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sábado, 12 de outubro de 2024

"O susto" - Poema de Sidónio Muralha




O susto

 
Um hipopótamo turista
─ É estranho mas é verdade ─
Saiu da selva e foi ao dentista
No centro da cidade.

A rececionista ficou louca,
Fugiu toda a clientela
E quando o bicho abriu a boca
O dentista saltou pela janela.
 
"A dança dos pica-paus".

 
"A dança dos pica-paus" de Sidónio Muralha
Ilustrações de Eva Furnari, 32 páginas.
Global Editora, 10ª edição.
 
 
Sinopse


Mais uma vez o poeta português Sidónio Muralha demonstra sua versatilidade em lidar com a riqueza das palavras, sua sonoridade, seu jogo simbólico. E em A dança dos pica-paus, cria, com muito humor, 36 poemas, um para cada animal – curió, gralha, onça, tangará, siriri e todos ilustrados pelos traços incomparáveis de Eva Furnari.

Brinca flores/ um saí divertido/ de sete cores/ vestido./ Saia, saia das flores,/ por favor, saia daqui…/ E o saí-de-sete-cores/ sai saltitando das flores/ e responde: – já saí. De verso em verso, a criança conhece a força expressiva da palavra, da linguagem poética elaborada com rigor literário, e também conhece vários animais, suas características, seu hábitat. E mais: no final do livro há um glossário que dá informações precisas sobre todos eles. Sem dúvida, é um jeito gostoso de sentir a beleza do idioma e aprender sobre tantos animais. (daqui)

 

domingo, 24 de setembro de 2017

"A História da Moral" - Poema de Alexandre O'Neill



Ivan Kap (Italian digital artist and graphic designer, b. 1972), 'Conversation'


A História da Moral


Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


Alexandre O'Neill,
in "De ombro na ombreira", 1969


Ivan Kap, 'The poker player'


"A tentativa de trazer o céu para a terra invariavelmente produz o inferno."

(Karl Popper)

sábado, 24 de junho de 2017

"A flor fugaz" - Poema de José Eduardo Degrazia



Ivan Kap (Italian digital artist and graphic designer, b. 1972), 'Flowers' 


A flor fugaz


Porque se despe na tarde
e convida ao sortilégio
de sua carnação madura,
pétala que apura o tempo

inventando a investidura
de planta formosa e pura,
sendo lírio ou sendo rosa,
ofertada sem mais nada

do que a vida retira
o sumo, a seiva, na selva
de um desejo realizado

em sendo frágil e fugaz,
feito o amor que foi e dura
o esplendor de seu momento. 



Ivan Kap, 'The Shy Man'


"A vida se encolhe ou se expande em proporção à própria coragem."

(Anaïs Nin)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

"Um Amor" - Poema de Nuno Júdice



Marta Dahlig (Polish digital painter, b. 1985), 'The Oracle'


Um Amor


Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão, 
puxaste-me para os teus olhos 
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo. 
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar 
diferente inundava a cidade. Sentei-me 
nos degraus do cais, em silêncio. 
Lembro-me do som dos teus passos, 
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas, 
e a tua figura luminosa atravessando a praça 
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é, 
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali, 
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha 
essa doente sensação que 
me deixaste como amada 
recordação. 


in "A Partilha dos Mitos"

sexta-feira, 17 de julho de 2015

"No Coração talvez" - Poema de José Saramago



'Portrait of a heart' by Christian Schloe


No Coração talvez


No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.


José Saramago,
in "Os Poemas Possíveis" 
 
 

'The Heartache' by Christian Schloe


"O coração tem razões que a própria razão desconhece."
 
"Le cœur a ses raisons que la raison ne connaît point"

Blaise Pascal,
 Pensées, fragments et lettres de Blaise Pascal
publiés pour la première fois conformément aux manuscrits, originaux en grande partie inédits. 
Volume 2, Página 172, Prosper Faugère - Andrieux, 1814.



"Love Is the Key" by Christian Schloe

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

"Para os meus alunos" - Poema de Vítor Matos e Sá



"A walk on the beach" by Christian Schloe


Para os meus alunos


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos atos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vossos rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vossos rostos todos
hão de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.


