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segunda-feira, 20 de abril de 2026

"Felina" - Poema de António Feijó

 


Paul de Vos (Flemish Baroque painter, 1595–1678), "Cats Fighting in a Larder", c. 1630/1640,
Museo del Prado
 

Felina


Galgam os gatos, guturais, gritando,
Nas gotejantes, glácidas goteiras,
As julietas maltesas namorando,
Em mios sensuais pelas trapeiras.

Chora, chapinha, chuviscando, a chuva!
No deserto beiral do meu telhado,
Uma cinzenta graziela viúva
Contempla o seu “miau” envenenado...

Há lamentosos, lutulentos lances,
Por sobre a telha de Marselha, oblonga...
Sonhos, idílios, infernais romances,
Cavaleiros de Malta e barba longa!

Dum, conheço uma história muito triste,
Dum que lembrava o D. João doutrora,
Sempre com o bigode e a cauda em riste...
Mas era longo referi-la agora.

Pelos sítios escusos dos telhados
Há gatas sem pudor fazendo vistas,
Traições, banzés, focinhos arranhados,
Baralhas de saloios e fadistas.

Ouvindo-os, entre insónias horrorosas,
Paroquiais, pesados pesadelos,
Guloso, gloso gloriosas glosas,
E faço caracóis com os cabelos!... 


António Feijó (1859-1917), in "Bailatas", 1907.
in "Poesias Completas", 2004.
 
 
 
Poesias Completas de António Feijó;
Prefácio de J. Cândido Martins;
Edições Caixotim, Porto, 2004.

Poesias Completas de António Feijó - Obra reeditada em 2004, com prefácio e fixação do texto de J. Cândido Martins e com o patrocínio do Município de Ponte de Lima, que apresenta a evolução estética da obra poética de António Feijó, que enquadra o lugar deste poeta limiano na História da Literatura Portuguesa e que sistematiza, no quadro da receção crítica da sua poesia, uma atualizada bibliografia passiva. (daqui)
 

sábado, 17 de junho de 2023

"Pálida e Loira" - Poema de António Feijó


Julio Romero de Torres (Pintor simbolista espanhol, 1874-1930), "Mira qué bonita era", 1895.
 
 
 
Pálida e Loira

 
Morreu. Deitada no caixão estreito,
Pálida e loira, muito loira e fria,
O seu lábio tristíssimo sorria
Como num sonho virginal desfeito.

Lírio que murcha ao despontar do dia,
Foi descansar no derradeiro leito,
Às mãos de neve erguidas, sobre o peito,
Pálida e loira, muito loira e fria…

Tinha a cor da rainha das baladas
E das monjas antigas maceradas,
No pequenino esquife em que dormia…

Levou-a a morte em sua garra adunca!
E eu nunca mais pude esquecê-la, nunca!
Pálida e loira, muito loira e fria.


António Feijó, in Líricas e Bucólicas, 1884.

 
Capa da primeira edição de Líricas e Bucólicas (1884)
 de António Feijó
(daqui)
 

Líricas e Bucólicas
 
Coletânea de poesias (escritas entre 1876 e 1883), de António Feijó, dividida em dois livros, "Líricas" e "Bucólicas", reveladora de um lirismo mais sóbrio e depurado, afastado dos temas filosóficos e do tom épico característicos das "Transfigurações", de 1882, e próximo da estética parnasiana: "alucinado espraio as minhas fantasias/ na indolência da rima e no embalar do metro" ("Eterno tema"). 
 
As composições de "Líricas" cantam variações sobre o "Eterno tema", o amor e a mulher: "Só para te cantar que fale a Apoteose!/ vibre no espaço a Lira o canto sobre-humano!/ que a Musa se renove e em tal metamorfose/ no verso possa unir o místico ao profano!". 
Na série "Flores de carne", o poeta apresenta um friso de figuras femininas - Laïs, Lésbia, Santa Teresa de Jesus e Rigolboche -, incarnações diversas do mesmo amor erótico. A expressão lírica do sentimento amoroso surge, não raras vezes, associada a motivos fúnebres (tal como em "Rosa branca", "Em frente do esquife", "Cadências tristes", "No cemitério" e "Pálida e loira", um dos mais célebres sonetos do autor), mas sempre com uma nota de distanciamento e até de ironia (como em "Canção da decadência"). 
 
