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sábado, 28 de março de 2026

"Pax" - Poema de D. H. Lawrence

 


Ernest Biéler
(Swiss painter, draughtsman and printmaker, 1863–1948),
Portrait de l'ecrivain Édouard Rod (1857–1910), 1909.


Pax


Tudo o que importa é estar em paz com o Deus vivo,
ser uma criatura na morada do Deus da vida.

Como um gato dormindo na cadeira
em paz, tão em paz,
de bem com o dono da casa, com a dona,
em casa, à vontade, na casa dos vivos,
dormindo junto à lareira, bocejando ao pé do fogo.

Dormindo junto à lareira do mundo vivo,
bocejando no lar ao pé do fogo da vida,
sentindo a presença do Deus vivo
como uma imensa segurança,
profunda calma no coração,
uma presença,
como a do dono da casa, sentado à mesa
na plenitude de seu ser,
na morada da vida.


D. H. Lawrence (1885-1930), in "Last poems", 1932
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes


sábado, 1 de junho de 2024

"Todas as Crianças da Terra" - Poema de Sidónio Muralha


Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910), Snap the Whip, 1872,


Todas as Crianças da Terra


Um capacete de guerra tem um ar carrancudo.
Muito mais bela é uma flor.
Uma flor tem tudo
para falar de paz e de amor.

Mas se virarmos o capacete de guerra
ele será um vaso, e é bem capaz
de ter uma flor num pouco de terra
e falar de amor e de paz.

A paz é uma pomba que voa.
É um casal de namorados.
São os pardais de Lisboa
que fazem ninho nos telhados.

E é o riacho de mansinho
que saltita nas pedras morenas
e toda calma do caminho
com árvores altas e serenas.

A paz é o livro que ensina.
É uma vela em alto mar
e é o cabelo da menina
que o vento conseguiu soltar.

E é o trabalho, o pão, a mesa,
a seara de trigo ou de milho,
e perto da lâmpada acesa
a mãe que embala seu filho.

A paz é quando um canhão
muito feio e de poucas falas,
sente bater um coração
e dispara cravos, em vez de balas.

E é o abraço que dás
no dia em que tu partires,
e as gotas de chuva da paz
no balanço do arco-íris.

A paz é a família inteira
na alegria do lar,
bem juntinho, à lareira
quando o inverno chegar.

A paz é a onda redonda
que da praia tem saudades
e muito mais do que a onda
a paz é a vida sem grades.

A paz são aquelas abelhas
que nos dão favos de mel
e todas as papoulas vermelhas
que eu desenho no papel.

Ventoinha, ventarola,
Moinho que faz farinha,
Meninos que vão à escola,
A paz é tua e é minha.

É luar de lua cheia
tocando as casas e a rua,
são conchas, búzios na areia,
a paz é minha e é tua.

É o povo todo unido,
no mundo, de norte a sul,
e é um balão colorido
subindo no céu azul.

A paz é o oposto da guerra,
é o sol, são as madrugadas,
e todas as crianças da terra
de mãos dadas, de mãos dadas,
de mãos dadas.


Sidónio Muralha
, em “Caminho da Poesia”
Antologia de Poesia para Crianças
 
 
“Caminho da Poesia”, Editora: GLOBAL - 1ª edição
Coleção: Antologia de Prosa e Poesia para Crianças



Sinopse

'Caminho da poesia' proporciona ao aluno-leitor o encontro poético com doze escritores da literatura, entre eles Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Guilherme de Almeida, Henriqueta Lisboa, Paulo Leminski, Olavo Bilac, Sidónio Muralha. Este certa vez declarou: Tanto a prosa como o verso para crianças têm que ter ritmo, têm que saber brincar, encaixar as frases umas nas outras, têm que despertar na criança o desejo criativo”.

Um capacete de guerra tem um ar carrancudo. Muito bela é uma flor. Uma flor tem tudo/ para falar de paz e de amor. / Mas se virarmos o capacete de guerra/ ele será um vaso, e é bem capaz / de ter uma flor num pouco de terra/ e falar de amor e de paz.

A leitura destes poemas, construídos com trocadilhos divertidos, humor, sonoridade, recursos gráficos, imagens e metáforas aguçam a fantasia e o caráter lúdico tão presentes no universo infantil. (daqui)
 
 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"Peço a Paz e o Silêncio" - Poema de Casimiro de Brito


 

Peço a paz e o silêncio


Peço a paz 
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento.

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão.

Peço a paz
silenciosamente
a paz, a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte.

A paz peço,
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara,
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol.

Peço a paz
e o silêncio.


 in "Jardins de Guerra", 1966



"É bom ter livros de citações. Gravadas na memória, elas inspiram-nos bons pensamentos." 

(Winston Spencer Churchill)


quinta-feira, 3 de julho de 2014

"A Paz sem Vencedor e sem Vencidos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Umberto Boccioni, sketch of "The City Rises", 1910.


A Paz sem Vencedor e sem Vencidos 


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Que o tempo que nos deste seja um novo 
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Fazei Senhor que a paz seja de todos 
Dai-nos a paz que nasce da verdade 
Dai-nos a paz que nasce da justiça 
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Dual", 1972.
 

Umberto Boccioni, Self-portrait, 1905.
 
