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domingo, 5 de janeiro de 2020

"O Relógio" - Poema de Vinicius de Moraes


Morgan Weistling, Pocket Watch Girl with Grandfather



O Relógio


Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu ti-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
   Tic-tac...

Rio de Janeiro, 1970 

Vinicius de Moraes 




Morgan Weistling, In Her World



Livros


"Não viajo sem livros, nem na paz, nem na guerra… pois não se pode dizer o quanto eu me repouso e demoro nessa consideração de que eles estão ao meu lado para me darem prazer quando preciso e em reconhecer quanta ajuda eles me trazem à vida. É a melhor provisão que tenho encontrado para esta viagem humana e sinto uma pena extrema das pessoas inteligentes que deles se privam."


Michel de Montaigne, in ‘Dos Três Comércios’



A portrait of Michel de Montaigne (1533–1592).
 Photo: Stefano Bianchetti/Corbis via Getty Images. 


Cortesão e ensaísta francês, Michel Eyquem de Montaigne nasceu a 28 de fevereiro de 1533, no Château de Montaigne, pertença da sua família por aquisição, perto de Bordéus. O pai era um advogado de ideias progressistas e que havia combatido em Itália, e a mãe uma judia espanhola convertida ao protestantismo. Em conformidade com as conceções que o pai mantinha acerca da educação, foi enviado enquanto recém-nascido para casa de gente humilde, para que se pudesse recordar para toda a vida dessa qualidade.

Estudou no Colégio de Guyenne de Bordéus, fazendo estudos superiores de Direito também em Bordéus e em Toulouse, tornando-se depois conselheiro na Court des Aides de Périgueaux. Em 1557 foi nomeado conselheiro do Parlamento de Bordéus, e em 1561 seria cortesão junto de Carlos IX. A morte de um amigo, Etienne de la Boëtie, com apenas trinta e dois anos de idade, causou-lhe tamanho desgosto que se viu forçado a afastar da corte, em 1563.

Casando em 1565, viu morrerem-lhe quatro filhos quase à nascença, restando-lhe apenas uma filha. Retirou-se com a sua família para o castelo senhorial da família em 1570, ano da morte da sua mãe, apenas dois anos depois da do próprio pai. Aí completou os primeiros dois volumes dos seus Essais (Ensaios), que publicou em 1580. O termo 'Ensaios' seria cunhado pelo autor para designar o estilo literário a que se dedicou, ao anotar pensamentos, memórias, opiniões e incidentes da sua vida quotidiana.

 Com a deflagração da Guerra Civil de França, recusou-se a tomar medidas para a defesa da sua propriedade, dando licença aos seus soldados e escancarando as portas do seu castelo. Montaigne pensava que nada encorajava tanto o uso das armas com a sua presença.

Sofrendo de pedra nos rins, aproveitou a ocasião para viajar em busca de águas termais, percorrendo a Lorena, a Alsácia e a Baviera, e chegando a Itália através de Veneza. Encontrava-se há algum tempo em Roma quando recebeu a notícia de que havia sido nomeado governador de Bordéus, em 1581.

Montaigne desempenhava o seu segundo mandato como governador, um surto de peste bubónica irrompeu em Bordéus, numa altura em que se encontrava fora da cidade. Pouco se importando com a população, ou com o facto de lhe poderem chamar de cobarde, recusou-se a entrar na cidade, deixando aos seus subalternos a tarefa de a dirigir nesses momentos de crise.

Em 1588 foi feito prisioneiro pelos membros da Liga Protestante, mas libertado da Bastilha ao fim de algumas horas. Católico moderado, manteve-se fiel a Henrique III durante algum tempo, até se aperceber da inevitabilidade da vitória do primo, o futuro Henrique IV.

Retirando-se nesse mesmo ano para o Castelo de Montaigne, publicaria uma edição aumentada dos seus Ensaios (Essais). Aí faleceu, vítima de uma infeção na garganta, a 13 de setembro de 1592. (Daqui)


domingo, 29 de setembro de 2019

"Poema Pial" - Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), The Nut Gatherers, 1882



POEMA PIAL


Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)


Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias. 

Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez. 

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro. 

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco. 

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis. 

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve. 

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias! 

s.d.


Fernando Pessoa

Quadras ao Gosto Popular
 (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) 
Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 120-121.

terça-feira, 30 de julho de 2019

"Meus brinquedos" - Poema de Clarice Pacheco


Meus brinquedos


De repente,
Ao lembrar dos brinquedos queridos,
Que ficaram esquecidos
Dentro do armário.
Me bate uma saudade,
Me bate uma vontade,
De voltar no tempo,
De voltar ao passado.
Mas nada acontece,
Nada parece acontecer,
E eu choro,
Choro como o bebê que fui,
E a criança, que quero voltar a ser.
Não quero crescer!


Clarice Pacheco
(1989-2002)


Michael and Inessa Garmash



Viajar pela leitura


Viajar pela leitura sem rumo, sem intenção.
Só para viver a aventura
que é ter um livro nas mãos.
É uma pena que só saiba disso
quem gosta de ler.
Experimente!
Assim, sem compromisso,
você vai me entender.
Mergulhe de cabeça
na imaginação!


Clarice Pacheco, 
Caderno de Poesias, POA, AGE Editora, 2003. 


Michael and Inessa Garmash


Sem aviso

Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida


Helena Kolody
(Haicai)

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Regime Alimentar" - Poema de Teresa Guedes

 
Franklin Franklin Brownell (American, 1857 - 1946),
Two Girls Reading, circa 1908-1909 



Regime Alimentar


Há animais herbívoros,
há plantas carnívoras
e há pessoas pagívoras.
Como...?! Como...?!
Comem de entrada um acepipe:
um livro fresco de poemas.
Depois como prato principal,
um dicionário bem recheado.
E, à sobremesa, um livro infantil ilustrado.
Este regime alimentar, à base de massa
folhada e paginada, é bastante salutar:
não há registo de pagívoros enfartados ou adoentados.


Teresa Guedes
(1957 – 2007)

quarta-feira, 27 de março de 2019

"A bailarina" - Poema de Cecília Meireles


Edgar Degas, The Dancing Class, 1872



A bailarina 


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


Cecília Meireles

(Ou Isto ou Aquilo, Ed. Nova Fronteira)



Thomas Eakins (1844–1916), The Dancing Lesson, 1878,
 Metropolitan Museum of Art, New York



“Quando perdemos o direito de ser diferentes perdemos o privilégio de ser livres.”

Charles Evans Hughes,
(1862-1948)


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

"Ser criança" - Poema de Tatiana Belinky


Emile Claus, The Little Sister, 1881 



Ser criança

 
Ser criança é dureza-
Todo mundo manda em mim-
Se pergunto o motivo,
Me respondem “porque sim”.

Isso é falta de respeito,
“Porque sim” não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém gosta!

Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses “podes” e “não podes”,
Pra aceitar sem se ofender!

Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!
Emile Claus, Children Eating Turnips, 1884, Private collection


"As crianças acham tudo em nada, os homens não acham nada em tudo."

(Giacomo Leopardi)



 Giacomo Leopardi (daqui) 


Escritor e filósofo italiano, Giacomo Leopardi nasceu a 29 de junho de 1798 em Recanati, nos então Estados da Igreja. O pai, um conde italiano excêntrico, sinistro e pálido, era tido com último homem a usar uma espada em Itália. Determinou que à criança só serviriam trajes negros, mostrando que a disciplina se deveria sobrepor aos enfeites de uma mãe, a quem entregou por sua vez o governo da casa.

