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domingo, 19 de abril de 2026

"Rios sem discurso" - Poema de João Cabral de Melo Neto



André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The RiverGeorges Pompidou Center, Paris.


Rios sem discurso  
 
                                                              A Gabino-Alejandro Carriedo

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria. 

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
in "A Educação pela Pedra", 1966.

 

André Derain, Le Port de Collioure, 1905. Musée d'Art moderne de Troyes.



"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."

(Frase atribuída ao filósofo e matemático Platão)
 
 
 
 André Derain, Fishing Boats, Collioure, 1905.
 

"A sabedoria consiste em ordenar bem a nossa própria alma." 

Platão, in "A República"
 
 
 
Walter Crane (English artist and book illustrator, 1845–1915), 
 "Plato meditating  on immortality before the grave of his teacher,
 Socrates, the butterfly, skull and poppy", 1884.

["Platão Meditando sobre a Imortalidade da Alma", ante uma caveira, borboleta e papoila na tumba de Sócrates (c. 470 a.C. – Atenas, 399 a.C.). Gravura do século XIX, alegadamente baseada em um intaglio em gema mais antigo.]

Platão

Um dos pensadores mais influentes de toda a história da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 427 a. C.

Dando continuidade às preocupações de Sócrates, seu mestre, tentou ultrapassar o relativismo que resultava das doutrinas dos sofistas, incapazes de superar a antinomia entre ser e devir, tal como haviam sido enunciados por Parménides de Élea e Heraclito.

É o primeiro filósofo de cujas obras foi preservada uma parte significativa, o que permite reconstituir com grande fidedignidade as traves mestras do seu pensamento.

No núcleo do sistema platónico encontra-se a distinção radical entre o mundo sensível e o mundo inteligível, cada um deles com existência autónoma.

O primeiro corresponde ao mundo da corporeidade, contingente e corruptível, domínio da mudança, da diversidade e das aparências; o segundo é o mundo das essências ideais, imutáveis, necessárias e eternas, em suma, da permanência, da unidade e da Verdade universal.

Dotadas de uma existência objetiva independentemente de qualquer sujeito cognoscente, as essências ideais, ou Ideias, são para Platão os arquétipos (modelos) a partir dos quais foram formados - por «imitação», ou mimésis - todos os entes do mundo sensível. O agente dessa intervenção teria sido uma divindade (o demiurgo) que, dessa forma, fez transitar a physis (o mundo físico, a natureza) de um estado primordial de desordem (o caos) à ordem.

No âmbito gnosiológico, o dualismo idealista de Platão tem como consequência, do ponto de vista formal, a inoperância de todo o conhecimento empírico.
Este, de ordem indutiva e tomando por base as representações sensíveis, reporta-se apenas a uma realidade contingente e mutável, não podendo elevar o sujeito além da mera doxa (opinião).
 
Do ponto de vista material, por maioria de razão, o conhecimento que tem por objeto a physis é relegado para um plano subalterno em favor de todo o saber baseado na contemplação inteletiva dos puros conceitos, com especial incidência na matemática e na ética. Associando a unidade, a harmonia, a virtude e a sabedoria, tal como Sócrates, Platão coloca no topo da hierarquia das Ideias do mundo inteligível, enquanto elementos unificadores, as ideias de Uno, de Bem e de Belo.

Subsidiária da mesma arquitetónica dualista, a antropologia platónica considera a alma como essência do homem, vendo o corpo apenas como uma prisão que lhe limita todas as potencialidades. Participando dos atributos do inteligível, a alma é considerada imortal e originária do mundo das Ideias, pelo que a sua existência no mundo físico deve ser orientada para libertação de todas as solicitações materiais e sensuais através do uso da razão e da prática da virtude, visando atingir o saber da Verdade, num processo de ascese que lhe permita regressar ao mundo de plenitude a que genuinamente pertence.

Esse processo de ascese baseia-se no método que Platão designa como dialéctica e caracteriza-se pelo recurso ao diálogo e à discussão dos conceitos tendo em vista a respetiva consciencialização e esclarecimento, com a finalidade de facilitar a reminiscência (ou anamnese) - isto é, o relembrar - das Ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência no mundo inteligível.

