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quinta-feira, 30 de maio de 2024

"Não há fronteira" - Poema de Eduarda Chiote


Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917), Interior, also known as The Rape, 1868-1869,
 

O Poeta diz: a vida
é uma «merda» que precisa ser vista com o máximo
requinte.
O requinte do olhar. Olhar que o obrigue a pecar.
Porque a vida
tal como o olhar
exerce-se fora da inocência dos sentidos
numa mesma intenção
e cumplicidade: a da boca
cega
que procura já, da morte, o peito recém-nascido
e canibal.
Porque é nesse altar
onde o pavio aceso toda a noite fulgura
que os lábios se entreabrem: flagelados de jejum
e castidade — céu despedaçado pela
águia fracionando
o espaço
das cidades.
Não há intimidade no mal — escreve o poeta exilado.
Vinda de onde, então,
Poesia,
a poderosa luz da tua absurda
generosidade?
Do «animal que se sente no mundo como a água
na água?» — Não se sabe.
Escreve-se por nada, Arnaldo, para ninguém,
para nada.
Por isso, implacável, a ti mesma
eu me ofereço — um osso duro de roer
mas que ácido floresce
no aroma que mistura o oiro à merda e o mar
ao sal. 
A Frágil Reparação da Minha Morte -
Antologia (1974-2023)
 
 
 
A frágil reparação da minha morte : antologia (1974-2023) -
  Eduarda Chiote; org. Maria F. Roldão. - Porto:
Officium Lectionis, 2023. - 229, [6] p. ; 24 cm.
(daqui)
 

Com organização de Maria F. Roldão, a editora Officium Lectionis acaba de publicar a Antologia (1974-2023) de Eduarda Chiote. Com um lúcido e estruturado texto de abertura, foram selecionados poemas de nove dos treze livros de poemas escritos pela autora entre 1974 e 2022, aos quais se acrescentam dois conjuntos de inéditos. (daqui)
 

Descrição

 
Concedeste-me a liberdade
sabendo que não queria (não podia) soltar-me:
que, deste modo, te pertenceria
– prisioneira para sempre
da minha escravidão.
Transformaste-me (com o meu acordo)
numa adúltera shakespear(iana)
e romântica.
Sim, deste-me a possibilidade de pecar em paz,
privando-me do teatral jogo sem jogo das crianças,
em verdade brincando de brincar
ao brincar.
Mas não se pode viver sem omissão
– faz parte da natural privacidade,
tal como o indizível
da poesia.
Porque, muito pelo contrário
e ao contrário do que é suposto pensar,
as regras poéticas são algemas a que se oferece o pulso.
Acaso te ocorreu simples?
Meu amor, meu pobre amor, entre a convenção
e a veneração nos movemos: foi então,
essa, a frágil reparação da minha Morte? – o teres inventado
o perdão, para quem culpa
não tinha?
 

Eduarda Chiote,
A Frágil Reparaçãoda Minha Morte -
Antologia (1974-2023) 

 

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Perder, ganhar - Poema de Lya Luft


Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834-1917), Woman Ironing, c 1869,
oil on canvas, 92.5 × 73.5 cm, Neue Pinakothek, Munich, Germany.


Perder, ganhar

Com as perdas, só há um jeito:
perdê-las.
Com os ganhos,
o proveito é saborear cada um
como uma fruta boa da estação.

A vida, como um pensamento,
corre à frente dos relógios.
O ritmo das águas indica o roteiro
e me oferece um papel:
abrir o coração como uma vela
ao vento, ou pagar sempre a conta
já vencida.
 

Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.


Edgar Degas, Woman Ironing, c. 1876-87, oil on canvas, 81.3 x 66 cm,
National Gallery of Art, Washington, DC.


"A vida é luta. A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal."
 

domingo, 21 de novembro de 2021

"A minha filha Violante" - Poema de Eugénio de Castro

(Eylau and Jeanine Lepic), 1871
 


A minha filha Violante 

 
Acorda cedo como os passarinhos,
vem logo direita à minha cama;
sacode-me com jeito, por mim chama
e abre-me os olhos com os seus dedinhos.

Estremunhado, zango-me. – “Beijinhos,
não quer beijinhos?” com voz d’ouro exclama.
Da minha ira empalidece a chama,
e, acarinhando-a, pago os seus carinhos.

Senhor! que amor de filha tu me deste!
Dá-lhe um caminho brando e sem abrolhos,
dá-lhe a Virtude por amparo e guia.

