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domingo, 3 de maio de 2026

"Obrigado, mamãe!" - Poema de Pedro Bandeira



William J. Glackens (American realist painter, 1870-1938),
'The Artist's Wife and Son', 1911, oil on canvas, 91.4 x 121.9 cm,
Snite Museum of Art.


Obrigado, mamãe!


Hoje é o melhor dia do ano,
É um dia especial.
É mais que aniversário!
Hoje é o Dia das Mães!
É tão bom quanto o Natal!

Vou muito bem na escola
E não fiz nada de errado
Pra ter que bajular.
Então deve ser verdade
Isso que eu quero falar:

Obrigado, mamãe,
Pelas noites mal dormidas,
Pelas horas tão sofridas
Que você me dedicou.

Obrigado, mamãe,
Por esse amor tão profundo,
Por me ter posto no mundo,
Por fazer tudo o que eu sou.

Muito obrigado, mamãe!
Obrigado por seu carinho,
Por todo esse amor, todinho,
Que você deu para mim...
Obrigado, mamãe...


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna


♥♥♥

[O Dia das Mães também designado de Dia da Mãe é uma data comemorativa em que se homenageia a mãe e a maternidade. Em alguns países é comemorado no segundo domingo do mês de maio (como no Brasil). Em Portugal é comemorado no primeiro domingo do mês de maio.]
 

sábado, 2 de maio de 2026

"A triste história do zero poeta" - Poema de Manuel António Pina



John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
"What's your name?", 1876.
 

A triste história do zero poeta 


Numa certa conta havia
um zero dado à poesia
que tinha um sonho secreto:
fugir para o alfabeto.

Sonhava tornar-se um O
nem que fosse um dia só,
ou ainda menos: só
o tempo de dizer: «Oh!»

(Nos livros e nas seletas
o que mais o comovia
eram os «Ohs!» que os poetas
metiam nas poesias!)

Um «Oh!» lírico & profundo,
um só «Oh!» lhe bastaria
para ele dizer ao mundo
o que na alma lhe ia!

E o que na alma lhe ia!
Sonhos de glórias, esperanças,
ânsias, melancolia,
recordações de criança;

além de um grande vazio
de tipo existencial
e de uma caixa que o tio
lhe pedira para guardar;

e ainda as chaves do carro
e uma máscara de entrudo...
Não tinha bolsos, coitado,
guardava na alma tudo!

A alma! Como queria
gritá-la num «Oh!» sincero!
Mas não passava de um zero
que, oh!, não se pronuncia...

Daí que andasse doente
de grave doença poética
e em estado permanente
de ansiedade alfabética.

E se indignasse & etc.
contra o destino severo
que fizera dele um zero
com uma alma de letra!

Tanta ambição desmedida,
tanto sonho feito pó!
E aquele zero dava a vida
para poder dizer «Oh!»...


Manuel António Pina,
in "Pequeno Livro de Desmatemática",
Assírio & Alvim




"Pequeno Livro de Desmatemática" de Manuel António Pina,
com desenhos de Pedro Proença. Assírio & Alvim;
 edição/reimpressão: 03-2009
 

SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Com versos do poeta Manuel António Pina e desenhos do pintor Pedro Proença, este "Pequeno Livro de Desmatemática" pode tornar-se um clássico da literatura infantil em português. A curiosidade e a imaginação de Pina (e de Proença) dão-nos a ler a matemática de forma divertida. Os problemas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, histórias de números (reais ou imaginários), do p, etc., são resumidos pelo próprio autor na introdução, da qual se transcreve:

"Este pequeno livro está cheio de jogos com palavras e com alguns conceitos simples da matemática (por pouco ia a escrever a palavra com letra maiúscula!). Eu gosto de palavras. E de matemática também. Por isso brinco com elas. Brincar é uma coisa muito séria: quem quereria brincar com gente ou coisas de que não gosta? Este livro é um livro de "desmatemática" porque, aqui, os personagens da matemática, os números, os sinais, as contas, são tratados como gente, têm sentimentos, sonhos. Até fraquezas e defeitos. Como tu e como eu. É um jogo que eu gosto muito de jogar: imaginar como as coisas seriam se fossem ao contrário. Nem imaginas como o "Reino do Des" é às vezes divertido! Mas, e apesar de este não ser nem, valha-me Deus, querer ser um compêndio de Matemática (agora já se justifica, se calhar, a letra maiúscula), e ser apenas um pequeno livro de versos (alguns com teoremas escondidos), imaginei que, se tu conhecesses melhor dois ou três dos personagens deste livro, talvez a leitura dele pudesse ser um pouco mais interessante. Por isso te venho apresentar o amimigo zero (uma verdadeira nulidade, pensam alguns; o que eles se enganam!), os números negativos, os números imaginários, os números irracionais (raio de nome!), o misteriosíssimo e famosíssimo p. Talvez, quem sabe?, depois de teres conhecido estes, tu queiras conhecer outros. A maior parte das pessoas não calcula (a palavra calcular vem a propósito) a gente curiosa que vive na matemática!" (daqui)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