No que respeita ao pensamento político, Platão foi em grande parte influenciado pela sua ascendência e formação aristocráticas, atribuindo ao regime democrático, geralmente defendido pelos sofistas, a responsabilidade pela decadência de Atenas. Assim, a organização da cidade modelo que sugeriu deixa transparecer uma visão elitista ao gravitar em torno de uma triagem apertada dos cidadãos em que o lugar do indivíduo se esvai, cedendo perante a força do interesse comum ditado pelos «mais aptos».

O objetivo da seleção dos cidadãos seria a distribuição destes em três ordens, de acordo com o carácter que demonstrassem: à ordem dos governantes pertenceriam os sábios, que se deixam conduzir pela justiça, cabendo ao melhor dos quais, após um longo período de formação, o cargo de Filósofo-Rei, autoridade última da cidade; aqueles que se distinguissem pela coragem deveriam integrar a ordem dos guardiões, com a tarefa de zelar pela segurança interna e externa da cidade; os restantes, que se deixam dominar pelas coisas dos sentidos, fariam parte da ordem dos produtores, com a função de prover às necessidades materiais da cidade, cuidando da agricultura, da indústria e do comércio.

Para evitar qualquer elemento de conflitualidade e discórdia na cidade, Platão defende também quer a comunidade dos bens, quer a comunidade das mulheres e dos filhos. Além disso, propõe que todas as crianças deveriam ter uma educação comum para que o processo de seleção dos melhores pudesse decorrer com eficácia e sem desvios.

Platão morreu em 347 a. C. já com idade avançada, deixando, no entanto, um grande número de discípulos que reconheciam a fecundidade das suas teses.
A Academia que fundara em 385 a. C. para proporcionar formação a todos quantos o quisessem seguir sobreviveu quase mil anos até ter sido mandada encerrar por Justiniano I em 529 d. C. Porém, a perenidade do seu pensamento foi muito além dessa data, sendo ainda hoje reconhecido o seu legado como um dos mais marcantes para a génese da atual cultura ocidental.

Obras de Platão:
 
Classificação clássica em tetralogias, segundo Trasílio, da Corte de Tibério.

1.a tetralogia: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon.
2.a tetralogia: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político.
3.a tetralogia: Parménides, Filebo, Banquete (ou Simpósio), Fedro.
4.a tetralogia: I* e II* Alcibíades, Hiparco*, Rivais* (ou Anterastai).
5.a tetralogia: [Teágenes], Cármides, Laques, Lísias.
6.a tetralogia: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Ménon.
7.a tetralogia: Hípias Menor, Hípias Maior*, Íon*, Menexeno.
8.a tetralogia: [Clitofonte], República, Timeu, Crítias.
9.a tetralogia: [Minos], Leis, [Definições], [Cartas ].

Todas as obras, com exceção da Apologia de Sócrates e das Cartas, foram redigidas em forma de diálogo.*
- Diálogos cuja autenticidade merece algumas dúvidas.
 
Entre [] - Obras quase unanimemente consideradas apócrifas (com exceção da Carta VII). (daqui)
 


André Derain, Le séchage des voiles (The Drying Sails), 1905, oil on canvas, 82×101 cm,
Pushkin Museum, Moscow. Exhibited at the 1905 Salon d'Automne.
 

terça-feira, 10 de março de 2026

"Ideia fortíssima" e "Os dois lados" - Poemas de Murilo Mendes


 
André Derain (Peintre, graveur, illustrateur, sculpteur et écrivain français, 1880-1954),
La Seine au Pecq, 1904, Centre national d'art et de culture Georges-Pompidou.



Ideia fortíssima


Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu cérebro noite e dia,
A ideia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma ideia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma ideia que verruma todos os poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de Deus.


Murilo Mendes
, in "As metamorfoses", 1944;
"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 


Os dois lados

Deste lado tem meu corpo
tem o sonho
tem a minha namorada na janela
tem as ruas gritando de luzes e movimentos
tem meu amor tão lento
tem o mundo batendo na minha memória
tem o caminho pro trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo da minha vida
tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão,
tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


Murilo Mendes"Melhores Poemas". Editora GLOBAL, 4ª ed., 2020.
 
