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terça-feira, 11 de agosto de 2020

"Ante Deus" - Poema de Alfredo Guisado



François-Léon Benouville, 'Joan of Arc Hearing Voices', c. 1850


Ante Deus 


Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus pra me encontrar em mim.
Voei-me sobre pontes de marfim
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!

Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus voos caíram destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.

Agora durmo Cristo em véus pagãos.
São tapetes de Deus as minhas mãos.
Regresso Ânsia pra alcançar os céus.

Ergo-me mais. Sou o perfil da Dor.
Sobre os ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus! 


Alfredo Guisado
, in 'Ânfora'


 
Joan of Arc (1412
–1431) is interrogated by The Cardinal of Winchester in her prison, 1431.
Historical painting by Paul Delaroche (1797–1856), Musée des Beaux-Arts de Rouen.



O Homem corrige Deus 

"Nós encontramos o soldado em várias espécies inferiores. A formiga tem exércitos e creio que polícia civil. Qualquer obscuro passarinho é um autêntico Blériot. Não há industrial alemão que se aproxime da abelha. O canto do galo e os versos da Ilíada. João de Deus e o rouxinol, o castor e o arquiteto, a sub-marinha e os tubarões, representam coisas e criaturas que se confundem...

Mas o Filósofo revela-se apenas no homem. A Filosofia é o sinal luminoso que o destaca da mesquinha escuridade ambiente... Só o homem é suscetível de magicar, de refazer a Criação à sua imagem... O homem corrige Deus." 


Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo" 


sábado, 1 de agosto de 2020

"Joana d'Arc" - Poema de Cecília Meireles



Wolfram Onslow Ford
(1879–1956), Joana d'Arc (1412–1431), 1900
Williamson Art Gallery & Museum


Joana d'Arc 


Firme na sela do ginete arfante,
Da corte na vanguarda, ei-la às hostis
Trincheiras que galopa, delirante,
Fronte serena e coração feliz.

Sob os anéis metálicos do guante,
Os dedos adivinham-se viris,
Que sustêm o estandarte palpitante,
Onde esplende a dourada flor-de-lis.

Rica de sonhos, crença e mocidade,
A donzela de Orleans, no seu tresvário,
De mística, na indómita carreira

Sorri. Nenhum tremor a alma lhe invade!
E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira!...


Cecília Meireles,
do livro “Espectros”, 1919 



Wolfram Onslow Ford (British painter, 1879–1956),
Self-Portrait, 1899

[A member of a family of British artists, Wolfram Onslow Ford was the son of Victorian sculptor Edward Onslow Ford and the uncle of California Surrealist Gordon Onslow Ford.
He particularly painted portraits which showed the influence of James Abbott McNeill Whistler, who was a family friend.
Wolfram Onslow Ford exhibited at the Baillie Gallery, The Glasgow Institute of The Fine Arts, Walker Art Gallery, Manchester City Art Gallery, New Gallery and the Royal Academy.]

terça-feira, 18 de abril de 2017

"A Joana d'Arc" - Poema de Teresa de Lisieux (Santa Teresa do Menino Jesus)





A Joana d'Arc


Quando o Deus das Nações te concedeu vitória,
E, expulsando o invasor, sagraste o rei, ó Joana,
teu nome se tornou famoso em toda a história,
diante de ti os heróis perderam brilho e fama.

Mas aquela era ainda a glória passageira;
ao teu nome faltava a auréola dos santos.
O Bem-Amado deu-te, amarga, a taça inteira,
e te tornaste a rejeitada dos humanos.

Numa escura masmorra, entre grilhões e horrores,
o cruel invasor cobriu-te de amarguras.
Nenhum amigo teu partilhou tuas dores,
nenhum se apresentou para enxugar teu pranto.

Vejo-te, neste horror, mais reluzente e bela,
do que no dia-luz do rei em sagração.
Donde te veio a luz, este fulgor de estrela,
que hoje te faz brilhar? De uma ignóbil traição!

Se um dia o Rei do amor, neste vale de prantos,
não tivesse buscado a traição e a morte,
para todos nós a dor já não teria encantos...
Mas hoje a amamos como um tesouro e uma sorte.


(Santa Teresa do Menino Jesus)