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sábado, 2 de agosto de 2025

"Ode à maneira de Horácio" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 


Camille Martin (Peintre, relieur, illustrateur et affichiste français, 1861–1898),
Premier soleil, 1882, Musée des beaux-arts de Nancy.


Ode à maneira de Horácio



Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "O Búzio de Cós e outros Poemas"
 
 
 

"Musa e O Búzio de Cós e outros Poemas"
de Sophia de Mello Breyner Andresen 
Edição/reimpressão: 08-2016 
Editor: Assírio & Alvim 
 

SINOPSE 

"Musa e O Búzio de Cós e outros Poemas", os dois últimos livros de poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicados na década de 90, formam uma unidade de duas faces e constituem um fecho, um ponto de chegada que funciona como uma espécie de coda. A junção dos dois livros na presente edição abre uma perspetiva de leitura da fase final da obra da poeta e ativa, naturalmente, um impulso interpretativo que nos leva a focar a obra na sua globalidade. […] Aqui, com variações, os temas e os motivos de sempre: a exaltação do esplendor do mundo, a praia atlântica, o sul, a Grécia, a denúncia do que é fácil e falso, a escrita do poema, a forte afirmação vital, a fidelidade à palavra, a crença absoluta na poesia…» - Carlos Mendes de Sousa, no Prefácio a esta edição (daqui)

 

Camille Martin, Un après-midi de printemps, huile sur toile.


"As coisas que passam ficam para sempre numa história exata." 
 

terça-feira, 22 de julho de 2025

"A função do amor é fabricar desconhecimento" - Poema de E. E. Cummings


 
Camille Martin (Peintre, relieur, illustrateur et affichiste français, 1861–1898),
Forêt de Kichompré, 1896, Musée de l'École de Nancy.



A função do amor é fabricar desconhecimento

 
a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
— o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; e cada parte permanece quieta:

pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for, eu digo se assim for —
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos,
dizendo: Aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. 


E. E. Cummings, in "livrodepoemas"
Tradução de Cecília Rego Pinheiro
Edição Assírio & Alvim, Lisboa, 1999