 

Murilo Mendes –  Coleção: Melhores Poemas.
Direção: Edla van Steen. Seleção e Prefácio: Luciana Stegagno Picchio.
Editora GLOBAL, 4ª edição, 2020
 
 
 SINOPSE
 
Surrealista, barroco, visionário, Murilo Mendes foi uma das vozes poéticas mais pessoais e inovadoras do modernismo brasileiro. Desde a sua estreia, revelou-se um poeta original, qualidade que o seu longo processo de evolução iria acentuar, até a última fase de sua poesia, marcada pelo sentido de fraternidade e comunhão humana. (daqui)



Retrato de Murilo Mendes por Ismael Nery, 1922.
(Coleção particular)

Poeta e ensaísta brasileiro, Murilo Monteiro Mendes nasceu em 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Fez os estudos primários e secundários na sua terra natal e em Niterói. Não chegou, no entanto, a concluir curso superior.
Em 1920 mudou-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte conheceu Ismael Nery, que veio a ter grande influência na sua formação estética e religiosa, pois revelou-lhe as novidades estéticas europeias e converteu-o ao Catolicismo.

Em 1947 casou-se com a poetisa Maria da Saudade Cortesão, filha do historiador e político português Jaime Cortesão, então exilado no Brasil.
Exerceu profissões diversas, como funcionário público, bancário e notário, sendo, a partir de 1957, professor de Estudos Brasileiros em Roma e Bolonha. Em 1971 recebeu o Prémio Internacional de Poesia Tena-Taormina. Faleceu a 14 de agosto de 1975, em Lisboa.

A sua obra poética é rica e variada. Ao aderir ao "essencialismo" de Ismael Nery, aceitou muitas ideias do Surrealismo, por isso na sua poesia confundem-se tempos, formas, planos e perspetivas. História do Brasil (1932), nomeadamente, é um livro que satiriza, através de poemas, factos ridículos da História do Brasil.

Em Tempo e Eternidade (1935) surge-nos uma poesia confessional de expressão solene e eloquente. Em Metarmofoses (1944) e Poesia e Liberdade (1947) há um tom de amargura suscitado pela guerra, pelos ditadores e pelas injustiças que assolavam o mundo e que, como se deixa perceber, só a poesia poderá salvar. Em Contemplação de Ouro Preto (1954), Murilo Mendes regressa a uma ordem poética aproximada da clássica, praticando o verso decassilábico, o alexandrino e outros metros. Em 1959 dá-se a publicação de Poesias, que reúne os livros anteriores, à exceção de História do Brasil e inclui ainda os inéditos Bumba-meu poeta (1930), Sonetos Brancos (1946 - 1948) Parábola (1946 - 1952). Siciliana (1954-1955) e Tempo Espanhol (1959) resultam de impressões poéticas de viagens realizadas pela Europa. 
Na prosa, merecem referência os títulos O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), Poliedro (1972), Retratos Relâmpago (1973) e Transístor (1980). (daqui)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

"Da minha janela" - Poema de Sebastião da Gama



Henri Matisse (French visual artist, 1869–1954), The Open Window
(Fenêtre ouverte, Collioure),
1905 (Fauvism). National Gallery of Art.
 


Da minha janela


Da minha janela
vê-se a Poesia.
Não te digo, não,
se é bonita ou feia,
se é azul ou branca,
nem que formas tem.
Queres conhecê-la?
Deixa o teu bordado,
vem para o meu lado,
que já podes vê-la
com teus próprios olhos.

Da minha janela
vê-se a Poesia...
Outro que te diga
se é bonita ou feia.


Sebastião da Gama, "Cabo da Boa Esperança"
Lisboa: Portugália Editora, 1947.
 
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Escrito na Ponte de Westminster, a 3 de Setembro de 1802" - Poema de William Wordsworth

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), Big Ben, 1906 – Musée d'Art moderne de Troyes.


