Mostrar mensagens com a etiqueta William-Adolphe Bouguereau. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta William-Adolphe Bouguereau. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

"Menina e Moça" - Texto de Bernardim Ribeiro



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825 - 1905),
Au pied de la falaise (At the Foot of the Cliff), 1886.

Memphis Brooks Museum of Art




Menina e Moça


Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, por ventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. (…)


Bernardim Ribeiro, "Menina e Moça"
 

"Menina e Moça", romance de Bernardim Ribeiro, editado por três vezes no séc. XVI: 1554 (Ferrara, com o título História de Menina e Moça), 1557-58 (Évora, com o título Saudades) e 1559 (Colónia, a partir da 1.ª edição), incluindo a 2.ª edição um prolongamento, que se costuma aceitar como sendo do autor, até ao cap. XXIV.

O texto representa uma convergência de tópicos ficcionais, quer no plano da história literária (agregando ingredientes da novela de cavalaria, do romance pastoril e da novela sentimental), quer no plano do conteúdo (pela conversão a um lugar de encontro, feminino e lamentoso, da Menina - que inicia o livro com um monólogo de evocação de deslocação e de mudança de vida - com uma Senhora, com a qual discute histórias de amores infelizes, que se intercalam na ação central da ficção).

Lugar e mudança convertem-se em polos de uma comum nostalgia amorosa e do fatalismo do sofrimento, que fazem das histórias intercaladas, ex. Aónia e Bimuarder, Arima e Avalor, desdobramentos insistentes de uma mesma e infinita dor de constantes desencontros amorosos. Amor, natureza, mudança e distância são as constantes semânticas deste livro, o primeiro na literatura portuguesa a desprender-se relativamente das convenções da ficção coeva para assumir o estatuto de narrativa feminina da solidão e da saudade, e de texto de análise incisiva e minuciosa do sentimento amoroso, na sua faceta de consagração dedicada e dolorida. (daqui) 
 
 

William-Adolphe Bouguereau, The Young Shepherdess, 1885



Cantiga
da Menina e Moça
 

Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos d'água,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.

Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.

Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.

Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.

Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.

Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.

Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.


Bernardim Ribeiro,
 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

"Levava eu um jarrinho" - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825-1905),
The Water Girl, or Young Girl Going to the Spring, 1885,
Dahesh Museum of Art


Levava eu um jarrinho


Levava eu um jarrinho
Pra ir buscar vinho
Levava um tostão
Pra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro pro chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

s.d.

Fernando Pessoa, "Poemas para Lili".
Quadras ao Gosto Popular (Texto estabelecido e prefaciado
 por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
 Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 118-119.
 
 
 
 
Água

"Tudo é simples diante de um copo d’água."

Carlos Drummond de Andrade
, in O Avesso das Coisas (Aforismos)
 
 
Carlos Drummond de Andrade: O Avesso das Coisas
Capa: Estúdio Bogotá - Páginas: 288
Companhia das Letras, 2019
 
 
 Sinopse
 
Lançado originalmente em 1987, este volume reúne verbetes que, em ordem alfabética, elencam assuntos dos mais diversos diante do olhar aguçado de um dos nossos poetas fundamentais. Em O avesso das coisas, Carlos Drummond de Andrade compila, numa espécie de dicionário, suas próprias e idiossincráticas definições para cada palavra, convidando o leitor a "repensar suas ideias". O resultado é um conjunto de aforismos perspicaz e extremamente bem-humorado. (daqui)
 

Humorismo 

"O humorismo é a aptidão para despertar nos outros a alegria que não sentimos." 
 
Carlos Drummond de Andrade, in O Avesso das Coisas (Aforismos)
 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

"Mãe" - Poema de Antero de Quental


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825-1905), The pastoral recreation, 1868.
Private collection


Mãe
 
 
Mãe — que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem — dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava.

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe! 


Antero de Quental
, in "Sonetos"
 
 
William-Adolphe Bouguereau, The Bunch Of Grapes (La Grappe de raisin), 1868.
 

"O olhar dos olhos de nossa mãe é parte de nossa alma, é o olhar que nos penetra por nossos olhos."

"Le regard des yeux de notre mère est une partie de notre âme qui pénètre en nous par nos propres yeux."

