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terça-feira, 28 de julho de 2026

"Humidade" - Poema de José Henrique dos Santos Barros


 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942), 'Catinou Knitting'
(aka 'Solitude'), 1887, Brenau University Permanent Art Collection.


Humidade 


O melhor é abrir a porta minha mãe
respirar o cansaço por fora enquanto bordas
borda a borda o barco se parte todo
um mau fogo o abrasa.

Nós estamos silenciosos e húmidos.
Escuta a pulsação como doem os pulsos
pulos da infância o respirar da arca
entrar o sol ao fechá-lo dentro.


J. H. Santos Barros
, in 'A Humidade'
Lisboa, Cooperativa Semente, 1979.



 

Anna Elizabeth Klumpke
 
Anna Elizabeth Klumpke (1856–1942) foi uma pintora de retratos e cenas quotidianas americana. Ela é talvez mais conhecida por seus retratos de mulheres famosas, incluindo Rosa Bonheur (1822–1899) em 1898 e Elizabeth Cady Stanton (1815–1902) em 1889. O pai de Anna, John Gerald Klumpke, nascido na Alemanha, foi um rico e bem sucedido agente imobiliário em São Francisco. Sua mãe era Dorothea Mattilda Tolle. Anna era a mais velha de oito filhos. Entre seus irmãos estavam a astrónoma Dorothea Klumpke-Roberts, a violinista Julia Klumpke e a neurologista Augusta Déjerine-Klumpke. 

Quando Anna tinha três anos de idade, caiu e sofreu uma fratura de seu fémur. Ela caiu novamente aos cinco anos. Isso causou uma infeção óssea grave em seu joelho (osteomielite com artrite purulenta). Esses problemas de saúde dificultaram a sua locomoção. Sua mãe esforçou-se muito para encontrar uma cura. Ela levou Anna e três de seus irmãos para Berlim, na Alemanha, para tratamento pelo Dr. Bernhard von Langenbeck. O tratamento durou 18 meses e incluiu banhos termais em Kreuznach. Infelizmente não foi bem sucedido, e Anna permaneceu com dificuldade em andar toda a sua vida.
 
Enquanto  estavam na Europa, sua mãe garantiu que seus filhos recebessem excelente educação. O tempo na Europa tensionou a relação dos Klumpkes. Quando Anna tinha quinze anos, seus pais se divorciaram. Ela  e seus irmãos  mudaram-se com sua mãe para Gottingen, na Alemanha, onde viveram por um tempo com a irmã da mãe, que era casada com um cidadão alemão. 
 
Anna e sua irmã Augusta foram enviadas para a escola em Cannstatt, perto de Estugarda. Quando ela tinha dezassete anos, a família mudou-se para Clarens, perto do Lago de Genebra, na Suíça, onde passou dois anos num internato. Anna estudou arte em casa durante os anos seguintes. Em outubro de 1877, a sua família mudou-se novamente para Paris, França. Mais tarde, ingressou na Académie Julian (1883–1884), onde teve aulas com professores como Tony Robert-Fleury e Jules Lefebvre. Anna passou muitas horas a copiar pinturas no Museu do Luxemburgo. Uma das suas pinturas favoritas para copiar era "Arando no Nivernais", de Rosa Bonheur. Ela também estudou com Vuillefroy. 

Em 1884, ainda na Academia, Anna expôs a sua primeira pintura no Salão de Paris. Era uma grande exposição de arte, na qual ganhou o prémio máximo de melhor aluna do ano. Continuou a expor os seus trabalhos no Salão durante mais alguns anos. Após concluir os estudos, regressou aos Estados Unidos, onde lecionou arte em Boston durante alguns anos. Mas, em 1889, já estava de volta a Paris.

Quando a Anna era pequena, tinha uma boneca chamada "Rosa". Esta boneca foi feita para se parecer com a famosa pintora francesa de animais Rosa Bonheur. Rosa Bonheur era tão conhecida que foram feitas bonecas em sua homenagem. Desde pequena que Anna se interessou muito por esta artista e inspirou-se nela. Em 1895, Anna e Rosa Bonheur conheceram-se finalmente. Bonheur tinha 73 anos e Klumpke, 39. Klumpke tinha muita vontade de pintar o retrato de Bonheur. A 11 de agosto de 1898, as duas mulheres já viviam juntas. Assinaram um acordo especial: Bonheur construiu um novo estúdio de arte para Klumpke. Em troca, Klumpke pintaria três retratos de Bonheur e escreveria a sua biografia. A estreita amizade entre elas durou até à morte de Bonheur, em maio de 1899.
 