Em "Bucólicas", Feijó opera uma renovação da veia bucólica da poesia portuguesa, anunciada desde a "Sinfonia de abertura" ("- ouvi estas canções que a fantasia errante/ colheu, para formar um virginal tesoiro,/ pelas searas sem fim, pelas paisagens largas,/ como quem arquiteta o seu castelo d'oiro/ para fugir da vida às tentações amargas...") e patente em composições como "Tintas da aurora", "Elegia rústica" ou "Árvore amiga". 
Do ponto de vista formal, a coletânea destaca-se por uma grande variedade métrica e estrófica. (daqui)
 

terça-feira, 6 de junho de 2023

"Hino à Morte" - Poema de António Feijó

 
Hino à Morte 
 

Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu ânimo trouxe
Esse aspeto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
— Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento...

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o inseto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu ânimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes, na angústia, o sofrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A Morte, que sem dó me tortura e sufoca,
É outra, — essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas afeições,
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parêntesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
Da Morte, o horror que gera a consciência do Nada,
Quem vive é que lhe sente o aflitivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afeto à nossa vida enlaça,
— Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

Só então, da tua asa a sombra formidável,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondável,
Noite de soledade em que nunca amanhece...

Só então, sucumbindo à dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é dum Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!

Inflexível e cego, o poder do teu ceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza ele faz um espectro
De alguém, que há pouco ainda, ao pé de nós sorria.

Mas se nessa tortura, exausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contrito,
Passa diante de mim, como um deslumbramento
Constelando o teu manto, a visão do Infinito.

E de novo, ao sair dessa angústia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Eutanásia serena em cujo olhar clemente
Arde a chama em que toda a escória se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida
— Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva
Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida! 


António Feijó
(1859-1917), in 'Sol de Inverno'
 
 
"Sol de Inverno" de António Feijó, Edições Vercial

 "Sol de Inverno", volume póstumo que reúne as últimas poesias de António Feijó, com um prefácio, de grande interesse crítico e biográfico, de Luís de Magalhães, um texto crítico de Alberto de Oliveira e ainda várias apreciações sobre as coletâneas Ilha dos Amores e Cancioneiro Chinês, recolhidas da imprensa. Nesta obra de síntese, dedicada à mulher do autor, evidenciam-se as qualidades do lirismo depurado de Feijó ("Díptico: eu e tu"), onde predominam os motivos melancólicos e outonais ("Cabelos brancos"), os temas do exílio ("Súplica ao vento") e da morte ("Entre pinheiros e ciprestes"). (daqui)
 

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

"A Lenda dos Cisnes" - Poema de António Feijó


Isaac Levitan (Russian landscape painter, 1860-1900), The Quiet Cloister, 1890
 
 
 
 A Lenda dos Cisnes
 (A Júlio Dantas)
 
Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt ist, weil 
Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick Deines Todes.
Herder

Da praia longínqua, na areia dourada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:

– «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!

Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos à glória do Sol...

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minh'alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d'alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!» –

E o Cisne, em silêncio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das águas rompia a quadriga d'Apolo,
E o pobre a cabeça escondia no colo...

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, num halo de fogo:
– «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo...» –

E nesse momento a Lira Sem Par
Da mão luminosa deixou resvalar...

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira d'Apolo as cordas afina,

E rompe cantando... Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves... As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar...
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não para, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
no enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu...

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solícita espera-o, das águas à beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce...

As águas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano d'enterro picado d'estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas águas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar...
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas águas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa...

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal...
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
– De dor e d'angústia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora...

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar...

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma...