Alphonse de Lamartine
, Les confidences - Página 25,  Perrotin, 1849
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

"A Meus Irmãos" - Poema de Sebastião da Gama

 
William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825-1905),
L'Orage (The Storm), 1874.
 


A Meus Irmãos


Batam-me à porta
os que andam lá por fora, à neve;
batam
os que tiverem frio ou sede;
os que sintam saudades de um carinho;
os desprezados;
os que há muito não vêem uma flor
e encontram só poeira no caminho;
os que não amam já nem já os ama
ninguém;
os esquecidos de como se sorri;
os que não têm Mãe...

Batam-me à porta os Desgraçados,
os que têm os dedos calejados
dos dedos ásperos da Miséria, 
os que travam desordens nas tavernas
e brincam às facadas,
os que não têm abrigo nem Amigo,
os que o Destino escarrou,
os que não foram crianças,
os que nasceram num bordel
e por quem passam todos sem olhar.

Batei à minha porta, Irmãos,
entrai,
que eu tenho Amor pra vos dar...

E se eu também bater
(que eu também choro
muitas vezes, lá por fora;
também amargo tristezas;
que eu também sou Desgraçado)...
Pois se eu bater,
vinde logo depressa abrir-me a porta;
aquecei-me no lume;
dai-me do pão que eu parti
e do Amor que vos dei...

Deixai-me estar entre vós
como se fosse um de vós,
que eu também sou Desgraçado...

Ah! se eu bater
(mas é preciso que eu possa
ter força ainda nas mãos),
por Deus abri a porta, meus irmãos,
como se a casa fora vossa!... 


Sebastião da Gama, in Serra-Mãe, 1945
 
 
 William-Adolphe Bouguereau, Charity or The Indigent Family, 1865
 
Richmond Art Museum
 
 
"Que a sua caridade comece no lar, mas não fique circunscrita ao mesmo."

"Charity begins at home, but it does not end there."

Henry Martin (1781 - 1812) citado em "A memoir of the Rev. Henry Martyn: late fellow of St. John's College, 
Cambridge and Chaplain to the honorable East India Company". Página 436,
 John Sargent - 1832 - Published by Perkins & Marvin, 467 páginas.
 

sábado, 20 de julho de 2024

"Amor" - Poema de Edmundo Bettencourt


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825 - 1905), Idylle, c. 1852.


Amor


Amas de mais, não possuis
o amor que a todos vem.
Quem ama tudo não pode
ser amado por alguém.

Amor de tudo! – ninguém,
mas coração mais fecundo
que, por beijar doutro modo,
só tarde vive no mundo!

De longe o sol nos aquece,
de longe nos abre focos.
– Ó cinco chagas de Cristo,
no espelho de misantropos!

Só chega ao Sol quem tem asas
para um voo longo e leve
– quem antes que a luz o cegue
chega lá desfeito em brasas!


Edmundo Bettencourt,
in "Poemas de Edmundo de Bettencourt"
Assírio & Alvim, 1999
 

William-Adolphe Bouguereau, The Idylle, 1850.


“Amar é a gente querer se abraçar como um pássaro que voa".

Guimarães Rosa (1908-1967), em "Ave, Palavra", 1970 (livro póstumo)
 

domingo, 5 de maio de 2024

"Saudades da Infância" - Poema de Augusto de Santa Rita



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), L'Innocence, 1893.
[Women, young children, and lambs are all symbols of innocence.]
 
 
Saudades da Infância

I

Minha mãe, que saudade, ai que imensa saudade,
Daquele tempo d'oiro em que era menino.
Tendo dentro do peito a imensa claridade
Que há nas notas de orquestra executando um hino!

Daquele tempo bom, sonoro e cristalino,
Que do meu ser voou para a Imortalidade;
Em que tudo era grande e só eu pequenino
E em que cada minuto era uma eternidade.

Desse tempo ideal, só feito de candura.
Em que até mesmo o Mar tinha maior grandeza,
O Sol tinha mais brilho e os campos mais verdura,

E em que eu, ao pôr as mãos, criava em minha reza
A conceção de Deus, por entre a noite escura.
Velando lá do Céu por toda a Natureza!