Escrito na Ponte de Westminster,
a 3 de Setembro de 1802


Não tem a terra nada mais belo para mostrar
Pobre de espírito seria aquele que pudesse ignorar
esta visão tão comovente na sua majestade
Como um traje veste agora esta cidade

a beleza da manhã. Silenciosas e nuas
torres cúpulas navios teatros catedrais a prumo
erguem-se no céu e estendem-se pelas ruas
brilhantes e reluzentes no ar sem fumo

Nunca o sol se ergueu com tanta alma
por sobre vales rochedos e colinas
nunca vi nunca senti uma tão profunda calma

O rio desliza consoante o seu desejo
Meu Deus o casario parece que dorme
Dorme também aquele coração enorme 


William Wordsworth
 
Tradução de Jorge de Sousa Braga 

*** 

Composed upon Westminster Bridge,
 September 3, 1802

 
Earth hath not anything to show more fair:
Dull would he be of soul who could pass by
A sight so touching in its majesty:
This City now doth, like a garment, wear
The beauty of the morning; silent, bare,
Ships, towers, domes, theatres and temples lie
Open unto the fields, and to the sky;
All bright and glittering in the smokeless air.
Never did sun more beautifully steep
In his first splendor, valley, rock, or hill;
Ne'er saw I, never felt, a calm so deep!
The river glideth at his own sweet will:
Dear God! The very houses seem asleep;
And all that mighty heart is lying still!
 
 

André Derain, The Palace of Westminster, 1906–1907,
The Metropolitan Museum of Art.


André Derain, Charing Cross Bridge, London, 1906,
National Gallery of Art, Washington, D.C.



André Derain, Londres, Westminster, 1906, Musée de l'Annonciade à Saint-Tropez.


"Você não encontra nenhum homem, de forma alguma intelectual, que esteja disposto a deixar Londres.
Não, senhor, quando um homem está cansado de Londres, ele está cansado da vida;
porque há em Londres tudo que a vida pode oferecer."


Samuel Johnson (1709–1784), citado em "The Life of Samuel Johnson"
de James Boswell (1740–1795), 1791 (página 160) - 516 páginas.

 

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

"Nesta hora" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Maurice de Vlaminck (French, 1876–1958), The Seine at Chatou, 1906, oil on canvas, 
 


Nesta hora

 
Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo
É preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
– Sob o ausente olhar silente de atenção –

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste.
 
20 de maio de 1974

Sophia de Mello Breyner Andresen,
do livro "O nome das Coisas
", 1977
 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

"Quietude" - Poema de Miguel Torga


Kees van Dongen (1877-1968, Dutch-French painter), Quiétude, c. 1918 (Fauvism)
 
 

Quietude
 

Que poema de paz agora me apetece!
Sereno,
Transparente,
A sugerir somente
Um rio já cansado de correr,
Um doce entardecer,
Um fim de sementeira.
Versos como cordeiros a pastar,
Sem o meu nome, em baixo, a recordar
Os outros que cantei a vida inteira. 
 
S. Martinho de Anta, 27 de Setembro de 1980.


Miguel Torga
(1907-1995), Diário XIII 




André Derain
 (1880-1954, French artist, painter, sculptor and co-founder of Fauvism 
with Henri Matisse), Music, 1904 (Fauvism)
 

Fauvismo

 
O Fauvismo é considerado como o movimento fundador da arte moderna em França. Apesar de não estar constituído como grupo organizado, o Fauvismo reunia artistas que partilhavam aspirações paralelas no campo da pintura. Os pintores Matisse, Derain, Braque, Vlaminck e Dufy pretendiam transformar a pintura sem, no entanto, proceder à rutura total com o formulário artístico do final do século. Todos adotaram uma paleta impressionista na qual associavam a cor à luz.

Fundado em 1904, este grupo experimental foi apresentado pela primeira vez ao público no Salão de outono de 1905, em Paris. A agressividade na aplicação da cor comum a todas as obras expostas por este grupo valeu aos seus autores a denominação pejorativa de fauves (feras) pelo crítico Louis Vauxcelles.

A modernidade do grupo dos fauves parece residir no poder da expressão que por eles é reivindicada. A pintura afasta-se da mera representação mimética para se afirmar como veículo de expressão das emoções do artista.

O Fauvismo é um movimento heterogéneo. Apesar de revelarem certas coincidências formais, os artistas desta corrente desenvolveram uma interpretação pessoal das qualidades expressivas da pintura. Em comum, encontramos a mesma vontade de representação livre da natureza através da utilização de cores puras, da acentuação linear do desenho e da diluição do efeito de perspetiva. Para Matisse, a perspetiva seria a "perspetiva do sentimento", nas quais os planos se aproximavam.

