
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The River – Georges Pompidou Center, Paris.
Rios sem discurso
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

André Derain, Le Port de Collioure, 1905. Musée d'Art moderne de Troyes.
"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."
(Frase atribuída ao filósofo e matemático Platão)
Um dos pensadores mais influentes de toda a história da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 427 a. C.
Dando continuidade às preocupações de Sócrates, seu mestre, tentou ultrapassar o relativismo que resultava das doutrinas dos sofistas, incapazes de superar a antinomia entre ser e devir, tal como haviam sido enunciados por Parménides de Élea e Heraclito.
No núcleo do sistema platónico encontra-se a distinção radical entre o mundo sensível e o mundo inteligível, cada um deles com existência autónoma.
O primeiro corresponde ao mundo da corporeidade, contingente e corruptível, domínio da mudança, da diversidade e das aparências; o segundo é o mundo das essências ideais, imutáveis, necessárias e eternas, em suma, da permanência, da unidade e da Verdade universal.
Dotadas de uma existência objetiva independentemente de qualquer
sujeito cognoscente, as essências ideais, ou Ideias, são para Platão os
arquétipos (modelos) a partir dos quais foram formados - por «imitação»,
ou mimésis - todos os entes do mundo sensível. O agente dessa intervenção teria sido uma divindade (o demiurgo) que, dessa forma, fez transitar a physis (o mundo físico, a natureza) de um estado primordial de desordem (o caos) à ordem.
Este, de ordem indutiva e tomando por base as representações sensíveis, reporta-se apenas a uma realidade contingente e mutável, não podendo elevar o sujeito além da mera doxa (opinião).
Subsidiária da mesma arquitetónica dualista, a antropologia platónica
considera a alma como essência do homem, vendo o corpo apenas como uma
prisão que lhe limita todas as potencialidades. Participando dos
atributos do inteligível, a alma é considerada imortal e originária do
mundo das Ideias, pelo que a sua existência no mundo físico deve ser
orientada para libertação de todas as solicitações materiais e sensuais
através do uso da razão e da prática da virtude, visando atingir o saber
da Verdade, num processo de ascese que lhe permita regressar ao mundo de plenitude a que genuinamente pertence.
Esse processo de ascese baseia-se no método que Platão designa como dialéctica
e caracteriza-se pelo recurso ao diálogo e à discussão dos conceitos
tendo em vista a respetiva consciencialização e esclarecimento, com a
finalidade de facilitar a reminiscência (ou anamnese) - isto é, o relembrar - das Ideias que a alma havia contemplado aquando da sua permanência no mundo inteligível.
No que respeita ao pensamento político, Platão foi em grande parte
influenciado pela sua ascendência e formação aristocráticas, atribuindo
ao regime democrático, geralmente defendido pelos sofistas, a
responsabilidade pela decadência de Atenas.
Assim, a organização da cidade modelo que sugeriu deixa transparecer
uma visão elitista ao gravitar em torno de uma triagem apertada dos
cidadãos em que o lugar do indivíduo se esvai, cedendo perante a força
do interesse comum ditado pelos «mais aptos».
O objetivo da seleção dos cidadãos seria a distribuição destes em três ordens, de acordo com o carácter que demonstrassem: à ordem dos governantes
pertenceriam os sábios, que se deixam conduzir pela justiça, cabendo ao
melhor dos quais, após um longo período de formação, o cargo de Filósofo-Rei, autoridade última da cidade; aqueles que se distinguissem pela coragem deveriam integrar a ordem dos guardiões,
com a tarefa de zelar pela segurança interna e externa da cidade; os
restantes, que se deixam dominar pelas coisas dos sentidos, fariam parte
da ordem dos produtores, com a função de prover às necessidades materiais da cidade, cuidando da agricultura, da indústria e do comércio.
Para evitar qualquer elemento de conflitualidade e discórdia na cidade,
Platão defende também quer a comunidade dos bens, quer a comunidade das
mulheres e dos filhos. Além disso, propõe que todas as crianças
deveriam ter uma educação comum para que o processo de seleção dos
melhores pudesse decorrer com eficácia e sem desvios.
Platão
morreu em 347 a. C. já com idade avançada, deixando, no entanto, um
grande número de discípulos que reconheciam a fecundidade das suas
teses.
A Academia que fundara em 385 a. C. para proporcionar
formação a todos quantos o quisessem seguir sobreviveu quase mil anos
até ter sido mandada encerrar por Justiniano I em 529 d. C. Porém, a
perenidade do seu pensamento foi muito além dessa data, sendo ainda hoje
reconhecido o seu legado como um dos mais marcantes para a génese da
atual cultura ocidental.
1.a tetralogia: Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Fédon.
2.a tetralogia: Crátilo, Teeteto, Sofista, Político.
3.a tetralogia: Parménides, Filebo, Banquete (ou Simpósio), Fedro.
4.a tetralogia: I* e II* Alcibíades, Hiparco*, Rivais* (ou Anterastai).
5.a tetralogia: [Teágenes], Cármides, Laques, Lísias.
6.a tetralogia: Eutidemo, Protágoras, Górgias, Ménon.
7.a tetralogia: Hípias Menor, Hípias Maior*, Íon*, Menexeno.
8.a tetralogia: [Clitofonte], República, Timeu, Crítias.
9.a tetralogia: [Minos], Leis, [Definições], [Cartas ].
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André Derain, Le séchage des voiles (The Drying Sails), 1905, oil on canvas, 82×101 cm,
Pushkin Museum, Moscow. Exhibited at the 1905 Salon d'Automne.


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