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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"Despedida do Outono" - Poema de Eugénio de Andrade



Armando Anjos (Pintor português, 19312017), Paisagem com lavadeiras, s.d.


Despedida do Outono


Eu já ouvira o apelo do tordo
junto às águas velhas
do rio, ou na luz vidrada
das lentas oliveiras do sul.

Pensava então que não podia morrer
quem tanto amou o claro timbre
das vogais trazidas pelo mar 

- o outono, esse morria nas chamas
altas dos castanheiros,
na sonâmbula ondulação
dos rebanhos,
nos olhos das mulheres
de coração fatigado,
semelhantes a ramos partidos
- elas, que foram irmãs do orvalho.
 
 
 

Armando Anjos (Pintor português, 19312017), Paisagem, s.d.


Outono –
Empoleirado num ramo seco
um corvo
in "O Gosto Solitário do orvalho"  

 

Matsuo Bashō, "O Gosto Solitário do orvalho"
 e "O Caminho Estreito". Editora: Assírio e Alvim.
  Edição/reimpressão: 04-2003. 
 

SINOPSE 
 
Matsuo Bashō (Japão, 1644-1694), "o eterno vagabundo" - assim lhe chama Jorge de Sousa Braga, autor destas versões portuguesas de "O Gosto Solitário do Orvalho", um volume de haikus, e "O Caminho Estreito", um diário de viagem.
Como diz Eugénio de Andrade ("Rosto Precário"), Bashô, "com um cânone de apenas dezassete sílabas, fez uma das mais esplêndidas poesias de que há memória." 
O haiku (JSB) é "um momento único na eternidade: não se repete, nem se desvanece nunca". Bashô é um dos seus maiores executores. Vejam-se dois, de entre muitos:

Uma rã mergulha
no velho tanque...
o ruído da água

Preso na cascata
um instante:
o verão
 
 
 Matsuo Bashō
 
Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644, na pequena aldeia de Ueno, e morreu a 28 de novembro de 1694. De acordo com a sua última vontade, foi sepultado nos terrenos do mosteiro de Gichu-Ji, nas margens do Lago Biwa, perto de Zeze. Sobre a sua sepultura foi plantada uma bananeira. É considerado o poeta nacional do Japão. (daqui)
 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

"No entardecer da terra" - Poema de Fernando Pessoa



Edward Cucuel (American Impressionist artist, 1875–1954), 'In Autumn Sunlight
'.


No entardecer da terra



No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
volver a sê-lo!... Mais frio
O vento vago voltou.

s. d. 

Fernando Pessoa, 'Poesias'.
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 91. 
[1ª publ. in Ilustração Portuguesa, 2ª série, nº 83. Lisboa: 28-1-1922.] 


 

"Enquanto durar o outono, não terei mãos, telas e cores suficientes para pintar as coisas bonitas que vejo."

(Vincent van Gogh)
 
  

Edward Cucuel, 'Autumn Sun', 1918.


"Repara que o outono é mais estação da alma do que da natureza."

Carlos Drummond de Andrade'Fala, amendoeira', 1957.
 
 
Fala, amendoeira de Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras

Fala, amendoeira é uma reunião de crónicas originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã, em que o poeta mantinha uma coluna desde 1954. Em texto introdutório, Drummond escreve uma espécie de tratado do género: “Este ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. [...]”. 

Porque a crónica vive em grande parte desses contrastes, daquilo que poderia ter sido (antigamente, num tempo ameno, na infância do autor, numa era de ouro) e aquilo que de fato é (a vida em cidades que crescem e se transformam desordenadamente, o próprio envelhecimento do autor, as atordoantes mudanças de costumes a cada passagem de geração). Não foi à toa que, à época da publicação do volume, Rubem Braga saudou o Drummond cronista. Como o autor capixaba, o mineiro investia com o arsenal clássico: memória, comentários sobre a mudança do tempo e dos costumes, críticas municipais, um pouco de vida literária e outros textos de circunstância.