"Adivinhe quem eu sou!" - Poema de Pedro Bandeira

 


Albrecht Dürer (German painter, printmaker, and theorist
of the German Renaissance, 1471–1528), 'Praying Hands'
('Mãos que Oram')
, c. 1508, Albertina, Vienna.



Adivinhe quem eu sou!


Eu tenho cinco pontinhas,
cada uma de um tamanho.
Eu coço a cabeça,
mas não tenho cabeça.
Eu tenho costas,
mas não tenho peito.
Eu tenho uma irmãzinha,
que é igualzinha a mim.
Mas, se você gosta de festa
e de cantar "parabéns",
eu bato na minha irmã
e a minha irmã bate em mim!

Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna


♥♥♥

"Paraíso" - Poema de José Paulo Paes


 

Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847
1935), 'Three Friends', n.d.


Paraíso
 

Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.

Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?

Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.

Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.


José Paulo Paes
(1926
1998), 
em "Poemas para brincar", 1991.


Pinturas de Victor Gabriel Gilbert 
(Crianças)  


Victor Gabriel Gilbert, 'Afternoon Tea in the Public Garden'
 


Victor Gabriel Gilbert, 'Title unknown'


 
Victor Gabriel Gilbert, 'Make Believe'
 
 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'A Sudden Stop'
 


Victor Gabriel Gilbert, 'Picnic at the Tuileries, Paris',
Private collection, France.
 
 

Gabriel Gilbert, 'Feeding the Rabbits'
 
 
 
Victor Gabriel Gilbert, 'The Reward' ('La récompense')
 

 
Victor Gabriel Gilbert, 'Playtime in the Summerhouse'
 

Victor Gabriel Gilbert, 'Young children in a poppy field', c. 1920.


"Educar a mente sem educar o coração, não é educar em absoluto."



Frase atribuída ao filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.)
 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

"A galinha cor-de-rosa" - Poema de Duda Machado


   
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Olivia's Coop", 2013.


A galinha cor-de-rosa


Era uma galinha cor-de-rosa, 
Metida a chique, toda orgulhosa, 
Que detestava pisar no chão 
Cheio de lama do galinheiro.

Ficava no alto do poleiro 
E quando saía do lugar, 
Batia as asas para voar. 
Mas seus pés acabavam na lama.

Aí armava o maior chilique, 
Cacarejava, bicava o galo, 
E depois, com ar de rainha, 
Lavava os pés numa pocinha. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.
 
 

'Histórias com poesia, alguns bichos & cia',
de Duda Machado; Ilustração de Guto Lacaz;
 ‎ Editora 34. 
 
Descrição

"Histórias com poesia, alguns bichos e cia." reúne 13 poemas altamente divertidos. Como o próprio título diz, são histórias com bichos, móveis, dias, noites, pontos e outros temas que viraram belos poemas para crianças pequenas. Com versos rimados, o leitor pode divertir-se com 'uma galinha cor-de-rosa que detestava pisar no chão', 'um elefante que andava de mansinho para não machucar o soalho', 'um macaco diferente que fica imitando gente e queria voar', ou com 'a vaca Quilate que dava leite sabor de chocolate'... 
Duda Machado e Guto Lacaz, artista de destaque na arte brasileira contemporânea, uniram-se para contar histórias engraçadas ao leitor infantil em forma de poema. Vale a pena conhecer seus personagens inusitados.