II

Ai, que saudade, oh Mãe! desses tempos risonhos
Passados entre o tanque o Sol nele espelhante,
À sombra do pomar ou por entre os medronhos.
Ou de chapéu armado em cima do mirante!

Em que eram cor de rosa os meus ingénuos sonhos
É d'oiro sobre azul cada ilusório instante!
Ai, que saudade, oh Mãe! desse tempo distante,
Dos momentos de agora assazmente enfadonhos!

Desse tempo ideal em que fizera um ninho,
— (Onde à noite baixava) — em meu peito, a Alvorada,
E um anjo. que eu sabia haver asas de arminho.

Vigiava por mim na celestial Morada!
E em que o meu pensamento era tão levezinho,
E em que o meu coração não me pesava nada!
 

Augusto Santa-Rita
,
in Antologia da Primeira Infância
 
 
Augusto de Santa-Rita (fotografia publicada na Ilustração Portuguesa, nº. 543, 17 julho 1916) 
Augusto de Santa-Rita
 
Augusto de Santa-Rita (Lisboa, 1888 - Lisboa, 1956), filho do poeta Guilherme de Santa-Rita (1859-1905) e irmão de Santa-Rita Pintor, os seus primeiros passos literários foram dados na senda do pós-simbolismo, mas próximos, já em muitos aspetos, da estética futurista e «sensacionista», da geração do Orpheu. A esta primeira fase pertencem, por exemplo, as obras Árias Rezas - Canções e Cantares, I série, 1912, II série, 1916; Praias do Mistério, poemas, 1916, Teatro Lírico e A Rosa de Papel, poema dramático, 1917.

A sua obra poética evoluiu depois para «uma sentimentalidade saudosista, uma religiosidade vulgar e formular, um pitoresco muito previsível e enumerativo, um nacionalismo de propaganda», como sublinhou Óscar Lopes (Auto da Vida Eterna, 1925; O Poema de Fátima, 1930; Poema de Lisboa, 1957), e a que se sobrepôs a sua intensa produção nos domínios da literatura infantil, quer em verso (O Mundo dos Meus Bonitos, 1920; Pá-Tá-Pá, 1928), quer em prosa novelística (De Marçano a Milionário, 1930; A Bomba Mágica, 1932; A Princesa Estrelinha, 1951), quer escrevendo peças para um teatro de fantoches que criou em 1943 e a que deu o nome «Teatro de Mestre Gil».

Ainda nos domínios da literatura dramática, escreveu duas peças rústicas em 1 ato (Lobos no Povoado, 1916, e O Zagalote, 1950), um drama histórico (Corcundas e Malhados, 1921), uma peça radiofónica em verso (As Quatro Idades, 1936), um Auto da Tentação, em colaboração com Luís de Oliveira Guimarães (1941) e o poema dramático Eternidade (1950).

Dirigiu, a partir de 1926, sob o pseudónimo Pápim, e com o desenhador Eduardo Malta (Pápusse), o suplemento infantil Pim-Pam-Pum!, no jornal O Século
 
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994. (daqui)
 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

"Lavava no rio lavava" - Poema de Amália Rodrigues

Washerwomen of Fouesnant, 1869, Memorial Art Gallery.


Lavava no rio lavava

 
Lavava no rio, lavava
Gelava-me o frio, gelava,
Quando ia ao rio lavar.
Passava fome, passava,
Chorava, também chorava,
Ao ver minha mãe chorar!

Cantava, também, cantava!
Sonhava, também, sonhava!
E, na minha fantasia,
Tais coisas fantasiava,
Que esquecia que chorava,
Que esquecia que sofria!

Já não vou ao rio lavar,
Mas continuo a chorar!
Já não sonho o que sonhava!
Já não lavo no rio!
Por que me gela este frio
Mais do que então gelava?

Ai, minha mãe, minha mãe
Que saudades desse bem,
Do mal que então conhecia!
Dessa fome que eu passava,
Do frio que nos gelava,
E da minha fantasia!

Já não temos fome, mãe!
Mas já não temos também
O desejo de a não ter!
Já não sabemos sonhar,
Já andamos a enganar
O desejo de morrer!

