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sábado, 26 de setembro de 2026

"Polvo" - Poema de José Jorge Letria



Jody Keen
(Australian artist), 'Octupus deep blue sea',
Acrylic, 50 x 40 cm. 


Polvo


Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que não tem tentáculos a medir
e que sem sair do mesmo sítio
parece que está sempre a partir.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Eu sei que é veloz e inteligente
e que até usa para escrever
a mais negra tinta permanente.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Com o seu olhar penetrante,
agitando os braços todos
parece mesmo um gigante.

Senhor polvo, o que nos traz de novo?
Se quiser tornar-se escritor
terá pela certa muito para contar
nas páginas feitas de algas
que cobrem as sereias no fundo do mar. 


José Jorge Letria,
em "O Alfabeto dos Bichos"
 
 
 
 O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria (n. 1951),
Ilustrações de André Letria (n. 1973),
Oficina do Livro, 2005.
 

SINOPSE 


O Alfabeto dos Bichos de José Jorge Letria e André Letria

Idade recomendada: 6 a 9 anos

Da águia à zebra, sem esquecer o macaco, o tubarão e até o quivi, este livro ajuda as crianças a conhecer melhor uma série de animais, ao mesmo tempo que lhes relembra o alfabeto.
Os textos, pequenos poemas em rima a apresentar os diferentes bichos, são da autoria de José Jorge Letria e as ilustrações, duas para cada animal, do seu filho, André Letria. (daqui)
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Onde está o Gato? - Poema de Luísa Ducla Soares



Shawn Braley
(American illustrator, b. 1972), 'Magic carpet ride'
 

Onde está o Gato?


Os burros tocam viola.
Os ratos varrem a rua,
As meninas usam barba,
Eu vivo sempre na lua.

Os carapaus têm lã,
As galinhas têm espinhas,
As vacas coca-cola
E chocolates as vinhas.

Os gatos calçam sapatos,
Olha a trança das serpentes,
As moscas falam francês,
Os galos lavam os dentes.

As casas voam no ar,
As nuvens dormem no chão,
Os olhos fazem chichi
E crescem rosas na mão.

Miúdo que estás a ouvir-me,
Pois tens orelhas de rã,
Diz lá o que está errado
Ou faço queixa à mamã.


Luísa Ducla Soares, in Conto estrelas em ti;
17 poetas escrevem para a infância.



'Conto estrelas em ti' - 17 poetas escrevem para a infância.
Coordenação: José António Gomes; Ilustração: 
João Caetano 
Porto: Campo das Letras, 2000.

 

SINOPSE

Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

Autores: Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Vieira e Violeta Figueiredo.
Coordenação: José António Gomes. 
 
 
 Ilustrações de Shawn Braley

Shawn Braley, 'Watchful'
 
 

Shawn Braley, 'Lean on me'
 
 

Shawn Braley, 'Best Friends'
 
 

Shawn Braley, 'Osmosi'
 
 

Shawn Braley, 'Thinking Outside the Box'


"A inteligência no gato é menosprezada."

"Intelligence in the cat is underrated."

Louis Wain,
in "The Quotable Feline"‎, de Jim Dratfield - Chronicle Books Llc, 1997.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Chegou o Outono" - Poema de Alice Gomes

 


Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831–1910),
 "Under the Umbrella"
("Enfants allant à l'école sous un parapluie"), 1884.


Chegou o Outono


Chega o Outono!
As andorinhas
despedem-se das outras avezinhas
e vão pelos ares fora
vão-se embora
embora?
Não!
Que voltam, voltarão…
Quando a bela estação
da Primavera
que antecede ao Verão
oferecer melhor vida.
Não têm agasalhos nem comida,
vão para terras quentes
à procura do sol que as consola
Mas nós, crianças, 
nós, 
todos contentes
partimos para a escola.


Alice Gomes, in 'Bichinho Poeta', 1970;
in 'Poesia portuguesa para crianças - Antologia'

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"Mistérios da Escrita" - Poema de Álvaro Magalhães



Georgia O'Keeffe (American modernist painter and draftswoman,
1887–1986), "Sunflower", 1921

 

Mistérios da Escrita


Escrevi a palavra flor.
Um girassol nasceu,
No deserto de papel.
Era um girassol
como é um girassol.
Endireitou o caule,
sacudiu as pétalas
e perfumou o ar.
Voltou a cabeça
à procura do Sol.
E deixou cair dois grãos de pólen
sobre a mesa.
Depois cresceu até ficar
com a ponta de uma pétala
fora da Natureza.