Entregou o filho aos seis anos de idade aos ensinamentos de precetores que lhe ensinaram a mestria dos clássicos gregos e latinos. O pai, proprietário de uma biblioteca particular composta por cerca de vinte mil volumes, desafiava então o jovem Giacomo a fazer traduções, julgando ser este o melhor meio de o introduzir à erudição. Assim, aos dezasseis anos, já revelava autoridade suficiente para escrever um ensaio em que denunciava os erros dos autores clássicos. O seu primeiro livro, Saggio Sugli Errore Popolari Degli Antichi, embora escrito em 1815, permaneceu na posse do autor, e só veio a ser publicado nove anos após a sua morte.

Sabe-se que durante esta época Giacomo Leopardi foi vítima de um problema cerebrospinal e da cegueira progressiva de um olho. As suas deficiências físicas, provocadas ou por doença degenerativa, acidente, ou mazelas de duelo, fizeram com que se recatasse da companhia feminina.
Se os poemas que começou por escrever eram inflamados de patriotismo saudosista, queixumes com uma mão no peito e outra na testa, como All' Italia', publicado em 1819, a sua estadia em Roma por volta de 1823 aproximou-o dos círculos germânicos. 

Mudando-se para Bolonha em 1825, passou a trabalhar como professor particular, ao mesmo tempo que ia escrevendo obras que, embora continuando a manter a forma clássica, adotavam o conteúdo romântico alemão. Assim, Versi (1826) e Operette Morale (1827) refletem bem a transição no cunho do seu autor. Em 1830 partiu de Recanti para Florença mas, três anos depois optou definitivamente por Nápoles, onde escreveu Ginestra (1836).

Tido como o representante do Romantismo em Itália, Leopardi faleceu em Nápoles, vítima de um edema pulmonar, a 14 de junho de 1837. (Daqui)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

"Na idade própria" - Poema de Maria Rosa Colaço


Felix Schlesinger (Germany, 1833-1910), Visiting Grandfather, Date unknown



Na idade própria


Na idade própria foste p'rá escolinha
aprender com letra muito redondinha.
Fizeste tricot, parecias rainha,
não sujaste os bibes, sempre arrumadinha.
Saíste da escola, sempre caladinha,
veio um namorado, mas tão seriazinha,
puseste o véu branco, tão bem casadinha!
De manhã à noite, tão asseadinha,
lavas bem os tachos, esfregas a cozinha,
pões as flores de plástico na tua salinha.
Como Deus mandou, cresce a barriguinha,
passam nove meses nasce-te a filhinha.
Fazes mais tricot, lavas mais roupinha.
Passam-se os anos, já és avozinha,
fazes mais tricot p'rá tua netinha.

Teu rosto, menina, não me sai da ideia,
vejo as tuas mãos a tecer a teia
em que, sem saberes, te vão enredar,
as aranhas anhas, do teu tricotar.
Se quiseres ser gente já não é capaz,
a morte na frente, o tédio p'ra trás.
Mas tens de ser gente, tens de ser capaz,
dois pontos à frente, nenhum para trás!


Maria Rosa Colaço

terça-feira, 3 de julho de 2018

"A Casa" - Poema de Vinicius de Moraes


Carlos Páez Vilaró (Uruguayan, 1923–2014), Casapueblo



A CASA


Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão

Ninguém podia
Dormir na rede
Porque a casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali

Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.


(A CASA, Rio de Janeiro, 1970)





Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto, não tinha nada. Os versos de Vinicius de Moraes musicados por Toquinho para o disco infantil A Arca de Noé, de 1980, são conhecidos por todos. Mas pouca gente sabe como era o fim original de A Casa, não gravado em disco: Mas era feita com pororó / Era a casa de Vilaró.

Vilaró é o artista uruguaio Carlos Páez Vilaró. E a “casa muito engraçada”, a Casapueblo, sua mais suntuosa obra. Em 1958, o artista plástico, cineasta e escritor – ou, como ele se define, “um fazedor de coisas” – construiu uma pequena casa de lata em Punta Ballena, no litoral uruguaio, pertinho de Punta del Este. Aos poucos, foi erguendo novas estruturas e cômodos, sempre em linhas arredondadas. Depois pintou tudo de branco, “para interagir com o azul do céu”, disse.