António Feijó, in 'Sol de Inverno'
 


Isaac Levitan, Self-portrait, 1880
 
 
Isaak Ilich Levitan (Kybartai (Lituânia), 1860 - Moscou/Moscovo, 1900) foi um pintor russo de origem judaica, que pertenceu ao movimento dos Itinerantes. Expressou nas suas paisagens a beleza da região do Volga
O seu pai Elyashiv Levitán foi um humilde professor de línguas e tradutor que partiu para Moscovo para permitir que o seu filho Isaac estudasse na Academia dessa cidade. Isaac ingressou nessa Academia aos 19 anos e pintou o seu primeiro quadro "Paisagem de Outono" (1880) que foi comprado pelo colecionador Pável Mijáilovich Tretiakov, com quem Isaac travara uma amizade. Tretiakov ofereceu-lhe uma bolsa para estudar em Paris e foi a única vez que Levitán saiu da Rússia. Na sua viagem conheceu as obras do paisagista realista Jean-Baptiste Camille Corot, antecessor do impressionismo e mestre de outro de família judaica: Camille Jacob Pissarro, famoso impressionista francês. Voltou à sua Rússia natal e desenvolveu a sua carreira como pintor. Aos 37 anos foi nomeado membro da Academia de Artes Russa e diretor do departamento de pintura de paisagens.
O pintor e Anton Tchekhov (escritor e dramaturgo) foram amigos e admiradores mútuos.
Isaac Levitan morreu aos 40 anos devido a uma doença pulmonar. O chamado "pintor-poeta" deixou milhares de telas. A sua pintura ao ar livre captou com pincelada ligeira e admirável realismo as subtis gradações da espessa luz solar e as finas camadas de cor das sombras. (Daqui)
 
 
 Obras de Isaac Levitan
Isaac Levitan, Oak, 1880
 
 
Isaac Levitan, Dacha in spring, gouache and watercolour on board (after 1890)


Isaac Levitan, Autumn. A Manor House, 1894 
 

Isaac Levitan, Sunny Day, Spring, 1876



Isaac Levitan, March, 1895
 
 

Isaac Levitan, Spring in Italy1890

 
 “A arte deve ligar-se estreitamente com a vida (como função intensiva desta). 
 Fundir-se com ela ou perecer.”  
 
(Vladimir Maiakovski)
 
Vladímir Vladímirovitch Maiakovski (1893-1930) foi um dos maiores poetas do século XX, sendo ainda dramaturgo e teórico russo, e considerado como o poeta da revolução e do futurismo.

Impressionado pelo movimento revolucionário, ingressou na fação bolchevista do Partido Social-Democrático Operário Russo quando tinha apenas quinze anos. Capturado três vezes, foi libertado por falta de provas em duas dessas ocasiões. No entanto, entre 1909 e 1910, acabou por passar onze meses na prisão.

Entrou na Escola de Belas Artes, onde conheceu David Burliúk, o grande mentor da sua iniciação poética. Os dois amigos fizeram parte do grupo fundador do chamado cubo-futurismo russo, ao lado de Khlébnikov, Kamienski e outros.

Após a Revolução de Outubro, o grupo manifestou o seu apoio ao novo regime. Durante a Guerra Civil, Maiakovski dedicou-se à criação de desenhos e legendas para cartazes propagandistas. Em 1923, fundou a revista LEF (de Liévyi Front, Frente da Esquerda), que reuniu a "esquerda das artes", isto é, os intelectuais (escritores e artistas) que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social.

Maiakovski viajou muito pelo país e pelo mundo, divulgando a sua arte e aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus poemas. Entrou repetidamente em conflito com os "burocratas" e com aqueles que pretendiam reduzir a poesia a "fórmulas mais simples", chegando a ser pressionado e perseguido por oficiais, que desejavam instaurar uma literatura "simplista e dita realista".

Homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico, Vladímir Maiakovski ter-se-á suicidado em 1930, aos 36 anos, com um tiro no peito. Este facto é, no entanto, disputado por sua filha, Elena Maiakovskaia. (Daqui)
 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

"Hino à Dor" - Poema de António Feijó


 
Frederick Goodall (British, 1822–1904), Orientalist painter,  
Mrs. Charles Kettlewell in Neo­classical Dress, 1890 
 


Hino à Dor 
(Aos Condes de Sabugosa) 

 
Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não há para nós consolação mais doce
Que o regaço de quem muito amou e sofreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa,
Ao nosso coração nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos d'água,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoura a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente enublados de pranto. 


António Feijó, in 'Sol de Inverno'
 
 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

"Inverno" - Poema de António Feijó


Albino José Moreira (1895-1994, pintor naïf português), Vista Geral de Ponte de Lima, 1984
 

Inverno
(Quadras finais)


Nasci à beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo cristal;
Daí a angústia que me vitima,
Daí deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.

São águas claras sempre cantando,
Verdes colinas, alvor de areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua cheia…

É funda a mágoa que me exaspera,
Negra a saudade que me devora…
Anos inteiros sem primavera,
Manhãs escuras sem luz de aurora!

Ó meus amigos, quando eu morrer
Levai meu corpo despedaçado,
Para que eu possa, já sem sofrer,
Dormir na morte mais descansado.

Olhos d’Aquela que eu estremeço,
Se de tão longe pudésseis ver-me!
Olhos divinos que eu nunca esqueço,
Morro de frio, vinde aquecer-me… 
 


[Da longa estadia no Norte da Europa datam estes sentidos versos onde o poeta António Feijó expressa a nostalgia da pátria, com realce para a paisagem da sua  Ribeira Lima, saudade da luz e do calor, das tradições e do encanto da sua distante terra natal.  De manifesta tonalidade confessional, o poema foi adotado por Ponte de Lima para seu Hino oficial. (Daqui)]

António Feijó
António Feijó


Poeta e diplomata português, António Joaquim de Castro Feijó nasceu 1 de Junho de 1859, em Ponte de Lima, e morreu a 21 de junho de 1917, em Estocolmo.
Deixou uma obra reveladora de tendências diversas, entre o Parnasianismo, o Romantismo, o Decadentismo e o Simbolismo, e influências ecléticas, que vão de  Leconte de Lisle, Théodore de Banville e Gautier a Vítor Hugo, de Leopardi a Baudelaire, de Guerra Junqueiro a João Penha.
Em 1883, forma-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde tem por companheiros Luís de Magalhães, Manuel da Silva Gaio e Luís de Castro Osório, com quem viria a fundar, em 1880, a Revista Científica e Literária de Coimbra.
De finais dos anos 70 até início da década de 90, colaborará em vários periódicos, como a Revista Literária do Porto, Novidades, Revista de Coimbra, Museu Ilustrado, O Instituto, Arte.
Em 1882, publica o seu primeiro volume de poesias, Transfigurações, marcadas pela temática filosófica e pelo tom épico, que revelam um pessimismo e uma acusação nítida das imperfeições morais e sociais que o rodeiam. Seguem-se Líricas e Bucólicas (1884) e À Janela do Ocidente (1885), reveladoras de um lirismo mais depurado.
Em 1886, ingressa na carreira diplomática, sendo primeiro cônsul no Brasil e depois ministro de Portugal em Estocolmo. Aí viria a desposar uma jovem sueca, Mercedes Lewin, cuja morte prematura influenciaria uma certa temática fúnebre patente na sua obra.
No Cancioneiro Chinês (1890), coleção de poesias adaptadas a partir de uma versão francesa, revela o gosto pelo exotismo orientalista.
Em Bailatas, obra publicada em 1907 sob o pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima, parece ter a intenção de parodiar o Decadentismo, mas a verdade é que muitas dessas poesias atingem consonância com a própria sensibilidade simbolista.
As suas últimas obras, particularmente a coletânea póstuma Sol de inverno, editada em 1922, espelham o lirismo sóbrio, o simbolismo depurado, os motivos melancólicos, outonais, e os temas da saudade e da morte, que são algumas das características da obra de António Feijó. (Daqui)
 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

"Hino à Beleza" - Poema de António Feijó


Federico Andreotti (1847-1930), “A Moment's Reflection”



Hino à Beleza


Onde quer que o fulgor da tua glória apareça, 
— Obra de génio, flor de heroísmo ou santidade, — 
Da Gioconda imortal na radiosa cabeça, 
Num ato de grandeza augusta ou de bondade, 

— Como um pagão subindo à Acrópole sagrada, 
Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso, 
Ou seja o Herói que leva uma aurora na Espada, 
Ou o Santo beijando as chagas do Leproso. 