Rosa Bonheur nomeou Anna Klumpke como a única pessoa a receber os seus bens após a sua morte, contrariando os desejos da família. Em 1899, Anna fundou a Rosa Bonheur Memorial Art School que auxiliava as mulheres a aprender arte. Geriu também a venda de todas as obras de arte de Bonheur em 1900. Anna criou o Prémio Rosa Bonheur na Sociedade dos Artistas Franceses e fundou o Museu do Ateliê Rosa Bonheur, localizado no Château de By, junto ao Palácio de Fontainebleau.

Anna Klumpke mantinha diários detalhados. Em 1908, publicou um livro sobre Bonheur chamado Sa Vie Son Oeuvre, que significa "A Sua Vida, a Sua Obra". Este livro foi baseado nas notas do diário da própria Anna. Utilizou também cartas, desenhos e outros escritos de Bonheur. O livro só foi publicado em inglês em 1998. Nele, Klumpke contou a história de vida de Bonheur. Partilhou como se conheceram e como se tornou a retratista oficial e amiga íntima de Bonheur. 
Anna Klumpke expôs as suas obras de arte no Palácio de Belas Artes e no Pavilhão da Mulher. Isto ocorreu durante a Exposição Mundial Colombiana de 1893 em Chicago, Illinois. 

Após a morte de Rosa Bonheur, Anna Klumpke passou algum tempo em França, em Boston e em São Francisco. Acabou por se estabelecer em São Francisco na década de 1930. 
Durante a Primeira Guerra Mundial, ela e a mãe montaram um hospital para soldados em recuperação de ferimentos. Esse hospital ficava na sua casa em Thomery, França. 
 
Em 1940, com 84 anos, Anna Klumpke publicou a sua autobiografia, intitulada "Memórias de uma Artista". Faleceu a 9 de fevereiro de 1942, aos 86 anos, na sua cidade natal, São Francisco.
Existe um memorial em sua homenagem no Columbário da Sociedade Neptuno, em São Francisco. Está sepultada ao lado de Rosa Bonheur e Nathalie Micas no Cemitério Père Lachaise, em Paris. A lápide partilhada tem a inscrição: "A amizade é um afeto divino".
A obra de Klumpke esteve também exposta na exposição de arte "Mulheres em Paris 1850–1900", realizada em 2018. (daqui)
 
 
 Obras de Anna Elizabeth Klumpke 
 
Anna Elizabeth Klumpke (American painter, 1856–1942),
'Spring sowing flowers on the path of our life', 1925.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of a Lady in Pink', 1886. 



Anna Elizabeth Klumpke, 'Old Reflections', 1904.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the artist's father', 1912.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Miss Mary Sophia Walker', 1895,
oil on canvas, 66.3 x 56.3cm, Bowdoin College Museum of Art.
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of the French artist Rosa Bonheur, 1898
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur', 1898, oil on canvas,
117.2 x 98.1 cm, Metropolitan Museum of Art.



Anna Elizabeth Klumpke, 'Portrait of Rosa Bonheur with her dog Charly', 1889,
oil on canvas, 147 x 114 cm, Château de Fontainebleau.
 

Rosa Bonheur

Rosa Bonheur, nascida Marie-Rosalie Bonheur (Bordeaux, 16 de março de 1822 – Thomery, 25 de maio de 1899) foi uma pintora e escultora francesa, conhecida por suas obras realistas. Uma de suas obras mais conhecidas é Ploughing in the Nivernais, primeiramente exibida no Salão de Paris, de 1849 e hoje pertencente ao acervo do Musée d’Orsay, em Paris. Rosa Bonheur é considerada uma das maiores pintoras do século XIX.