Vinicius, que por um tempo foi embaixador do Brasil no Uruguai, era amigo de Vilaró e presença constante na Casapueblo. Uma manhã, para agradar as filhas do artista, começou a improvisar a trova infantil: Era uma casa muito engraçada… Gostou do resultado e, mais tarde, com algumas aparafusadas, saiu a poesia. E a música.

Até a morte de Vilaró, em fevereiro de 2014, a casa continuou a ser construída. O artista morou até o fim da vida na parte mais alta da edificação, que também funciona como hotel e restaurante. Todos os mais de 70 quartos são batizados com os nomes de seus primeiros hóspedes: Pelé, Alain Delon, Brigitte Bardot, Robert de Niro. Além do quarto Vinicius de Moraes, claro. (Daqui)





domingo, 4 de fevereiro de 2018

"O cavalo e a estrela" - Poema de Matilde Rosa Araújo


Edgar Degas, At the Stables, Horse and Dog, c. 1862 



O cavalo e a estrela


Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.

Era uma vez um pastor
No abrigo de uma serra,
Chamada Serra da Estrela
Quase no cabo da terra.

No Inverno a neve branca
O chão da serra cobria
E naquela solidão
O pastor assim vivia.

As ovelhas em seu redor
Faziam uma roda mansa:
Eram mantas de ternura
Numa roda que não cansa.

Para as ovelhas guardar
- Que os lobos matam rebanhos!
O pastor tinha um cão
De meigos olhos castanhos.

Havia silêncio na serra,
Tudo na serra dormia,
Quando apareceu um cavalo
A correr na noite fria.

Caía o luar na serra
Tudo na serra luzia,
Quando apareceu o cavalo
A correr na serra fria.

Foi acordado o pastor,
Ladrou o seu cão fiel,
E ali parou o cavalo,
Castanho da cor do mel.

Caía o luar na serra
E o cavalo ali parado:
Não era um lobo feroz,
Não era um lobo esfaimado.

Caiu uma estrela ardente
Na sua cabeça tão fina:
Eram os olhos mais azuis
Como a água de uma mina.

Brilhava de mansidão
O seu olhar sem sossego
E à lembrança do pastor
Vem a água do Mondego.

Começa o filho a falar:
- Sou filho da Primavera
E eu vim anunciar
Que ela está na serra à espera.

Esta estrela, sobre a testa,
Queima meu corpo de mel,
Cega meus olhos azuis
Numa fogueira cruel.

Adeus pastor, meu amigo,
Fica com o teu cão, teu gato,
Já podes sair do abrigo,
Eu já te dei o recado.

O pastor tinha uma flauta
Onde seu sonhar dormia
E tocou-a de madrugada
Com cristais de neve fria.

E o cavalo correu, voou,
Ganhou asas a arder:
O cavalo cor de mel
Era a manhã a nascer.

Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.





Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.

Era uma vez um pastor
No abrigo de uma serra,
Chamada Serra da Estrela
Quase no cabo da terra.

No Inverno a neve branca
O chão da serra cobria
E naquela solidão
O pastor assim vivia.

As ovelhas em seu redor
Faziam uma roda mansa:
Eram mantas de ternura
Numa roda que não cansa.

Para as ovelhas guardar
- Que os lobos matam rebanhos!
O pastor tinha um cão
De meigos olhos castanhos.

Havia silêncio na serra,
Tudo na serra dormia,
Quando apareceu um cavalo
A correr na noite fria.

Caía o luar na serra
Tudo na serra luzia,
Quando apareceu o cavalo
A correr na serra fria.

Foi acordado o pastor,
Ladrou o seu cão fiel,
E ali parou o cavalo,
Castanho da cor do mel.

Caía o luar na serra
E o cavalo ali parado:
Não era um lobo feroz,
Não era um lobo esfaimado.