Essa luz sem igual com que sempre iluminas 
Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio 
Do mesmo foco em mil parábolas divinas: 
— Raios do mesmo olhar, ânsias do mesmo seio. 

Alta revelação que, baixando em segredo, 
O prisma humano quebra em ângulos dispersos, 
Como a água a cair de rochedo em rochedo 
Repete o mesmo som, mas em modos diversos. 

É audácia no Herói; resignação no Santo; 
Som e Cor, ondulando em formas imortais; 
No mármore rebelde abre em folhas de acanto, 
E esmalta de candura a flora dos vitrais. 

Ó Beleza! Ó Beleza! as Horas fugitivas 
Passam diante de ti, aladas como sonhos... 
Que importa onde elas vão, doutra força cativas, 
Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?! 

Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente, 
Brilham as aves como estrelas, e as estrelas, 
Como flores enchendo a noite refulgente, 
Deixam-se resvalar sobre quem vai colhê-las... 

És tu que às ilusões dás juventude e forma, 
Tu, que talvez do céu, de onde vens, te recordes 
Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma 
Dissonâncias de dor em imortais acordes. 

Vejo-te muita vez, — luz de aurora ou de raio,— 
Como um gládio de fogo a avançar no horizonte; 
Ou então, em manhãs transparentes de Maio, 
Náiade toda nua a fugir duma fonte. 

Outras vezes, de noite e a ocultas, apareces, 
Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha, 
Trazendo no regaço inesgotáveis messes, 
Que Ele por tuas mãos sobre a miséria espalha... 

Pudesse eu revelar-te em estrofes aladas, 
Que partissem ao Sol refulgindo em lavores, 
Com rimas de oiro, em talau e púrpura engastadas, 
Como versos que vão desabrochando em flores! 

Mas a língua não é sumptuosa bastante 
Para nela deixar teu génio circunscrito; 
Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante, 
E a voz nem mesmo tem a eloquência dum grito! 

Mas se para o teu culto, em esplendor externo, 
Não encontro uma prece altamente expressiva, 
Por ti meu coração arde dum fogo eterno, 
Como chama a tremer de lâmpada votiva! 


António Feijó, in 'Sol de Inverno'


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Hino à Alegria" - Poema de António Feijó


Ludwig Knaus (German painter, 1829 - 1910), Girls from the Schwalm, 1886.



Hino à Alegria


Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta, 
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar, 
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta, 
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar. 

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos, 
Quase meiga, apesar do seu riso constante, 
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos, 
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante... 

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra; 
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador; 
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra, 
Sem que dele irradie um facho criador. 

Quando menos se espera, irrompe de improviso; 
Mas foge-nos também com uma presteza igual; 
E dela apenas fica um pálido sorriso 
Traduzindo o desdém duma ilusão banal. 

Onda mansa que só à superfície corre, 
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda! 
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre, 
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda! 

No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada, 
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa, 
Como chuva a cair numa planta abrasada, 
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza! 

Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto; 
Sofrer torna melhor o coração; depura 
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto, 
Sai o oiro em fusão da escória mais impura. 

A Alegria é falaz; só quem sofre não erra, 
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve; 
A Alma, na oração, desprende-se da terra; 
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve! 

E contudo, — ilusão!—basta que ela sorria, 
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar, 
Vamos logo em tropel, no capricho do dia, 
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar! 

Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta, 
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso; 
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta, 
Que mal chega a doirar as cortinas do berço. 

Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto, 
Vem ainda banhar certas horas da Vida, 
Como um íris de paz numa névoa de pranto, 
Crepitação, fulgor duma estrela perdida. 

Então, no resplendor dessa aurora bendita, 
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas, 
O espírito remoça, o coração palpita 
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas! 

Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa? 
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente, 
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta, 
Deixa em louco alvoroço o coração da gente! 

Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino, 
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer... 
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino! 
Momentâneo, falaz encanto de viver! 

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos, 
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes! 
Nesta sentimental língua que nós falamos, 
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!


António Feijó, in 'Sol de Inverno'


Ludwig Knaus, Girl in a Field, 1857


"Sem a alegria, a humanidade não compreende a simpatia nem o amor."



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

"Hino à Solidão" - Poema de António Feijó





Hino à Solidão


Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; 
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca 
Se encontra só; a alma é um mundo, um mundo aberto 
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca. 

Mundo vasto que mil existências povoam: 
Imagens, conceções, formas do sentimento, 
— Sonhos puros que nele em beleza revoam 
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento. 

Dia a dia, hora a hora, o pensamento lavra 
Esse fecundo chão onde se esconde e medra 
A semente que vai germinar na palavra, 
Cantar no som, flores na cor, sorrir na pedra! 

Basta que certa luz de seus raios aqueça 
A semente que jaz na sua leiva escondida, 
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça, 
De perfumes enchendo as estradas da vida. 

Sei que embora essa luz nem para todos tenha 
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador, 
Da glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, 
Vivendo como um deus no seu mundo interior. 

E que mundo sublime, esse em que ele se agita! 
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou, 
E em cuja criação o seu sangue palpita, 
Que não há deus estranho aos orbes que formou. 

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades 
Em que o tempo se esvai sob o encanto da hora... 
O passado e o porvir são ânsias e saudades: 
Só no instante que passa a plenitude mora. 

Sombra crepuscular, que a noite não atinge, 
Nem a aurora desfaz: rosicler e luar, 
Meia tinta em que a alma abre os lábios de esfinge, 
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar. 

Mas então, inundando essa penumbra doce, 
De não sei que sublime esplendor sideral, 
Como se a emanação dum ser divino fosse, 
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal. 

Na vertigem que a vida exalta e desvaria, 
Pára alguém para ouvir um coração que bate 
No seio mais formoso, o olhar que se extasia 
Vê o mundo que nele em ânsias se debate? 

É só na solidão que a alma se revela, 
Como uma flor noturna as pétalas abrindo, 
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela, 
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo... 

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura, 
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, 
Como das mãos do artista, animando a escultura, 
O mármore recebe a sua alma — a beleza. 

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento, 
Como dum cálix cheio o líquido extravasa, 
A dor, que a alma empolgou, transborda em pensamento, 
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa. 

Como a montanha de oiro, a alma, em seu mistério, 
À superfície nunca o seu teor revela; 
Só depois de sondado e fundido o minério 
Se conhece a riqueza acumulada nela. 

Corações que a existência em tumulto arrebata! 
Esse oiro só se extrai do minério candente, 
No silêncio, na paz, na quietação abstrata, 
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente... 


António Feijó (1859-1917), in 'Sol de Inverno


Pieter Saenredam, Cathedral of Saint John at's-Hertogenbosch, 1646


"Vive com os homens como se Deus te estivesse a ver; fala com Deus como se os homens te estivessem a ouvir."



domingo, 11 de dezembro de 2016

"Noite de Natal" - Poema de António Feijó


Augustus Edwin Mulready (British, 1844–1905), A Recess on a London Bridge, 1879



Noite de Natal

[A um pequenito, vendedor de jornais] 


Bairro elegante, – e que miséria! 
Roto e faminto, à luz sidéria, 
O pequenito adormeceu... 

Morto de frio e de cansaço, 
As mãos no seio, erguido o braço 
Sobre os jornais, que não vendeu. 

A noite é fria; a geada cresta; 
Em cada lar, sinais de festa! 
E o pobrezinho não tem lar... 