Ed. Livros Cotovia
 

Amália Rodrigues - Fado: 'Lavava no Rio, Lavava'
 
 
Ícone do Fado, Amália Rodrigues (1920-1999) é uma das personalidades mais importantes da história da música do século xx. Desde a sua estreia profissional, em 1939, no Retiro da Severa, Amália foi um fenómeno de popularidade: arrebatou plateias, acendeu paixões e suscitou os mais animados debates. No pós-guerra, era já a grande figura de referência no panorama musical português. Mas também a sua carreira internacional foi apoteótica: o mundo foi o seu palco natural e a sua voz o instrumento privilegiado para cantar toda a poesia portuguesa, do repertório trovadoresco e renascentista à criação literária contemporânea. Popular e erudito, moderno e intemporal, o legado de Amália Rodrigues devolve ao nosso imaginário a poderosa imanência dos grandes temas da cultura portuguesa. (daqui)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

"Setenário das Dores de Nossa Senhora" - Sonetos de Alphonsus de Guimaraens


William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), The Song of the Angels, 1881 
 


PRIMEIRA DOR
 
Et tuam ipsius animam pertransibit gladius…
São Luc., II, 35.
I

Nossa Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande esplendor divino.

O seu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.

Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.

Diz-lhe o velho Simeão: "Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada..."

II

Sofrer por Ele! E pálida, ofegante,
Nossa Senhora aperta-O contra o seio.
E nas linhas tranquilas do semblante
Descem-lhe nuvens de magoado anseio.

Sofrer por Quem! Ventura semelhante,
Só a um peito como o seu de estrelas cheio...
Sofrer por Esse que do Céu distante
Na voz do Arcanjo do Senhor lhe veio...

Que lhe importavam lágrimas sem brilho,
Nessas horas de paz erma e saudosa,
Se ela chorava por seu próprio Filho...

Sofrer pela amargura dessa Boca,
E aos Pés depor-lhe a vida desditosa,
Vida que eterna ainda seria pouca!
 
III

Que lhe importavam lágrimas? Chorasse
Desde o nascer do sol até o sol posto;
Tivesse prantos quando a lua nasce,
Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.

Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,
De Mãe Divina no sublime posto,
Temendo que uma estrela O despertasse,
Gozo teria no maior desgosto.

Por Ele toda a mágoa sofreria…
Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto
Na paz da noite e nos clarões do dia.

Sofrer por Ele… Sim. Tudo por Esse
A quem beijava os Olhos, mas contanto
Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!

* * *

SEGUNDA DOR
 
…Angelus Domini apparuit in somnis Joseph…
Qui consurgens accepit puerum et matrem ejus
nocte, et seccessit in Aegyptum.

S. Matth., II, 13, 14.

I

Eram pastores rudes e pastoras
Que o sol do Oriente em beijos enrubesce,
E transforma em visões encantadoras
Na suavidade da alva que amanhece:

Eram bandos de velhos, e de louras
Crianças gentis, as mãos postas em prece,
Frontes humildes, Almas sonhadoras,
Por onde a bênção do Senhor floresce:

Era a sublime adoração do povo,
À luz daquele celestial Presepe,
Diante do leito de um menino novo:

Diante do leito em que Ele adormecia,
Hoje de flores, amanhã de crepe,
Berço de Deus, Santo-Sepulcro um dia...

* * *

TERCEIRA DOR

Fili, quid fecisti nobis sic? Ecce pater tuus et
ego dolentes quaerebamus te.

S. Luc., II, 48.

Foi por aquelas ruas circulares
Que O perdeste, Senhora, e que O não viste,
Sorrindo sob a luz dos seus olhares,
Ele, o Cordeiro amargurado e triste…

Quem pudera chorar os teus pesares,
Quem, na angústia a que o peito não resiste,
Te guiara em via-sacra pelos lares,
Sentindo toda a mágoa que sentiste!

Três dias procuraste, em mágoa imensa,
Sofrendo a multidão dos hebreus rudes,
Do Filho eterno a celestial Presença…

(Fé, Esperança, Caridade, hinário
De alívio à Mãe aflita, áureas Virtudes
Que haveis de segui-la até o Calvário!)