Sobre os Autores
 
Duda Machado (Carlos Eduardo Lima Machado), um dos poetas mais significativos de sua geração, nasceu em Salvador, em 1944. Formado em Ciências Sociais, interessou-se também por cinema e música popular, tendo sido parceiro de Gilberto Gil e Jards Macalé. Em 1977, morando no Rio de Janeiro, publicou seu primeiro livro de poemas, "Zil", ao qual se seguiriam "Crescente" (1990) e "Margem de uma onda" (1997). Nesse mesmo ano publicou, em parceria com Guto Lacaz, "Histórias com poesia, alguns bichos & cia.", um divertido livro de poemas para crianças. Publicou também "Tudo tem a sua história" (2005), "Adivinhação da leveza" (2011) e Coletânea "Poesia 1969-2021" (2024).
Combinando atividades de poeta, ensaísta e tradutor (entre eles, Gustave Flaubert e Mark Twain), foi professor de teoria literária na Universidade Federal de Ouro Preto. 

Guto Lacaz, arquiteto e artista plástico, nasceu em São Paulo, em 1948, e é hoje uma figura de destaque na arte brasileira contemporânea, tendo participado de várias exposições importantes, entre as quais a XVIII Bienal de São Paulo. Com seu traço sintético e bem-humorado, já ilustrou diversos livros, entre eles: "O retrato das figuras", de Anna Flora (1992); "Balé dos Skazkás", de Katia Canton (1997); "A vila e o vulcão", de sua própria autoria (2000); e o "Livro da primeira vez", de Otavio Frias Filho (2004). 
 

"Os Nomes" - Poema de Maria Alberta Menéres



Olaf Ulbricht (German artist, born 1951), "Spring", 2022.
Acrylic on Wood, 48 × 54 cm. Private Collection.


Os Nomes 
 
 
Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida. 


Maria Alberta Menéres
, em 'Conversas com Versos',
Lisboa, Edições Asa, 2005.
 

Pinturas de Olaf Ulbricht
 
Olaf Ulbricht, "Spring", 2017

 
Olaf Ulbricht, "Village in Spring"
 

Olaf Ulbricht, "News under the cherry tree", 2018
 
 

Olaf Ulbricht, Spring on the Edge of the Village, 2021
 
 

Olaf Ulbricht, "Spring on the Edge of the Village", 2021
 
 
Céu de primavera
no jardim dorme a menina.
Qual a flor do sonho?
 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Repelente" - Poema de Ricardo da Cunha Lima


 
Lucas Higashi (Artista multimeios, compositor, músico, produtor musical, designer
gráfico, ilustrador, editor audiovisual e diretor criativo nipo-brasileiro, n. 2002.),
Ilustração para capa de máteria do Conexão Ciência.
(daqui)
 
 
Repelente


Quando a família de insetos
chegou à cidade grande,
levou um susto completo.
O mosquito-pai falou:
— Quanta gente! Que terror!
Só queremos passear,
mas esse monte de gente
não nos deixa nunca em paz!
Que criaturas mais chatas!
Isso incomoda demais!
Então, falou pros filhinhos:
— Olho nos seres humanos!
Eles causam muitos danos!
Cuidado com as raquetes,
raquetinhas, mãos, toalhas,
agasalhos, blusas, malhas,
travesseiros, almofadas,
panos, sprays em geral.
Chinelos são um flagelo!
Jornal é sempre fatal!
Mas o que é o principal,
isto, sim, é muito urgente:
não se esqueçam de passar
o repelente… de gente!


Ricardo da Cunha Lima, em 'De volta', 
Companhias das Letrinhas, 2022.
 


'De volta' de Ricardo da Cunha Lima,
Ilustrações de Rodrigo Fischer,
Companhias das Letrinhas, 2022.


SOBRE O LIVRO 


Esta é uma obra lúdica e cativante que celebra a volta de Ricardo da Cunha Lima à poesia para as crianças com cenários fantásticos e repletos de rimas divertidas.
 
Nas páginas deste livro, os leitores vão visitar um castelo feito de chantili e dos doces mais deliciosos que existem, conhecer um veloz ventilador que também sente calor e presenciar uma chuva de gotas coloridas. Além disso, com o premiado poema "Um par de lições do lápis", todos vão se encantar com a magia que uma boa história traz.
Este festival de rimas ao lado de personagens surpreendentes, aventuras divertidas e ilustrações de Rodrigo Fischer que brincam com elementos surreais e nonsense marca a volta de Ricardo da Cunha Lima à poesia dedicada aos leitores mais jovens. Indicado para leitores a partir de 6 anos.
 (daqui)
 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

"O Gato" - Poema de Afonso Lopes Vieira



Charles van den Eycken (Belgian painter, 1859-1923),
A Cat at the Window, n.d.