Vítor Matos e Sá



Vítor Matos e Sá
 
Vítor Matos e Sá, nascido a 20 de dezembro de 1927, em Lourenço Marques (atual Maputo, Moçambique), e falecido em 1975, foi um poeta português. 
Licenciado e doutorado em Filosofia, foi docente na Universidade de Coimbra. Colaborou em Árvore, Cadernos do Meio-Dia, Távola Redonda e Eros. A sua produção integra um modelo de poesia nascida de uma preocupação especulativa e filosofante e moldada sobre a experiência existencial. 
Vítor Matos e Sá é o  pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos.

Vítor Matos e Sá. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-09-22].


Caetano Veloso - Livros 



Livros


Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor tátil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.


Caetano Veloso


  
Foto de Caetano Veloso, 2011


Poeta, compositor e cantor brasileiro, irmão de Maria Bethânia, Caetano Emanuel Teles Viana Veloso nasceu em 1942, no estado da Baía. Desde pequeno, Caetano revelou pendores artísticos, demonstrando gosto por música, desenho e pintura. Na rádio, ouve os cantores da música brasileira em voga, como Luiz Gonzaga; na cidade, os sambas de roda e os pontos de macumba. Em 1952, faz uma gravação única, para desfrute familiar, cantando "Feitiço da Vila" (de Vadico e Noel Rosa) e "Mãezinha querida" (de Getúlio Macedo e Lourival Faissal), hit de Carlos Galhardo. Ao piano, quem o acompanha é a irmã Nicinha. Quatro anos mais tarde, fica uns tempos no Rio de Janeiro, onde frequenta o auditório da Rádio Nacional, palco de apresentações dos maiores ídolos musicais brasileiros de então. Em 1960, muda-se com a família para Salvador, onde prossegue os seus estudos.

A partir daí, intensifica-se o seu interesse por música - graças à bossa nova, particularmente ao cantor e violonista baiano João Gilberto; por cinema - graças ao Cinema Novo, particularmente ao diretor Glauber Rocha, também baiano; e por teatro. Na universidade local, a programação de eventos proporcionou-lhe um ambiente modernizador e vanguardista. Enquanto absorvia essa atmosfera, Caetano escreveu críticas de cinema para o Diário de Notícias, cuja secção cultural é dirigida por Glauber Rocha. Ele aprende a tocar viola e canta com a irmã Maria Bethânia nos bares de Salvador. Na TV, aprecia quando, às vezes, aparece um cantor novo, chamado Gilberto Gil. É numa dessas aparições que a sua mãe, a senhora Canô, o chama: "Caetano, vem ver o preto que você gosta".

Em 1963, Caetano Veloso entra na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. Finalmente conhece Gilberto Gil, a quem é apresentado pelo produtor Roberto Santana, Gal Costa (ainda Maria da Graça, na época) e Tom Zé. O primeiro trabalho musical surge no seguimento desses contactos. Ainda neste ano, Caetano compôs a banda sonora da peça "O boca de ouro", de Nelson Rodrigues, do diretor baiano Álvaro Guimarães, que o convida também para compor a banda de "A exceção e a regra", de Bertolt Brecht. Estes trabalhos foram as primeiras expressões artísticas do cantor e tiveram um papel decisivo na sua decisão de se tornar cantor-compositor.

No ano seguinte, em junho, no programa televisivo "Nós, por exemplo", com Caetano, Gil, Bethânia, Gal e Tom Zé, entre outros, o cantor integra os eventos de inauguração do Teatro Vila Velha. Uma agradável mistura de canções e textos, o programa "Nós, por exemplo" acabará por influenciar a conceção de espetáculos semelhantes que virão a ser feitos no Rio de Janeiro e em São Paulo pouco depois.