Rosa nasceu em Bordeaux, em 1822, a filha mais velha de uma família composta por artistas. Sua mãe era Sophie Marquis Bonheur, uma professora de piano que morreu quando Rosa tinha 11 anos. Seu pai era o pintor e retratista Oscar-Raymond Bonheur. A família adotou o credo cristão-socialista, baseado no Simonianismo, que promovia a educação de mulheres como era a dos homens. Assim, as crianças Bonheur tiveram acesso a educação, não importando o género.

Entre os irmãos de Rosa estavam os pintores Auguste Bonheur e Juliette Bonheur e o escultor Isidore Jules Bonheur. Em 1828, Rosa, então com seis anos, sua mãe e irmãos mudaram-se para Paris a fim de se juntar ao pai, que tinha ido na frente para conseguir casa e um emprego. Segundo registos da família, Rosa era indisciplinada e demorou para aprender a ler, mas antes mesmo de andar ficava horas fazendo desenhos com tinta e papel. 
Sua mãe a ensinou a ler e a escrever pedindo que ela escolhesse um animal para cada letra do alfabeto e o desenhasse. Seu comportamento na escola, porém, era inquieto, indisciplinado, resultando em diversas expulsões e suspensões, o que levou seu pai a tomar a filha como aprendiz para ensiná-la a pintar.
 
Seguindo o currículo tradicional da época, Rosa começou a fazer cópias de imagens em livros e a fazer rascunhos de modelos. Com o tempo, ela passou a desenhar animais vivos, como cavalos, ovelhas, cabras, coelhos e outros animais dos arredores de Paris. Aos 14 anos, começou a copiar pinturas expostas no Museu do Louvre. Entre seus pintores favoritos estavam Nicholas Poussin e Peter Paul Rubens, mas não se limitou apenas a eles, tendo copiado e estudado obras de Paulus Potter, Frans Pourbus o Jovem, Louis Léopold Robert, Salvator Rosa e Karel Dujardin.
Rosa estudou anatomia animal nos matadouros de Paris e os dissecou no Instituto Nacional de Veterinária. Estes estudos posteriormente foram úteis referências para suas esculturas e quadros.

Mulheres, na época da Rosa, eram relutantemente educadas nas artes e pelo facto de Rosa se tornar uma artista de sucesso, muitas portas se abriram para outras mulheres seguirem seus passos, depois de diversas encomendas bem pagas e celebradas pela comunidade artística. Rosa também era conhecida por se vestir de homem e perambular pelas ruas de Paris sem ser incomodada. Mas a própria artista atribuía isso ao facto de calças serem mais práticas para usar no dia a dia do estúdio do que vestidos, especialmente ao se tratar de modelos com animais.
Rosa faleceu em 25 de maio de 1899, aos 77 anos, em sua casa em Thomery, tendo sido enterrada junto de Nathalie Micas (1824–1889) no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris. (daqui)
 
 

Anna Elizabeth Klumpke, 'Elizabeth Cady Stanton', 1889,
oil on canvas, 101 x 81.9 cm, Smithsonian Institution.
 
 
 Elizabeth Cady Stanton

Ativista norte-americana, Elizabeth Cady Stanton nasceu a 12 de novembro de 1815, em Johnstown, Nova Iorque, filha de um juiz, e morreu a 26 de outubro de 1902.
Os seus estudos foram feitos na Academia de Johnstown, onde se dedicou ao Grego e à Matemática. Ao mesmo tempo, aprendeu a montar a cavalo.
Aos 15 anos, entrou no Seminário Feminino Troy, em Nova Iorque, uma das primeiras academias para mulheres a proporcionar uma educação avançada, semelhante à então dada aos homens.
A partir dos 18 anos, quando saiu da academia, passou a estudar Direito em casa, aproveitando os livros e os conhecimentos do pai, a quem acompanhava na resolução dos casos. Apercebendo-se da discriminação que afetava as mulheres na época, decidiu lutar pela alteração das leis. Na mesma altura, envolveu-se com o movimento abolicionista da escravatura e com os reformistas progressistas. Em casa de um primo travou conhecimento com alguns negros que fugiam da situação de escravatura.