O Gato

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– Pelas noites de invernia,
quando o vento, num lamento,
muito lento, muito longo,
muito fundo, de agonia,
ruge e muge,
e a chuva bate à janela,
nos vidros, fina, a tinir...
ai como é bom,
ai como é bom dormir
ao serão, todo enroscado
ao pé do lume doirado,
fazendo ron-ron-ron-ron...

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”

O gato, à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

– Não tenho inveja a ninguém:
nem aos pássaros do ar,
a voar;
nem aos cavalos saltando,
galopando;
nem aos peixinhos do mar,
a nadar;
Não tenho inveja a ninguém
aqui na minha janela,
onde me sinto tão bem...

– “Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela...”


Afonso Lopes Vieira (1878-1946),
em "Animais Nossos Amigos", 1911.
Ilustrações de Raul Lino


  
"Animais nossos Amigos": Versos de Afonso Lopes Vieira;
Ilustrações de Raul Lino. 1.ª edição da Livraria Ferreira, 1911.
 

Eles

Sempre dei pousada a gatos, vagabundos quase todos, ora salvos de uma jaula, de uma sarjeta, ou de um contentor do lixo. Com nomes cristãos, e mais do que isso, artísticos e literários, os batizei, Gelsomina e Leonardo, Félix e Henriqueta, favor que jamais me agradeceriam.
Não cessa de me intrigar o desprezo a que eles votam os cães da casa, esses sim, profundamente comovidos com a graça que lhes pus, Puck e Robin e Jasão, e mais recentemente Argos, aptos a proclamá-la com orgulho e alegria. E olham estes os gatos que os rodeiam com a tolerância, e não raro com a estima, de os saberem também da família do dono.
O que verdadeiramente me dói ao fim de contas é essa incapacidade de levarem os gatos ao plano do mimetismo, não apenas das maneiras, mas da própria figura, o reconhecimento que não sentem. Com os cães me pareço, comigo os cães se identificam, e transforma-se o amador na coisa amada. Não constituirá isto a mais tocante e a mais original prova de afeto?

Mário Cláudio (Escritor português, n. 1941) (daqui)







terça-feira, 14 de abril de 2026

"Leva o cão a passear" - Poema de José Jorge Letria



Olaf Ulbricht (German artist, born 1951), "Walk with the Dog", n.d.
Acrylic on Canvas, 50 × 40 cm. Private Collection.


Leva o cão a passear 


Leva o cão a passear
mesmo que não te apeteça;
o bicho tem que arejar
e passa o dia a sonhar
com o passeio que começa.

Por favor vai preparado
para qualquer imprevisto;
leva uma pá, um plástico,
que é o modo mais drástico
de nunca ficares mal-visto.

Lembra-te de que o passeio
é para a gente passear
e que um cocó pelo meio,
desde que não seja alheio,
é mesmo para apanhar.

E já que falamos do cão
e do dever do seu dono,
seja Inverno ou Verão,
seja qual for a razão,
opõe-te ao seu abandono.

Um animal abandonado
é um ato sem perdão,
adoece maltratado,
numa berma esfomeado,
na maior aflição,
e os seus donos onde estão? 


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

"Porta-te bem!" de José Jorge Letria;
Ilustração de Joana Quental.
 Porto, Ambar, 2003.
 

SINOPSE 

Um livro que reúne as atitudes, cuidados e atenções que as crianças devem ter para serem bem educadas. Este livro ajuda os pais, avós e outros educadores a ensinar as boas maneiras às crianças· 
Há algumas escolas do 1º ciclo do ensino básico que adotaram este livro nas aulas. José Jorge Letria é um autor de referência na literatura infantil.
Joana Quental contribui, através das sua excelentes ilustrações, para que seja fácil ensinar as regras do bom comportamento às crianças.
A primeira edição deste título, publicada pela Ambar em 2003, foi um grande sucesso. (daqui)
 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

"Gatos" - Poema de António Mota


 

Remedios Varo (Catalan-Mexican surrealist artist, 1908–1963),
"Paraíso de los gatos" (Cats paradise), 1955, Private Collection.


