é um fogo cuja chama faz arder o espírito de quem ama."

[Pierre de Ronsard, poeta francês, nascido em 1525 e falecido em 1585, foi um dos animadores do grupo literário Pléiade e um dos maiores representantes da poesia francesa do Renascimento, tendo revelado, desde as suas primeiras produções, a influência de poetas como Píndaro e Horácio. As suas principais obras são Odes, Les Amours e Sonnets pour Hélène. Ficou conhecido como o príncipe dos poetas.] (daqui)
 
 

sexta-feira, 26 de março de 2021

"Manhã de Sol" - Poema de Jacinta Passos



William Bruce Ellis Ranken (British artist, 1881–1941),
Portrait of a Lady in Green, 1928.


Manhã de Sol


Dia azul de Maio. Esplende
um sol de ouro no céu que além se estende.
Prolongam-se vibrações do arrebol
na clara luz desta manhã de sol.
O céu ardente,
dum azul luminoso e transparente,
tem doçura infinita...
Um rumor de asas pelo azul palpita,
palpita pelo ar.
É carícia sonora, a música do mar.
O verde risonho
das árvores é lindo como um sonho.
A brisa leve e fresca em surdina cicia.
Há, em toda parte, uma explosão de alegria.
A natureza canta, radiosa,
um hino aleluial na manhã gloriosa.
E todo esse esplendor se comunica
à alma da gente, que vibrando fica
e, com alta emoção esplêndida e feliz,
bendiz,
numa alegria incontida,
a glória de viver e a beleza da vida.
 
1934

Jacinta Passos, em parte I "Momentos de Poesia",
do livro "Nossos poemas". Salvador:
A Editora Bahiana, 1942.