Casou com um dos reformistas, o jornalista Henry Stanton, em 1840. Nesse mesmo ano, em junho, acompanhou o marido numa viagem a Londres para participar na Convenção Mundial Anti-Escravatura. Nesta ocasião conheceu Lucretia Moot, que se tornou uma grande amiga e fonte de inspiração intelectual. Quando a convenção negou reconhecer as mulheres como delegadas legítimas, estas sentiram-se humilhadas e revoltadas. Na hora do regresso aos Estados Unidos da América, resolveram organizar uma convenção feminina, que só levaram a cabo oito anos depois. A 19 de julho de 1848, em Seneca Falls, Nova Iorque, reuniram-se cinco mulheres para discutir os direitos e condições sociais, religiosas e civis das mulheres. Stanton, a líder, escreveu um manifesto, a Declaração de Sentimentos de Seneca Falls, que incluía uma carta de direitos e requerimentos de igualdade social para as mulheres, nomeadamente o direito ao voto. Apesar da opinião pública não ter aceite bem esta declaração, rapidamente outras mulheres se juntaram ao movimento e começaram a pedir o direito ao voto.

Em 1851 Elizabeth Stanton travou conhecimento com Susan B. Anthony, uma mulher com grande capacidade de organização que serviu de perfeito complemento às suas teorias filosóficas. Nesta altura, o grupo de Stanton estava inserido no movimento abolicionista, mas quando a escravatura acabou este último retirou o seu apoio às feministas. Desiludidas com esta traição, Stanton e Anthony criaram, em 1868, a Associação Nacional pelo Direito ao Voto Feminino, presidida pela primeira. Elizabeth iniciou também nessa altura a publicação de um jornal chamado "Revolução", que defendia os direitos das mulheres, incluindo também o direito ao voto, inseridos num programas de reformas sociais, económicas e políticas. A ideia de Elizabeth era mudar as leis e o modo como a sociedade encarava o papel da mulher. Em 1876 apresentaram a Declaração dos Direitos das Mulheres dos Estados Unidos na celebração do centenário da nação, mesmo sem terem sido convidadas.

Em 1881, Elizabeth Stanton e Susan Anthony publicaram o primeiro de três volumes da História do Voto das Mulheres, uma coleção de escritos sobre as lutas do movimento. Entretanto, surgiram vários movimentos feministas nos Estados Unidos da América, que a duas conseguiram unir em torno de uma única associação em 1890 chamada Associação Nacional Americana pelo Direito ao Voto Feminino, da qual Elizabeth Stanton foi a primeira presidente. No entanto, as suas ideias antirreligiosas ameaçaram a estabilidade da associação. O descontentamento de algumas feministas atingiu o limite em 1895, quando Stanton publicou A Bíblia das Mulheres, um estudo sobre discriminação sexual no Velho Testamento.
Stanton, para além de defender o direito ao voto, pugnou por leis do divórcio mais liberais, roupas menos restritivas e pelo direito das mulheres casadas controlarem as suas propriedades.
Quando morreu, Elizabeth já não era presidente da associação. Dezoito anos depois, o congresso norte-americano aprovou o direito ao voto feminino. (daqui)
 
 

sexta-feira, 8 de março de 2024

"Cantiga de Amor" - Poema de Manuel Bandeira



Charmaine Olivia
 (Contemporary artist, born in Southern California, 1988),
 Marilyn Monroe (American actress, model and singer, 1926–1962).


Cantiga de Amor 


Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci)
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basileia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!


Manuel Bandeira (1886–1968), Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986 - p. 418-419.

 


Charmaine Olivia
, Secret Life of Marilyn Monroe, 2015.