O Drummond de Fala, amendoeira é um dos grandes artífices da crónica. Injeta a medida certa de lirismo, é um observador astuto e mescla comentário com um pouco de ficção. Quanto à linguagem, estes textos são puro Drummond: calorosos e informais, suavemente cultivados e ligeiramente emburrado. Uma leitura sempre fluente e prazerosa. (daqui)
 

domingo, 9 de novembro de 2025

"Me he sentado en el centro del bosque a respirar" - Poema de Antonio Colinas



Gregorio Prieto (Pintor español asociado a la generación del 27, 1897-1992),
 "Jardín inglés", ca. 1945



Canto XXXV

 
Me he sentado en el centro del bosque a respirar.
He respirado al lado del mar fuego de luz.
Lento respira el mundo en mi respiración.
En la noche respiro la noche de la noche.
Respira el labio en labio el aire enamorado.
Boca puesta en la boca cerrada de secretos,
respiro con la sabia de los troncos talados,
y, como roca voy respirando el silencio
y, como las raíces negras, respiro azul
arriba en los ramajes de verdor rumoroso.
Me he sentado a sentir cómo pasa en el cauce
sombrío de mis venas toda la luz del mundo.
Y yo era un gran sol de luz que respiraba.
Pulmón el firmamento contenido en mi pecho
que inspira la luz y espira la sombra,
que recibe el día y desprende la noche,
que inspira la vida y espira la muerte.
Inspirar, espirar, respirar: la fusión
de contrarios, el círculo de perfecta consciencia.
Ebriedad de sentirse invadido por algo
sin color ni sustancia, y verse derrotado,
en un mundo visible, por esencia invisible.
Me he sentado en el centro del bosque a respirar.
Me he sentado en el centro del mundo a respirar.
Dormía sin soñar, mas soñaba profundo
y, al despertar, mis labios musitaban despacio
en la luz del aroma: «Aquel que lo conoce
se ha callado y quien habla ya no lo ha conocido».


Antonio Colinas, de "Noche más allá de la noche",
Madrid: Visor Libros, 1983 



Gregorio Prieto, "Paisaje de Aranjuez", ca. 1919 


"Nossa existência é transitória como as nuvens do outono. Observar o nascimento e a morte dos seres é como olhar os momentos da dança. A duração da vida é como o brilho de um relâmpago no céu, tal como uma torrente que se precipita montanha abaixo."

Siddharta Gautama ou "Shakyamuni" (o sábio do clã dos Shakya), mais conhecido como Buda, o iluminado (Kapilavastu, 563 a.C. - 483 a.C.), foi um filósofo, professor e líder espiritual, fundador do Budismo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

"Outono" - Poema de Miguel Torga


 
Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
"La Libellule" ("The Dragonfly").



Outono

 
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas. 

1966

Miguel Torga, do livro: "Diário X", 
 Gráfica de Coimbra, 1968.
1.ª edição, 198 páginas. 
 

domingo, 26 de outubro de 2025

"Esqueço-me das horas transviadas" - Poema de Fernando Pessoa




Gregorio Prieto (Pintor espanhol, 1897-1992), Jardín de Aranjuez, c. 1919.
 


Esqueço-me das horas transviadas


Esqueço-me das horas transviadas...
O Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros...
Hóstia de assombro a alma, e toda estradas...

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco... Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...

No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do Outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância... 

s. d.

Fernando Pessoa
, «Passos da Cruz», Poesias.
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.)
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 33.



Gregorio Prieto, Luis Cernuda en un jardín inglés, 1937-1940


"Deus, que nos fizeste mortais, porque é que nos deste a sede de eternidade de que é feito o poeta?"
 
Luis Cernuda, do poema, "Las ruinas"

sábado, 18 de outubro de 2025

"Quando, Lídia, vier o nosso Outono" - Poema de Ricardo Reis

 


Theodore Robinson (American painter, 1852–1896), Autumn Sunlight, 1888.


Quando, Lídia, vier o nosso Outono


Quando, Lídia, vier o nosso Outono 
Com o Inverno que há nele, reservemos 
Um pensamento, não para a futura 
Primavera, que é de outrem, 
Nem para o Estio, de quem somos mortos, 
Senão para o que fica do que passa — 
O amarelo atual que as folhas vivem 
E as torna diferentes. 

13-6-1930
(Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 120. 

[1ª publ. in Presença, nº 31/32. Coimbra: Mar./Jun. 1931.] 
 
 

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

"Quadras da minha solidão" - Poema de Alda Lara

 

 
Harry Curieux Adamson (American wildlife artist, 1916 – 2012), 
 A Marsh at Dusk, Mallards, s.d.
 


Quadras da minha solidão


Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora…
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora…

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país…

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu… 

Que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor…
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?…
Saudade?…Amor?…Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer…

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono…
passam as horas esguias,
levando o meu abandono… 


Alda Lara
, in 'Poemas'
 

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

"Na frágil luz das paisagens" - Poema de Maria Azenha


 
Armand Point (French painter, engraver and designer, 1861–1932), Âme d’Automne (Autumn Soul).
Pastel on brown paper, c. 1890s. Model probably Hélène Linder, later Mme Berthelot
(1867-1955)



Na frágil luz das paisagens


No outono as cidades amarelecidas prolongam-se
para dentro de guarda-chuvas abertos
que teimam socorrer os amantes de um dilúvio universal.