* * *
 
Alphonsus de Guimaraens,
Setenário das Dores de Nossa Senhora

[Além do lirismo, os versos de Alphonsus Guimaraens refletem a preocupação pelo sentimento religioso e pela meditação cristã. De família católica, o poeta tornou-se o maior cantor da Virgem, dedicando a Nossa Senhora um conjunto de 49 sonetos, reunidos sob o título de Setenário das Dores de Nossa Senhora.]  (Daqui)
 
  
c. 1660-1665,  Madrid, Prado Museum
 
 

Imaculada Conceição
Solenidade religiosa que evoca a História de Portugal

 
Primeira celebração do culto da Imaculada Conceição decorreu no dia 8 de dezembro de 1320, em Coimbra, e consagrou-se com a coroação da Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha e Padroeira de Portugal durante as cortes de 1646.
 
A Igreja Católica assinala anualmente a 8 de dezembro, feriado nacional em Portugal, um reconhecimento à importância desta data na espiritualidade e identidade do país.

O dogma da Imaculada Conceição de Maria foi proclamado a 8 de dezembro de 1854, através da bula ‘Ineffabilis Deus’, a qual declara a santidade da Virgem Santa Maria desde o primeiro momento da sua existência, sendo preservada do pecado original.

A primeira celebração do culto da Imaculada Conceição aconteceu na Sé Velha de Coimbra, no dia 8 de dezembro de 1320, há 700 anos, que este ano são assinalados pela Diocese, após D. Raimundo Evrard, bispo diocesano da altura, ter assinado, no dia 17 de outubro de 1320, a constituição diocesana que instituiu a festividade da Conceição de Maria.

A ligação entre Portugal e a Imaculada Conceição ganhara destaque em 1385, quando as tropas comandadas por D. Nuno Alvares Pereira derrotaram o exército castelhano e os seus aliados, na batalha de Aljubarrota.

Em honra a esta vitória, o Santo Condestável fundou a igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, e fez consagrar aquele templo a Nossa Senhora da Conceição.

A antiga igreja de Nossa Senhora do Castelo, espaço onde se ergue atualmente o santuário nacional, afirmou-se nos finais do século XIV como um sinal desta devoção, em toda a Península Ibérica.

Depois, deu-se durante o movimento de restauração da independência que acabou com o domínio castelhano em Portugal e que culminou com a coroação de D. João IV como rei de Portugal, a 15 de dezembro de 1640, no Terreiro do Paço, em Lisboa.

O mesmo D. João IV, atento a uma religiosidade que também já envolvera a construção de monumentos como o Mosteiro da Batalha, o Convento do Carmo e o Mosteiro da Conceição, coroou a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha e Padroeira de Portugal durante as cortes de 1646.

A Universidade de Coimbra tem um papel importante em todo este processo, já que todos os seus intelectuais defenderam o dogma sob forma de juramento solene.

Após a proclamação dogmática, surgiu em Portugal um movimento no sentido de erguer um monumento nacional que assinalasse a definição de Pio IX.

Em 1869 concluiu-se esse primeiro monumento, no Sameiro, em Braga, seguindo-se-lhe a construção dum santuário dedicado à Imaculada Conceição de Maria, cuja imagem foi coroada solenemente em 1904. (Daqui) 

Importa referir que durante séculos, o Dia da Mãe era comemorado no dia 8 de dezembro, tendo sido mudado para maio, por ser considerado o mês de Nossa Senhora.

 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

"Sonhos da Menina" - Poema de Cecília Meireles


 
William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), "Fraternal Love", 1851
 


Sonhos da Menina


A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
 de teia de aranha...

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha? 


Cecília Meireles
 
 
 
William-Adolphe Bouguereau, The two sisters, 1877 
 

Dia dos Irmãos 


 
O Dia dos Irmãos comemora-se em Portugal no dia 31 de maio.

O principal objetivo da data é relembrar a importância que os irmãos têm na formação pessoal de todos os indivíduos, celebrando e homenageando os irmãos. 

Irmãos fazem parte da história pessoal de quem os têm, em grande parte das vezes partilham memórias de infância e são os primeiros amigos.

