Mostrar mensagens com a etiqueta Leonid Afremov. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leonid Afremov. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

"Meditação sob a chuva" - Poema de Anderson Braga Horta


Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
 'Rainy Kiss', s.d.


Meditação sob a chuva


Estas águas banharam outras terras,
foram rios e lagos, foram mares,
nos céus flocos de espuma e depois chumbo,
relâmpagos, trovões e depois água.
E, no eterno girar do eterno ciclo,
o céu as verte sobre nós agora.
Como um jardim, uma árvore, uma ave,
a terra, a natureza, aqui, desnudo,
de suas bagas vou colhendo o sumo.
Possa, sob o seu signo, como outrora
e sempre, o estrume redimir-se em flores.
E eu possa, no bebê-las, compreender
a experiência milenar que bebo.
Vento, chuva, relâmpagos — matéria
contemporânea a todas as idades,
passageira de todas as viagens,
moradora de todas as paragens,
possamos compreender que, de ti feitos,
somos cosmopolitas por herança,
somos intemporais, se não na forma,
ao menos na substância.


Anderson Braga Horta, in 'Marvário', 1976
Clube de Poesia de Brasília
 
 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

"Chuva da tarde" - Poema de António Sardinha



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
 'Under my umbrella' 


Chuva da tarde


Chuva da tarde, – melodia mansa,
desejos vagos de chorar baixinho...
Voltei aos meus caprichos de criança,
- só quero, Amor, saber do teu carinho!

Chuva da tarde... Na poeira ardente
cai um frescor inesperado e calmo.
É um frescor que purifica a gente
- como a leitura mística dum Salmo!

Floresçam jasmineiros e açucenas,
- acuda-se à tristeza das raízes!
Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,
as guardes da estiagem e as batizes!

Meu coração doente remoçou-se,
quando o tocaram essas mãos piedosas...
Chuva da tarde, – enfermaria doce,
onde vão convalescer as rosas!

Chuva da tarde... Ao longo das varandas
reza mistérios lentos a noitinha.
Que bem não é sonhar em coisas brandas,
nas tuas brandas asas de andorinha!

Deixa que a sombra te emoldure a face,
- eleva no silêncio a tua voz!
O Cântico dos Cânticos renasce,
- diria até que se escreveu p'ra nós!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

"A Invenção do Amor" - Poema de Daniel Filipe



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
 'Dance Under The Rain' 


A Invenção do Amor 


Em todas as esquinas da cidade 
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros 
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes 
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém 
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga 
um cartaz denuncia o nosso amor 

Em letras enormes do tamanho 
do medo da solidão da angústia 
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher 
se encontraram num bar de hotel 
numa tarde de chuva 
entre zunidos de conversa 
e inventaram o amor com carácter de urgência 
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana 

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura 
e souberam entender-se sem palavras inúteis 
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza 
de um sorriso natural e inesperado 

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna 
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente 
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta 
de um amor subitamente imperativo 

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia 
colado em todas as esquinas da cidade 
A rádio já falou a TV anuncia iminente a captura
A polícia de costumes avisada 
procura os dois amantes nos becos e avenidas 
Onde houver uma flor rubra e essencial 
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo 
É preciso encontrá-los antes que seja tarde 
Antes que o exemplo frutifique 
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia 

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos 

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o diretor da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto 
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à  polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às  medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade noturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos água simples correndo 
A brisa das montanhas

Foi condenado à  morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas 
Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à  queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar 
Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados 
Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída 
A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer
 Matai-o 
Amigo irmão que seja matai-o 
Mesmo que tenha comido à  vossa mesa e crescido a vosso lado matai-o 
Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida até ao fim da noite
 Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à  imprensa tribunais de exceção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios 
Crê-se que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever


Daniel  Filipe, in 'A Invenção do Amor e Outros Poemas' 
Lisboa, Presença, 1972


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"Entardecer" - Poema de Luís de Montalvor



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
'Sunset of Feelings'


Entardecer


Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa. 
Surdina fluida: anda o silêncio a orar – 
E há crepúsculos de asas e, na água, 
O céu é mármore extático a cismar! 

E nas faces marmóreas dos rochedos 
Esboçam-se perfis, 
- Cintilações, 
Penumbra de segredos! 

Ó painéis de nuvens sobre a terra, 
Ogivas delirantes 
Na água refractando… 
Encheis de sombra o mar de espumas rasas, 
Iniciando 
A hora pânica das asas! 

E, à meia luz da tarde, 
Na areia requeimada, 
São vultos sonolentos 
As proas dos navios… 

Ó tristeza dos balões 
Iluminando, 
Na água prateada, 
Os pegos e baixios… 

Dormentes constelações 
Que, em fundos lacustres 
E musgosos, 
Pondes reverberações 
Em nossos olhos ansiosos. 

Ó tardes de aquático esplendor, 
Descendo em meu olhar! 