Algumas folhas de árvores esvoaçam como aves
em estado de chamas na frágil luz das paisagens.

Há bilhetes de outono espalhados por toda a parte,
alguns tristes,
outros dão para uma porta fechada que se pode abrir
a qualquer instante.

Quando entrei em casa não havia ninguém lá dentro.
Nem o inverno me esperava. 
 
 
Maria Azenha, in "A Casa da Memória",
Editora Urutau, 2024
 
 

Armand Point, L'Automne, 1893 


Para iluminar o vento


para iluminar o vento
fica em silêncio

a palavra aguarda
um pássaro
no
teu coração


Maria Azenha

sábado, 14 de dezembro de 2024

"Fim de Outono" - Poema de Fernanda de Castro


Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Casa de Campo, 1965.



Fim de Outono 
 
 
Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Tudo seco pelas hortas,
Grandes lágrimas no chão
Nem uma flor pelos montes,
Tudo numa quietação
Soluça numa oração
O triste cantar das fontes.

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

A terra fechou as portas
Aos beijos do sol ardente,
E agora está na agonia...
Valha à terra agonizante
A Santa Virgem Maria!

Fim de Outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

sábado, 19 de outubro de 2024

"Despedida" - Poema de Rui Knopfli


Ellen Favorin (Swedish-speaking Finnish painter, 1853–1919),
Autumn Evening, Unknown date. 


 
 Despedida

 
Tudo entre nós foi dito.
Estamos cansados e tristes
neste Outono de folhas pairando
e caindo.
Entre nós as palavras colocam um mundo
de silêncio e vazio estéril.
Os próprios sonhos se encheram de neblinas
e o tempo os amarelece.
Outono de cismo, de folhas secas
e bancos abandonados de cimento frio
Onde não cantam aves
e o vento desce em brandos rodopios.
Apenas uma vaga angústia presente,
uma saudade sem recomeços,
a lembrança, tépida a gelar como
veios de mármore.
Tudo entre nós foi dito,
olhamos o apodrecer do parque,
o vento, o repicar leve das folhas
e, sem ressentimentos dizemos adeus.
 

Rui Knopfli, Obra Poética, 2003
 
 
Ellen Favorin, Autumn Landscape, Unknown date. 


"Sim, é isso mesmo! Assim como a natureza se inclina para o outono, também o outono vive dentro de mim e em torno de mim. As folhas da minha alma vão amarelecendo, enquanto as folhas das árvores vizinhas tombam."
 

domingo, 22 de setembro de 2024

"Voz do Outono" - Poema de Antero de Quental

 
Anna Ancher (Danish artist associated with the Skagen Painters, 1859–1935),
'The pear tree in Ancher's front garden, autumn', Unknown date.




Voz do Outono


Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- "Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!" 


Antero de Quental
, in Sonetos


 
Anna Ancher, 'Pear Tree in Front Yard', Unknown date.
 
 
Outono


Manhã de outono
o verde do mar
também amarela.


Alice Ruiz
, Haikais
 

domingo, 1 de setembro de 2024

"Setembro" - Poema de Vasco Graça Moura

 


Damião Martins
(Pintor cubista brasileiro desde 1978), Colheita de uva, s.d.


Setembro


agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele. 


Vasco Graça Moura
, in "Poesia 2001/2005",
Quetzal Editores, 2006.


Damião Martins, Vindimas, s.d.
 
 
Vindimas

 
As vindimas consistem na colheita dos cachos de uvas, destinados à produção de vinho, quando estas atingem o grau indicado de amadurecimento. Os cachos são então enviados para os lagares, onde começa a produção de diversos tipos de vinhos. Para obter uma boa qualidade de vinho é necessário escolher a data exata em que se deve iniciar as vindimas.

As vindimas têm lugar, habitualmente, em setembro, após uma decisão nesse sentido tomada pelos enólogos, que desde o final de agosto anterior analisam amostragens para controlar a maturação das uvas, assim como a acidez, peso e cor. É necessário encontrar o grau de acidez indicado porque com o passar do tempo os ácidos transformam-se em açúcares, o que leva a um aumento do álcool.