O Fauvismo terminou em 1908, dando origem a novas vias artísticas como o Expressionismo e o Cubismo. (Daqui)
 
 
 
 Henri Matisse (1869-1954, French visual artist), Portrait of Madame Matisse (The green line), 
 
 
Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905–06, oil on canvas, 176.5 cm × 240.7 cm,  
Barnes Foundation, Philadelphia, Pennsylvania (Fauvism)
 
 

Raoul Dufy
(1877-1953, French Fauvist painter), Bathers, 1908 (Fauvism)
 

Maurice de Vlaminck (1876-1958, French painter), The gardener, 1904 (Fauvism)


Georges Braque (1882-1963, French painter, collagist, draughtsman, printmaker
and sculptor), The Port of La Ciotat, 1907 (Fauvism)
 
 
Presença
 
Hora sem ninguém.
No manso ondear do balanço
de lona está alguém.
 
(Haicai / Haikai / Haiku)
 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

"Poeta" - Poema de Joaquim Namorado



 Poeta


A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia…

Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.


Joaquim Namorado


domingo, 28 de janeiro de 2018

"Uma gentileza" - Poema de Laura Riding





Uma gentileza 


Estar viva é estar curiosa. 
Quando perder interesse pelas coisas 
E não estiver mais atenta, álacre 
Por factos, acabo este minguado inquérito. 
A morte é a condição do supremo tédio. 

Vou deixar que me desintegre 
E aí, por saber da paz que a morte traz, 
Seria bom seguir convencendo o destino 
A ser mais generoso, estender, também, 
O privilégio do tédio a todos vocês. 

 
Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

domingo, 18 de maio de 2014

"Esta é a Cidade" - Poema de António Gedeão


Sonia Delaunay, Mercado no Minho, 1915 
 


Esta é a Cidade


Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente! 


António Gedeão
Rómulo de Carvalho (pseudónimo  António Gedeão)


Sonia Delaunay, Portuguese Markety



Vida e Obra de Sonia Delaunay

Sonia Delaunay


Sonia Delaunay (nascida Sarah Stern, Gradizhsk, perto de Odessa, Ucrânia, 14 de novembro de 1885 — Paris, 5 de dezembro de 1979) foi uma pintora e designer russa-francesa. Em 1910 Sonia Delaunay casou em segundas núpcias com o artista francês Robert Delaunay


Sonia Delaunay e Robert Delaunay


Admiradora dos pintores Vincent van Gogh e Paul Gauguin, assim como dos pintores “Fauvistas”, deles recebeu o gosto pela expressividade das cores luminosas.


Sonia Delaunay, Portrait of Philomene, 1907 (Fauvismo)


Sonia Delaunay realizou em 1911 a primeira obra abstrata. São dessa época os quadros "Tango", "Bal Bullier" e "Prismes Electriques".
Fugindo da Iª Guerra Mundial, o casal veio viver, juntamente com o filho Charles, para Vila do Conde entre o Verão de 1915 e inícios de 1917, numa casa a que chamaram La Simultané. Aí aprofundaram a amizade com os pintores Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros. Esse breve ano e meio em Vila do Conde foi considerado por Sonia o seu período de vida mais feliz e no qual realizou importantes obras inspiradas na arte popular portuguesa. Até meados de 1916 o casal teve, em Vila do Conde, a companhia dos pintores Eduardo Viana e Samuel Halpert.


 Sonia Delaunay, Bailarina de flamenco


O casal Delaunay também residiu em Madrid. Sonia foi um dos vultos maiores da Art Déco: desenhou moda, fez decoração de teatro, figurinos para bailados, nomeadamente para Diaghilev, criou tecidos e especialmente peças de mobiliário. Viveu em Paris de 1921 até falecer. Foi uma das mais representativas artistas da chamada arte abstrata e muito apreciada.


 
Sonia Delaunay, El follaje bordado


 
Sonia Delaunay, Rythme, 1938


 Sonia Delaunay, Composition Red, Blue, Black, White, 1964


Sonia Delaunay, Composition for XXe Siecle, 1972


"Reduzimos a vida a esta insignificância... Construímos ao lado outra vida falsa, que acabou por nos dominar. Toda a gente fala do céu, mas quantos passaram no mundo sem ter olhado o céu na sua profunda, temerosa realidade? O nome basta-nos para lidar com ele."

Raul Brandão, Húmus