O Dia dos Irmãos, a 31 de maio, é a celebração que encerra aquele que é considerado o Mês da Família.

A celebração, que acontece em Portugal nesta data desde 2014 e é iniciativa da European Large Families Confederation (ELFAC), tem em como principal promotora em Portugal a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas. (Daqui)


William-Adolphe Bouguereau
, Inspiration, 1898



O Haikai


Lava, escorre, agita
a areia. E, enfim, na bateia
fica uma pepita.

Guilherme de Almeida,
Poesia Vária (1925) - Os Meus Haikais

 

domingo, 11 de abril de 2021

"Durmo ou não? Passam juntas em minha alma" - Poema de Fernando Pessoa

 
 
 
Durmo ou não?
 

Durmo ou não? Passam juntas em minha alma
Coisas da alma e da vida em confusão,
Nesta mistura atribulada e calma
Em que não sei se durmo ou não.

Sou dois seres e duas consciências
Como dois homens indo braço-dado.
Sonolento revolvo omnisciências,
Turbulentamente estagnado.

Mas, lento, vago, emerjo de meu dois.
Desperto. Enfim: sou um, na realidade.
Espreguiço-me. Estou bem... Porquê depois,
De quê, esta vaga saudade? 

2-10-1933
 
Novas Poesias Inéditas



William-Adolphe Bouguereau (French painter1825–1905), Soul Carried to Heaven, 1878,
Musée des Beaux-Arts de Montréal. (Alma transportada para o céu por dois anjos.) 


Estética

Este termo diz respeito à filosofia, na medida em que aí surge (com Baumgarten e Kant no século XVIII) como uma disciplina filosófica. Este termo deriva do grego, aistesis, significando "sensação". A estética era, no contexto grego, o conhecimento do mundo sensível, do mesmo modo que a noética era o conhecimento do mundo inteligível. Estava ainda ligado a uma noção muito cara ao pensamento grego, a beleza e a contemplação dela: supremo objetivo da arte. Hoje a estética significa a disciplina filosófica que trata dos problemas da arte, na medida em que estes sejam problemas pertinentes no âmbito que a filosofia abrange: por exemplo a relação criadora entre o artista e a obra de arte, a experiência contemplativa da obra de arte.

Com Platão acontece a separação entre o domínio da estética - o do mundo sensível - e o domínio da beleza - o do mundo inteligível. O mundo sensível é uma cópia imperfeita do mundo inteligível, por isso a arte, sendo uma imitação do mundo sensível, já tem pouco da verdade da beleza universal situada no mundo inteligível. Por esta razão a arte, enquanto imitação da imitação, é desvalorizada por Platão.
Aristóteles tem uma interpretação diferente ao propor que a arte deve imitar a natureza na sua forma de agir.

Com a escola franciscana medieval, onde se destaca a figura de São Boaventura, a estética é revalorizada, na medida em que aí se entende que a criação é símbolo que aponta para o Criador, para Deus. Assim sendo, a criação, a natureza, é então uma manifestação de Deus que, ao criar, deixou imprimida a sua assinatura na obra; deste modo é possível, meditando na criação, ascender ao Criador, ascender a Deus, uma vez que a criação é plena de significado, pois nada foi deixado ao acaso. Cada elemento da natureza é como uma palavra de um livro, por aqui se vê a dignidade que a questão estética assume com esta escola.

Com Schelling, na esteira de Kant, mas alargando a perspetiva deste último, a arte é tida como uma expressão - no sentido de materialização - do Espírito, do Absoluto, quer dizer, é um modo de este se exteriorizar e manifestar, numa palavra, de se mostrar.

