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domingo, 31 de julho de 2016

"Saudade" - Poema de Judith Teixeira


Charles West Cope (English painter, 1811-1890), Home Dreams, 1869.



Saudade 


Segue-me noite e dia o teu desejo!... 
Oiço a tua voz rúbida e cantante 
Suplicar-me a carícia do meu beijo, 
numa teima exigente e perturbante! 

E o meu corpo vencido, dominado, 
vai tombar doloroso, inconsciente, 
sobre a lembrança morna do passado 
- e fica-se a sonhar... perdidamente! 


Judith Teixeira, in 'Antologia Poética' 


sábado, 12 de julho de 2014

"Rosas Vermelhas" - Poema de Judith Teixeira


Gustave Caillebotte, Garden in Trouville, 1882



Rosas Vermelhas 


Que estranha fantasia! 
Comprei rosas encarnadas 
às molhadas 
dum vermelho estridente, 
tão rubras como a febre que eu trazia... 
- E vim deitá-las contente 
na minha cama vazia! 

Toda a noite me piquei 
nos seus agudos espinhos! 
E toda a noite as beijei 
em desalinhos... 

A janela toda aberta 
meu quarto encheu de luar... 
- Na roupa branca de linho, 
as rosas, 
são corações a sangrar... 

Morrem as rosas desfolhadas... 
Matei-as! 
Apertadas 
às mãos-cheias! 

Alvorada! 
Alvorada! 
Vem despertar-me! 
Vem acordar-me! 

Eu vou morrer... 
E não consigo desprender 
dos meus desejos, 
as rosas encarnadas, 
que morrem esfarrapadas, 
na fúria dos meus beijos! 


Judite Teixeira, in 'Decadência'




Gustave Caillebotte
(Vida e Obra)
 
Gustave Caillebotte, Autorretrato, 1892
Musée d'Orsay, Paris.


Gustave Caillebotte (Paris, 19 de Agosto de 1848 - Gennevilliers, 21 de Fevereiro de 1894) foi um pintor francês, membro e patrono de um grupo de artistas conhecido como impressionistas, colecionador de selos e engenheiro de iates.


A photograph of the Caillebotte family taken by Martial Caillebotte Jr.
 

Gustave Caillebotte era filho de uma família parisiense de classe alta. Seu pai, Martial Caillebotte (1799-1874), era herdeiro da indústria têxtil de propriedade da família. Além disso, era também juiz no Tribunal de Comércio de Seine.


Gustave Caillebotte, Martial Caillebotte Jr. Playing the Piano, c. 1876
 

Martial Caillebotte ficou viúvo duas vezes antes de casar-se com a mãe do pintor, Céleste Daufresne (1819-1878), que teve mais dois filhos após Gustave: René Caillebotte (1851-1876) e Martial Caillebotte (1853-1910).



Gustave Caillebotte, Young Man at his Window (René Caillebotte), 1875,
Private collection



Foi provavelmente por volta de 1866 quando Caillebotte começou a desenhar e pintar. Muitas das pinturas de Caillebotte exibem os membros de sua família na vida doméstica; Young Man at His Window, 1875, mostra René na casa da rue de Miromesnil, The Orange Trees, 1878, exibe Martial Jr. e sua prima Zoë no jardim da propriedade da família em Yerres, e, mostra a mãe de Caillebotte junto com sua tia, primos, e um amigo da família.


Gustave Caillebotte, The Orange Trees (Les orangers), 1878


Caillebotte formou-se em advocacia em 1868 e uma obteve licença para praticar direito em 1870. Pouco tempo depois, ele foi convocado para lutar na Guerra Franco-Prussiana, e serviu à Guarde Nationale Mobile de la Seine. 
Após a guerra, Caillebotte começou a visitar o estúdio do pintor Léon Bonnat, onde ele iniciou seus estudos de arte. Em 1873, Caillebotte entrou na École des Beaux-Arts, mas aparentemente não a frequentou por muito tempo. Por volta dessa época, Caillebotte encontrou e se tornou amigo de vários artistas que não eram da academia francesa, incluindo Edgar Degas e Giuseppe De Nittis. Caillebotte compareceu, mas não participou da primeira exibição Impressionista de 1874.


Gustave Caillebotte,  Les raboteurs de parquet, 1875
 

A abastada pensão que Caillebotte recebia, somada à herança que ele recebeu após a morte de seu pai em 1874 e de sua mãe em 1878, permitiram-lhe pintar sem a pressão de vender seus trabalhos. Isso também permitiu-o ajudar a financiar exibições impressionistas e a dar suporte a companheiros artistas e amigos (incluindo Claude Monet, Auguste Renoir, e Camille Pissarro, dentre outros), ao comprar seus trabalhos e, pelo menos no caso de Monet, pagar o aluguer de seus estúdios. Além disso, Caillebotte usou sua fortuna para financiar vários hobbies pelos quais ele era apaixonado, incluindo colecionar selos (sua coleção encontra-se atualmente no Museu Britânico, cultivo de orquídeas, construção de iates, e até mesmo design de modelos (as mulheres nas pinturas Madame Boissière Knitting, 1877, e Portrait of Madame Caillebotte, 1877, poderiam estar trabalhando em modelos criados por Caillebotte).