Marilyn Monroe
 
 
Atriz norte-americana, e um dos grandes símbolos sexuais do cinema, nascida a 1 de junho de 1926, em Los Angeles, na Califórnia, e falecida a 5 de agosto de 1962, também na Califórnia. De seu nome verdadeiro Norma Jean Mortensen, viveu uma infância atribulada, com o pai a abandonar o lar e a mãe a sofrer problemas mentais. Educada num orfanato, casou-se aos 16 anos com um homem que lhe infligia maus tratos. Torna-se operária fabril e mais tarde modelo de pin-ups. 
Em 1946, é contratada pela 20th Century Fox como figurante, participando nessa condição em filmes como The Shocking Miss Pilgrim (1947), The Asphalt Jungle (Quando a Cidade Dorme, 1950), All About Eve (Eva, 1950) e Monkey Business (A Culpa Foi do Macaco, 1952). 
Foi Howard Hawks quem reparou no seu potencial, colocando-a como protagonista ao lado de Jane Russell na comédia Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Louras, 1953). O filme é um sucesso retumbante, elevando Monroe à categoria de «diva loura» e de símbolo sexual. 
Depois de filmar o western River of No Return (Rio Sem Regresso, 1954), teve um casamento mediático com a estrela do basebol Joe Di Maggio, ligação que durou 18 meses. 
Filmou pela primeira vez sob a orientação de Billy Wilder em The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado, 1956), um grande êxito a nível internacional. Apostada em consagrar-se como atriz dramática, decide matricular-se no Actors Studio, tornando-se colega de Montgomery Clift, de quem se torna grande amiga.
Em Nova Iorque, conhecerá o dramaturgo Arthur Miller com quem se casará em finais de 1956. Com o seu contrato reforçado, protagoniza a comédia Bus Stop (Paragem de Autocarro, 1956) e The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista, 1957), mas o último falharia nas bilheteiras. Quase simultaneamente, a sua vida pessoal torna-se muito instável: o seu casamento com Miller estava a passar por uma crise, obrigando a atriz a refugiar-se no álcool e nas drogas. Será Billy Wilder quem a convencerá a interpretar aquele que seria o papel mais célebre da sua carreira: o de Sugar Kane, uma intérprete musical que sonha em casar com um milionário na comédia Some Like It Hot (Quanto Mais Quente Melhor, 1959). Em seguida, contracenou com Yves Montand em Let's Make Love (Vamo-nos Amar, 1960).
Vítima de sucessivas depressões nervosas, a fragilidade da atriz começou a causar-lhe numerosos dissabores profissionais: durante as rodagens de The Misfits (Os Inadaptados, 1961), foram constantes as suas discussões com o realizador John Huston e Clark Gable, para além de numerosos atrasos. Paralelamente, circulavam boatos das suas ligações afetivas clandestinas com o presidente John Kennedy e com Robert Kennedy. 
No dia 5 de agosto de 1962, um mês depois de ter sido despedida por George Cukor das filmagens de Something's Got to Give (1962), a atriz foi encontrada inanimada na cama do seu apartamento. A autópsia revelou suicídio por ingestão de barbitúricos, mas a hipótese de crime ainda hoje é ventilada. (daqui)
 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

"Nunca me senti em Casa" - Poema de Emily Dickinson



Peggy Guggenheim
 (1898–1979) by Franz von Lenbach, ca. 1903, 
 
 
Nunca me senti em Casa 
 
 
Nunca me senti em Casa – Cá em baixo –
E nos Aprazíveis Céus
Não me sentirei em Casa – eu sei –
Eu não gosto do Paraíso –

Porque é Domingo – sempre –
E o Recreio – nunca chega –
E o Éden serão solitárias
Claras Tardes de Quarta feira –

Se, ao menos, Deus fizesse visitas –
Ou Sestas –
E deixasse de nos ver – mas dizem
Que Ele – por um Telescópio

Perpétuo nos olha –
Eu própria fugiria
D’Ele – e do Espírito Santo – e de Todos –
Não fosse o “Juízo Final”!

 
in “Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro 
 
 
[Emily Dickinson (1830–1886) é considerada a maior poeta norte-americana. Talvez a maior de língua inglesa. Deixou-nos quase dois mil poemas. Poucos conhecemos, em português. Jorge de Sena abriu o caminho às primeiras traduções, já difíceis de encontrar, Cecília Rego Pinheiro acrescentou uma breve recolha ainda disponível na Assírio & Alvim ("Esta É a Minha Carta Ao Mundo e Outros Poemas").] (daqui)


Peggy Guggenheim
in Paris,
ca. 1940, by Rogi André, 


Peggy Guggenheim 
 

Marguerite “Peggy” Guggenheim nasceu, em Nova Iorque, a 26 de Agosto de 1898, no seio de uma família abastada. Filha de Florette Seligman (1870-1937), pertencente a uma família banqueira de topo, e de Benjamin Guggenheim (1865-1912) que, juntamente com o pai e os seis irmãos, criou fortuna através do trabalho com metais. O seu pai foi uma das vítimas do naufrágio do Titanic, em Abril de 1912.