O ano de 1965 estabelece um marco de particular importância para Caetano: em Salvador, conhece João Gilberto - para ele um dos artistas mais importantes do Brasil e uma das principais referências do seu trajeto artístico. Abandona a faculdade e acompanha sua irmã Bethânia, chamada ao Rio para substituir Nara Leão no espetáculo "Opinião". Gil, Gal e Tom Zé também se transferem para o Sul do Brasil. Em maio, Caetano grava o seu primeiro single, com dois temas, "Cavaleiro" e "Samba em paz", ambos de sua autoria, pela RCA. A sua irmã, Maria Bethânia, lança "É de manhã", um original de Caetano. Ainda nesse ano, a colaboração de Caetano com Gil, Gal, Bethânia e Tom Zé continuou no espetáculo "Arena canta Bahia".

Em 1966, concorre, como compositor, ao Festival Nacional da Música Popular, em São Paulo, com o tema "Boa palavra", interpretado por Maria Odette. A canção consegue o quinto lugar. Ainda neste ano, recebe o prêmio de melhor letra no 2.º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com a canção original "Um dia".

Em julho de 1967, assina com a Philips e lança o LP de estreia, Domingo, dividido com Gal Costa; do repertório, constam "Coração vagabundo" e "Avarandado", entre outras. O disco mostra uma filiação do artista ao estilo da bossa-nova; no texto na contracapa, um aviso: "Minha inspiração agora está tendendo para caminhos muito diferentes dos que segui até aqui". O movimento tropicalismo estava já em marcha, revolucionando as estéticas artísticas e culturais da sociedade brasileira. No ano seguinte, edita o seu primeiro LP individual, de título homónimo. Deste disco destacam-se alguns grandes sucessos como "Alegria, alegria", "Tropicália", "Soy loco por ti, América" (de Gil e Capinan), "No dia que eu vim-me embora" e "Superbacana". A carreira de Caetano estava definitivamente lançada no trilho do sucesso. Todavia, ainda neste ano, em plena ditadura no Brasil, Caetano é preso, na companhia de Gilberto Gil, por alegado desrespeito ao hino e à bandeira brasileira. Ambos são libertados poucos meses depois.

A carreira de Caetano é prosseguida com variadas gravações e participações especiais das quais se destacam Caetano Veloso (1969), Araçá Azul (1973), Muitos Carnavais (1977), Bethânia e Caetano (1978), Outras Palavras (1981), Totalmente Demais (1986), Caetanando (1987),Livro (1997). Publicou os livros Alegria, Alegria (1977) e Verdade Tropical (1997), narrando neste último alguns acontecimentos da sua vida. Contracenou em vários filmes e realizou, em 1986, O Cinema Falado. É considerado um autor original e decisivo na moderna evolução da música brasileira, principalmente ao nível da criação literária.

No ano 2000 ganhou o prémio grammy para o melhor disco na categoria de world music, com o seu álbum Livro.

Posteriormente, edita, entre outros, o disco Noites do Norte (2001), um álbum que regista um som simples e grandioso, reeditado ao vivo no mesmo ano, o disco Eu Não Peço Desculpa (2002), com Jorge Mauttner, o livro Letra Só (2003), a coletânea de êxitos Antologia (2003) e o álbum (2006), que revela uma fase musical mais rebelde e provocadora..

Da sua carreira constam também as participações na banda sonora dos filmes Habla Con Ella, de Pedro Almodóvar, onde o cantor aparece cantando "Cucurucucu Paloma", e Frida, filme galardoado com o Óscar de Melhor Banda Sonora, com a interpretação do tema "Burn it Blue", por Caetano e Lila Downs. (daqui)
 
 

domingo, 24 de agosto de 2014

"Leia, ouça, veja, mas sobretudo, pense" - Texto de Agostinho da Silva


"The Wandering Forest" by Christian Schloe


Leia, ouça, veja, mas sobretudo, pense


Se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia
 

"A Light in the Dark" by Christian Schloe


Milhões de homens, porém, no mundo atual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. Mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. Ouça
 
 
"Sonata" by Christian Schloe


No tempo em que a antropologia ainda julgava que o homem descendia do macaco notou-se, para os distinguir, que um, mesmo no estádio mais primitivo, desenhava; o outro, mesmo que antropoide superior, nem olhava o desenho. Imagem nos veio acompanhando pela História fora, desde as pinturas ou gravuras rupestres, cujo verdadeiro significado ainda está por encontrar, até cinema ou televisão, sobre cujo significado igualmente muitas vezes nos podemos interrogar e que se tem de arrancar o mais depressa possível ao domínio do lucro, da publicidade ou das propagandas ideológicas para que possam cumprir, como nas formas mais antigas, a sua missão de iluminar, inspirar e consagrar o mundo. Imagem o cerca. Veja
 
 
"Dream On" by Christian Schloe 
 
 
Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, exceto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, exceto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. A tudo pese. Pense.