Gustave Caillebotte, Portraits à la campagne, 1876, Musée Baron Gérard, Bayeux


O estilo de Caillebotte pertence à escola do Realismo. Como fizeram seus predecessores Jean-Francois Millet e Gustave Courbet, assim como seu contemporâneo Edgar Degas, Caillebotte tinha como objetivo pintar a realidade como ela existia e como  a via, tentando reduzir ao máximo a teatricidade inerente à pintura. Ele também compartilhava do comprometimento com a verossimilhança ótica dos Impressionistas.




Caillebotte pintou muitas cenas domésticas, familiares, interiores, e figuras na paisagem de Yerres, mas ele é mais conhecido por suas pinturas da cidade de Paris, como The Floor Scrapers, 1875, Le pont de l'Europe, 1876, e Paris Street, Rainy Day, 1877. Estas pinturas são um tanto controversas por mostrarem cenas banais e mundanas, e por sua perspectiva profunda. O piso inclinado comum a essas pinturas é bastante característico dos trabalhos de Caillebotte, o que pode ter sido fortemente influenciado por telas japonesas e a nova tecnologia da fotografia. Técnicas como cropping e zoom são facilmente encontradas nas obras de Caillebotte, o que pode ter sido o resultado de seu interesse por fotografia.


Gustave Caillebotte, Le Pont de l'Europe, 1876, Petit Palais - Genève


Um considerável número dos trabalhos de Caillebotte também emprega um ponto de vista muito alto, incluindo muitos de suas pinturas de varandas, como Vue des toits, effet de neige, 1878, e Boulevard vu d'en haut, 1880.


Gustave Caillebotte, Vue des toits, effet de neige, 1878
 

A carreira de pintor de Caillebotte diminuiu seu ritmo drasticamente na década de 1880, quando ele parou de produzir telas de tamanho grande e de exibir seus trabalhos. Ele adquiriu uma propriedade em Petit Gennevilliers, na margem do canal perto de Argenteuil, em 1881, e se mudou para lá permanentemente em 1888.


Gustave Caillebotte, Homme portant une blouse, 1884, collection privée


Ele devotou seu tempo à jardinagem e a construir iates de corrida, e passou muito tempo junto a seu irmão Martial, e seu amigo Renoir, que frequentemente visitava Petit Gennevilliers.


Gustave Caillebotte, La Plaine de Gennevilliers, 1888
 

Caillebotte morreu enquanto trabalhava em seu jardim em Petit Gennevilliers, em 1894, de congestão pulmonária, e foi enterrado no Cemitério de Père Lachaise em Paris.


Gustave Caillebotte, Nasturces, 1892


Em seu testamento, Caillebotte doou uma grande coleção ao governo francês. Esta coleção incluía sessenta e oito pinturas de vários artistas: Camille Pissarro, Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley, Edgar Degas, Paul Cézanne, e Édouard Manet.


Gustave Caillebotte, Le jardin du Petit Gennevilliers en hiver, 1894, private collection.
 

domingo, 15 de junho de 2014

"Adeus" - Poema de Judith Teixeira


Adeus


Sim, vou partir.
E não levo saudade
de ninguém…
Nem em ti penso agora!…
Julgavas que a tristeza desta hora
fosse maior que a firme vontade
que eu pus em destruir
o luminoso fio de ternura
que me prendia ao teu olhar?…
Julgaste mal:
Eu sei amar,
mas meu amor,
o que eu não sei
é ser banal!

Mas por que vim eu escrever-te ainda?
Nem eu sei!
Talvez somente
o hábito cortês da despedida
– e o hábito faz lei!

Choro?!… Oh! sim, perdidamente!
Mas sabes tu, porque este pranto
assim amargo, e soluçado vem?
É que na hora da partida
eu nunca pude sem chorar,
dizer adeus a ninguém!


Judith Teixeira, Janeiro, 1926
in 'Antologia Poética'


Judith Teixeira 


Judite dos Reis Ramos Teixeira ou Judith Teixeira (Viseu, 25 de Janeiro de 1880 - Lisboa, 17 de Maio de 1959) foi uma escritora portuguesa. Publicou três livros de poesia e um livro de contos, entre outros escritos.
Começou a escrever na adolescência "versos ingénuos, que guardava", (segundo palavras suas) e apareceu no "Jornal da Tarde" com composições em prosa que assinava com pseudónimo. Do seu nome verdadeiro, só haveria notícia em 1922, quando escreveu a maior parte dos poemas que haveriam de ser incluídos nos seu livros "Decadência" e "Castelo de Sombras", publicando também poemas na revista "Contemporânea". O livro "Decadência" saiu em Fevereiro de 1923Aquilino Ribeiro considerou-a  uma "poetisa de valor".
Em Março do mesmo ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu este livro de Judith, assim como as "Canções" de António Botto e "Sodoma Divinizada" de Raul Leal, depois da polémica instalada após a publicação destes livros, apelidados de "imorais", que levaram uns quantos estudantes católicos sedentos de mão pesada, a queixar-se contra a "literatura dissolvente" que "corroía a moral e os costumes". 
  