Outro familiar que é necessário destacar é o tio Solomon Robert Guggenheim (1861-1949), fundador do Museu com o mesmo nome em Nova Iorque. Foi exatamente nessa cidade que Peggy Guggenheim  passou a sua infância e juventude. É em 1921, já casada com Laurence Vail (1891-1968, casam em 1922 e separam-se em 1930; pai dos seus dois filhos) que viaja para a Europa, nomeadamente para Paris. Aqui, desloca-se entre a vida boémia e a sociedade americana expatriada, conhecendo algumas pessoas que se tornariam amigos de longa data, como é o caso de Constantin Brâncuși (1876-1957), Djuna Barnes (1892-1982) e Marcel Duchamp (1887-1968).

É em 1938 que abre a Guggenheim Jeune, uma galeria de arte em Londres. Com 39 anos, dá assim início a uma carreira que vai ter um grande impacto na Arte no pós-guerra.
Amigos como Samuel Beckett (1906-1989) e Duchamp incentivaram Peggy a apostar na Arte Contemporânea, ensinando-lhe a diferença entre os vários estilos e apresentando-a a vários artistas. Nesta galeria, expôs obras de Jean Cocteau (1889-1963),  Wassily Kandinsky (1866-1944), Yves Tanguy (1900-1955), Rita Kernn-Larsen (1904-1998), entre outros. 
 
A primeira obra que Peggy Guggenheim comprou foi Head and Shell (c. 1933) do pintor e poeta alemão  Jean Arp (1886-1966).
É também nestes anos que volta a instalar-se em Paris e aqui começa a ocupar-se a tempo inteiro da compra de obras de arte, adotando o mote: "Comprar uma obra todos os dias e viver de acordo com isso."
Apesar dos tempos conturbados, adquiriu grandes obras de artistas como Georges Braque (1883-1963), Salvador Dalí (1904-1989), Robert Delaunay (1885-1941), Piet Mondrian (1872-1944), Francis Picabia (1879-1953), Fernand Léger (1881-1955) e Brâncuși.

Com o avançar da guerra, pediu ao Musée du Louvre para esconder a sua coleção, algo que lhe foi negado. Tendo nome judeu, viu-se obrigada a ocultá-lo nos serviços alfandegários para conseguir enviar as suas obras como “itens domiciliários” em segurança para Nova Iorque. Assim, não só conseguiu proteger a sua coleção como também os meios de subsistência dos seus artistas considerados “degenerados” pelo 3º Reich.

Só com o aproximar do exército nazi a Paris é que decide fugir para o sul de França e em Julho de 1941 regressa a Nova Iorque com os seus filhos, o seu agora ex-marido, a esposa e filhos dele, e com o pintor Max Ernst (1891-1976), com quem viria a casar pouco tempo depois, divorciando-se mais tarde, em 1946.

Em Outubro de 1942, inaugura Art of This Century, em  Manhattan, New York City, uma galeria com coleção permanente, exposições temporárias e venda de obras, e que cedo se tornou o espaço mais estimulante da arte contemporânea em Nova Iorque, com uma grande inovação ao nível das salas de exposição, com todos os elementos do espaço a relacionarem-se com os estilos e peças aí expostos. Aqui queria mostrar que não tinha preferência entre a Abstração e o Surrealismo, pedindo a colaboração de artistas de ambos os estilos para várias coisas, incluindo a conceção do catálogo. 

Até aqui, a coleção de Peggy Guggenheim ia de 1910 a 1942, numa quantidade limitada, mas bastante forte a nível qualitativo: Cubismo, Futurismo, Orfismo, Abstração Europeia (Suprematismo, Construtivismo, De Stijl), pintura Metafísica, Dadaísmo, Surrealismo, Purismo; com obras de vários artistas como Brâncuși,  Jean Arp, Alberto Giacometti (1901-1966), Henry Moore (1898-1986), Alexander Archipenko (1887-1964), Henri Laurens (1885-1954), etc.