Caiu uma estrela ardente
Na sua cabeça tão fina:
Eram os olhos mais azuis
Como a água de uma mina.

Brilhava de mansidão
O seu olhar sem sossego
E à lembrança do pastor
Vem a água do Mondego.

Começa o filho a falar:
- Sou filho da Primavera
E eu vim anunciar
Que ela está na serra à espera.

Esta estrela, sobre a testa,
Queima meu corpo de mel,
Cega meus olhos azuis
Numa fogueira cruel.

Adeus pastor, meu amigo,
Fica com o teu cão, teu gato,
Já pode ssair do abrigo,
Eu já te dei o recado.

O pastor tinha uma flauta
Onde seu sonhar dormia
E tocou-a de madrugada
Com cristais de neve fria.

E o cavalo correu, voou,
Ganhou asas a arder:
O cavalo cor de mel
Era a manhã a nascer.

Esta história muito antiga
Contou-ma foi minha mãe:
Quem conta um conto acrescenta um ponto
E eu acrescento-o também.


Ler mais: http://poesia-portguesa-no-feminino.webnode.pt/products/o-cavalo-e-a-estrela/

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

"Natal dos pobres" - Poema de Leonel Neves


Kelly Vivanco, “Half Asleep”, 2009



Natal dos pobres 


Quando a mulher adormeceu
naquela noite de Natal,
o homem foi, pé ante pé,
pôr um sapato (dela, não seu)
com um embrulho de jornal
na lareirinha da chaminé.

Um casal pobre... um ano mau...
Era um pedaço de bacalhau.

Ora alta noite, pela janela,
com fome e frio, entrou um gato
que, no escuro, cheirando aquela
comida boa no sapato,
rasgou o embrulho, comeu, comeu
e, quente e farto, adormeceu.

De manhã cedo, ela acordou,
foi à cozinha e viu o gatinho
adormecido no seu sapato.
Voltando ao quarto, feliz, falou
para o seu homem: — Meu amorzinho,
como soubeste que eu queria um gato?





segunda-feira, 30 de outubro de 2017

"O gaio e o papagaio" - Poema de Leonel Neves


O Gaio-comum (Garrulus glandarius) é uma ave da família CorvidaeFotografia  de Marek Szczepanek



O gaio e o papagaio


Não sei quem teve a ideia
de contar a um velho gaio
que outra ave papagueia
e se chama papagaio.

Disse o gaio: «Papa-quê?»
Disse o outro: «Papa-gaio!»
Disse o gaio: «Pois você
diga lá a esse bicho
que, se não muda de nome,
não me escapa, ainda o lixo;

que um gaio tem muita fome,
que sou um papão de um raio,
que este velho gaio o papa,
que sou papa-papagaio.»

Quando isto contaram a
um medroso papagaio,
gaguejou: «Eu... sou... pa... pa...»
e depois teve um desmaio.

Engasgou-se a rir, o gaio,
do desmaio do papagaio.





Papagaio-verdadeiro - Amazona aestiva - conhecido vulgarmente como papagaio-verdadeiro, ajuruetê, papagaio-grego
ajurujurá, curau, papagaio-comum, papagaio-curau, papagaio-de-fronte-azul e trombeteiro, é uma ave da família Psittacidae.
É nativa do Brasil oriental. Fotografia de Jair da Costa Moreira



Papagaio gaio 


Papagaio insensato, 
que te fez assim? 
Que não sabes falar 
brasileiro 
e já sabes latim?

Papagaio insensato, 
ave agreste, do mato, 
que diabo em ti existe, 
verde-gaio, 
que nunca estás triste?

Papagaio do mato, 
se nunca estás triste, 
quem foi que te ensinou, 
por maldade, 
a palavra saudade?

Papagaio triste, 
papagaio gaio, 
quem te fez tão triste 
e tão gaio, 
triste mas verde-gaio?