Três edições implicadas no contexto da "Literatura de Sodoma": liderada por Pedro Teotónio Pereira, a Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa [movimento católico criado em 1923] consegue que o Governo Civil interdite os livros Decadência (1922/3) de Judith Teixeira, [a 2ª edição de] Canções (1922) de António Botto e Sodoma Divinizada (1923) de Raul Leal. Em Março de 1923 foram apreendidos e queimados muitos exemplares destes livros.


Os livros foram queimados e Judith Teixeira apelidada de "desavergonhada"Fernando Pessoa tomou posição em defesa dos amigos António Botto  e  Raul Leal. (Raul Leal vivia em Paris, mas António Botto e Judith Teixeira foram perseguidos. Botto foi demitido da função pública e acabou por fugir para o Brasil; doente, morreu na miséria em 1959.) 
Em Junho do mesmo ano (1923), Judith publicou "Castelo de Sombras", constituído por 24 poemas datados de sexta feira de paixão de 1921 a Abril de 1923. E em Dezembro do mesmo ano, resolveu editar novamente "Decadência"
Durante o ano de 1925, Judith escreveu a maior parte dos poemas que iria publicar no livro "Nua", em 1926. Entretanto, editou e dirigiu a revista "Europa". O livro "Nua" foi anunciado pelo poema "A cor dos sons", publicado na revista "Contemporânea", n.º11. Em Junho, já com o livro à venda, sairia no jornal "Revolução Nacional", (jornal de propaganda da ditadura onde se insultavam os directores de quase todos os outros jornais), um texto onde era referido o livro "Nua" de Judith, como "uma das vergonhas sexuais e literárias" e apelidados os seus poemas de "versalhadas ignóbeis"
Em 1926 Marcello Caetano escreveria ainda, no jornal "Ordem Nova" (de que era fundador e redator), que tinham aparecido nas livrarias uns livros obscenos, apelidando Judith de "desavergonhada", e onde se vangloriava pela cremação dos livros dela, de Leal e de Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”. 
Judith Teixeira, depois de enxovalhada publicamente, ridicularizada, apelidada de lésbica e caricaturada em revistas, defendeu-se e contra atacou na conferência "De Mim", cujo texto se apressou a editar. Sete meses depois, publicou "Satânia", enfrentando tudo e todos. Em 1928 publicou o "Poemeto das Sombras" na revista "Terras de Portugal". Depois desta data, Judith assinou raras colaborações. Totalmente esmagada, pela moral vigente, viu-se em 1927, sentenciada de "morte artística" pela mão de José Régio, que diria:"Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto"
Depois disto, sabe-se que terá saído do país e que se terá calado para sempre uma voz tão incisivamente dedicada à agitação. 
Judith morreu a 17 de Maio de 1959, aos 79 anos, residindo então em Lisboa,  em Campo de Ourique. Segundo o assento de óbito, morreu viúva, sem deixar filhos nem bens e sem fazer testamento.
Quinze anos mais tarde, em 1977, António Manuel Couto Viana ressuscitava o nome de Judith Teixeira, "a única mulher no modernismo português", ao dedicar-lhe uma memória no volume "Coração Arquivista" onde se interrogava porque teriam sido as poesias de Judith votadas ao silêncio e à ignorância das mesmas. 
Judith Teixeira é ainda hoje praticamente desconhecida e continua a não estar representada em qualquer antologia. Fala-se ainda hoje da polémica da "literatura de sodoma" de Botto, Leal e Pessoa, e omite-se aquela que viu igualmente um livro seu em labareda e que foi a mais perseguida e enxovalhada dos poetas modernistas. Uma excepção para a Editora "&etc", que, em 1996 resolveu editar os poemas de Judith Teixeira, (com pesquisa, organização e bibliografia elaborada por Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar), com o objectivo de reparar a injustiça de tal silêncio a que esta poetisa vanguardista dos anos 20 foi votada todos estes anos.

Obras:
  • Decadência. Poemas (1923)
  • Castelo de Sombras. Poemas (1923)
  • Nua. Poemas de Bizâncio (1926)
  • De Mim. Conferência (1926)
  • Satânia. Novelas (1927)
Fontes:
Wikipédia
Blogue "Europa", dedicado a Judith Teixeira
Biografia de Judith Teixeira