Álvaro Magalhães
in "O Limpa-Palavras e outros poemas", 
Porto, Edições Asa, 2000.



Georgia O'Keeffe, "Sunflower", 1940–1942. Oil on canvas, 
 Private Collection.


Sol no girassol.
Sombra desenha outra flor
no corpo dourado.


Aníbal Beça (1946–2009) 
 
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Convite" - Poema de José Paulo Paes



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905),
A Little Coaxing (Câlinerie), 1890


Convite
 
 
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.

Como cada dia
que é sempre um novo dia.

Vamos brincar de poesia? 
 

José Paulo Paes (1926–1998),
em "Poemas para Brincar", 1991,
Editora Ática
 


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
 
Le Livre De Prix, 1901, Private collection.


"Não há visão mais bela do que contemplar uma criança a ler."
 
Günter Grass
[Escritor, dramaturgo, poeta, intelectual e artista plástico alemão, 1927–2015]

 

sábado, 5 de setembro de 2026

"Viver com os outros tem regras" - Poema de José Jorge Letria

 
 
Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Daydreams"
 

Viver com os outros tem regras
 

Na casa em que vives
marca bem o teu lugar
e pensa que o dos outros
nunca deves ocupar.

Tens tarefas para cumprir
e delas deves dar conta;
uma coisa não se faz
só porque a queres ver pronta.

Divide bem as tarefas
que tens com os teus irmãos;
se a divisão estiver certa,
ainda vos sobram mãos.

Sobra tempo para brincar
depois do dever cumprido,
sobra tempo para sonhar
se o tempo for bem gerido.

E não deixes para amanhã
o que hoje podes fazer;
aquilo que agora adias
dar-te-á menos prazer.

Não sejas desarrumado
com roupas e com cadernos;
tarefas que tu desleixas
para outros são infernos.

Não deites pelas janelas
para depois se apanhar
o lixo que tu produzes
e que nem tentas limpar.

Viver com outros tem regras
que agora irás aprender;
se hoje sem querer as negas,
muito mal hás de crescer.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

"Os sete gatinhos" - Poema de Pedro Bandeira



Robert Braithwaite Martineau (English Victorian painter, 1826–1869),
'A Girl with a Cat', c. 1860



Os sete gatinhos


Bete tem sete gatinhos.
Um foi tomar leite, ficaram seis.
Bete tem seis gatinhos.
Um fugiu do cão, ficaram cinco.

Bete tem cinco gatinhos.
Um foi pegar o rato, ficaram quatro.
Bete tem quatro gatinhos.
Um foi comer mingau, ficaram três.

Bete tem três gatinhos.
Um foi ao cinema, ficaram dois.
Bete tem dois gatinhos.
Um foi tomar banho, ficou só um.

Bete tem um gatinho,
tem um gatinho só.
Bete vai dar carinho
pra ele o nome Filó.

Filó é fofo e dengoso,
gostoso de se agradar.
Nem adianta pedir,
esse ninguém vai levar!


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno",
Editora Moderna

 ♥♥♥

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"O macaco que queria voar" - Poema de Duda Machado

 
 
Gabriel von Max (Prague-born Austrian-German painter, and professor
of history painting, 1840–1915), Going to Sleepǃ, c. 1900


O macaco que queria voar


Quinho era um macaco diferente.
Não gostava de comer banana
Nem de ficar imitando gente.

Mas não podia ver passarinho
Que tinha vontade de voar.
Parecia até um maluquinho,

Se deitava, rolava no chão,
Saltava entre os galhos e guinchava.
Voar que é bom, não voava não.

Desistia, ficava calado,
A mão no queixo, um jeito sério
E o ar de quem está concentrado.

Aí é que parecia gente.
Nem se coçava, cruzava os braços,
Querendo pensar logicamente. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

"A mão a tapar a boca" - Poema de José Jorge Letria



Maria Wunsch
(Austrian painter, 1862–1898), 'A Little Secret', 1894.


A mão a tapar a boca 


Pela boca morre o peixe
e dela sai muita asneira,
e ai daquele que a deixe
falar de qualquer maneira.

Uma boca mal-educada
nunca tem moderação
e tanto diz disparates
como um qualquer palavrão.

Deves ter a mão ligeira
para a poderes moderar
no momento em que bocejas
ou na hora de espirrar.

Se o espirro ou mesmo a tosse
não forem bem controlados,
tu podes deixar sem querer
muitos outros constipados.

A boca é nossa amiga
mas deve ser vigiada
com atenção e cuidado
à saída ou à entrada.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 

Maria Wunsch, 'Little girl with a meadow flowers bouquet', n.d.


"Para nós, as crianças revelaram que disciplina é resultado somente de um desenvolvimento completo, 
do funcionamento mental auxiliado pela atividade manual."

Maria Montessori
 (1870–1952),  
"Para Desenvolver o Potencial Humano",
 Papirus Editora; 2003.
 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

"Vai já pra dentro, menino" - Poema de Pedro Bandeira



Ralph Hedley (British painter, woodcarver and illustrator, 1851–1913), 
'Kept in', 1908.


Vai já pra dentro, menino


Vai já pra dentro menino!
Vai já pra dentro estudar!
É sempre essa lengalenga
Quando o que eu quero é brincar...

Eu sei que aprendo nos livros,
Eu sei que aprendo no estudo,
Mas o mundo é variado
E eu preciso saber tudo!

Há tempo pra conhecer,
Há tempo pra explorar!
Basta os olhos abrir,
E com o ouvido escutar.

Aprende-se o tempo todo,
Dentro, fora, pelo avesso,
Começando pelo fim
Terminando no começo!

Se eu me fecho lá em casa,
Numa tarde de calor,
Como eu vou ver uma abelha
A catar pólen na flor?

Como eu vou saber da chuva
Se eu nunca me molhar?
Como eu vou sentir o sol,
e eu nunca me queimar?

Como eu vou saber da terra,
Se eu nunca me sujar?
Como eu vou saber das gentes,
Sem aprender a gostar?

Quero ver com os meus olhos,
Quero a vida até o fundo,
Quero ter barros nos pés,
Eu quero aprender o mundo!


Pedro Bandeira,
"Mais respeito, eu sou criança!"
Ed. Moderna
 
 

Ralph Hedley, 'Breezy Day', 1895.


"A maior dor do vento é não ser colorido."
 
Mário Quintana, Poesia Completa, RJ: Editora Aguilar, 2005.
Excerto de Leitura Dinâmica, in Porta Giratória, p.788

♥♥♥

domingo, 9 de agosto de 2026

"Dia dos Pais" - Poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni



Frederick Morgan (English painter, 1847–1927), "A Father's Return", n.d.

Dia dos Pais


Meu pai está tão velhinho, 
tem a mão branca e comprida, 
parecendo a sua vida, 
longa vida que se esvai.

E eu o lembro quando moço 
de uma atlética altivez. 
Ah! Tinha força por três! 
Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer 
que você era um gigante. 
Eu ficava radiante 
e também me agigantava.

Porque toda madrugada, 
eu quentinho do agasalho, 
ao sair para o trabalho 
o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro 
parecia leve, leve 
naquela carícia breve 
que da memória não sai. 

Depois... um beijo em mamãe 
e o meu gigante partia. 
E a casa toda tremia 
com os passos de papai. 

Mas agora o seu retrato 
muito moço, muito antigo, 
se parece mais comigo 
do que mesmo com você.

Você já lembra vovô 
e, à medida que envelhece, 
papai, você se parece 
com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai? 
Quando mamãe, de repente, 
caiu de cama, doente, 
era o pai quem cozinhava.

Tão grande e desajeitado 
a varrer... Quando eu o via 
de avental, papai, eu ria; 
eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio 
para ganhar ordenado, 
ajudar meu pai cansado, 
mas tal não aconteceu.

Papai disse estas palavras: 
Sou um operário obscuro, 
mas você terá futuro, 
será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho 
a quem devo o pão e o estudo? 
Que é pobre porque deu tudo 
à Família, à Pátria, à Fé?

Meu pai, com todo o diploma, 
com toda a universidade, 
quisera eu ser a metade 
daquilo que você é.

E quero que você saiba 
que, entre amigos, conversando, 
meu assunto vai girando 
e no seu nome recai.

Da sua força, coragem, 
bondade eu conto uma história. 
Todos veem que a minha glória 
é ser filho de meu pai.

“Um dia eu fui tomar banho 
no rio que estava cheio. 
Quando a correnteza veio, 
vi a morte aparecer.

Papai saltou dentro d’água 
nadando mais do que um peixe, 
salvou-me e disse: – Não deixe! 
Não deixe mamãe saber!”.

Assim foi meu pai, o forte 
que respeitava a fraqueza. 
Nunca humilhou a pobreza, 
nunca a riqueza o humilhou.

Estava bem com os homens 
e com Deus estava bem. 
Nunca fez mal a ninguém 
e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo 
Daquilo que não se esquece. 
E a minha voz estremece 
e há uma lágrima que cai.