Umberto Boccioni foi um pintor e escultor italiano, nascido no dia 19 de outubro de 1882, em Reggio di Calabria, e falecido no dia 16 de agosto de 1916, em Sorte (Verona), em consequência de uma queda de cavalo durante manobras militares. 
Foi um dos representantes máximos do movimento futurista que defendia o progresso acidental, a máquina e o estilo de vida ruidoso e agitado da vida urbana. 


Umberto Boccioni, Self-portrait, oil on canvas, 1905,
 Metropolitan Museum of Art.
 
Em 1901, mudou-se para Roma para estudar, acabando por fazer amizade com outros pintores, pertencentes a este movimento. No início, mostrou-se interessado na pintura impressionista, principalmente na obra de Cézanne. Fez então algumas viagens a Paris, São Petersburgo e Milão.


Umberto Boccioni, The City Rises, 1910.
 
Regressando em 1910, entrou em contacto com Carlo Carrà, Luigi Russolo e Filippo Tommaso Marinetti e, um ano depois, encontrava-se entre os autores do "Manifesto Futurista de Pintura", do qual foi um dos principais teóricos. Foi com a intenção de procurar as bases dessa nova estética que viajou para Paris, onde se encontrou com Pablo Picasso e Georges Braque.


Horizontal Volumes by Umberto Boccioni, 1912.
 
Ao retornar, em 1912, publicou o "Manifesto Técnico da Pintura Futurista", no qual foram registados os princípios teóricos da arte futurista: condenação do passado, desprezo pela representação naturalista, indiferença em relação aos críticos de arte e rejeição dos conceitos de harmonia e bom gosto aplicados à pintura. 
Nesse mesmo ano, participou da primeira exposição futurista mas as suas obras ainda deixavam transparecer a preocupação do artista com os conceitos propostos pelo cubismo. Os retratos deformados pelas sobreposições de planos ainda não conseguiam expressar com clareza a sua conceção teórica. 


Umberto Boccioni, Dynamism of a Cyclist, 1913.

Um ano mais tarde, com sua obra Dinamismo de um Jogador de Futebol, Boccioni conseguiu finalmente fazer a representação do movimento por meio de cores e planos desordenados, como num pseudofotograma.


Umberto Boccioni, Unique Forms of Continuity in Space, 1913.
 
Em 1911, inicia a sua atividade como escultor, com obras menos numerosas que as suas pinturas mas mais livres e atrevidas e onde sempre afloram elementos neoimpressionistas, conseguindo um intercâmbio surpreendente entre o côncavo e o convexo, superando as experiências cubistas. 


'Development of a Bottle in Space', bronze sculpture 
by Umberto Boccioni, 1913, Metropolitan Museum of Art.
 
Nas suas obras escultóricas, que combinam madeira, ferro e cristal, Boccioni pretende ilustrar a interação que se estabelece entre um objeto em movimento e o espaço que o rodeia.
Apesar de tudo, permaneceu sempre muito ligado a uma conceção romântica e tradicional do movimento e do quadro como janela. 
Em 1915, participou como voluntário na Primeira Guerra Mundial e, é nesta altura que começa a distanciar-se do futurismo (da velocidade e do dinamismo), aproximando-se de uma análise das imagens plásticas, isto é, dos volumes arredondados e mais estáticos, influenciado por Cézanne.

Umberto Boccioni. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-03].


Portrait of Ferruccio Busoni, 1916 by Umberto Boccioni


Umberto Boccioni, Landscape-Mountains, 1916.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Ode à Paz" - Poema de Natália Correia


Évariste Carpentier, Premiers beaux jours, s.d.



Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos atos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exatidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"


Evariste Carpentier, Jeune fille près du ruisseau, s.d.
 

"Um escritor, um pintor, que conseguiram fixar numa página ou num quadro um sentimento das coisas do mundo, uma visão que durará para sempre, comunicam-me uma emoção profunda."
 
(Federico Fellini)

[Federico Fellini (Rimini, 20 de janeiro de 1920 — Roma, 31 de outubro de 1993) foi um dos mais importantes cineastas italianos. Fellini ficou eternizado pela poesia de seus filmes, que, mesmo quando faziam sérias críticas à sociedade, não deixavam a magia do cinema desaparecer.]

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Saudação do amigo" - Poema de José Fernandes de Oliveira (Padre Zezinho)


 
Jenny Nyström (Swedish painter and illustrator, 1854–1946),
Curt playing with his cousins, 1896
 

Saudação do amigo


Quero ser o teu amigo
Nem de mais e nem de menos
Nem tão longe, nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida
Da maneira mais amiga
Da maneira mais discreta, sem jamais te sufocar
Sem forçar tua vontade, sem jamais te aprisionar
E saber quando falar e saber quando calar
Nem ausente, nem presente por demais
Fraternalmente ser amigo e dar-te a paz
A paz que o mundo não dá, a paz de Jesus
A paz esteja com você! E comigo também!


José Fernandes de Oliveira

[José Fernandes de Oliveira, SCJ, conhecido como Padre Zezinho (Machado, 8 de junho de 1941) é um padre católico Brasileiro da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus.
Padre Zezinho foi um dos precursores da Música católica no Brasil, sendo autor de 1.500 canções religiosas, além de gravar 120 álbuns. O religioso também escreveu pelo menos 60 livros.]
 

Pe. Zezinho - Utopia