Cabe aos produtores, em função da casta, determinar a relação que mais lhes convém em função do tipo de vinho que pretendem produzir. Posteriormente, deve ser feito o transporte dos cachos nas melhores condições, já que, devido ao calor próprio da época, as uvas amassadas começam a fermentar antes do tempo.

Também é possível prever a melhor altura para as vindimas através de um método popular que consiste em verificar quando murcham os pés das uvas e as peles dos bagos começam a contrair.

Marcada a data da vindima, a cada propriedade onde há cultivo de uvas acorrem então dezenas de trabalhadores sazonais, normalmente oriundos das terras vizinhas, e é iniciado um dos mais característicos momentos da etnografia portuguesa. Muitas vezes são famílias completas que se deslocam para as vindimas, numa tradição que atravessa gerações: as mulheres, auxiliadas pelas crianças, cortam os cachos, que são colocados em cestas de vime. Cabe então aos homens transportar estes cestos para os lagares. Antigamente eram grupos de homens que pisavam as uvas, sistema que gradualmente foi sendo substituído por métodos mecânicos.

Na época das vindimas são organizadas nas diferentes terras ou regiões onde existe esta atividade as chamadas Festas das Vindimas, uma tradição histórica que atrai imensos turistas, como acontece, por exemplo, na região do Douro, a mais antiga região demarcada de vinho do mundo. (daqui)
 
 
Damião Martins, Vindima, s.d.
 

Provérbios do Mês de Setembro
 
  • Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro; de vinte e oito, só há um, e os mais têm trinta e um.
  • Em Setembro, ardem os montes e secam as fontes.
  • Em Setembro, planta, colhe e cava que é mês para tudo.
  • Setembro a comer e a colher.
  • Setembro molhado, figo estragado.
  • Setembro ou seca as fontes ou leva as pontes.
  • Agosto, debulhar, Setembro, vindimar.
  • Corra o ano como for, haja em Agosto e Setembro calor.
  • Arranja bom Setembro, com a burra fico eu.
  • Chuvas verdadeiras, em Setembro as primeiras.
  • Em Setembro palha no palheiro e meninas ao candeeiro.
  • Em Setembro ramo curto, vindima longa.
  • Em Setembro secam as fontes e as chuvas lavam as pontes.
  • Em Setembro semeia o teu pão.
  • No pó semeia, que Setembro to pagará.
  • Se em Setembro a cigarra cantar, não compres trigo para guardar.
  • Setembro cara de poucos amigos, cara de figos.
  • Setembro é o Maio do Outono.
  • Setembro que enche o celeiro dá triunfo ao rendeiro.
  • Agosto tem a culpa, e Setembro leva a fruta.
  • Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.
  • Agosto madura, Setembro vindima.
  • Em Setembro tem Deus a mesa posta.
  • Para vindimar deixa o Setembro acabar.
  • Vindima molhada, pipa depressa despejada.
  • Agosto arder, Setembro beber.
  • Em Agosto secam os montes e em Setembro as fontes.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

"Outono" - Poema de Eugénio de Andrade


Ettore Tito  (Italian artist, 1859–1941), Autumn / Autunno (portrait of Tito's sons), 1914
 
 

Outono 
 
 
O outono vem vindo, chegam melancolias, 
cavam fundo no corpo, 
instalam-se nas fendas; às vezes 
por aí ficam com a chuva 
apodrecendo; 
ou então deixam marcas; as putas, 
difíceis de apagar, de tão negras, 
in 'O Outro Nome da Terra'
 
 
Ettore Tito, Autunno (portrait of Tito's sons), 1914 (detail)
Galleria Nazionale d'Arte Moderna e Contemporanea


"Repara que o outono é mais estação da alma do que da natureza."
 
 Carlos Drummond de Andrade
 Do livro “Fala, Amendoeira

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

"Crepúsculo de Outono" e "Canção de Outono" - Poemas de Manuel Bandeira e Paul Verlaine



Alfred Sisley (French-Born British Impressionist landscape painter, 1839–1899),
'A Road in Seine et Marne', 1875


Crepúsculo de Outono


O crepúsculo cai, manso como uma bênção.
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito...
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve
Todo o verde que a vista espairecendo vejas,
Mais negros sobre a alvura unânime da neve,
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio
Do rio, e isso parece a voz da solidão.
E essa voz enche o vale... o horizonte purpúreo...
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos,
Flocos, que a luz do poente extática semelha
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia.
E tamanha esperança e uma tão grande paz
Avultam do clarão que cinge a serrania,
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.