 
Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
 

"Wind, Clouds and Tea" by Christian Schloe 


Gato


Chama-se Luís o gato do terceiro
e é companheiro de um mestre filósofo.
Em madrugadas altas há por vezes sobressalto,
quando o bichano acorda mal disposto.
O professor, sábio também
em jogos de paciência, acalma
o animal e já o mima. Trata-se,
vendo bem, de outra ciência,
tão difícil de conseguir como
um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho
da Silva, o do terceiro, e tem um gato
com quem, à vontade, discreteia.
Luís, discípulo, ronrona baixinho.
Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.


Eduardo Guerra Carneiro,
'Contra a Corrente', 1988 
 
 

 
Agostinho da Silva
 (Vida e Obra)

Agostinho da Silva (daqui)
 

Professor e investigador português, George Agostinho Batista da Silva nasceu a 13 de fevereiro de 1906, no Porto, e morreu a 3 de abril de 1994, em Lisboa, tendo vivido grande parte da sua juventude em Barca de Alva, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, junto ao rio Douro.

Após terminar, aos 22 anos, a licenciatura e o doutoramento em Filologia Clássica da Faculdade de Letras do Porto, com a nota máxima de 20 valores, uma bolsa de estudo conduziu-o até à Sorbonne, em França.

Depois de regressar a Portugal, o filósofo portuense fundou, em 1931, em Lisboa, o Centro de Estudos de Filologia, encargo que lhe foi atribuído pela Junta Nacional de Educação, e que seria posteriormente transformado no Centro de Linguística da Universidade Clássica de Lisboa.

Quatro anos depois, em 1935, Agostinho da Silva foi demitido da sua condição de professor do ensino oficial por se ter recusado a cumprir a chamada "Lei Cabral", isto é, a assinar uma declaração em que garantisse não pertencer a qualquer organização secreta. Apesar de não pertencer a nenhuma organização desse género, Agostinho da Silva recusou-se a assinar tal documento por ir contra as suas convicções pessoais. 
 
De 1935 até 1944 residiu em Madrid e em Lisboa, onde viveu à custa do ensino particular e de explicações, tendo-se relacionado, por esta altura, com o grupo Seara Nova e com o escritor António Sérgio.

Em 1944, foi excomungado pela Igreja, facto que o levou a abandonar Portugal para se fixar no Brasil, país onde desempenhou funções e ocupou cargos importantes no domínio da investigação histórica, mantendo sempre ligações de docente com universidades brasileiras e com os Colégios Libres do Uruguai e Argentina.

Como representante do Brasil, cuja cidadania adquiriu em 1958, viajou pelo mundo inteiro (Japão, Macau, Timor Leste), onde fundou, por exemplo, o Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, em Tóquio, e os Centros de Estudos Ruy Cinatti e de Estudos Brasileiros, ambos em Díli.

Em 1969, Agostinho da Silva, portuense com naturalidade brasileira há cerca de 10 anos, decidiu voltar a Portugal, sendo reintegrado no Ensino Superior, na qualidade de aposentado como Professor Titular das Universidades Federais do Brasil. 
 
Com direito a uma pensão de aposentação, decidiu, em 1976, criar o Fundo D. Dinis para atribuição do prémio com o mesmo nome, prémio D. Dinis.

