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sábado, 15 de outubro de 2016

"Lugares da Infância" - Poema de Manuel António Pina


 
Évariste Carpentier (Belgian painter, 1845–1922), 'Les enfants endormis', s.d.
 

Lugares da Infância


Lugares da infância onde 
sem palavras e sem memória 
alguém, talvez eu, brincou 
já lá não estão nem lá estou. 

Onde? Diante 
de que mistério 
em que, como num espelho hesitante, 
o meu rosto, outro rosto, se reflete? 

Venderam a casa, as flores 
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas 
e geladas, e sob os meus passos 
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações. 

O quarto eu não o via 
porque era ele os meus olhos; 
e eu não o sabia 
e essa era a sabedoria. 

Agora sei estas coisas 
de um modo que não me pertence, 
como se as tivesse roubado. 

A casa já não cresce 
à volta da sala, 
puseram a mesa para quatro 
e o coração só para três. 

Falta alguém, não sei quem, 
foi cortar o cabelo e só voltou 
oito dias depois, 
já o jantar tinha arrefecido. 

E fico de novo sozinho, 
na cama vazia, no quarto vazio. 
Lá fora é de noite, ladram os cães; 
e eu cubro a cabeça com os lençóis. 


in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'


  Évariste Carpentier, 'L'ami farouche', c. 1893-95


"Há momentos, e você chega a esses momentos, em que de repente o tempo para e acontece a eternidade."

(Fiódor Dostoiévski)


  Évariste Carpentier, 'Le petit étang', Musée des beaux-arts de Verviers


"Ame os animais, ame as plantas, ame tudo. Se amar tudo, perceberá o divino mistério em cada ser. Ao perceber isso, começará a compreender melhor as coisas a cada dia. Então, será capaz de amar o mundo todo da mesma forma, um amor sem distinção." 
 
 (Fiódor Dostoiévski)



Retrato de Fiódor Dostoiévski, 1872, por Vasily Perov


Fiódor Dostoiévski (Moscovo, 15 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881), foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita."


sábado, 8 de outubro de 2016

"A Rua das Rimas" - Poema de Guilherme de Almeida


Évariste Carpentier (1845-1922), Villégiature, 1890-95



A Rua das Rimas


A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: Rua da Felicidade...




domingo, 27 de novembro de 2011

"Não és tu" - Poema de Almeida Garrett

 
Évariste Carpentier, 'Promenade en bord de mer', Menton, 1888


Não és tu 


Era assim, tinha esse olhar, 
A mesma graça, o mesmo ar, 
Corava da mesma cor, 
Aquela visão que eu vi 
Quando eu sonhava de amor, 
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo, 
O semblante pensativo, 
E uma suave tristeza 
Que por toda ela descia 
Como um véu que lhe envolvia, 
Que lhe adoçava a beleza. 

Era assim; o seu falar, 
Ingénuo e quase vulgar, 
Tinha o poder da razão 
Que penetra, não seduz; 
Não era fogo, era luz 
Que mandava ao coração. 

Nos olhos tinha esse lume, 
No seio o mesmo perfume, 
Um cheiro a rosas celestes, 
Rosas brancas, puras, finas, 
Viçosas como boninas, 
Singelas sem ser agrestes. 

Mas não és tu... ai!, não és: 
Toda a ilusão se desfez. 
Não és aquela que eu vi, 
Não és a mesma visão, 
Que essa tinha coração, 
Tinha, que eu bem lho senti.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'


Michael Bolton - Said I Loved You... But I Lied


sábado, 19 de novembro de 2011

"Canção de maltês" - Poema de Manuel da Fonseca


Évariste Carpentier, Femmes séchant le linge, s.d.



Canção de maltês


Bati à porta do monte
porque sou um deserdado.
E chovia nessa noite
como se o céu fosse um mar
entornando-se na terra.
- Quem abre a porta a desoras
morando num descampado?
E continha o rafeiro que ladrava,
na ponta do meu cajado.
Mas veio abri-la o lavrador
com a espingarda na mão,
e pôs um olhar altivo
tão no fundo dos meus olhos
que as minhas primeiras falas
foram assim naturais:
- guarde a espingarda, senhor, 
sou um homem sem trabalho.
Fui secar-me à lareira.
E a filha do lavrador,
que era uma moça perfeita,
ficou a olhar de gosto
a minha manta rasgada
e o meu fato de maltês.
E com licença do pai,
estendeu-me um canto de pão
com azeitonas maduras.
Não aceitei como esmola;
antes roubar que pedir;
paguei com a melhor história
da minha vida sem rumo.
Foi uma paga de rei.
P'rá filha do lavrador
tinha muito mais valia
a história que lhe contei
que o trigo do seu celeiro,
pois estava a olhar de gosto 
a minha manta rasgada.
E quando o fogo na lareira
ia aos poucos esmorecendo
agradeci como é de uso;
despedi-me até mais ver
e fui dormir pró palheiro
que é palácio de maltês.
Despedi-me até mais ver
que a gente da minha raça
mal o Sol tenta nascer
ergue-se e parte pelo mundo
sem se lembrar de ninguém.
Assim me deitei ao canto
a esperar pela manhã.


in Poemas Completos


Frei Hermano da Câmara - Rapaz da camisola verde


"Mais vale um que saiba mandar, do que cem a trabalhar."

(Provérbio)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"Ode à Paz" - Poema de Natália Correia


Évariste Carpentier, Premiers beaux jours, s.d.



Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos atos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exatidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!


Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"


Evariste Carpentier, Jeune fille près du ruisseau, s.d.
 

"Um escritor, um pintor, que conseguiram fixar numa página ou num quadro um sentimento das coisas do mundo, uma visão que durará para sempre, comunicam-me uma emoção profunda."
 
(Federico Fellini)

[Federico Fellini (Rimini, 20 de janeiro de 1920 — Roma, 31 de outubro de 1993) foi um dos mais importantes cineastas italianos. Fellini ficou eternizado pela poesia de seus filmes, que, mesmo quando faziam sérias críticas à sociedade, não deixavam a magia do cinema desaparecer.]