Manuel Bandeira
(1886-1968)
in 'A Cinza das Horas', 1917



Alfred Sisley, 'Louveciennes. Sentier de la Mi-côte', 1873


Canção de Outono


Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido... 


Paul Verlaine

Tradução de Alphonsus de Guimaraens 
 
 

terça-feira, 9 de junho de 2020

"Canto de Outono" - Poema de Ruy Belo


  Ernest De Nagy (Hungarian-American painter, 18811952), 'Autumn Woods and Stream'.


Canto de Outono 


Os rouxinóis inexoráveis da primavera
trazidos até nós por certa curta carta
em que canto da noite cantarão agora
que já os frágeis frios vindimam?
E os lilases crudelíssimos de junho
inalteráveis como o céu das férias grandes
talvez desdobradas sobre a adolescência
de que nos valerão perante a insinuante música do outono?
E a mãe que o filho suga a ruga
que mãos estenderá sobre estes rostos
onde poisaram patas implacáveis dias?
E quando o vento verga os choupos do princípio
e despe os ramos dos plátanos familiares
faltará muito que nos cubram provisoriamente
as folhas fatigadas das desoladas árvores?
Já sobe a nossos pés o cedro do silêncio
Promete-nos o sol que sobre os nosso rostos
hão de na primavera ondular os trigos.


Ruy Belo,"Obra Poética de Ruy Belo"
Vol. 2, pág. 14 | Editorial Presença Lda., 1981 


 
Patrick William Adam (Scottish painter, 1854–1929), 'Treescape with Shepherd', 1898


Outono

 A verde folhagem
Dia a dia desbotando...
É chegado o outono!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

"Setembro" - Poema de Hermann Hesse



Peder Mørk Mønsted
(Danish realist painter, 1859–1941),
'Autumn day in the forest', 1889.
 

Setembro


Entristece o jardim.
Fria nas flores a chuva cai.
O verão se arrepia
em silêncio diante do seu fim.

Pétala a pétala goteja em ouro
do alto pé de acácia.
O verão ri abatido e perplexo
no sonho do jardim em agonia.

A prolongar-se ainda junto às rosas,
ele espera, de pé, pelo repouso,
e os grandes olhos fatigados vai
entrecerrando aos poucos.


Hermann Hesse
in 'Andares - Antologia Poética'.
Tradução de Geir Campos.
Nova Fronteira, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1982. 


quarta-feira, 24 de maio de 2017

"Pastoral" - Poema de António Gedeão



Émile Eisman Semenowsky (Russian-born, French-Polish painter,
1853–1918), 'An Oriental Flower Girl', n.d.


Pastoral


Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos atos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


Poesias Completas, 3ª ed. Portugália,
Editora, Lisboa, 1970. 


 

Outono


Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"Silêncio" - Poema de Fernanda de Castro



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
'Loneliness of autumn'
 

Silêncio

Silêncio, nostalgia... 
Hora morta, desfolhada, 
sem dor, sem alegria, 
pelo tempo abandonada. 

Luz de Outono, fria, fria... 
Hora inútil e sombria 
de abandono. 
Não sei se é tédio, sono, 
silêncio ou nostalgia. 

Interminável dia 
de indizíveis cansaços, 
de funda melancolia. 
Sem rumo para os meus passos, 
para que servem meus braços, 
nesta hora fria, fria?


in "Trinta e Nove Poemas" 


Leonid Afremov, 'Venice Grand Canal'. Oil painting on canvas.


"Querer fugir ao vazio e à angústia provocada pelo sentimento de ser livre e de ter a obrigação de tomar decisões, como o que fazer de si mesmo e do mundo ao redor - sobretudo se este estiver enfrentando desafios e dramas -, é o que suscita essa necessidade de distração, motor da civilização em que vivemos."

Mario Vargas Llosa, in “A Civilização do Espetáculo, 2012”

[Jorge Mario Pedro Vargas Llosa, marquês de Vargas Llosa (Arequipa, 28 de março de 1936), é um escritor, jornalista, ensaísta e político peruano, laureado com o Nobel de Literatura de 2010.]



Leonid Afremov, 'Paris of my Dreams'. Oil painting on canvas.


"O dinheiro não pode fazer com que sejamos felizes; mas é a única coisa que nos compensa 
do facto de não o sermos."

(Jacinto Benavente)

[Jacinto Benavente y Martínez (Madrid, 12 de Agosto 1866 — Madrid, 14 de Julho 1954) foi um dramaturgo e crítico espanhol. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1922.]