quarta-feira, 29 de março de 2017

"Atravessaremos juntos as grandes espirais" - Poema de Hilda Hilst



Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917),
 Le Café-Concert aux Ambassadeurs, 1887. 
Museé des beaux-arts de Lyon



Atravessaremos juntos as grandes espirais


Que boca há de roer o tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu? Quantas vezes
O tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?

Atravessaremos juntos as grandes espirais
A artéria estendida do silêncio, o vão
O patamar do tempo?

Quantas vezes dirás: vida, vésper, magna-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes, amor

Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.


Hilda Hilst (1930–2004)
in 'Preludios-Intensos para os Desmemoriados do Amor' 


Sem comentários: