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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

"Por causa das roupas" - Poema de Laura Riding



João Marques de Oliveira (Porto, 1853-1927), Interior - Costureiras trabalhando, 1884, 
 
[Descrição: No interior de uma sala com janela aberta para a paisagem, estão representadas três mulheres jovens, sentadas, envolvidas na atividade da costura. No 1º plano, um tapete de motivos geométricos, de cor ocre vermelho e azul, cobre parte do soalho. À esquerda, uma mesa coberta com toalha dum branco luminoso, sobre a qual está pousada uma garrafa de vidro onde se reflete a luz; na parede ocre por trás da mesa, várias pinturas suspensas. Ainda do lado esquerdo, uma das figuras femininas sentada de costas para o observador trabalha com a máquina de costura que tem diante de si. As outras mulheres estão representadas, uma à direita, de perfil e voltada para a esquerda e outra, ao centro, voltada para o observador e a três quartos para o lado direito. A meio da parede de fundo, uma porta aberta para a paisagem onde se prolonga o espaço do quadro. A luz que entra pela porta é um elemento estruturante da composição.] (daqui)
 

Por causa das roupas

 
Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro -
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum.
Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos. 


Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"Os problemas de um livro" - Poema de Laura Riding


Charles Courtney Curran, An Afternoon Respite, 1894, Private collection


Os problemas de um livro

 
O problema de um livro é, primeiro, não ser 
Pensamentos para ninguém 
E ficará tão inescrito 
Quanto permanecerá não lido 
E construir um autor palavra por palavra 
E ocupar sua cabeça 
Até que a cabeça feche pra balanço 
Para publicar a todos 
Seu esvaziamento. 

O segundo problema de um livro 
É ficar desperto e pronto 
À escuta como um dono de pousada 
Querendo, não querendo hóspedes, 
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma 
E a esperança de folga. 
Vacilantes, as páginas cochilam 
E piscam para os dedos que passam 
Com sorriso proprietário, e fecham-se. 

O terceiro problema de um livro é 
Dar seu sermão e virar as costas 
Suscitando comoção nas margens 
Onde a língua cruza o olho, 
Sem declarar nenhuma experiência de pânico, 
Nenhuma cumplicidade neste tumulto. 
A provação de um livro é não dar pistas 
De ser provação, é ser neutro e leigo 
No sentido reto do impresso. 

O problema de um livro, principalmente, 
É ser só livro na superfície; 
Vestir capa como capa, 
Se enterrar em morte-livro 
Mas se sentir tudo menos livro, 
Respirar palavras vivas, mas com o hálito 
Das letras; endereçar vivacidade 
Nos olhos que lêem, ser respondido 
Com letras e livrescidade.


Laura Riding, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

Charles Courtney Curran, Fair Critics, 1887, The Metropolitan Museum of Art


"Um pintor não tem outros inimigos sérios senão os seus piores quadros."



domingo, 28 de janeiro de 2018

"Uma gentileza" - Poema de Laura Riding





Uma gentileza 


Estar viva é estar curiosa. 
Quando perder interesse pelas coisas 
E não estiver mais atenta, álacre 
Por factos, acabo este minguado inquérito. 
A morte é a condição do supremo tédio. 

Vou deixar que me desintegre 
E aí, por saber da paz que a morte traz, 
Seria bom seguir convencendo o destino 
A ser mais generoso, estender, também, 
O privilégio do tédio a todos vocês. 

 
Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"Dimensões" - Poema de Laura Riding


Edvard Munch, Anxiety, 1894, 94 × 74 cm. Munch Museum, Oslo



Dimensões


Meçam-me para um funeral 
Com minha cova rasa expressando 
De um jeito preciso, euclidiano, 
Meu ser tridimensional. 

Pode ser a vida tão pequena, tão magra? 
Meça-me no tempo. Mas o tempo não avança 
E é estranho e nada sabe de lei ou de mudança 
Mas só de morte, que é nada de nada. 

Meçam-me pela beleza. 
Mas beleza é o primeiro nome que a morte 
Deu à vida, seu primeiro falecer, chama 
Que tremeluz, um amaranto que se apaga 
E se apaga de novo na sombra mortiça da morte. 

Meçam-me não pela beleza, que teme lutar. 
Pois a beleza faz trégua com a morte, 
Comprando desonra e morte eterna 
Na esperança de sobreviver a vida. 

Meçam-me então pelo amor – mas não ainda, 
Pois lembro-me de vezes em que ele buscava 
Suas próprias medidas em mim, 
Mas fugiu, com medo que eu pudesse predizer 
Quão ampla e alta eu mesma era, profunda 
E de múltiplas medidas, mudando 
Minha escala sobre ele e assim provando 
Que tanto eu quanto ele éramos nada. 

Meçam-me por mim mesma 
E não pelo tempo nem amor nem espaço 
Nem pela beleza. Dêem-me só esta última graça: 
Que em minha lápide eu possa 
Ser uma régua eu mesma. 
Não gostaria que essas velhas crenças fracassassem 
E provassem que até eu era nada. 

 
Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.