E destina também, ó Pai celeste,
que a mão com que ela agora me abre os olhos
seja a que há de fechar-mos algum dia!

Eugénio de Castro

quarta-feira, 27 de março de 2019

"A bailarina" - Poema de Cecília Meireles


Edgar Degas, The Dancing Class, 1872



A bailarina 


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


Cecília Meireles

(Ou Isto ou Aquilo, Ed. Nova Fronteira)


Thomas Eakins (1844–1916), The Dancing Lesson, 1878,
 Metropolitan Museum of Art, New York


“Quando perdemos o direito de ser diferentes perdemos o privilégio de ser livres.”

Charles Evans Hughes,
(1862-1948)


domingo, 4 de fevereiro de 2018

"O cavalo e a estrela" - Poema de Matilde Rosa Araújo


Edgar Degas, At the Stables, Horse and Dog, c. 1862 



O cavalo e a estrela


Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.

Era uma vez um pastor
No abrigo de uma serra,
Chamada Serra da Estrela
Quase no cabo da terra.

No Inverno a neve branca
O chão da serra cobria
E naquela solidão
O pastor assim vivia.

As ovelhas em seu redor
Faziam uma roda mansa:
Eram mantas de ternura
Numa roda que não cansa.

Para as ovelhas guardar
- Que os lobos matam rebanhos!
O pastor tinha um cão
De meigos olhos castanhos.

Havia silêncio na serra,
Tudo na serra dormia,
Quando apareceu um cavalo
A correr na noite fria.

Caía o luar na serra
Tudo na serra luzia,
Quando apareceu o cavalo
A correr na serra fria.

Foi acordado o pastor,
Ladrou o seu cão fiel,
E ali parou o cavalo,
Castanho da cor do mel.

Caía o luar na serra
E o cavalo ali parado:
Não era um lobo feroz,
Não era um lobo esfaimado.

Caiu uma estrela ardente
Na sua cabeça tão fina:
Eram os olhos mais azuis
Como a água de uma mina.

Brilhava de mansidão
O seu olhar sem sossego
E à lembrança do pastor
Vem a água do Mondego.

Começa o filho a falar:
- Sou filho da Primavera
E eu vim anunciar
Que ela está na serra à espera.

Esta estrela, sobre a testa,
Queima meu corpo de mel,
Cega meus olhos azuis
Numa fogueira cruel.

Adeus pastor, meu amigo,
Fica com o teu cão, teu gato,
Já podes sair do abrigo,
Eu já te dei o recado.

O pastor tinha uma flauta
Onde seu sonhar dormia
E tocou-a de madrugada
Com cristais de neve fria.

E o cavalo correu, voou,
Ganhou asas a arder:
O cavalo cor de mel
Era a manhã a nascer.

Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.



Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.

Era uma vez um pastor
No abrigo de uma serra,
Chamada Serra da Estrela
Quase no cabo da terra.

No Inverno a neve branca
O chão da serra cobria
E naquela solidão
O pastor assim vivia.

As ovelhas em seu redor
Faziam uma roda mansa:
Eram mantas de ternura
Numa roda que não cansa.

Para as ovelhas guardar
- Que os lobos matam rebanhos!
O pastor tinha um cão
De meigos olhos castanhos.

Havia silêncio na serra,
Tudo na serra dormia,
Quando apareceu um cavalo
A correr na noite fria.

Caía o luar na serra
Tudo na serra luzia,
Quando apareceu o cavalo
A correr na serra fria.

Foi acordado o pastor,
Ladrou o seu cão fiel,
E ali parou o cavalo,
Castanho da cor do mel.

Caía o luar na serra
E o cavalo ali parado:
Não era um lobo feroz,
Não era um lobo esfaimado.

Caiu uma estrela ardente
Na sua cabeça tão fina:
Eram os olhos mais azuis
Como a água de uma mina.

Brilhava de mansidão
O seu olhar sem sossego
E à lembrança do pastor
Vem a água do Mondego.

Começa o filho a falar:
- Sou filho da Primavera
E eu vim anunciar
Que ela está na serra à espera.

Esta estrela, sobre a testa,
Queima meu corpo de mel,
Cega meus olhos azuis
Numa fogueira cruel.

Adeus pastor, meu amigo,
Fica com o teu cão, teu gato,
Já pode ssair do abrigo,
Eu já te dei o recado.

O pastor tinha uma flauta
Onde seu sonhar dormia
E tocou-a de madrugada
Com cristais de neve fria.

E o cavalo correu, voou,
Ganhou asas a arder:
O cavalo cor de mel
Era a manhã a nascer.

Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.


Ler mais: http://poesia-portguesa-no-feminino.webnode.pt/products/o-cavalo-e-a-estrela/

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Liberdade" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen





Liberdade


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.



Autorretrato de Edgar Degas, 1854, Museu de Orsay


Edgar Degas foi um pintor francês, nascido em 1834 e falecido em 1917, ligado à geração do Impressionismo, mas que dificilmente pode ser considerado um verdadeiro impressionista. Assimilou a lição das obras dos velhos mestres, nas viagens por Itália, e conservou a admiração por Ingres, no traço e no estilo linear. 
Degas apreciava tudo o que era fora do comum. Chocava por uma paleta discordante, nos dizeres do público da época, em que era capaz de colocar lado a lado um violeta intenso e um verde ácido. A escolha dos temas era frequentemente pouco convencional.


Edgar Degas, O Absinto, também conhecida como O Copo de Absinto
ou No Café, 1875


Influenciado pela estética naturalista, retratou a vida parisiense, nos seus vícios, como em O Absinto (1876-77), e costumes. A frequência da vida noturna de Paris, e principalmente da Ópera, levou-o a multiplicar os ângulos de visão e os enquadramentos insólitos, que mais tarde o cinema e a fotografia iriam banalizar.


Edgar Degas, Prima Ballerina ou A Primeira Bailarina, c. 1876,


Em A Bailarina (1876), Degas exprime a beleza fugidia da dança, e neste aspeto pode considerar-se que está a ser "impressionista". Embora a bailarina se encontre completamente à direita, a composição é assimetricamente equilibrada pela mancha escura do que será o chefe do corpo de baile.


Edgar Degas, Madame Camus with a Fan, 1869-1870


Tradicionalmente, a arte ocidental respeita a unidade de composição. As formas surgem ligadas a outras formas, criando um movimento ou um conjunto de linhas no espaço. A arte oriental, pelo contrário, baseia essa relação no acentuar de certos grafismos ou cores e levando em linha de conta o espaço "entre", o vazio. Degas não deixou de tomar conhecimento da exposição de gravuras japonesas realizada em Paris em 1860, assimilando o delicado traço das composições. Os objetos deixam de ser olhados como objetos em si, a retratar fielmente, mas são representados pelas qualidades pictóricas que podem emprestar ao conjunto do quadro.


Edgar Degas, A banheira, 1886, Museu de Orsay


Nas numerosas versões de Depois do Banho, é desenvolvido o tema de mulheres fazendo a toilette. O pintor experimenta vários processos técnicos: a aguarela, o pastel, a água-forte, a litografia, o monotipo. 
No súltimos anos, devido às dificuldades de visão, trabalhou quase exclusivamente com cera, pastel e barro. A sua paleta ganhou mais força e luminosidade, enquanto as formas se simplificaram.  (Daqui)


Edgar Degas, Depois do banho, 1887

sexta-feira, 21 de abril de 2017

"Na casa defronte" - Poema de Álvaro de Campos





Na casa defronte


Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, 
Que felicidade há sempre! 

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi. 
São felizes, porque não sou eu. 

As crianças, que brincam às sacadas altas, 
Vivem entre vasos de flores, 
Sem dúvida, eternamente. 

As vozes, que sobem do interior do doméstico, 
Cantam sempre, sem dúvida. 
Sim, devem cantar. 

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro. 
Assim tem que ser onde tudo se ajusta — 
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza. 

Que grande felicidade não ser eu! 

Mas os outros não sentirão assim também? 
Quais outros? Não há outros. 
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada, 
Ou, quando se abre, 
É para as crianças brincarem na varanda de grades, 
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram. 
Os outros nunca sentem. 

Quem sente somos nós, 
Sim, todos nós, 
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada. 

Nada! Não sei... 
Um nada que dói... 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


quarta-feira, 29 de março de 2017

"Atravessaremos juntos as grandes espirais" - Poema de Hilda Hilst




Atravessaremos juntos as grandes espirais


Que boca há de roer o tempo? Que rosto 
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes 
O tule do meu sopro há de pousar 
Sobre a brancura fremente do teu dorso? 

Atravessaremos juntos as grandes espirais 
A artéria estendida do silêncio, o vão 
O patamar do tempo? 

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha 
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas 
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas 
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor 

Uma nova vertente há de nascer em ti 
E quantas vezes em mim há de morrer. 


in 'Preludios-Intensos para os Desmemoriados do Amor'