Papagaio gaio, 
quem te ensinou, 
em mais 
do mato, a repetir, 
papagaio, 
tanto nome feio?

Gaio papagaio, 
gaio, gaio, gaio, 
que repetes tudo... 
Antes fosses 
um pássaro mundo.

Papagaio do mato, 
se nunca estás triste, 
quem foi que te ensinou, 
por maldade, 
a palavra saudade?

Papagaio gaio. 
Gaio, gaio, gaio.




sábado, 7 de outubro de 2017

"As fadas" - Poema de Antero de Quental


William Henry Margetson (British painter, 1861-1940), 
Cinderella and the Fairy Godmother, Date unknown 



As fadas


As fadas...  eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar... 
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar... 

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer... 
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder... 

O vestir… são tais riquezas,
Que rainhas, nem princesas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu... 

Quando a noite é clara e amena
E a lua vai mais serena,
Qualquer as pode espreitar,
Fazendo rodas, ocupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes de algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos batizados reais.

Morgana é muito enganosa;
Às vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir... 
Ora festiva, ora grave,
E voa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titânia, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja glória 
Enche as páginas da história
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas têm mando nos ares;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquela vara famosa,
A vara maravilhosa, 
A varinha de condão.

O que elas querem, num pronto,
Fez-se ali! parece um conto... 
Mesmo de fadas...  eu sei!
São condões que dão à gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre criancinha
Se quis ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palácios, num momento... 
Beleza, que é um portento... 
Riqueza, que nem se diz... 

Ou então, prendas, talento,
Ciência, discernimento,
Graças, chiste, discrição... 
Vê-se o pobre inocentinho
Feito um sábio, um adivinho,
Que aos mais sábios vai à mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não há de rir.
Querem elas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes há de mentir.

Quem as ofende...  Cautela!
A mais risonha, a mais bela,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga agressiva,
É serpente que ali está!

E têm vinganças terríveis!
Semeiam coisas horríveis,
Que nascem logo no chão... 
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com asas que falam!
Um anão preto! Um dragão!

Ou deitam sortes na gente... 
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer... 
É-se morcego ou veado... 
E anda-se assim encantado,
Enquanto a fada quiser!

Por isso quem por estradas
For, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o céu,
Deve com jeito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
Até ao chão o chapéu.

Porque a fortuna da gente
Está às vezes somente
Numa palavra que diz;
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes já deitado,
Mas sem sono, inda acordado
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um belo dia,
Me quisesse a mim fadar... 

O que seria? Um tesouro?
Um reino? Um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palácio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quisesse,
Pedir também que me desse
Um condão, para falar
A língua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos... 
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite sonhando,
Alguma fada, engraçando
Comigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a ver... 

E que amanhã acordasse
E me achasse...  eu sei? Me achasse
Feito um príncipe, um emir!... 
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando... 
Deixa-me já, já dormir!





sábado, 2 de setembro de 2017

"Os cinco dedos da mão" - Poema extraído do livro de Leitura da 3ª classe de 1950


Émile Munier, Mother and Child, 1892



Os cinco dedos da mão 


Nós temos em cada mão
Cinco dedos desiguais: 
um maior dois mais pequenos
E outros dois ainda mais.

É vê-los em seu trabalho
Que harmonia e perfeição!
Mexe um? logo os outros todos
O seu auxílio lhe dão.

E quando o indicador
Mostra aos outros o caminho,
- Vamos – diz o pai de todos,
E lá vai tudo unidinho

Mais fidalgo, o anelar
Quase sempre anda enfeitado.
Mas ai do pobre meiminho,
Se não lhe andasse encostado!

Porém o mais cuidadoso
É o dedo polegar.
Nada os outros fazem, nada,
Que os não vá logo ajudar.

- Mas, porque razão, (pergunta
A Laurinha um dia à mãe)
Sendo todos tão diferentes,
Se dão entre si tão bem?