Para além de professor, filósofo e investigador, George Agostinho Batista da Silva notabilizou-se também como escritor, em cujo currículo constam mais de 60 obras, muitas delas publicadas durante a sua permanência no Brasil, como, por exemplo, Sentido Histórico das Civilizações Clássicas (1929), A Religião Grega (1930), Miguel Eyquem, senhor de Montaigne (1933), A Vida de Francisco de Assis (1938), A Vida de Moisés (1938), Sete Cartas a um Jovem Filósofo (1945), Herta. Teresinha. Joan (1953), Reflexão à margem da literatura portuguesa (1957), Uns Poemas de Agostinho (1989), Do Agostinho em torno de Pessoa (1990) e Ir à Índia sem Abandonar Portugal (1994).

Tido como um dos grandes filósofos portugueses, Agostinho da Silva tornar-se-ia, nos últimos anos da sua vida, ainda mais conhecido graças à sua participação no programa "Conversas Vadias" emitido pela RTP1.

Agostinho da Silva. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-24].


"Não fico sozinho se ficar com a verdade" - Texto de Vasco Pinto de Magalhães


"Flight of the Mind" by Christian Schloe


Não fico sozinho se ficar com a verdade 


"Só sabe dizer 'sim' quem souber dizer 'não'. É tão difícil dizer 'sim' quando deve ser e 'não' quando tem de ser, tantas vezes contra tudo e contra todos. Mas seria isso que faria a diferença. E seria o mais benéfico para o mundo. A verdade não vai por maiorias. São os interesses, a imagem, as pressões que nos deixam sem liberdade. Não fico sozinho se ficar com a verdade."


(Padre) Vasco Pinto de Magalhães, in 'Não Há Soluções, Há Caminhos'


"The Tempest"  by Christian Schloe


"Uma coisa é demonstrar a um homem que ele está errado, outra é colocá-lo de posse da verdade."



John Locke

John Locke (Wrington, 29 de agosto de 1632 — Harlow, 28 de outubro de 1704) foi um filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, sendo considerado o principal representante do empirismo britânico e um dos principais teóricos do contrato social. 

Locke rejeitava a doutrina das ideias inatas e afirmava que todas as nossas ideias tinham origem no que era percebido pelos sentidos. A filosofia da mente de Locke é frequentemente citada como a origem das conceções modernas de identidade e do "Eu". O conceito de identidade pessoal, seus conceitos e questionamentos figuraram com destaque na obra de filósofos posteriores, como David Hume, Jean-Jacques Rousseau e Kant. Locke foi o primeiro a definir o "si mesmo" através de uma continuidade de consciência. Ele postulou que a mente era uma lousa em branco (tabula rasa). Em oposição ao Cartesianismo, ele sustentou que nascemos sem ideias inatas, e que o conhecimento é determinado apenas pela experiência derivada da perceção sensorial. 

Locke escreveu o Ensaio acerca do Entendimento Humano, onde desenvolve sua teoria sobre a origem e a natureza do conhecimento. Suas ideias ajudaram a derrubar o absolutismo na Inglaterra. Locke dizia que todos os homens, ao nascer, tinham direitos naturais - direito à vida, à liberdade e à propriedade. Para garantir esses direitos naturais, os homens haviam criado governos. Se esses governos, contudo, não respeitassem a vida, a liberdade e a propriedade, o povo tinha o direito de se revoltar contra eles. As pessoas podiam contestar um governo injusto e não eram obrigadas a aceitar suas decisões. 

Dedicou-se também à filosofia política. No Primeiro Tratado sobre o Governo Civil, critica a tradição que afirmava o direito divino dos reis, declarando que a vida política é uma invenção humana, completamente independente das questões divinas. No Segundo Tratado sobre o Governo Civil, expõe sua teoria do Estado liberal e a propriedade privada. (daqui)
 
 

sábado, 23 de agosto de 2014

"Duplo Império" - Poema de Pedro Mexia


"Between Night and Day" by Christian Schloe


Duplo Império


Atravesso as pontes mas 
(o que é incompreensível) 
não atravesso os rios, 
preso como uma seta 
nos efeitos precários da vontade. 
Apenas tenho esta contemplação 
das copas das árvores 
e dos seus prenúncios celestes, 
mas não chego a desfazer 
as flores brancas e amarelas 
que se desprendem. 
As estações não se conhecem, 
como lhes fora ordenado, 
mas tecem o duplo império 
do amor e da obscuridade. 