Hoje sou eu o gigante 
e você é pequenino. 
Hoje sou eu que me inclino. 
Papai... a bênção, papai.

[Jornalista e poeta brasileiro, 1919–2008]
 
 ♥♥♥


Carl Larsson (Swedish painter, 1853–1919),
"Self-portrait with Brita", 1895 (watercolor)
 
O Dia do Pai (em Portugal e na Europa em geral) ou Dia dos Pais (no Brasil) é uma data comemorativa que homenageia anualmente os pais. A data varia de acordo com os países. Em Portugal e na Espanha é celebrada no dia 19 de março, enquanto no Brasil é celebrado no segundo domingo de agosto. Nos Estados Unidos e na Inglaterra é celebrado no terceiro domingo de junho.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

"Não vale fazer batota" - Poema de José Jorge Letria

 


Morgan Weistling (American painter, b. 1964), "Country Schoolhouse - 1879", 2015.


Não vale fazer batota 


Nunca deixes a pastilha
onde outros se vão sentar;
se ela se cola à roupa
quem a consegue tirar?

Respeita o lugar na fila
que não ganhas com a pressa,
desrespeitas o que espera
e o ganho pouco interessa.

E não penses que o mundo
em clubes se divide
e que a melhor das claques
é a que melhor agride.

Não gozes com os defeitos
que há no físico alheio
porque um dia a má sorte
poderá tocar-te em cheio.

Até nem és mau rapaz,
és traquina e mariola;
o pior serão as notas
que vais receber na escola.

E não uses a batota
para vencer ou avançar,
que nem sempre o batoteiro
se liberta do azar
e quando cai é a pique
depois de tanto enganar.
 
 
 José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 
 
 
Morgan Weistling, "Ethan's Lantern", 2008. 


"O homem sem paciência é como uma lamparina sem óleo."

Alfred de Musset
[Poeta, novelista e dramaturgo francês, 1810–1857]
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

"Nana mamãe" - Poema de Pedro Bandeira

 

Paul Hermann Wagner (German painter, 1852–1937),
'Consolation in Suffering', 1895. Oil on canvas.



Nana mamãe


A mamãe
não me bota mais no colo,
não bota mais,
não me embala mais o sono,
não embala mais,
não canta pra eu dormir...
não canta mais...
não bota mais,
não embala mais,
não canta mais...

Eu bem sei que já faz tempo
que ela ainda me embalava,
mas me lembro muito bem,
era assim que ela cantava:

"Dorme, dorme, filhinho,
meu anjinho inocente,
dorme, meu queridinho,
que a mamãe está contente..."

Mas o tempo passou,
passou, passou,
e a cantiga calou,
calou, calou...
e o menino foi crescendo,
crescendo, cresceu, cresceu,
mas aquela voz ficou.
ficou, ficou...

Eu agora já sou grande,
tenho quase a altura dela.
Vai chegar a minha vez
de poder cantar para ela...


Pedro Bandeira, em 'Cavalgando o Arco-íris', 
São Paulo, Moderna, 1985.

 

sábado, 18 de julho de 2026

"Havia um Menino" - Poema de Fernando Pessoa



Pál Balkay
(Hungarian painter and teacher, 1785–1846),
 'The Sister and Brother', n.d.


Havia um Menino


Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.


Fernando Pessoa (1888–1935),
in 'O Meu Tio Fernando Pessoa', de Manuela Nogueira.
Famalicão: Centro Atlântico, 2015. p. 87

[Poema dedicado ao sobrinho Luís Miguel – o Bebé –
que não queria pôr o chapéu “por causa do sol”.]


 
(daqui)



"Pedi tão pouco à vida e mesmo esse pouco a vida me negou." 


Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego' - Vol.II.
Org. e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha. Lisboa: Presença, 1990.
 
 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

"Diálogos do jardim" - Poema de Cecília Meireles



Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935), 'Her New Friend', n.d.



Diálogos do jardim


Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.

O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"

Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.

"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"

Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.

"Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"


Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...

E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"

E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.

"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"

E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce, a minha perpétua solidão.

E perguntei ao pássaro: "Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"


E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto." 
 

Cecília Meireles
(1901–1964)
in  'Dispersos'


quinta-feira, 16 de julho de 2026

"Saber dar o lugar" - Poema de José Jorge Letria


 
Real Bordalo (Artista plástico português, 1925–2017), O Elétrico, Lisboa.


Saber dar o lugar

 
No transporte em que viajas,
se logo encontras lugar,
é natural que te apresses
para nele te ires sentar.