No século XX eclodem variadíssimas perspetivas, frequentemente em oposição: a escola marxista, para quem a arte é um reflexo do domínio económico-social, ou seja, ideológica; o positivismo, procurando evidenciar a objetividade na interpretação da obra de arte; a fenomenologia, destacando a relação entre sujeito e objeto estético, na relação intencional que subjaz ao primeiro; as estéticas provenientes por vias travessas da corrente nietzschiana, procurando expressar o que as formas exteriores, apolíneas, escondem; e, finalmente, a psicanálise que veio dar um impulso novo na dinâmica da estética ao abri-la ao mundo onírico, pois permitiu perceber que cada obra de arte forma uma unidade de sentido, ainda que não evidente, onde estão latentes significados do subconsciente. (Daqui)
 William Bouguereau (1825-1905), Self-portrait, 1879
 
 
 "Cada dia entro no meu estúdio cheio de alegria; à noite, quando a escuridão me obriga a deixá-lo, mal posso esperar pelo dia seguinte. Se eu não me pudesse devotar à minha amada pintura eu seria um pobre coitado."


segunda-feira, 5 de abril de 2021

"À Memória de Minha Mãe" - Poema de Egito Gonçalves


William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Rest (Mother and Children), 1879, 
óleo sobre tela, 107 x 164 cm,  Cleveland Museum of Art, Cleveland, OH, USA


À Memória de Minha Mãe


Mãe! Morreste!
Agora é tão tarde para te dizer as palavras necessárias.
O relógio bateu duas e meia. É noite escura
E a dor galopa surdamente no meu peito.
Teu corpo jaz ainda morno, já sem interesse para ti.
Por tua causa, amanhã, movimentar-se-ão pessoas
Diversas
Que não te conheceram.
Serão preenchidos papéis: requerimentos, boletins;
Pás ou picaretas (nem eu sei) ferirão a terra
E sobre ela erguerão, depois, um número qualquer
Que será de futuro o teu bilhete de identidade.
Agora, porém, tudo ainda é quieto.
Só um galo canta, feliz, na sua inconsciência de ser vivo.
As lágrimas rompem-me incontroláveis e inúteis.
É tarde!
Já só existem saudades e fotografias.
As palavras que eu amaria ter-te dito
Sobem-me ao silêncio dos lábios cerrados.
Lá fora a chuva molha a madrugada
Enquanto os familiares se olham
Com o rosto congestionado de lágrimas
E sono interrompido,
Adorando-te em silêncio,
Mais que nunca,
– Esmagados pelo prestígio da morte.
 

 in 'Antologia Poética'
 
 
Egito Gonçalves
 
Egito Gonçalves (Matosinhos, 8 de abril de 1920 — Porto, 28 de janeiro de 2001)  exerceu várias atividades profissionais, desde funções comerciais, a tradutor e jornalista. Figura reconhecida nos meios poéticos da década de 50, Egito Gonçalves esteve ligado a publicações onde se revelaram e afirmaram alguns dos maiores poetas da época contemporânea: fundou e dirigiu, no Porto, A Serpente; participou na direção do último número da revista Árvore; foi codiretor e um dos principais responsáveis de Notícias do Bloqueio; dinamizador da coleção "Germinal"; um dos fundadores do Teatro Experimental do Porto; correspondente em Portugal do "Centre International d'Études Poétiques". 
 
Conhecida pelo seu cunho combativo e intencionalidade social, a poesia de Egito Gonçalves encontra muitas vezes no diálogo e apelo a um interlocutor não nomeado a situação comunicativa privilegiada para aludir de forma irónica ou diferida a contextos históricos, encontrando nessa mediação o distanciamento preciso para que a sua voz não ceda à expressão sentimental de um lirismo motivado por situações trágicas. Esse discurso dirigido a um tu, mensageiro do bloqueio e da resistência ("Vai pois e noticia com um archote / aos que encontrares de fora das muralhas / o mundo em que nos vemos, poesia / massacrada e medos à ilharga" ("Notícias do Bloqueio" in A Viagem com o teu Rosto), ou companheira cujos "ombros nus são a evasão possível" ("Localização", in A Evasão Possível), evolui também, sem rejeitar uma imagética de teor surrealista, para o discurso de um nós, que conhece uma situação coletiva de mordaça e paz absurda ("Morremos pouco a pouco neste vácuo / que a solidão nos serve como leito", in Os Arquivos do Silêncio), mas que não recua, esperando o momento em que lhe será restituída a dignidade: "Este cemitério é vasto e sem muros. / Aí nos situamos; e entre nós / há esta só diferença: nós podemos / fazer ainda a vida acontecer." ("Colóquio com um Fuzilado", in Os Arquivos do Silêncio). (Daqui)