Pedro Mexia
,
in "Duplo Império", 1999

 [Pedro de Magalhães Mexia Bigotte Chorão (Lisboa, 5 de Dezembro de 1972) é um poeta, cronista e crítico literário português.]


"Around the world in a teacup" by Christian Schloe


Não é Preciso 


Não é preciso que a realidade exista 
para acreditarmos nela. Na verdade, 
se não existir tudo é mais luminoso. 
Mundo, evidência submissa e soberana. 


Pedro Mexia
,
in "Duplo Império", 1999


"Among Friends" by Christian Schloe


"Bendito seja o homem que, não tendo nada para dizer, 
se abstém de o demonstrar através das suas palavras." 
 

[George Eliot, pseudónimo de Mary Ann Evans (Nuneaton, Warwickshire, 22 de novembro de 1819 — Chelsea, Londres, 22 de dezembro de 1880), foi uma romancista autodidata britânica.]


"Into the Night" by Christian Schloe


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

"Poema" - António José Forte

 
Christian Schloe, 'Fly Me to Paris'


Poema


Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


António José Forte,
in 'Uma Faca nos Dentes'




António José Forte (Póvoa de Santa Iria, 6 de Fevereiro de 1931 – Lisboa, 15 de Dezembro de 1988), poeta ligado ao Movimento Surrealista, integrou o chamado Grupo do Café Gelo. Trabalhou também como funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, onde durante mais de 20 anos desempenhou as funções de Encarregado das Bibliotecas Itinerantes. Era casado com a pintora Aldina.

Deixou uma obra breve, mas que claramente o afirma como um consumado poeta. Com colaboração na revista Pirâmide e em vários jornais (A Rabeca, Notícias de Chaves, O Templário, Diário de Lisboa, A Batalha, Jornal de Letras, Artes e Ideias), publicou o seu primeiro livro, 40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes Numa Girândola Implacável e Outros Poemas, em 1958. Representado em inúmeras antologias poéticas, António José Forte é também autor do livro de poesia infantojuvenil Uma rosa na tromba de um elefante.

A poesia de António José Forte carreia uma certa perversão do "discurso" poético e a utopia ideológica, anarquizante e ainda claramente surrealista; é, com uma intenção nitidamente bretoniana, uma maneira de afirmar que o ato de escrever é "ainda aquilo que sabe fazer melhor", mas dizer também em consciência haver "gente que nunca escreveu uma linha e fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores" . A sua poesia está reunida em Uma Faca nos Dentes, com um prefácio de Herberto Helder, seu amigo de muitos anos, onde este afirma que "a voz de António José Forte não é plural, nem direta ou sinuosamente derivada, nem devedora. Como toda a poesia verdadeira, possui apenas a sua tradição. A tradição romântica, no menos estrito e mais expansivo e qualificado registo".


Galeria de Christian Schloe

[Artista austríaco cujo trabalho inclui a arte digital, pintura, ilustração e fotografia.]

"The Poet" by Christian Schloe 
 

"The Pleasure of Travelling" by Christian Schloe
 

"The Sea Inside" by Christian Schloe
 

"Voyage" by Christian Schloe
 

"The River" by Christian Schloe
 
 
"Unlock" by Christian Schloe 
 

"Nightmakers" by Christian Schloe
 

"Midnight Sky" by Christian Schloe
 

"Lost in a Dream" by Christian Schloe
 

"The Messenger" by Christian Schloe
 

"The Key to Wonderland" by Christian Schloe
 

"Night Bird" by Christian Schloe
(ChristianSchloeDigitalArt)


"A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral." 
 
Zygmunt Bauman


"Longing" by Christian Schloe


"Para mudar o mundo, os jovens precisam trocar o mundo virtual pelo real." 
 
Zygmunt Bauman  


"Floating Giants" by Christian Schloe


"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar." 
 