Num sonho de regresso, 
Numa ânsia de voltar, 
Em mim todo me esqueço 
E fico-me a cismar. 

A tarde é toda um sonho moribundo. 
É já olor da cor que amorteceu. 
O céu vive no mar: sono profundo. 
A asa do rumor no ar adormeceu! 


Luís de Montalvor (1892-1947), 
in 'Antologia Poética'


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"Silêncio" - Poema de Fernanda de Castro



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955),
'Loneliness of autumn'
 

Silêncio

Silêncio, nostalgia... 
Hora morta, desfolhada, 
sem dor, sem alegria, 
pelo tempo abandonada. 

Luz de Outono, fria, fria... 
Hora inútil e sombria 
de abandono. 
Não sei se é tédio, sono, 
silêncio ou nostalgia. 

Interminável dia 
de indizíveis cansaços, 
de funda melancolia. 
Sem rumo para os meus passos, 
para que servem meus braços, 
nesta hora fria, fria?


in "Trinta e Nove Poemas" 


Leonid Afremov, 'Venice Grand Canal'. Oil painting on canvas.


"Querer fugir ao vazio e à angústia provocada pelo sentimento de ser livre e de ter a obrigação de tomar decisões, como o que fazer de si mesmo e do mundo ao redor - sobretudo se este estiver enfrentando desafios e dramas -, é o que suscita essa necessidade de distração, motor da civilização em que vivemos."

Mario Vargas Llosa, in “A Civilização do Espetáculo, 2012”

[Jorge Mario Pedro Vargas Llosa, marquês de Vargas Llosa (Arequipa, 28 de março de 1936), é um escritor, jornalista, ensaísta e político peruano, laureado com o Nobel de Literatura de 2010.]



Leonid Afremov, 'Paris of my Dreams'. Oil painting on canvas.


"O dinheiro não pode fazer com que sejamos felizes; mas é a única coisa que nos compensa 
do facto de não o sermos."

Jacinto Benavente

[Jacinto Benavente y Martínez (Madrid, 12 de Agosto 1866 — Madrid, 14 de Julho 1954) foi um dramaturgo e crítico espanhol. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1922.]


sexta-feira, 1 de maio de 2015

"Soneto da Chuva" - Poema de Carlos de Oliveira


 
Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955)



Soneto da Chuva


Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço? 

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas. 

Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.