É um direito que tens
e não deves recusar,
a não ser que alguém precise
ainda mais do lugar.

A grávida que está de pé
ou o senhor deficiente
precisam que te levantes
para que um deles se sente.

Podes perder o conforto
que repousa e sabe bem
mas ficas com a alegria
de ter ajudado alguém.

E é essa a recompensa
de uma boa educação;
afinal só estamos bem
se os outros também estão.

Se assim fores procedendo,
tendo sempre o outro em vista,
hás de ver que bem que sabe
não querer ser egoísta.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"O testamento do gato" - Poema de Luísa Ducla Soares



Regina Shadhan, 'Cat on laptop computer', n.d.


O testamento do gato 


Ai, se um dia eu morrer
não quero ser enterrado,
hei de ficar ao solinho,
em cima do meu telhado.

Levem-me três carapaus
e um pratito de leite.
Comer sempre bons petiscos
é o meu grande deleite.

Convidem três gatas pretas
com unhas bem afiadas,
Pois mesmo depois de morto
preciso de namoradas.

Ai, se eu um dia morrer
não me façam despedidas,
eu volto sempre de novo
que um gato tem sete vidas.


Luísa Ducla Soares,
in 'A Cavalo no Tempo', 2003




'A cavalo no tempo' de Luísa Ducla Soares;
Ilustração de Abigail Ascenso. Porto Editora -
Edição/reimpressão: 01-2015.


SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 5.° ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas.
A coleção Educação Literária reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura. (daqui)
 

  
Regina Shadhan, 'Three black cats playing with a mouse', n.d.
Acrylic on canvas, 20X20cm.
 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

"Quem sempre foi, sempre será" - Poema de Pedro Bandeira


Ralph Hedley
(English realist painter, woodcarver and illustrator, 1848–1913),
'Barred Out', 1896, Laing Art Gallery.


Quem sempre foi, sempre será


No passado e no futuro,
preste muita atenção,
para os dois não misturar,
pois só vai dar confusão!

Os políticos prometem,
se ganharem a eleição.
Se mentiram no passado,
no futuro mentirão!

Os ladrões não tem jeito,
pois em tudo põem a mão.
Se roubaram no passado,
no futuro roubarão!

Os cantores e as cantoras
vão cantar sua canção.
Se cantaram no passado,
no futuro cantarão!

As velhinhas tão doentes
tomam mel com agrião.
Se tossiram no passado,
no futuro tossirão!

Quem disser que estou errado,
que não tenho razão,
saiba que eu estou muito certo,
nisso eu sou um campeão!

Pois quem hoje é um boboca
não vai ter conserto não.
Quem foi bobo no passado,
no futuro é paspalhão.


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna


♥♥♥

Obras de Ralph Hedley


Ralph Hedley, 'The New Scholar', c. 1900/1906.
 
 

Ralph Hedley, 'The Monitor', 1898.
 
 
 
Ralph Hedley, 'The truant's log', 1899, Private collection.
 

 
Ralph Hedley, 'The Village School', 1912.
 
 
 
Ralph Hedley, 'Home Lessons', 1887.



"A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida."

 
 
[Frase atribuída ao filósofo e escritor romano Séneca (c. 4 a.C. – 65 d.C.)]

quarta-feira, 8 de julho de 2026

"O Menino Azul" - Poema de Cecília Meireles



Herbert William Weekes (British painter, 1841–1914), 'Fowl Talk', n.d.


O Menino Azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles
,
 em 'Ou Isto ou Aquilo', 1964.

♥♥♥ 

Obras de Herbert William Weekes
 
Herbert William Weekes,'The Odd One Out', n.d.
 
 
 
Herbert William Weekes, 'The congregation', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Old Friends', n.d.
 

 
Herbert William Weekes, 'The Unlikely Connoisseurs', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Meadow Matters', n.d.


Burro

O burro é um mamífero da família dos Equídeos. Os burros selvagens vivem em algumas das regiões mais desertas da terra e resistem bastante bem à escassez de água e de alimentos.
O burro selvagem (Eques africanus) vive no nordeste da África distinguindo-se duas subespécies, uma na 
Somália e outra no deserto da Núbia. Semelhantes no aspeto, ainda que um pouco maiores que o burro doméstico, estão em vias de extinção. Alimentam-se de ervas e bebem água salobra, tolerando bem quer as altas quer as baixas temperaturas. O burro selvagem da Núbia distingue-se do da Somália pelas riscas pretas que mostra nas patas. (daqui)