Gatos

Gatos novos
gatos velhos
gatos magros
gatos gordos
gatos brancos
gatos pretos
gatos mimalhos
gatos a pedir
gatos a roubar
gatos a fugir
gatos a ronronar
gatos no telhado
gatos na janela
gatos no sofá
gatos no berço
gatos na cama
gatos na sala
gatos na cozinha
gatos maltratados
gatos a miar
em noites de luar.

Gatos doentes
gatos a brincar
gatos a dormir
gatos a saltar
gatos a parir
gatos a mamar
gatos a nascer
gatos a arranhar
gatos a comer
gatos a pular
gatos a lamber
gatos lestos
gatos mancos
gatos siameses
gatos persas
gatos malteses.

Tantos gatos
de rabo alçado
e eu só tenho um
de pano coçado.


António Mota
,
in "Lá de Cima Cá de Baixo"



"Lá de Cima Cá de Baixo" de António Mota;
Ilustrações de Teresa Lima.

Edições Asa, 2017.


SINOPSE

Plano Nacional de Leitura 
Livro recomendado para o 2º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma.

"Lá de Cima Cá de Baixo" é uma coletânea de poemas que António Mota deseja partilhar com os seus leitores, descrevendo a vida de todos os dias. Uma formiga que vai calada e ligeirinha. Um baloiço que serve de mirante. As noites solitárias. Os bichos. Os sonhos.

 

 
Marta Teives (Designer, animadora, urban sketcher, artista de storyboard
e ilustradora portuguesa, n. 1977), "Os Gatos da Casa Amarela", livro 
de António Mota, 2019.
 

O universo dos livros de António Mota pode situar-se numa zona de antítese sócio-geográfica dos livros de uma outra autora portuguesa de obras para a juventude, Alice Vieira. De facto, se Alice Vieira é a narradora por excelência da adolescência burguesa e citadina, com os seus problemas territoriais, afetivos e comunicacionais, António Mota constrói na sua obra uma espécie de contraponto a esse mundo citadino, ao descrever as vivências, as crises de crescimento e as lutas pela mudança de vida de uma infância e adolescência rurais, situadas num mundo em vias de extinção mas ainda existente um pouco por todo o território português: o mundo das pequenas aldeias onde o tempo corre segundo o ciclo das estações e o ritmo das histórias contadas pelos mais velhos e a ligação à terra e aos ofícios tradicionais impõe um estilo de vida muito próprio.

Nascido precisamente numa dessas pequenas aldeias da região do Douro, o autor transpõe para os seus livros memórias da sua própria infância, construindo no entanto histórias com problemas muito atuais. Temas como o do enfrentar da velhice e dos lares de terceira idade (A casa das bengalas) ou das opções profissionais e de futuro (Cortei as tranças), demonstram que, para além das diferentes condições de vida, muitas das questões e perplexidades que se põe aos jovens são basicamente as mesmas, no campo ou na cidade. – Centro de Documentação de Autores Portugueses, 04/2005 (daqui)
 
 
Marta Teives"Os Gatos da Casa Amarela", livro de António Mota, 2019.


Gatos

Não gosto de ter animais em casa. Mas, se gostasse de os ter, teria certamente um gato. 
Um gato é a independência (indiferença?) em estado puro, a dignidade que lhe vem dos tempos em que era tigre – e essas coisas não se perdem nunca. 
Um gato não se doma, não faz figuras tristes, não dá a patinha. 
Um gato é bicho solitário, desliza entre o silêncio dos móveis e o pó dos livros e se calhar é por isso que tantos escritores os adotam. Ou eles adotam os escritores – nunca cheguei a perceber. 
Lembro-me de quando morreu a gata do Carlos de Oliveira. À mesa do Monte Carlo, durante vários dias ele murmurava: 
“A falta que me faz o seu silêncio”. 
Gostava que um dia alguém dissesse isso de mim. 
Palavra. 

Alice Vieira (Escritora e jornalista profissional portuguesa, n. 1943) (daqui)

terça-feira, 7 de abril de 2026

"Aquário" - Poema de Alice Gomes


 
Young-Sung Kim (South Korean hyperrealist visual artist, b. 1973)
(daqui)


Aquário


Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.

Sabia os sítios seguros
onde os maiores e mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.
E continuava a viver.

Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.