Todas as portas já cerradas! 
Ó almas puras, bem formadas, 
Vede as estrelas a chorar! 

Morto de frio e de cansaço, 
As mãos no seio, erguido o braço 
Sobre os jornais, que não vendeu, 

Em plena rua, que miséria! 
Roto e faminto, à luz sidéria, 
O pequenito adormeceu... 

Em torno dele – ó dor sagrada! 
Ao ver um círculo sem geada 
Na sua morna exalação, 

Pensei se o frio descaroável 
Do pequenino miserável 
Teria mágoa e compaixão... 

Sonha talvez, pobre inocente! 
Ao frio, à neve, ao luar mordente, 
Com o presépio de Belém... 

Do céu azul, às horas mortas, 
Nossa Senhora abriu-lhe as portas 
E aos orfãozinhos sem ninguém... 

E todo o céu se lhe apresenta 
Numa grande Árvore que ostenta 
Coisas dum vívido esplendor, 

Onde Jesus, o Deus Menino, 
Ao som dum cântico divino, 
Colhe as estrelas do Senhor... 

E o pequenito extasiado, 
Naquele sonho iluminado 
De tantas coisas imortais, 

– No céu azul, pobre criança! 
Pensa talvez, cheio de esperança, 
Vender melhor os seus jornais... 


António Feijó (1859-1917),
 in 'Antologia Poética' 


Augustus Edwin Mulready (British, 1844–1905)


"Viver é como amar: todas as razões são contra, e a força de todos os instintos é a favor." 


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"O Amor e o Tempo" - Poema de António Feijó


Pintura de João Hogan


O Amor e o Tempo


Pela montanha alcantilada 
Todos quatro em alegre companhia, 
O Amor, o Tempo, a minha Amada 
E eu subíamos um dia. 

Da minha Amada no gentil semblante 
Já se viam indícios de cansaço; 
O Amor passava-nos adiante 
E o Tempo acelerava o passo. 

— «Amor! Amor! mais devagar! 
Não corras tanto assim, que tão ligeira 
Não pode com certeza caminhar 
A minha doce companheira!» 

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados, 
Abrem as asas trémulas ao vento... 
— «Porque voais assim tão apressados? 
Onde vos dirigis?» — Nesse momento, 

Volta-se o Amor e diz com azedume: 
— «Tende paciência, amigos meus! 
Eu sempre tive este costume 
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus! 


António Feijó, in 'Sol de Inverno'


João HoganAutorretrato, 1959.


Pintor e gravador, João Manuel Navarro Hogan nasceu em 1914, em Lisboa, e faleceu no ano de 1988. Iniciou a sua vida profissional numa oficina de marcenaria. Frequentou a Escola de Belas Artes apenas durante um ano. Foi aluno de Frederico Ayres e discípulo de Mário Augusto (1937), quando este dirigia cursos noturnos de pintura na SNBA.
A sua pintura era, no início da sua carreira, essencialmente figurativa mas, após ter conseguido uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1958, para estudar pintura em Paris, o rumo da sua arte mudou criando um caminho próprio, baseado em superfícies e volumes simplificados.
Simultaneamente, trabalhou, desde 1956, em gravura. Demonstrou uma excecional capacidade e dotes profissionais nesta área artística pelo que, logo no ano seguinte, passou a dirigir cursos de gravura para jovens, tornando-se um dos principais professores da Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses.
João Hogan foi, também, professor de Pintura (1976 1978) e de técnica de gravura (1979 1981) na Associação Ar.Co, em Lisboa, ano em que saiu por reforma.
O pintor e o gravador parecem, de certo modo, opor-se em João Hogan. O primeiro trata a paisagem rústica e urbana, recriando-as. O segundo situa-se no plano fantástico onde surge, não a paisagem mas o homem ou o sonho roçando a abstração.

João Navarro Hogan. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-10-16].


João Hogan, Paisagem, 1964, óleo sobre tela, 81 x 100 cm


João Hogan, Sem título, 1972, óleo sobre tela, 130 x 180 cm