- Minha filha, diz-lhe a mãe,
É para nos ensinar
Que uns aos outros, neste mundo,
Nos devemos ajudar.

E que bem feliz seria
Certamente a humanidade
Se por toda a gente fosse
Praticada esta verdade.


(Extraído do livro de Leitura da 3ª classe de 1950)



Émile Munier, A Tender Embrace, 1887 



"Aprecio muito a educação dos bons conventos, mas ainda dou mais valor à de uma boa mãe quando esta pode livremente entregar-se à sua missão." 



quinta-feira, 6 de julho de 2017

"Madrigal a uma estrela" - Poema de Sebastião da Gama


Vincent van Gogh, Estrada com Ciprestes e Estrela, maio de 1890



Madrigal a uma estrela


De histórias de estrelas
ninguém quer saber.
Não conto, não conto...
Quem é que te quer,

história da estrela
que fica por cima
da minha janela?
Tão bela! Tão bela!

Comigo te guardo
na vida e na morte.
Serás um segredo...
Será uma estrela

que eu leve a meu lado
na vida que leve...
Escura que seja
- que vida tão clara!

Que noite tão branca
a noite que eu durma
(debaixo da terra)
debaixo da estrela!

Não conto. Não digo.
Comigo te guardo.
Assim tu, ó estrela,
me guardes contigo...




domingo, 18 de dezembro de 2016

"Os Coelhinhos" - Poema de Odylo Costa Filho


Frederick Morgan, "Feeding the Rabbits" also known as "Alice in Wonderland"



Os Coelhinhos 


Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.

E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.

E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.

Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.


In Os bichos do céu, poesia (1972)



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Bolinhas de sabão" - Poema de Valéria Tarelho


Luigi Amato (italian painter, 1889-1961), Blowing Bubbles



Bolinhas de sabão


Bolinhas de sabão
sobem sobem
até que explodem
desaparecem no ar

Mais um sopro
e lá vão elas
- tão belas e circulares -
soltas tontas pelos ares

Cintilantes e molhadas
as bolhas são recheadas
de gostosas gargalhadas
e doces sonhos de criança

Todas elas redondinhas
grandes e pequenininhas
pairam brilham bailam
se movimentam
na dança
no embalo do vento

Sobem sobem
se desmancham
- uma a uma
então estoura -
e vão-se embora por fim

Nem assim
o encantamento
evapora





Danny MacAskill's Imaginate


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"Horas" - Poema de Violeta Figueiredo


Victor Gilbert, Dans les Jardins des Champs Elysées, 1897 



HORAS


Sou pequena,
finjo que ainda não acordei.
"- Oito horas", chama a minha mãe.
O quê? Não quero horas todas juntas,
às oito, às doze, às dez
de cada vez!!
"- São horas", repete ela.
Ah, assim está bem.


terça-feira, 10 de maio de 2016

"A Infância" - Poema de Olavo Bilac


The Boating Party by Mary Cassatt, 1893–94, National Gallery of Art, Washington



A Infância


O berço em que, adormecido,
Repousa um recém-nascido,
Sob o cortinado e o véu,
Parece que representa,
Para a mamãe que o acalenta,
Um pedacinho do céu.

Que júbilo, quando, um dia,
A criança principia,
Aos tombos, a engatinhar...
Quando, agarrada às cadeiras,
Agita-se horas inteiras
Não sabendo caminhar!

Depois, a andar já começa,
E pelos móveis tropeça,
Quer correr, vacila, cai...
Depois, a boca entreabrindo,
Vai pouco a pouco sorrindo,
Dizendo: mamãe... papai...

Vai crescendo. Forte e bela,
Corre a casa, tagarela,
Tudo escuta, tudo vê...
Fica esperta e inteligente...
E dão-lhe, então, de presente
Uma carta de A.B.C...





The Child's Bath (The Bath) by Mary Cassatt, 1893, oil on canvas



"Sem roupa, teu corpo está nu. Sem filhos, tua vida está despida."




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