Carlos de Oliveira,
in 'Terra de Harmonia', 1950
 

Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 1921 — Lisboa, 1981), poeta e romancista, veio para Portugal com dois anos de idade. Até à sua partida para Coimbra, onde se licenciaria em Ciências Histórico-Filosóficas, a região da Gândara, terra árida e pobre, onde o pai exerceu clínica, marcou profundamente a sua formação, vindo a constituir o cenário privilegiado da sua produção romanesca e poética. 
A sua estreia literária, na poesia, com Turismo, em 1942, e, no romance, com A Casa na Duna, em 1943, editados, respetivamente, pelas coleções "Novo Cancioneiro" e "Novos Prosadores", coleções consideradas ambas marcos no processo de afirmação da estética neorrealista, inscreve-o numa tradição literária que, na senda de Afonso Duarte (o "Mestre") ou Miguel Torga, conjuga, temática e formalmente, elementos populares e rurais com uma postura de modernidade. Colaborou, entre outras publicações, com Vértice, Seara Nova, Altitude, Portucale ou Cadernos do Meio-Dia. 
Segundo Manuel Gusmão, gerada no neorrealismo, a poesia de Carlos de Oliveira evoluiu em conexão com as várias tendências que marcaram a poesia portuguesa desde os anos 50 e até aos movimentos afirmados após os anos 60, num processo que apontaria para uma expressão onde "a poesia vai assumindo explicitamente a consciência de si como um trabalho específico, vai desagregando o discursivismo anterior, vai encontrando, na fragmentação e na descontinuidade e, ao mesmo tempo, no construtivismo interno, o tempo histórico da nossa contemporaneidade poética" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira, Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 25). O mesmo crítico divide a produção poética de Carlos de Oliveira em duas fases distintas, embora caracterizadas por certa unidade. Num primeiro momento, que englobaria as obras publicadas até Terra da Harmonia e Ave Solar, a escrita de Carlos Oliveira é marcada pela relação com uma tradição literária, popular e culta, clássica e moderna, numa relação pautada, a nível formal, pelo recurso a formas técnicas firmadas nesta tradição, embora com preferência pelo longo poema narrativo; e, a nível enunciativo, pela correlação entre o sujeito poético e a entidade coletiva ("Acusam-me de mágoa e desalento, / como se toda a pena dos meus versos / não fosse carne vossa, homens dispersos, / e a minha dor a tua, pensamento." ("Colheita Perdida", in Poesias). Ao mesmo tempo, esse conjunto aponta já para a recorrência de elementos que integram o mundo inorgânico, mineral e cósmico, apresentando uma rede de imagens que se organiza "por uma série de tensões dialéticas entre a realidade e o sonho (o apelo) de uma nova realidade, entre a vida e a morte, entre a esperança e o desespero" (GUSMÃO, Manuel, op. cit., p. 66), numa tentativa ainda de perceber "o que no real é fator de imobilidade (e logo de prolongamento da miséria, da estagnação), fator de decadência" ou fator, raiz, esperança de movimento e de transformação (id. ibi., p. 67). A segunda fase da sua poesia é pautada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva "(id. ibi., p. 68), tendência que se reflete no "rigor de construção", no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna". Neste momento, marcado por certo pendor auto-reflexivo, "o poema agudiza a consciência de si como trabalho específico sobre materiais próprios e com instrumentos próprios" (id. ibi., p. 70), num privilégio da relação "poesia-escrita", em detrimento da relação "poesia-voz"; ao mesmo tempo que o sujeito poético, privilegiando as referências ao mundo mineral e mineralizado, integra um "processo de 'apagamento'" (id., ibi., p. 72): "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ('Estalactite', in Micropaisagem). 
Muitos destes traços de caracterização sobre a evolução da estética poética de Carlos de Oliveira transparecem também na escrita romanesca, estabelecendo também, sem pôr em causa o seu empenhamento, em romances como Uma Casa na Duna, Pequenos Burgueses ou Uma Abelha na Chuva, uma abertura relativamente a certos modelos técnico-narrativos que o neorrealismo inicial tinha postergado, como o uso do monólogo interior e da focalização interna, a individualização da personagem (sem recusar o seu carácter de tipo social), ou a intrusão do discurso do narrador. Sintetizando, no volume O Aprendiz de Feiticeiro, muitas das reflexões sobre a sua postura estética, enumera do seguinte modo os aspetos que o definem como escritor: "a) o meu ponto de partida, como romancista e poeta, é a realidade que me cerca; tenho de equacioná-la em função do passado, do presente e do futuro; e, noutro plano, em função das suas características nacionais ou locais; b) o processo para a transpor em termos literários está sujeito a um condicionamento semelhante ao dela e até ao condicionamento dela [...]; c) é essencial porém não esquecer estas duas coisas: a realidade cria em si mesma os germes da transformação; o processo consiste em [...] captá-los e desenvolvê-los num sentido autenticamente moderno; d) não concebo uma literatura intemporal, nem fora de certo espaço geográfico, social, linguístico; quer dizer, não a vejo inteiramente desligada das condições de tempo, de lugar [...] ; e) o processo, para ter alguma validez, necessita portanto de atender às circunstâncias de época e de país, precisa de ser atual e português; f) não pode ignorar [...] a tradição literária, culta e popular [...]; g) por outro lado, sempre se fez ao longo da história literária aquilo a que chamarei 'transfusão cultural', isto é, emigração de ideias, homens, formas, estéticas, de país para país" (O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Dom Quixote, 1971, pp. 93-94). 
Escritor que não desistiu de ligar todos os seus pensamentos "ao mundo comum, quotidiano: os objetos, a paisagem, os homens." (ibi., p. 35), e que sempre entendeu "mal a incompatibilidade entre uma ideia ou uma imagem e a busca das palavras que as tornam cintilantes." (ibi., p. 90), na sua obra avultam, em suma, dois traços maiores, o "trabalho oficinal, trabalho que consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que [...] obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento." (ibi., p. 268), o que conflui tendencialmente num sentido profundo da "brevidade"; e uma problemática unitária: a da "imagem", já que, "mais do que informarem o sentido vital da poesia e de toda a obra de Carlos de Oliveira, as imagens constituem o mais constante corpo teórico e temático da sua obra", seja pelo carácter simbólico ou exegético-divinatório assumido pela descrição, seja globalmente por um "processo total da inscrição imagem / palavra" segundo o "modelo da cifra" (cf. BRANDÃO, Fiama Hasse Pais, "Nexos sobre a obra de Carlos de Oliveira", in Colóquio /Letras, n.º 26, julho de 1975, p. 64). (daqui)

sábado, 3 de março de 2012

"Chove" - Poema de José Gomes Ferreira



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955), 'Fresh Love' 


Chove

Chove...

Mas isso que importa!, 
se estou aqui abrigado nesta porta 
a ouvir na chuva que cai do céu 
uma melodia de silêncio 
que ninguém mais ouve 
senão eu? 

Chove... 

Mas é do destino 
de quem ama 
ouvir um violino 
até na lama. 


José Gomes Ferreira (1900-1985),
in 'Antologia poética'

sábado, 3 de dezembro de 2011

"Mar!" - Poema de Miguel Torga



Leonid Afremov (Pintor israelense de origem bielorrussa, n. 1955), 'Regatta' 
 

Mar

 
Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Eras um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto... 

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador! 

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste! 

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!


Miguel Torga, in "Poemas Ibéricos"