Nesta galeria, para além de expor a sua coleção, usava as exposições temporárias como palco para os grandes nomes da arte europeia, mas também para os artistas americanos emergentes como Robert Motherwell (1915-1991), Mark Rothko (1903-1970), Jackson Pollock (1912-1956), entre outros. 
Pollock  seria exatamente um dos artistas a quem Peggy Guggenheim daria um maior impulso, sendo o primeiro a expor a solo na galeria e cujas obras a colecionadora promovia e vendia ativamente. Foi também ela que comissionou o seu maior Mural (1943). Guggenheim viria a considerar o sucesso do artista americano como uma das suas maiores conquistas. 

Mais importante que dar a conhecer a Arte Europeia, Peggy, juntamente com o amigo e assistente Howard Putzel (1898-1945), era uma grande incentivadora do crescente movimento Avant-Garde, em Nova Iorque. O desenvolvimento deste que foi o primeiro estilo artístico americano vai, por isso, buscar grande força à sua coleção. 

Mal tem oportunidade de regressar à Europa, Peggy escolhe Veneza como destino, viajando rumo à cidade em 1947. Pouco depois da sua chegada, compra o Palazzo Venier dei Leoni, onde acabaria por passar o resto da sua vida. Esta foi a cidade da vida e do coração da colecionadora, que tinha uma visão peculiar sobre a mesma. Entre várias afirmações, podemos destacar:

"Assume-se que Veneza é o local ideal para uma lua-de-mel. Este é um erro muito grave. Viver em Veneza ou apenas visitá-la significa que se apaixonam pela própria cidade. Não sobra nada no vosso coração para mais ninguém."

Logo em 1948, enquanto Itália atravessava uma Guerra Civil, expõe a sua coleção na Bienal de Veneza. É a primeira vez que obras de artistas como Pollock, Arshile Gorky (1904-1948) e Rothko são exibidas na Europa. Este ponto aliado à quantidade de obras cubistas, surrealistas e abstratas na coleção, fazem desta exposição uma das mostras modernistas mais coerentes apresentadas no país até então.
Pouco depois, em 1949, organiza uma exposição de escultura contemporânea e, em 1950, a primeira exibição europeia de obras de Pollock.
Em 1962, a cidade nomeia-a Cidadã Honorária de Veneza. 

Peggy Guggenheim nunca deixou de comprar obras de arte, apoiando artistas das mais variadas nacionalidades como Edmondo Bacci (1913-1978), Francis Bacon (1909-1992), Kenzo Okada (1902-1982), entre outros.
Este amor e orgulho pela Arte e pela sua coleção fazem com que, em 1951, Peggy decida começar a mostrá-la, bem como a sua casa, ao público. 

Em 1969, expõe a sua coleção no museu do tio, em Nova Iorque. A partir daqui, estreita-se a ligação entre os dois mundos, sendo que, em 1970, doa o seu Palazzo e, em 1976, as suas obras à Solomon R. Guggenheim Foundation. Esta Fundação foi criada em 1973 como forma de promover o conhecimento da Arte e estabelecer um ou vários museus.
 
 

 Max Ernst and  Peggy Guggenheim in the gallery ‘Art of This Century’,
New York, ca. 1943, via HuffPost


Peggy Guggenheim morre a 23 de Dezembro de 1979, em Itália.
Após a sua morte, o seu Palazzo tornou-se um dos mais conceituados museus de Arte moderna no mundo: Coleção Peggy Guggenheim. 
A sua coleção foi desde logo uma das mais proeminentes coleções de Arte Cubista e Surrealista, numa altura em que estes movimentos não eram tidos em grande consideração por outros colecionadores, incluindo o seu tio.
As obras que reuniu representam o seu gosto e estilo pessoal.  Peggy Guggenheim fazia pouca distinção entre a vida pessoal e a profissional, pois, regra geral, os artistas que apoiava e cujas obras expunha se tornaram seus amigos.
Segundo a neta e curadora Karole Vail (n.1959): "A sua vida e a sua coleção de Arte estavam completamente interligadas."

