Mostrar mensagens com a etiqueta Nelson Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nelson Rodrigues. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de agosto de 2026

"A Voz" - Poema de Maria Teresa Horta



Paula Rego (British-Portuguese visual artist, 1935–2022), Self-portrait in red, 1966.
Óleo, lápis de cera e colagem de papel sobre tela, 152 × 152 cm,
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



A Voz


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei

para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.


Maria Teresa Horta (1937–2025), in "As Palavras do Corpo"
(Antologia de poesia erótica), 2012
 
 
 
Paula Rego, The Artist in Her Studio, 1993, acrylic paint on canvas.



“Não é agradável viver sob uma crueldade tão grande. Interesso-me por muitas coisas, mas sou uma mulher por isso vejo as injustiças que as mulheres têm de suportar e tento destacá-las, de forma a ajudar. Não me vejo como uma pintora feminista.”
 

Paula Rego, 26 de janeiro de 2021, ao "Observador". (daqui)
 
 
Paula Rego em 1967, com 32 anos  (daqui)
 

Pintora portuguesa radicada em Inglaterra, Paula Figueiroa Rego nasceu a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa e morreu a 8 de junho de 2022, em Londres.

Paula Rego formou-se na Slade School of Art e, nos inícios dos anos 60 do século XX, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

A sua primeira aparição perante o público lisboeta deu-se em 1961, na II Exposição da Gulbenkian, tendo o seu trabalho sido bem acolhido pela crítica. O surrealismo e o expressionismo influenciaram estes primeiros desenhos e colagens. Passou pelo movimento da pop art inglesa, conservando, contudo, uma temática muito pessoal. A leitura dos romances de Henry Miller marcou igualmente o seu percurso, ao abordar temas do imaginário erótico feminino.

Em 1965 produziu vários trabalhos relacionados com acontecimentos chocantes da vida política ibérica - Cães de Barcelona, Gorgon, Retrato de Grimau, Manifesto (por uma causa perdida), temática já anunciada em 1961 com Salazar a vomitar a Pátria. Faz uma leitura pessoal de outras obras de arte e das suas memórias, integradas em processos narrativos em que o mundo da infância aparece como um lugar lúdico de perversidade e algum humorismo. Esta "narratividade" acentua-se nos anos 80. Nos anos 90, assume a orientação figurativa de raiz temática portuguesa ou atinge ainda uma dimensão universal abordando a condição feminina (Série de mulher-cão, Marborough Gallery, 1992).

Paula Rego nunca se desligou da vida artística portuguesa, expondo regularmente entre nós, mas também noutros países, como aconteceu, por exemplo, nas cidades de Amesterdão, Paris, Lima e Bruxelas. Também já representou o Reino Unido em certames como a Bienal de S. Paulo. Em maio de 1997, no Centro Cultural de Belém, foi inaugurada uma importante exposição retrospetiva da sua obra, com 136 trabalhos, cobrindo trinta e seis anos de carreira, e, em outubro de 2004, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, acolheu uma seleção da obra de Paula Rego, produzida desde 1997. Nesta mostra, de cerca de 150 obras, a artista apresentou, pela primeira vez, os desenhos preparatórios de algumas das suas pinturas, destacando a importância do desenho no seu trabalho. Em 2001, foi publicado, numa edição limitada, numerada e assinada, o livro As Meninas, uma obra conjunta da artista e de Agustina Bessa-Luís.

Ao longo da sua carreira foi distinguida com vários prémios, como: Prémio Soquil (1971); TWSA Touring Exhibition, Newlyn Arts Centre, Penzance (1984); Prémio Benetton/Amadeo de Souza-Cardoso, Casa de Serralves, Porto (1987); Prémio Turner 89, Londres (1989); Prémio Bordalo da Casa da Imprensa 1997, Lisboa (1998); Prémio AICA'97, Lisboa (1998); Prémio de Consagração Celpa/Vieira da Silva (2001). (daqui)

 

terça-feira, 10 de julho de 2012

"Ao Cair das Folhas" - Poema de António Nobre



Gustave Courbet
(French painter, 1819–1877),
Hunter on Horseback, 1864 
 

Ao Cair das Folhas 
                                                                          
                                                                                 À minha irmã Maria da Glória 
 
Pudessem suas mãos cobrir meu rosto,
fechar-me os olhos e compor-me o leito,
quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,
eu me for viajar para o Sol-posto.

De modo que me faça bom encosto
o travesseiro comporá com jeito.
E eu tão feliz! – Por não estar afeito,
hei-de sorrir, Senhor, quase com gosto.

Até com gosto, sim! Que faz quem vive
órfão de mimos, viúvo de esperanças,
solteiro de venturas, que não tive?

Assim, irei dormir com as crianças
quase como elas, quase sem pecados…
E acabarão enfim os meus cuidados.

Clavadel, outubro, 1895.

António Nobre
,
in Despedidas (1895–1899),
 Porto, 1902 
 
 
Obras de Gustave Courbet
 
Gustave Courbet, Self-Portrait with Striped Collar
 

Gustave Courbet, The Desperate Man


Gustave Courbet, The Wounded Man


Gustave Courbet, The Source


Gustave Courbet, Woman with a Parrot


Gustave Courbet, Portrait of Jo the Beautiful Irish Woman


Gustave Courbet, Seated woman in the terrace


Gustave Courbet, The hunt


Gustave Courbet, Sitting on cushions dog


Gustave Courbet, The Valley of the Loue


Gustave Courbet, Young Girl Arranging Flowers


Gustave Courbet, Hollyhocks in a Copper Bowl


"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."  - Nelson Rodrigues 


Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) foi um importante dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro, tido como o mais influente dramaturgo do Brasil. 
Nascido no Recife, Pernambuco, mudou-se em 1916 para a cidade do Rio de Janeiro. Quando maior, trabalhou no jornal A Manhã, de propriedade de seu pai. Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou uma vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade. 
Sua primeira peça foi A Mulher sem Pecado, que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. 
O sucesso mesmo veio com Vestido de Noiva, que trazia, em matéria de teatro, uma renovação nunca vista nos palcos brasileiros. 
A consagração se seguiria com vários outros sucessos, transformando-o no grande representante da literatura teatral do seu tempo, apesar de suas peças serem tachadas muitas vezes como obscenas e imorais. 
Em 1962, começou a escrever crónicas desportivas, deixando transparecer toda a sua paixão por futebol. Veio a falecer em 1980, no Rio de Janeiro.