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segunda-feira, 23 de março de 2026

"Março" - Poema de Alice Neto de Sousa

  

Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living in the
United States, b. 1943), 'Interpretation of Habits', 2008.

 
Março


Caem chuvas de março sobre a cidade,
E digo este poema meio que sem vontade,
Porque me treme a voz em pensar em Liberdade.

Da janela, vejo os pássaros a arranhar os céus,
A cair em voos picados,
E percebo que mais vale falar do que silêncios entornados
Porque o silêncio, é como este entardecer
É como o início da dor, quando começa a doer
É uma liberdade tísica a querer gritar
E tudo quanto se ouve é oco
De tanto que nos ensinaram a calar
Quem é que ainda sabe falar?
Quem ressuscita um pássaro morto?

Sou livre, digo a rodopiar por baixo da chuva
A acender um maço,
A grafitar liberdade,
A tatuar um pássaro no meio do braço,

Porque as chuvas que me caem ainda são de março,
e algo me chove a mais dentro do peito,
como se os cravos se fossem murchar,
como se a liberdade fosse este vento,
como se nos quisessem calar,
como se nos faltasse sangue no peito.

Caem chuvas de março, sobre os meus pés descalços,
As pétalas que me mancham são de abril
Eu disse, as pedras que me mancham são de mil
Que a liberdade, que vejo da janela
É um estado líquido aquoso,
É mais um desempregado,
É mais um vento, ventoso,
São os sem abrigo parados no Chiado,
É pintar os lábios a vermelho
É vestir uma farda, mascarar um país inteiro,
É o som da colher a aquecer na esquina,
É mais o tacho a raspar de uma família,
A liberdade, é uma utopia
E, eu sei, sou poeta e tenho miopia,
Mas de onde vejo não somos todos iguais,
Que as chuvas que molham uns,
Silenciam todos os demais.

A Liberdade,
É a trincheira dos meus dias,
É dispersar as multidões em continência,
É um chorar sinuoso como a calçada,
É abraçar as mães, os pais, os filhos, as filhas, a madrugada.
É um vai ficar tudo bem,
Com certeza de quase nada.
E não só de pão e água e se faz um continente,
É preciso terra, é preciso dar uma alma a toda a gente,
Que a liberdade é muito mais do que uma mensagem secreta,
Uma indireta, escondida no meio do poema,
E não é sobre política,
É sobre ser poeta, é sobre ser poeticamente correta.
Porque caem chuva de março sobre a cidade,
E algo me chove a mais dentro do peito,
O tempo é de cortar a respiração,
A apneia que sinto é a de pensar
As pétalas que me murcham são de abril
Eu disse, as pedras que me murcham são de mil
Caem chuvas de março sobre abril.

Com o tejo preso nos olhos,
Continuo a tentar entender,
Como o medo zigzagueia o passo,
Como se envelhecem as peles no cansaço,
É esta a mesma luta que começamos há anos atrás?
Ia jurar que estes marços me sabem a todos iguais.

Cai o maço, raso na janela,
Já se ouvem as canções,
Os pássaros da primavera,
Dá-me um cravo na boca para recomeçar,
Que mesmo com os corações desafinados,
Vamos marchar, marchar, marchar.


Alice Neto de Sousa, "Março".

[Poema original "Março" da autoria de Alice Neto de Sousa, escrito a propósito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, apresentado no dia 23 de março de 2022, no Pátio da Galé situado na Praça do Comércio (Terreiro do Paço) na Baixa de Lisboa.]
 


Rafał Olbiński, 'Violin and birds', 2019.



"A arte é uma forma de crescimento para a liberdade, um caminho para a vida."

Fayga Ostrower
Citado em "Arte é o que eu e você chamamos arte" - Página 42, de Frederico Morais
Publicado por Editora Record, 2002.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

"Artista" - Poema de Alice Neto de Sousa


 
Nancy Bea Miller (Contemporary artist, born in New York City),
"Priss", 2022. Watercolor on Arches paper.
 