Apesar da época em que viveu, Peggy Guggenheim não teve problemas em assumir os seus gostos e intenções, quer no mundo da Arte como no mundo das relações pessoais. Fez o seu caminho como uma mulher livre e descomplicada, dando prioridade ao que a fazia feliz, preocupando-se e ajudando quem assim merecia, sem olhar a meios e ao que os outros poderiam dizer, sendo uma pioneira num mundo que ia reclamando mais espaço para as mulheres. Mesmo tendo um gosto artístico específico e limitado a certas épocas e estilos, viveu a Arte como poucos o fazem.

"Olho para a minha vida com grande alegria. Penso que foi uma vida muito bem sucedida. Sempre fiz o que quis e nunca me preocupei com o que os outros pensavam. Libertação das mulheres? Eu era uma mulher livre muito antes de haver um nome para isso." - Peggy Guggenheim (daqui)


Peggy Guggenheim, Venice, April 1969. Photograph: Stefan Moses (daqui)
 

Action Painting
 
 
O termo Action Painting qualifica em simultâneo uma técnica pictórica e uma corrente artística associada ao movimento do Expressionismo Abstrato, desenvolvido desde os inícios da década de 1940 nos Estados Unidos da América e na Europa, onde se tornou conhecido por Informalismo.

Enquanto movimento pictórico, a Action Painting é geralmente confundida com o Expressionismo Abstrato, do qual constitui somente uma das tendências formais e estéticas, a par do Color field Painting.

O seu nome resulta do título de um artigo publicado pela revista Art News de dezembro de 1952, "The American Action Painters", escrito pelo poeta e crítico de arte americano Harold Rosenberg (1906-1978). A grande divulgadora desta corrente foi a galerista nova iorquina Peggy Guggenheim  (1898-1979) que, desde 1942, realiza uma série de exposições dos trabalhos destes artistas.

A Action Painting, ou pintura gestualista, tem as suas origens mais diretas no movimento surrealista e no desenho automático, praticado por alguns dos artistas que integravam esta corrente, mais especificamente pelo pioneiro André Masson (1896-1987), famoso pelos trabalhos que realiza em meados da década de vinte, sob influência da psicologia e da psicanálise freudianas e jungianas. A influência deste artista na cultura artística nova iorquina tornou-se particularmente forte após a sua ida para os Estados Unidos em 1941.

Mais especificamente, o termo Action Painting aplica-se ao trabalho de poucos pintores, todos saídos do período da pós-depressão nos Estados Unidos, como Jackson Pollock e o seu discípulo Hans Hofmann (1880-1966) cujos trabalhos revelam, desde os anos 40, a preferência pela pintura através do dripping, técnica que consistia em deixar pingar a tinta sobre uma tela, geralmente de grande dimensão, colocada na horizontal sobre o chão. Pode também ser incluída nesta tendência parte da obra dos americanos Arshile Gorky (1904-1948) e de Robert Motherwell (1915-1991).

Estes artistas apresentam como denominador comum o entendimento do quadro como um palco para a ação artística. A pintura, sempre abstrata, realiza-se através de amplos gestos (que adquirem o carácter de coreografias), procurando salientar a intensidade e intencionalidade estética contida no ato de pintar. É precisamente esta ação livre e sem obstáculos intelectuais e não tanto o seu produto final (uma imagem constituída por linhas, manchas, cor e forma), aquilo que deve ser comunicado ao público. Raramente são realizados estudos prévios, considerados aniquiladores do processo de desenho automático de cariz espontâneo.

Tendo tido um desenvolvimento mais forte nos Estados Unidos, em torno da chamada Escola de Nova Iorque, a Action Painting produziu ecos na Europa do pós-guerra. Em França, influenciou, em alguns aspetos, o movimento informalista e o Tachismo, como o demonstra a linguagem sígnica instantânea e de grande expressividade do pintor Georges Mathieu . Na Alemanha destaca-se o trabalho dos pintores Fred Thieler e Karl Otto Götz (que levam o automatismo e o instinto a um limite máximo) e o Grupo Zen, criado em Munique, que retoma o método e técnicas pictóricas de Jackson Pollock. Em Itália, salienta-se a atividade do grupo de artistas denominado "Movimento Arte Nucleare".
A Action Painting foi precursora de alguns movimentos posteriores, como a Arte Processual dos anos 70. (daqui)