A onda amiga ondulava
enquanto o acalentava
aquecia
arrefecia
e para longe o levava.
Tão longe
tão vasto o mundo…
o seu mundo!
Tão largo, alto e profundo!…

Que alegria de nadar!
Mas um dia aconteceu
que um fenómeno se deu:
foi pescado
foi levado
para fora do seu mar
para longe do seu lar
transportado
bem fechado
numa prisão de cristal.

E se não lhe fizeram mal
se o não comeram com sal
está muito descontente
nessa prisão transparente
à vista de toda a gente. 


Alice Gomes (1910-1983),
Bichinho Poeta: Poesia (também para crianças);
Lisboa, Gráfica Santelmo.
 
 

"Bichinho Poeta" de Alice Gomes;
Ilustração de Mário Neves.
Gráfica Santelmo, 1ª edição, 1970.


Alice Gomes, escritora portuguesa, nascida em 1910, em Tabuaço, foi casada com Adolfo Casais Monteiro.
Professora primária, dedicou-se ao ensino e à pedagogia. Como escritora dedicou o seu trabalho à literatura infantil.
Traduziu para português Le Petit Prince (O Principezinho) de Saint-Exupéry. Do seu espólio literário fazem parte obras como As Histórias de Coca-Bichinhos (1967), Giroflé-Giroflá (1970), Os Ratos e o Trovador (1973).
 Faleceu em 1983. (daqui)
 

"Pontinho de vista" - Poema de Pedro Bandeira



Thalia Flora-Karavia (Greek artist and member of the Munich School, 1871–1960)
 
 

Pontinho de vista


Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.

Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
- Minha nossa, que grandão!


Pedro Bandeira
em "Por enquanto eu sou pequeno"
 
 
 
"Por enquanto eu sou pequeno" de Pedro Bandeira
Ilustração: Attílio 
 
 
RESUMO
 
"É um livro que eu escrevi com imenso prazer. Criei cada um destes poeminhas pensando na minha própria infância, nos divertidos versinhos tipo "Batatinha quando nasce" que a gente tinha de decorar para exibir-se para as visitas. Mas, principalmente, escrevi cada verso lembrando dos sonhos da infância, quando a gente descobre que um dia virará "gente grande". Que tempo gostoso! E o mais gostoso de tudo é virar gente grande sem nunca esquecer como foi bom ter sido criança!" (daqui)

sexta-feira, 27 de março de 2026

"A Mocidade" - Poema de Olavo Bilac

 


Viggo Johansen
(Danish painter, 1851-1935), Children Painting Spring Flowers, 1894.
Skagens Museum


A Mocidade 


A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a primavera!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis, 1904.
 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Inseto" - Poema de Alice Gomes

 
 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626
1679),
"Study of Butterfly and Insects", c. 1655. National Gallery of Art.
 
 

Inseto


A lagarta comia
comeu
comerá
a polpa doce de uma bela pera.

Já farta de comer, de digerir
Procurou uma fresta para dormir. 

E dorme
dormirá
dormiria
Tanto de noite como em pleno dia.

Durante o sono mudou forma e cor
Já não parece bicho mas flor.


Alice Gomes, em "Bichinho Poeta"


 
Jan van Kessel, the Elder, "Insects and Fruit", Rijksmuseum.


"A marca de sua ignorância é a profundidade da sua crença na injustiça e na tragédia. O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta."


"The mark of your ignorance is the depth of your belief in injustice and tragedy. What the caterpillar calls the end of the world, the master calls a butterfly."

Richard Bach, "Illusions: The Adventures of a Reluctant Messiah" - Página 134;
Publicado por Delacorte Press, 1977. 
 

 
 Jan van Kessel, the Elder, "Insects"Fitzwilliam Museum  



"Se todos os insetos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos toda a vida na Terra acabaria. Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos todas as formas de vida floresceriam."

Jonas Salk

(Médico, virologista e epidemiologista norte-americano (1914–1995), mais conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio, que, em sua homenagem, ficou conhecida como Vacina Salk.)




Jan van Kessel, the Elder, "Insects" (A Sprig of redcurrants with an elephant hawk moth,
a ladybird, a millipede and other insects)
, 1657.



Artefato nipônico


A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


Adélia Prado, "A Faca no Peito", 1988;
"Poesia Reunida", 1991, p. 381,

São Paulo: editora Siciliano



Jan van Kessel, the Elder, "Butterflies, other insects and flowers", 1659, High Museum of Art.