 
Artista


Se eu fosse artista
de papel e caneta na mão,
Sem nunca me ter dado isso nos testes de vocação
Seria artista ainda turista a part-time
Na arte de equilibrar copos,
poemas,
estratagemas de como sair mais cedo do trabalho,
de como continuar a ser uma carta dentro do baralho.

Mesmo com o Ás
no hype do melhor naipe,
Ser artista ainda é apanhar um joker
num jogo de poker.

Mas se eu fosse eu
e fosse artista,
Perguntaria eu à Clarice
Estaria assim tão preocupada
com visualizações,
condecorações
O que é que o público vai gostar?
O silêncio do outro lado
A direção que vai o gado
O microfone que de repente nos
Fica tão largo.

E mesmo conquistado - questiono:
Este lugar é meu?
É que essa pessoa sou eu.

E se eu fosse eu
E fosse artista,
Seria provavelmente equilibrista
Na arte do entretenimento
A dar noventa e nove
com menos de um por cento
E para isso teria sido preciso talento.

Nunca teria falhado a um soundcheck,
A um egocheck
É preciso manter o ego em cheque.
É preciso abafar a voz
O subconsciente
Que questiona se sou boa o suficiente
Quando se entra diretamente pela porta da frente
Afinal, o poeta é aquele que mente
E pior que uma fake news,
é mesmo um poeta fake.

Mas o poeta não sente,
Anda de bicos de pés sem partir o salto
Alguém já viu um artista, fora do palco?

Na correria dos metros e engarrafamentos,
Estranho,
Não me parecia tão alto
e não tirou uma selfie
dos dias cinzentos.

Carrega um olhar solitário
Inscrito num papel secundário
Fica mais uma linha para o diário,
Um desgosto para virar canção.

E lá vai o artista
Parado na estação da desinformação.
A tentar apanhar o barco
Antes que passe,
sem ter um impasse
Uma rima desarticulada
Cuidado com o que dizes
Hoje em dia toda a gente é cancelada.

E enquanto os media debatem
O que era verdade ou mentira,
Já o artista adiantou uma semana de terapia
Porque olhem - magia - o artista sentia.

Quem sabe um dia,
Me torne a tal artista
E faça disso profissão,
Até lá, equilibro copos.
Poemas (e tudo isto),
Com uma só mão."


Alice Neto de Sousa

[Poeta, escritora e letrista nascida em Portugal (1993), com raízes em Angola.]

 
 
Nancy Bea Miller, "Amber Dreaming", 2009. Oil on canvas.


"Para realizar um grande sonho, o primeiro requisito é uma grande capacidade de sonhar;
o segundo é persistência - uma fé no sonho."

Hans Selye,
citado in The Saturday Evening Post - Volume 231 - Página 80,
 Curtis Publishing Company, 1959.
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

"Poeta" - Poema de Alice Neto Sousa

Poeta 


Eu era pequena,
Escola primária,
Inocente,
Mas curiosa nas palavras.
Peguei nos lápis,
Aqueles,
Com todas as paletas de cores,
Amarelo-torrado,
Azul-marinho,
Cor…
Com o lápis na mão,
Sem nem esconder a minha confusão,
Olhei para o lápis, e para mim,
Que eu ainda era da altura de a língua afiar,
Tocar os sinos presos na garganta,
Dizer o que sinto e me espanta:
— Professora.
— Sim.
— Que raio é um lápis cor de pele?
Levei uma reprimenda, uma criança de tão tenra idade
A questionar a autoridade,
E olhava para o lápis,
Olhava para a minha pele,
Olhava fixamente para aquele lápis cor… de pele.
Poeta.
Naquele dia, desisti de falar sobre unicórnios
E fazer citações,
Porque ser-se poeta é falar de emoções,
Mas bem podia citar Luís de Camões, Fernando Pessoa
Sem dizer um poeta preto.
Pensei em então citar Martin Luther King ou Nelson Mandela
Só para ficar bem na tela.
Ignorar o vazio do mundo,
Fazer dos ouvidos mudos,
Porque preferem um poema com o sol no canto do papel,
As nuvens pintadas a azul,
Sem a dor no fundo.
Falar do que incomoda?
Andar a afiar a língua,
O que é que isso importa?