Zygmunt Bauman
 


O professor Zygmunt Bauman em 2012, com 88 anos de idade, 
fazendo palestras, dando aulas e lançando livros. 
(Foto: Leonardo Cendamo/AFP)


Zygmunt Bauman (Poznań, 19 de novembro de 1925) é um sociólogo polonês que iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia, onde teve artigos e livros censurados e em 1968 foi afastado da universidade. Logo em seguida emigrou da Polónia, reconstruindo sua carreira no Canadá, Estados Unidos e Austrália, até chegar à Grã-Bretanha, onde em 1971 se tornou professor titular da universidade de Leeds, cargo que ocupou por vinte anos. Lá conheceu o filósofo islandês Ji Caze, que influenciou sua prodigiosa produção intelectual, pela qual recebeu os prémios Amalfi (em 1989, por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (em 1998, pelo conjunto de sua obra). Foi orientador da tese de doutorado do sociólogo Pedro Scuro Neto. Atualmente é professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. 
Tem mais de dezasseis obras publicadas no Brasil, dentre as quais Amor Líquido, Globalização: as Consequências Humanas e Vidas Desperdiçadas.
Bauman tornou-se conhecido por suas análises das ligações entre modernidade (controle sobre a natureza, hierarquização burocrática, regras e normatização, categorização, para impor ordem, diminuir entropia social e insegurança) e Holocausto (não simplesmente um evento da história do povo judeu, mas característica da modernidade), e pós-modernidade (renúncia à segurança característica da modernidade em favor da liberdade, liberdade de comprar e consumir).

domingo, 17 de fevereiro de 2013

"Frémito do meu corpo a procurar-te" - Poema de Florbela Espanca



Marta Dahlig (Polish digital painter, b. 1985), 'Umbrella Sky' 
(Arte Digital Surrealista) 


Frémito do meu corpo a procurar-te 


Frémito do meu corpo a procurar-te, 
Febre das minhas mãos na tua pele 
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, 
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te, 

Olhos buscando os teus por toda a parte, 
Sede de beijos, amargor de fel, 
Estonteante fome, áspera e cruel, 
Que nada existe que a mitigue e a farte! 

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma 
Junto da minha, uma lagoa calma, 
A dizer-me, a cantar que não me amas... 

E o meu coração que tu não sentes, 
Vai boiando ao acaso das correntes, 
Esquife negro sobre um mar de chamas... 


in "A Mensageira das Violetas"


Marta Dahlig (Polish digital painter, b. 1985), 'Moths'


“Um belo livro é aquele que semeia em abundância os pontos de interrogação.”
 
Jean Cocteau 


Jean Cocteau, 1923 


Jean Maurice Eugene Clement Cocteau nasceu no dia 5 de julho de 1889, numa família abastada de Paris. O seu pai, advogado e pintor amador, suicidou-se quando Jean tinha apenas 9 anos, episódio que o marcou profundamente.
Apesar de ter sido um aluno medíocre e de não ter terminado o liceu, Cocteau publicou o seu primeiro livro de poemas aos 19 anos, "A Lâmpada de Aladino".
No ano de 1915, Cocteau conhece Pablo Picasso, de quem se torna amigo e com quem chega a trabalhar, por exemplo, no ballet "Parade", escrito por Cocteau, com cenários de Picasso e produzido pelo mestre russo Diaghilev.
Jean Cocteau tornou-se um escritor reconhecido, sendo o autor de peças de teatro como "A Voz Humana" (1930), da ópera "Orphée" (1926) e de romances como "Les Enfants Terribles" (1929).
A carreira de Cocteau estendeu-se também ao cinema, datando o seu primeiro filme, "O Sangue de um Poeta", da década de 30. 
Manteve uma vida ativa até 1953, altura em que a doença o obrigou a abrandar o ritmo. Desde esse momento até à sua morte, Cocteau fez experiências e trabalhos em variadas artes gráficas, nomeadamente frescos. Morreu de um ataque cardíaco aos 74 anos de idade, no dia 11 de outubro de 1963, na sua casa de Milly-la-Forêt, depois de saber da morte da sua amiga Edith Piaf.
 

Eric Clapton - Wonderful Tonight