Porque naquele dia fizeram de mim uma
Poeta cor de pele,
De lápis cinza aguçado acastanhado,
No nevoeiro dos mares
Dantes e sempre navegados,
A minha língua é o lápis
Onde escrevo a cor dos meus sentimentos,
Quem vai perder tempo a escrever versos de amor
Com estes tempos, estas tempestades, estes sismos, ismos
E eu sei, podia ser menos uma poeta a falar sobre racismo
Mas preferiram o quê?
Que em vez do lápis a carvão pegasse uma arma na mão?
Que caísse em tantas outras estatísticas, noticiários?
Que me escondesse por detrás dos armários?
Que nunca tivesse chegado a terminar o secundário?

“Falas tão bem português”, fecho os olhos a engolir todos os clichês.
“Mas não ouves kizomba, ah, claro que sabes dançar”, dizem enquanto meto os Arctic Monkeys a dar.
E já se sabe, quanto mais talento, mais se tolera a cor, porque a Beyonce pode ser preta afinal de contas o que importa, é o interior.

Ouço as palavras a fazer ricochete,
Num corpo em bala,
Eu vejo,
De sol a sol,
Mantemo-nos fortes,
Que as mães têm calos de pensar,
Os pais as mãos a esbranquiçar.

Fazemo-nos de fortes,
Que mais poderíamos ser?
Numa sociedade de moldes,
A fingir entender,
A rir no eco a seguir,
A pensar que Black Lives Matter é mais um post para curtir.

Mas Muxima Uamiê está sofrendo,
Respira,
Mãos ao alto, levanta a poesia,
Esta poeta cor de pele,
já pintou a carta de alforria. 


 
 
 
Alice Neto de Sousa (daqui)

Alice Neto de Sousa, nascida no meio do ano, no meio do mês, de 1993, poeta entre outros ofícios, é uma escritora nascida em Portugal, com raízes em Angola, Licenciada e Mestre em Reabilitação Psicomotora pela Faculdade de Motricidade Humana.
Autora de diversos poemas dispersos em antologias em Portugal e no Brasil, em 2021, viu o seu poema "Terra" dar nome à coletânea "Do que ainda nos sobra da guerra", publicado pela editora brasileira Ipêamarelo.
No início de ano de 2022, o poema "Poeta" da sua autoria, escrito a propósito da 1ª edição PowerList 100 da Bantumen, conquistou as redes sociais e tem voado pelo mundo.
Alice foi poeta convidada para a abertura solene das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de abril, onde apresentou o poema inédito "Março". Participou ainda na 20ª edição da Flip - Festival Literário Internacional de Paraty, em 2022.
Tem poemas no jornal Mensagem de Lisboa, faz parte da bolsa de poetas da associação cultural A Palavra, foi presença assídua no programa televisivo "Bem-Vindos" na RTP África (2021 a 2023). Poeta Residente na Fundação Calouste Gulbenkian (2024) e atualmente aprimora a palavra e a poesia nos palcos, procurando "afiar a língua" para temas sociais emergentes.
Inquieta por natureza nas palavras e nas escolhas, gosta de liberdade de pensar e de sentir.

Distinções
 
2024 Fundação Calouste Gulbenkian, Poeta em Residência.
2023 DGLAB, Bolsa de Criação Literária 2022, selecionada na modalidade de Poesia.
2022 BANTUMEN, PowerList100, distinguida como uma das cem personalidades mais influentes da lusofonia. (daqui)